sábado, 13 de junho de 2009

Paradoxo de Zenão



Quando é o medo e a dúvida que nos separam de um objectivo, ele será sempre inalcançável se de cada vez apenas formos capazes de percorrer metade do caminho que nos falta.

Iniciámos o percurso no dia que para mim é um paradoxo e para ti uma fé, curto espaço de tempo para tanta partilha, estivemos tão dentro um do outro, mapeámos todos os ses das nossas vidas numa comunhão de cumplicidades que só a amizade de longos anos poderia contemplar, trocámos suores e carinhos e espaços e beijos e apartares e sentimentos e ausências e angústias e dúvidas, afastámo-nos em abraço e aproximámo-nos em abstinência.

Tu rocha fingida translúcida que te derreteste em lágrimas pela tua ausência de mim, lágrimas que bebi para sentir o amargo da tua doçura. Eu rocha fingida opaca que me solidifiquei em sorrisos pela tua presença de mim, sorrisos que bebeste para sentir o doce da minha amargura.

Separam-nos grilhões e distâncias, ambos ignorantes no amor, desconhecemos o modo de empilhar as pedras e o cimento com que podemos solidificar esta fortaleza e acabámos a acordar juntos em alicerces de amizade eterna, sentimo-nos tão perto e tão longe mas com tanta força e intensidade que temos a certeza que a felicidade do outro será a nossa felicidade, a minha alegria a tua exaltação, a minha tristeza a tua aflição, a tua dor a minha mágoa, a tua satisfação a minha conquista, as etiquetas estão em branco a aguardar o amadurecer dos nossos quereres, ambos sentimos que a tinta com que as escreveremos não será feita de lágrimas, mas do sumo dos nossos sorrisos.
Phil Collins-I Wish It Would Rain Down

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Irrespirável


http://littleboyj.blogspot.com/2009/05/criatura-da-noite.html
http://littleboyj.blogspot.com/2009/05/inodora-manha.html


A bruma de um acordar sem cheiros começava agora a dissipar-se, percorri o caminho que me separava do parque no lapso que demorou o incandescente do cigarro a chegar ao filtro, senti o calor nos dedos e joguei a beata na direcção da sarjeta, como sempre ficou sem cair sobre as grades e com o pé fi-la mergulhar no esgoto, alimento para os peixinhos, pensei … O dia estava a ficar quente e eu gosto do calor, mas também gosto do vento e da chuva, nunca foi por causa do tempo que se me amornam os espíritos, costumo dizer que comigo o estado do tempo não é assunto de conversa, nem desculpa para me abrigar, embora não desdenhe enroscar-me noutros corpos em dias de poucas razões para apanhar ar.

Caminhei pelos caminhos de areia batida, ladeados do esverdeado de relva semi-amanhada, aqui e acolá árvores de plantação recente entre outras com memórias mais antigas remanescentes do bosque que já ali existia antes da cidade transbordar das margens do rio para o interior da terra. Algumas árvores mostravam rasgos gravados na casca expressando a necessidade dos homens de provarem uns aos outros, amores e ódios em formas de figuras de corações estilizados e nomes ilegíveis ou simplesmente marcas sem outro significado maior do que amostras de estupidez. Um dia passei-me com um rapazola que se entretinha a gravar num abeto com idade para ser seu avô, com um canivete, umas cruzes malditas, perguntei-lhe se não preferia que lhe tatuasse na testa o verdadeiro nome do fuher, armou-se em valente e acabou com um dente na mão, não que eu seja bom de porrada mas certas coisas transcendem-me do físico.

Avistei-o ao longe, sentado num banco a fingir que dava de comer aos patos, franzino, com ar de fuinha, o exemplo acabado do que devia ser um bom filho da puta sem vergonha da mãe, sorriu com ausência de pudor e poucos dentes, o cabrão devia ser proibido de abrir a boca em público, com tanto podre negro e o resto amarelado, dava nojo só de olhar - Ouviste a minha mensagem? – Perguntou com aquela voz de gozo com que se achava importante - Claro, porque razão achas que aqui estou, pelo prazer da tua companhia? Olha lá e um banho de vez em quando? – Aquilo até podia ser entendido como um insulto, não fora o cheiro nauseabundo que dele emanava e eu que ainda há pouco me faltava um cheiro, voltou a sorrir - A agua gasta a pele e já tomei banho um dia destes, até pus champu e tudo… mas se não me queres enrabar, não precisas de me cheirar, estás interessado no negócio? - Sentei-me no banco, tão afastado quanto possível - Talvez, mas parece-me uma coisa perigosa, eu sempre me dei mal quando me meti com políticos, de que lado está o dinheiro? – Levantou-se, agora mais sério - Perigoso? Talvez… mas agora deste em maricas foi?! O dinheiro diz-me tu, que tens mais experiência, virá do partido? Se calhar aquele teu amigo da televisão era capaz de pagar uma massas pela história ou a mulher, que dizem está forrada e lhe paga a carreira.

Levantei-me e olhei na direcção do lago para a superfície da água, plana de brilhos, serena e limitada sem nascente nem poente e recordei aquela pele suave e o momento em que a penetrei, o seu comprimir de coxas, os seus suspiros, por que raio me estava a lembrar disso agora, neste momento em que sentia a acalmia do ar e a serenidade das águas, nada, mas mesmo nada do que se tinha passado na noite se podia relacionar com calma, fora fogo, combustão de exaustão, o instante do fósforo - ele continuava a falar - quem era aquela mulher? Porque tinha entrado na minha vida? Porque desaparecera? Teria sido num sonho, a minha cabeça em roda livre, dando corpo ao desejo, não seria a primeira vez, mas eu sabia que não, a marca nos lábios ainda ardia, mas eu podia ter-me mordido no sonho, mas o bilhete e a embalagem do preservativo eram reais, não eu não tinha sonhado, o mar trouxe-me uma sereia, o vento pousou-a na falésia e uma mulher bem real consumiu-me, deixou-me irrespirável - ele continuava a falar - eu a tentar sentir ainda nas mãos o curvo dos seus seios, o rijo dos seus bicos e o calor húmido do seu interior - ele puxou-me o ombro - num repente a visão foi-se, morta!

- Olha lá, estou aqui a falar para o boneco? Estás interessado no negócio ou não? Porque se não estás, eu tenho mais quem esteja, não penses que és o único esgravulha vidas que conheço.
- Que garantias tens que é verdade o que me contaste? – Perguntei, enquanto acendia mais um cigarro.
- Dá-me um… Olha eu disse-te que tinha tomado banho um dia destes, engatei um gajo num bar, todo pintas, queria que eu lhe fizesse uma mamada, mas obrigou-me a tomar banho primeiro, ora o gajo pelos vistos tinha um namorado que lhe pôs os cornos e ainda estava fodido com a história ou neste caso deixou de ser fodido por causa da história e contou tudo, como os tinha seguido e apanhado num quarto de hotel na beira da auto-estrada – Dei-lhe um cigarro, que acendeu com as mãos a tremer.
- E tens o nome do tipo?
- Sim, o gajo gostou de se vir na minha boca, quer voltar a ver-me, deu-me o número de telefone e tudo – Só de imaginar alguém a querer ser chupado por aquela boca, dava-me náuseas, não sou preconceituoso, mas há coisas que não consigo mesmo perceber.
- E tu vais-me dar o número e o que queres em troca?
- Ora a tua eterna amizade e metade do que conseguires sacar e continuo a dizer que quando tiveres as coisas certinhas e bem cozidas, a mulher deverá ser quem dá mais dinheiro para as enterrar, tu sabes quem é a gaja, boa como o milho não que eu goste muito de milho, aparece muitas vezes a fotografia nas revistas, a das festas.
- Sei… Olha ainda não tenho a certeza de que me quero meter nisto, tenho trampa na vida que chegue, realmente estou um bocado à rasca de dinheiro e não tenho nada em vista, fazemos assim, tu dás-me o número e eu vou pensar no assunto, como sei que o vais tentar vender a mais dois ou três não perdes nada se eu decidir ficar quieto, se conseguir alguma coisa dou-te um terço e sabes que pelo menos não te engano, um terço comigo é um terço… - Olhou para mim e riu-se, escusava de o ter feito, meteu a mão no bolso, tirou uns pedaços de papel e deu-me um deles, com um piparote na beata jogou-a para um canteiro e virou-me as costas, após ter andado alguns passos disse – Depois dá noticias, eu telefono para saber novidades.

Fiquei ali ainda um bocado a tentar apenas respirar, sem saber o que fazer, tirei a carteira para guardar o pedaço de papel e reparei na embalagem de preservativo e pela primeira vez olhei para ela e para o que dizia:

“Bar Sweetcool Nights, cortesia da casa para um final feliz”

The Corrs-Breathless

domingo, 7 de junho de 2009

O Privilégio do Disparate - Sétimo selado sem assinatura irreconhecível de amostragem comportamental ou súmula de preconceito antecipado



No fundo do meu quintal, tenho uma pedra angular não filosofal, atrás da qual se esconde uma escada que desce e desce e desce e quem a desce não fica com vontade de a voltar a subir, por isso é uma escada só de descer, ao contrário de muitas que só sobem e as inconstantes que sobem e descem como a vontade de ignorar a vida. Quando se desce essa escada chega-se a uma estação de comboios, daquelas que recordamos do tempo em que éramos crianças e os comboios eram meios de partida para qualquer lugar antecipado num sonho. Só há um destino que se pode alcançar a partir dali, um reino antigo onde não existe indiferença, nem preconceito, onde os animais não se escondem nem se comem, onde a nutrição é um processo de assimilação de ar e a moeda oficial é o sorriso e o sexo é pratica obrigatória decretado por bula real e abençoado por cardeais sem vinculo de credo.

-Pára! - Dirão os meus leitores, habituados a que os conduza nestes privilégios em direcções de graçolas camufladas em disparate, se queres ser sério, escreve uma canção de amor ou reescreve uma receita de bacalhau, não te ponhas em melancolias a contar de reinos mágicos que não nos refrescam os olhos, nem nos adiantam ou atrasam o orçamento mensal, mas eu queria hoje relembrar aquele reino onde os animais não se escondem e falam uns com os outros numa língua comum que não se consegue reproduzir com tinta nem byte. Eu ainda tenho amigos naquele reino, sem saber bem como, fiquei unha com carne de amizade com um pinguim pançudo, ave de espécie sem temor das alturas, nem problemas em arrastar o cu pelo chão que mesmo sabendo que não era particularmente atraente fez a corte à fêmea mais exuberante do baile, espécime desejado por todos, altiva de perna alta e pescoço esguio, grandes asas e um rabo de perder o tino.

Casaram. Mesmo assumindo que eram um casal improvável, ele pinguim pançudo de riso fácil e logo por isso rico, uma vez que não nos podemos esquecer que o sorriso é naquele reino a moeda oficial, ela avestruz de rabo de perder o tino, séria como uma noite de lua nova, logo sem grande poder de compra, mas bem capaz de trocar o amasso das penas por bem estar o que por ali nem sequer era mal visto. Ora então vamos lá abordar a faceta do disparate e puxar pela imaginação e visualizar a cópula na noite de núpcias entre um pinguim voluntarioso e uma avestruz fogosa, pois foi não correu muito bem, mas ele não desistiu e insistiu e ela lá foi simulando gemidos de prazer e lhe dizendo como a preenchia e ele ave jovial mas consciente da sua dimensão lá percebeu que a felicidade não se constrói acreditando em orgasmos simulados e um dia a olhar-se ao espelho tomou consciência da dimensão do seu bico e do poder que aquela língua afiada lhe dava e escusado será dizer que hoje são muito felizes e ela a fêmea mais rica do reino a desperdiçar sorrisos e não me peçam para vos descrever que filhotes saem dos ovos num cruzamento entre pinguins e avestruzes façam-no por vós, como exercício libertador do racional e do preconceito e por um momento acreditem que por aqui o sorriso também pode comprar felicidade.
Go Go's-Our lips are sealed

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Eterna efémera



Ainda me surpreende a forma simples dos momentos em que somos, surpreende-me os momentos em que sem perceber porquê conseguimos não ser.

Eu gostava de ter o poder de eternizar um instante, fechá-lo em garrafa cristalizado para todo o sempre e revivê-lo apenas num leve sacudir. Eu gostava de poder eternizar o teu sorriso, o pontinho de brilho do teu olhar, a suavidade da pele do teu ombro, uma gota do teu suor, o odor do teu intimo, as razões do teu prazer e o momento anterior ao teu suspiro. Eu gostava de poder eternizar esse instante e transportá-lo como talismã para toda a parte e reviver por um momento para sempre, aquele momento em que somos, de forma simples, num leve sacudir.

Eu gostava de ter o poder de efemerizar um instante, fechá-lo em garrafa cristalizado para todo o sempre e esquece-lo apenas num leve sacudir. Eu gostava de poder efemerizar a incerteza da tua ruga, o vazio dos teus olhos, o espaço do teu apartar, o sal das tuas lágrimas, a ausência do teu cheiro, as causas da tua tristeza e o momento anterior ao teu grito. Eu gostava de poder efemerizar esse instante e enterrá-lo como maldição em lugar incerto e esquecer aquele momento para sempre, aquele momento em que conseguimos não ser, sem perceber porquê, num leve sacudir.

A eterna certeza é efémera tanto como a efémera duvida é eterna, resta-nos tornar eterno o efémero, sem perceber porquê de forma simples, num leve sacudir.
Evanescence-Missing

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Esterilização obrigatória



Deus ordenou a Noé que construísse uma arca e escolhesse um par de animais de cada espécie para salvar do dilúvio que iria lançar sobre a terra. Assim foi transmitido ao homem Noé o poder de ser criador sobre os outros animais , seleccionador de quem podia dar continuidade à raça ou na consequência aqueles que deviam de ser extintos.

Ora se Deus legitimou o homem Noé com o poder de ser criador, de atribuir pedigree ou registos de LOP que para quem não sabe e eu agnóstico ignorante não sabia, é o Livro de Origens Portuguesas, quem seremos nós para contrariar a feitura de leis que nem deviam ser questionadas debaixo da vontade de Deus que atribuiu esse poder a Noé o ancestral, o novo pai da nossa raça, a base do nosso pedigree pois seremos todos descendentes de Noé o escolhido de Deus.

Atentemos na designação de LOP, o Livro de Origens, o livro de génesis dos criadores e na profundidade do seu significado, saber da origem abre possibilidade à procriação e é bom sabermos que todos nós homens estamos salvos da esterilização obrigatória porque temos pedigree, somos todos descendentes de Noé escolhido por Deus, o primeiro criador autorizado por Deus, o nosso livro de origens é o génesis de todos os livros e foi financiado por Deus que mandatou Noé o primeiro criador que estabeleceu no seu livro de origens a base genealógica de todos os animais, mas se todos os animais foram extintos, salvo aqueles que o criador Noé mandatado por Deus escolheu, então todos os animais que hoje existem têm pedigree senão registado em obra dos homens com certeza registado na memória de Deus. Então e se não somos Deus como podemos escolher quem deve ser criador e se não somos Noé o escolhido por Deus que poder teremos para poder nós escolher que animais, que afinal têm pedigree aos olhos de Deus, devem ser extintos, porque a esterilização é o caminho natural para a extinção e nem Deus que escolheu Noé tem argumentos válidos para me convencer do contrário.

Concedo o privilégio de avaliar este disparate aqui:

http://esterilizacao-o.blogspot.com/

Outras vozes mais ajuizadas:

http://espacodatreta.blogspot.com/

http://forteifeio.blogspot.com/2009/05/esterilizacao-dos-seres-pensantes-nem.html
http://forteifeio.blogspot.com/2009/06/se-es-rafeiro-esconde-te.html

http://so-me-apetece-cobrir.blogspot.com/2009/05/nao-esterilizacao-dos-animais.html
http://so-me-apetece-cobrir.blogspot.com/2009/06/nao-esterilizacao-obrigatoria-dos.html
http://fadadosbosques.blogspot.com/2009/06/humildade.html

Que legitimidade tenho para falar deste assunto? A de quem dá de comer a uma dúzia de gatos e um cão e que nunca comprou um animal, sempre os salvei do abandono da rua.
The Fools-Psycho Chicken

domingo, 31 de maio de 2009

Inodora manhã



E corri a língua e senti…Senti-a nos lábios mas não o seu cheiro, nenhum odor de mulher, apenas o característico cheiro a pó dum buraco de homem desleixado ou convencido de outras prioridades mais importantes que a limpeza da casa. Fiz a busca habitual às gavetas e às coisas que imaginava valiosas, nada tinha desaparecido, tudo estava intacto, ela entrou na minha casa fodeu-me, marcou-me e deixou-me e deixou-me um bilhete que tinha que ter significado e deixou-me uma embalagem de preservativo caída no chão, apenas uma, tanto desejo tanto tesão e só a fodi uma vez…

Guardei a embalagem como se fosse uma coisa importante, sem sequer olhar para ela, guardei-a na carteira e fui tomar banho, estava viscoso de suor mas apenas reconhecia o meu cheiro e isso incomodava-me e eu sou um homem de incómodos, tenho o incomodo como motor da vontade e enquanto a agua corria, quente, mais do que o corpo aprecia ouvi o telefone tocar e procurei imaginar quem seria sem querer sair da sensação de escaldo que sentia sobre as costas e depois deixou de tocar ou eu de o ouvir e fechei os meus olhos e voltei a ver os seus olhos por debaixo das pestanas e entre sobrancelhas, olhos castanhos escuros e brilhantes e senti o caralho mexer-se com vontade própria e ignorei-o, não podia, não queria fazer nada por ele que me tinha traído, apenas a tinha fodido uma vez, uma noite longa com a mulher mais inebriante que alguma vez tinha conhecido e apenas a tinha fodido uma vez.

Sai do chuveiro, sequei o corpo ainda em busca do seu cheiro e vesti uma camisa lavada, umas calças coçadas ainda não suficientemente imundas e calcei uma meias que voltei a descalçar quando o dedo grande do pé ficou de fora num buraco, procurei outras na gaveta e acertei à terceira. O telefone indicava que tinha uma mensagem, encostei-o ao ouvido e liguei para a caixa de mensagens e ouvi. Era uma proposta de trabalho, um biscate para investigar uns boatos sobre uma figura publica que segundo o que parecia andava a mijar fora do penico e a mulher não sabia ou não queria saber mas a imprensa fazia questão que soubesse. O meu ganha pão, descobrir segredos suficiente sórdidos para que me pagassem para os contar ou imensamente sórdidos para que me pagassem para não os contar, sempre me tinha sentido mais ético aceitar a segunda hipótese.

Recordei o que me levara à falésia na véspera, violara o mais elementar dos princípios, deixara-me envolver demais por um caso, aceitei que me pagassem o silencio em género e no final acabei sem nada, nada para vender e nada para capitalizar, sem mulher nem dinheiro nem propriedade, o predador encurralado pela presa.
Ela uma actriz em alta, primeira figura em novelas de televisão, menina bonita do publico, capa de revista com estatuto de quase santa, virgem sem macua mas com um esqueleto de dinossauro dentro do armário dos sapatos que eram muitos. Não foi fácil, mas tinha conseguido desenterrar que ainda com dezasseis anos tinha engravidado e tido uma criança sem ninguém saber, nem mesmo os pais, coisa impressionante como é que uns pais se conseguem alhear tanto de uma filha que durante nove meses nada percebem e ainda a censuravam que estava gorda, que isso não a ia ajudar a ser famosa. No fim com a ajuda de uma amiga pariu e deixou a criança à porta de uma igreja, porque é que se deixam crianças à porta das igrejas sempre me fez confusão, nunca me pareceu que os padres tivessem dotes particulares de puericultura, resta Deus como motivo, mas eu com Deus tenho uma relação particular de desconfiança e um pacto de não agressão, eu não o chamo em vão e ele faz por me ignorar no resto do tempo, até agora tinha resultado.

A criança foi adoptada e levada para o estrangeiro por um casal abastado, outro negocio meio estranho mas que não me interessou particularmente, terreno demasiado pantanoso onde corria o risco de me atolar em merda, quando a confrontei com a situação nada fez por negar, apenas me pediu para saber mais, disse que não tinha medo do escândalo, queria saber da filha e eu coração mole fui na conversa e quando dei por mim estava deitado com ela na mesma cama a lamber-lhe os seios e a contar-lhe tudo, todos os pormenores a prometer ajudá-la a reaver a filha, num repente tudo desapareceu, criança, pais adoptivos, todas as pistas limpas como a sua imagem, uma amostra condigna do poder do dinheiro e eu com uma ameaça séria de que se a voltasse a incomodar acabaria com os colhões na boca e apenas com o ar que respirava a prazo e como das outras vezes fui ver o mar e a atracção do salto que nunca daria, por ser demasiado covarde.

Reparei de repente que não tinha feito a barba, mas não me apeteceu, enfiei duas fatias de pão bolorento na torradeira, o milagre que o calor intenso faz ao bolor à muito que me tinha convencido a ignorá-lo, era a minha contribuição como elemento reciclador de lixo. Barrei abundantemente manteiga e abri uma lata de cerveja o que me pareceu adequado para aquela hora de manhã onde qualquer coisa mais forte me podia enevoar o raciocínio. O raspar do pão nos lábios fez-me arder a ferida e trouxe-me de novo à memoria a mulher da noite anterior e do acaso do encontro, ou talvez não, a sorte não costuma dormir comigo e aquela mulher seria na tabela de qualquer homem um sinal de sorte, mas eu sou desconfiado, ainda não tinha decidido se voltaria à falésia hoje à noite, mas sabia no meu intimo que essa escolha não era minha, que quando desse por mim estaria lá parado à espera do que sabia não ia acontecer, mas tinha que esgotar essa possibilidade, de voltar a rever aqueles olhos e voltar a sentir aquele cheiro que não conseguia recordar. Voltei a ouvir a mensagem. A vitima era um politico em ascensão, um paladino com futuro, material ministeriável, casado pai de dois filhos pelos vistos com um caso com um secretario, pelo menos desta vez não ia acabar na cama com ninguém ou pelo menos assim o desejava.

Sai para a rua e o sol incomodou-me os olhos e eu sou um homem de incómodos é o meu motor de vontade, pus os óculos escuros, acendi o cigarro e parti à procura de um cheiro perdido na manhã.
Beck-Looser

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Desígnios de caminhar,



Nascemos e iniciamos um caminho que nos orienta para a morte. Nesta forma sou minimal a justificar o meu existencialismo assumindo a certeza da morte como consequência do nascimento e o risco de poder vir a ser castigado por descrença numa continuidade espiritual que não espero de penitencias ou recompensas.

Há sempre um caminho que escolhemos ou que nos escolhe e que percorremos umas vezes sós e outras só acompanhados, outras ainda em partilha de caminhada. Este caminho que se inicia no primeiro instante em que temos consciência de arbítrio é feito de muitos troços de caminho, uns bem vincados de margens definidas, outros ténues quase inconscientes.

Por cada caminho ou pedaço de vida que se passa aprendemos e armazenamos experiencias úteis, fúteis ou inúteis, imagens, memórias ou recordações e lamentamos escolhas ou glorificamos opções, podemos até parar de caminhar na certeza porem que o caminho não pára, transmuta-se em tempo envelhecendo a paisagem numa sementeira de rugas de pele e de alma até ao arrependimento ou ao alivio de um final.

No caminho há encruzilhadas, pontos de encontro entre caminhos, locais de decisão, locais de mudanças, locais de convergência de paralelos e de rotação de perpendiculares, pontos de encontro entre caminhantes, oportunidades de somar outras experiencias às que temos ou que ainda não temos, de as transformar em forças de mais caminhar. A oportunidade da encruzilhada no momento do encontro pode representar o momento mais importante de uma vida, este é o momento em que a luz não nos pode ofuscar, este é o momento de ignorar o apelo da segurança do casulo, este é o momento onde o risco se delineia em direcção e a duvida na certeza de um passo em frente.
Dire Straits-Walk of life

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cheiro de nós



Alguém me disse, numa forma assim tão natural referindo-se a algo da importância que se dá às coisas que se esperam sem pressas, que lhes faltava ainda ganhar o cheiro a corpo.
Aquela frase tão simples e tão pura ficou a baloiçar-me na mente como se de repente todas as minhas faltas e ausências pudessem ser explicadas na força de tão poucas palavras.

Falta-me ainda ganhar o cheiro a corpo, falta-me ainda perceber que o cheiro do meu corpo pode ser sentimento de falta de outro corpo, falta-me ainda destilar a soma de dois cheiros a corpo como o cheiro de um corpo só.
Se não posso explicar o amor ou bastar-me em desamor, posso entender essa falta de ganhar ainda o cheiro a corpo como a forma física de não o sentir.

Falta-me ainda ganhar o cheiro a corpo e falta-me ainda poder perder este cheiro a corpo por entre os corpos dos nossos cheiros .



A frase roubei a quem tem a capacidade de dizer assim estas coisas fantásticas sem se dar por isso.
Elba Ramalho e Alceu Valença-Trem das ilusões

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O Privilégio do Disparate - Sexto sentido inverso da teoria teológica de uma evolução assistida ou em auto aniquilação por mérito próprio



Hoje queria falar de Deus. Sei que neste momento, metade dos leitores vão parar de ler porque acham que vou ser desrespeitoso para com as suas crenças, desde já clarifico que sou agnóstico o que quer dizer que estou por tudo e sou agnóstico multi-partidário o que significa que se me aparecer à frente um Deus com cara de bicho ou com muitos braços ou gordo que nem Buda e me mostrar por A mais B que é Deus eu aceito, não quer dizer que não refile por ter aparecido sem se anunciar primeiro, um SMS não tinha custado nada, Revelo-me segunda-feira faz-me uma sopinha e compra fruta e iogurtes naturais, porque eu mesmo sendo agnóstico gosto de receber quem me visita de forma digna, mas como parece que Deus é omnipresente não sei se não ficaria desconfortável com os pés de fora no colchão insuflável que tenho lá para um canto e que ainda por cima têm um furo que ainda não consegui descobrir, mas se calhar podia aproveitar a presença de Deus para me indicar o furo e isso seria sem duvida uma prova de que Deus é Deus, porque já dei voltas e voltas e não consigo encontrar o maldito furo, mas duvido que Deus me visitasse para me ajudar com problemas de buracos e percas de ar, ele sabe que sendo eu agnóstico e aceitando a possibilidade da sua existência o considero em divida para comigo por algumas sacanices que me tem feito e por tanto ou me aparecia para se me explicar que raio de sentido de humor retorcido é aquele que pratica, que enfim podem-me acusar de muita coisa mas sou incapaz de não aceitar uma piada de gosto duvidoso se bem explicada ou então para me recompensar por qualquer coisa que terei feito de bom sem ter dado por isso, mas duvido e é por tantas duvidas que sou agnóstico, se o milagre da criação não pode ser explicado por teorias evolucionárias ou seja: uma coisa desta dimensão e assombro têm que ter a mão de um Deus, como posso eu Ser duvidoso aceitar que alguém com a capacidade de poder criar coisa tão perfeita como a criação possa por si só existir de forma espontânea e não ser a criação de um Deus maior, um Deus de Deus e por ai fora podíamos evolucionar num ciclo continuo de divindades com apetências criativas e vontade de brincar com plasticina genética.

Mas aceitando que Deus fez o homem e pondo de parte a questão da semelhança, porque sendo agnóstico aceito a possibilidade da existência de Deus sobre outras formas, não me parece que tenha sido um momento de grande inspiração, mas equilibrou as coisas e criou as cerejas, que na minha modesta opinião são o verdadeiro fruto proibido, já com certeza repararam bem na forma de uma cereja, tirando o pauzinho que não faz lá falta nenhuma, aquelas linhas suaves de fruto sensual e apetecível são divinas e todos sabemos que o vermelho puro é a cor do pecado e não me lembro de nenhum vermelho mais puro do que o de uma cereja, bem talvez tirando o de um Ferrari mas esse sabemos que não é obra de Deus, que mesmo sendo agnóstico sei que não percebe nada de mecânica e nunca personificaria um Italiano porque de uma maneira geral falam demais ou são gays ou as duas coisas e há quem diga até que cheiram mal em sítios que é melhor nem trazer à baila, mas se Deus criou as cerejas que para mim simbolizam o pecado e eu não consigo imaginar o pecado sem a existência da mulher que nalgumas ideologias terá sido obra do Diabo que até posso aceitar como heterónimo ou nome antiartístico de Deus para performances alternativas , seria uma vez mais uma visão puramente machista que se diga que o homem é obra de Deus e a mulher do Diabo , até porque me parece uma obra muito melhor acabada e com um grande potencial de crescimento assim lhe dêem espaço e motivação e recompensa e eu gosto de imaginar que não será pecado pensar que de entre as mulheres bendito o fruto e a cavalo dado não se olha o dente.

Depois há aquela questão da reencarnação, que sendo agnóstico admito como possibilidade e não pensem que sou assim tão tarado que a ter voto de escolha na próxima reencarnação quisesse voltar como elemento vibratório longitudinal ou instrumento de ginecologista, uma daquelas pinças que tem um nome esquisito e que não vale a pena aqui tentar reproduzir, mas sim como um elemento construtivo para o equilíbrio da criação como penitencia de ter pertencido a esta raça malvada, talvez como gaivota que é um bicho que aprecio embora condenado a comer merda nos esgotos, mas que tem um papel importante na manutenção do ecossistema ou como uma planta de Aloé Vera que todos sabemos o bem que faz a quase tudo, verdadeira dádiva de Deus. milagre da natureza e que soa tão bem na articulação oral que algumas vezes no momento de êxtase me apetece gritar Aloé, Aloé Vera, mas receio ser incompreendido e desvio a conversa para um: Oh meu Deus, o que me faz pensar bem nas coisas e resumindo toda esta minha dissertação, como posso eu duvidar da existência de Deus quando o invoco num momento importante da minha vida e que para além da Aloé Vera ainda temos as cerejas e as mulheres, esquecendo que poderão ter sido obra do diabo e as gaivotas embora essas possam não ser um bom exemplo de perfeição porque comem merda e me deixam a pensar se Deus gosta mesmo de gaivotas.
Banda do Casaco-A Cavalo Dado

sábado, 23 de maio de 2009

Sentimento fluido


A tristeza é um sentimento fluido, entra-nos por dentro da alma sem reserva antecipada, como um viajante vadio. Espreito por outras janelas à procura de outras cores de menos cinza e apenas percebo angustias noutras formas, formas de ausência, formas de carência, formas de falta, formas que me fazem equacionar o peso real da minha razão de estar triste mas que de forma egoísta somo ao meu sentir como se na empatia pudesse inventar um caminho certo para transformar esperanças em dias felizes.

A desesperança é o fim da tristeza, como a morte é o fim da capacidade de poder chorar. Na génese de uma lágrima há um sentimento fluido e sal, afinal apenas mais uma partícula de mar e sinto vontade de me sentar a olhar o tempo passar em direcção a esse mar todo de outras lágrimas , não para as ver secar mas sim para que nesse tempo o seu sal faça arder as feridas até que possam desabrochar em cicatriz.

Hoje foi só outro dia de sentimentos fluidos.
Otis Redding-Sitting on the dock of the bay

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Inquilinos

Aos meus inquilinos, musica e palavras.


Para a Hedgie


Caetano Veloso-Tigresa


Para o Bruno Fehr


Gabriel o Pensador-Cachimbo da paz


Para a Pronúncia



Rodrigo Leão-Voltar


Para o Forteifeio



Resistência-Marcha dos desalinhados


Para a Ana



Sergio Godinho-Dancemos no mundo


Para a Ipsis



Doces Bárbaros-Esotérico


Para a Princesa



Clã-Sopro no coração


Para a Jane



Gift-Gaivota

Para a Silvia


GNR-Bem vindo ao passado

Para a I.D. Pena


Rádio Macau-Amanhã é sempre longe de mais

Para o Daniel

Jorge Palma-Valsa de um homem carente

Para o Treze


Rui Veloso e Sara Tavares-Saiu para a rua

Para a Storyteller

Entre Aspas-Uma flor

Para a Teresa

Madredeus-Oxalá

Para a Fada

Diva-Baila Papoila

Para a WAI

Marisa Monte-Bem que te quis

Para a Afrodite

Elis Regina-Com esse que eu vou

terça-feira, 19 de maio de 2009

O pecador de palavras


Eu hoje sou nas palavras o seu pecador é por elas que me acordo no senso e mergulho no sonho é por elas que me visto na noite e transvisto no dia é por elas que me alimento no ar e nutro no fogo é por elas que sou sangue na tinta e paixão no papel é por elas que aqui estou e me ausento da vida é por elas que me perco ainda e ainda te reencontro.

A palavra é o meu pecado e todo o pecado tem penitencia e esta por vezes dói, condena-me a viver apenas de palavras , devoto e submisso imploro-lhes que não me faltem, que me indiquem a próxima sílaba, que me salvem da semântica linear e me perdoem a incoerência verbal num desejo egoísta do deslumbre fugaz do prazer que provoco a quem as lê.

Pago a penitência com o desalento da solidão, fechei-me entre palavras, elas são o limite do meu mundo, ansiava transforma-las em pontes mas solidificaram em muralhas, ocultam-me do passado absorvendo o presente sem promessas de futuro. Eu escrevo a palavra que define o pecado e a penitência que se define na palavra. Não sei mais se escrevo para quem me lê ou me leio por quem me escreve, mas são só palavras apenas pecados.

Hoje a minha vida é a palavra e a palavra não me suporta a vida, o meu pecado cria somente dependência desta penitência.
Mariana Aydar-Palavras não falam

domingo, 17 de maio de 2009

O Privilégio do Disparate - Quinto elemento em adenda para ajudar necessitados no preencher do anexo H do IRS



O post anterior suscitou tanta interpretação díspar que me senti na obrigação de exercer o dever cívico de elucidar, explicar, ajudar, empurrar e salientar o que de bom podemos encontrar no mistério do anexo H.

Essa explicação pode ser encontrada aqui:


LAURIE ANDERSON - LANGUE D'AMOUR

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Privilégio do Disparate - Quinto elemento para a compreensão da vida, do amor e do preencher do anexo H do IRS


A vida e o seu significado são objecto de estudo e formulação de teorias desde que o homem, descobriu que o excesso capilar não agradava a todas as mulheres e se pôs a disfarçar o cheiro de bedum o que provocou o inicio do aumento demográfico e a consequente migração de patos para o sul no inverno, também porque faz frio no inverno e os patos não são tão parvos quanto querem fazer parecer com aquele andar torpe e grasnar irritante, eu por exemplo não gosto muito de pato, só em arroz e tem que ser o pato desfeito sem ossos e um ovinho por cima coradinho no forno.

Mas se já falei no significado da vida o que dizer do amor? Eu pouco sei sobre isso, mas aparentemente muita gente sabe e seria falta de respeito pôr-me aqui a brincar com o assunto quando ele importa a tantos e tantos podem falar mais e melhor sobre ele do que eu, por isso vou antes falar de outra coisa, mas que outra coisa? O que é que poderá ser mais importante que o amor? Ora uma vez que não posso voltar a falar de patos, porque ai estaria a relacionar o amor com o sentido da vida e sabendo da minha paixão por bichos e da sua capacidade de simular em modelo reduzido e à escala isotrópica os comportamentos dos homens, poderia falar de moluscos, que aprecio particularmente, pelo gosto simples e até pelos seus nomes patuscos, se não vejamos, temos os burriés que sabem a mar e são assim a modos que caracóis de agua sem cornos, mas que do ponto de vista da piada, têm montes de possibilidades e os mexilhões, esses mexilhões sempre uns incompreendidos eu por exemplo, dava um bom mexilhão e por mais nada além de ter umas manápulas grandes e dedos ágeis e depois o que dizer ainda do lingueirão, assim comprido e sempre a deitar a língua de fora o que bem explorado poderia dar outro significado ao amor e cá voltei sem querer ao assunto e pronto vamos lá falar de amor já que não posso mesmo falar mais de patos.

O amor é… penso que até já falei sobre isso. Mas temos o amor carnal e o amor fraterno, o amor clubista que na maior parte dos casos é colorido e riscado, eu até acho interessante um amor ser colorido, que isso de platonismo é coisa de bichóla, eu sei que a palavra não existe mas é bichóla mesmo, peço desculpa aos leitores mais conservadores, mas eu digo o que penso das coisas, sem rodeios e depois temos o amor politico e não estou a falar do amor da Manela ao Zézinho que eu sei que quem desdenha quer comprar e da história da farinha ser do mesmo saco , mas do amor a uma causa, a um ideal e temos o amor a determinado personagem real ou imaginado, eu cá gosto do Snoopy e do Garfield, que é um gato gordo que ama lasanha e dias de segunda feira passados em modo preguiça e a preguiça é tão bom e é um outro bicho também incompreendido, mas amoroso e isso se calhar é a verdadeira definição do amor, quando dizemos que isto ou aquilo é amoroso ou seja identificamos claramente o objecto amado, mas o curioso é que normalmente quando dizemos que algo é amoroso existe uma noção de redução a algo que não é nada mais do que amoroso, sem qualidade adicional ou pior como desculpa, cheira mal mas é amoroso, morde mas é amoroso, provoca comichão nos ortelhos e esta não é inocente e olha eu aqui a deitar-te a língua de fora mas é amoroso, é um chato com estes textos parvos e estranhos que nos deixam a pensar no que raio é que ele quis dizer com isto, que mensagens se escondem nas entrelinhas e falsas virgulas e mudanças súbitas de assunto e na conversa dos patos mas é amoroso, ora eu não quero ser amoroso por apenas ser fofinho e estar aqui à mão.

PS. Sobre o anexo H do IRS, façam como eu desenrasquem-se…
Art of Noise-Peter Gunn

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Criatura da Noite


Parei o carro e saí. Não me pareceu importante o sitio onde o deixava, nem trancar as portas. Dirigi-me à beira da falésia sem ideias nem resoluções e olhei o mar. A luz da lua desfazia-se em reflexos de peixes prateados, espelhados na superfície como mortos, esta lua em noite de sombras incomodava-me. Deixei as pontas dos pés, alinhadas sobre o vazio e tentei-me a olhar o escuro.
- Por ai arriscas-te a falhar, a queda não deverá ser fatal – A voz veio repentina, seca, doce de mulher, por detrás de mim – Mais acima é mais certo, o voo é curto mas as rochas lá em baixo dão-te a garantia de que não acabas no hospital a lamentares a decisão.
-Eu não…- As palavras sufocaram, vi-a agora como um vulto, magra, aparentemente jovem, um pouco mais baixa que eu, de calças e camiseta justa, atraente. – Eu moro aqui perto, venho aqui para pensar - Disse sem convicção, enquanto lhe tentava perceber a dimensão dos peitos.
-Pois, sei, olha não quero saber se te vais mandar dai abaixo ou não, mas antes podias… não tens por acaso ai um cigarro? – Aproximou-se e pude ver um rosto magro, ainda indistinto, tirei o maço do bolso e passei-lho, sacou um cigarro e tirou um isqueiro do bolso e acendeu-o. Num instante de luz pude ver uma face de lábios carnudos e uns olhos castanhos enquadrados nas mais belas pestanas que alguma vez vira, não era uma mulher deslumbrante mas tinha algo que me perturbou e a escuridão voltou a ocultar-lhe o rosto.
-Esta lua atrai os suicidas – A voz continuava áspera, doce, sem sentimento – Deixa-me adivinhar, descobriste hoje que a mulher que te dava tesão, só andava a brincar contigo, que fodia com outro, ou com outros e apeteceu-te ver se tinhas tomates para acabar com aquilo que pensas ser a merda da tua vida? - Aquilo soou como um soco no estômago, quem é que esta gaja pensava que era – Olha, se moras aqui perto, não tens por acaso nada que se beba? Estou com sede e apetecia-me algo que me aquecesse a garganta e fizesse libertar este frio que sinto por dentro – Olhei-a incrédulo e virou-me as costas a olhar para algo que não estava lá, tentei entender como teria chegado, mas não consegui perceber nenhum carro, não podia simplesmente ter caminhado até ali, mas de repente isso deixou de importar e disse-lhe que sim, que podíamos ir até minha casa, que tinha uma garrafa de whisky por abrir, se lhe servia. Sem uma palavra dirigiu-se para o meu carro, entrou e fiquei ali parado por um instante aparvalhado sem saber o que fazer, depois encolhi mentalmente os ombros, entrei no carro e arranquei.

No caminho, não disse uma palavra e adivinhando-lhe a vontade, estendi-lhe o maço e sorriu enquanto acendia outro cigarro e pude perceber-lhe o corpo atlético, bem feito e o rosto e os olhos, aqueles olhos entre pestanas e sobrancelhas, que se talhadas pelo mais perfeito artista não podiam ser mais belas.

Enquanto subíamos as escada, fiz por ficar atrás e apreciei-lhe as formas. – Não me apalpes o cu, mas podes olhar, sei que o tenho ai atrás… - Engoli em seco e achei que a melhor coisa que podia dizer era o silêncio. Entrámos e fui buscar a garrafa e dois copos, enchi um de liquido dourado a oscilar a luz e estendi-lho, voltou a sorrir e pegou-o com a mão, levou-o à boca e bebeu quase com o bordo do copo a devorar-lhe o nariz, pequeno de ar irrequieto no meio dos olhos e das pestanas, aquelas pestanas não podiam ser reais. Andou pela sala, tocando ao de leve com as pontas dos dedos nos objectos por onde passava, nos livros na estante, nos CD’s, nos cães de porcelana e depois aproximou-se, primeiro o corpo, depois o rosto e os lábios sentiram os meus e beijou-me.

O beijo foi álcool e depois ardor e depois mel e depois sufoco e apertei-a nos braços e senti o seu corpo contra o meu, os peitos acolchoados contra o meu, os sexos roçaram-se e senti-me crescer, a minha masculinidade parecia não a incomodar e senti a sua mão e depois desapertou-me a camisa e deixou-me os lábios para me mordiscar um mamilo e senti um tremor que não podia ser da bebida e procurei de novo os seus lábios. Arrastei-a para cima da cama e puxei-lhe a camiseta pela cabeça e devorei-lhe o peito como se fosse a ultima coisa que faria na vida e empurrou-me para trás e fiquei a olhar-lhe não os olhos, mas aquelas pestanas e despiu-se e eu achei que também me devia despir e puxei-a de novo, nus, pele contra pele, suor que apenas se adivinha e cheiro, cheirava somente a mulher e estava a deixar-me louco.

-Olha há algo que tens que fazer primeiro, nenhum de nós quer acordar arrependidos de ter dado uma foda na sorte – tirou algo do bolso das calças, entretanto caídas no chão, que percebi ser uma embalagem de preservativo, rasgou a ponta, tirou a membrana e pegou-me no sexo – Queres tu pôr, ou ponho eu? – Só a olhei… Sorriu e beijou-me de novo enquanto a desenrolava e me cobria com um saber que me assustou, tentei não pensar nisso e senti a sua humidade com a pontas dos dedos, quis acreditar que tremeu.

De repente deitou-se sobre mim e mordeu-me os lábios e o gosto de sangue inundou-me os sentidos.
-Porque fizeste isso?
-Quero que me sintas amanhã, quero que me sintas depois de já não teres tesão, quero que sintas depois, quero que me sintas o cheiro quando passares a mão pela tua boca.

Voltei a beijá-la e o sangue deixou de ser sangue mas fluido de vida e penetrei-a e senti o seu encaixe e sintonizámos a nossa convulsão num esborrachar consentido, apertou-me por dentro e tentei resistir ao apelo do clímax, queria esperar por ela, como tinha esperado todo o sempre, beijei-lhe os olhos e comprimi o sexo e beijei-lhe os lábios ainda sangrando e de repente adivinhando o seu clímax deixei de estancar o meu e vim-me, vim-me como se deseja o momento da concepção de um filho.

Fiquei deitado, sem querer ofegar a querer o seu corpo a meu lado e não dei por adormecer.

Acordei sem surpresas sozinho, não sabia porque já o esperava, levantei-me e sobre a mesa uma folha de papel, escrita em letra redonda, feminina mas frenética, li quase sem respirar.

“Hoje à noite, sei onde vais estar, vais convencido que me encontras como um reflexo de lua e pode ser que sim e pode ser que não e vais olhar o mar e tentar-te no abismo, ai não estarei mas podes ainda sentir-me agora marcada nos teus lábios”

E corri a língua e senti…

Entre Aspas-Criatura da Noite