quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 2



Acabei mesmo por levar a camisa à lavandaria, não sei porquê aquele cheiro que sai das lavandarias desperta em mim um processo hormonal qualquer que me leva a pensar em coisas diferentes de roupa limpa. A senhora foi profissional e não ofereceu garantias que as nódoas iam sair e eu perguntei-lhe se não se sentia tentada a analisar as manchas das coisas que lhe entregavam. Uma mancha vermelha, podia ser sangue seco, vestígios de um crime hediondo e ainda impune, outras manchas podiam ser histórias de amor ou restos de ódios, ciúmes, marcas de solidão ou lágrimas secas, queria saber se existia um código de ética dos lavadeiros que a impedisse de revelar os meus segredos se os descobrisse e riu-se ,muito embora eu estivesse a falar a sério.

Expliquei-lhe que a nódoa era de molho, o amarelado tinha que ver com a mostarda que era uma especiaria sem efeitos secundários comprovados, apenas um condimento que servia para alterar o sabor da comida, de a tornar mais afeiçoada ao meu paladar e que gostava de sentir na língua sabores amargos e se não se importava de eu voltar apenas daqui a uma semana porque o cheiro ali incomodava-me, não que cheirasse mal mas porque me fazia pensar em coisas que não me apetecia pensar e disse-me que sim que podia voltar quando quisesse e reiterou que não fazia promessas de que a nódoa saísse e eu fiquei contente porque não gosto que me prometam coisas, sinto-me sempre logo devedor e teimo em me desapontar porque facilmente crio expectativas de outras coisas.

Fui beber um café. Não consigo beber o café sem açúcar mas tento pôr pouquinho, assim a modos que meio pacotinho daqueles que sempre nos informam de qualquer coisa, aliás os pacotes são muito subvalorizados como meio de comunicação, eu enquanto mexo o café sempre leio tudo de ponta a ponta, absorvo toda e qualquer informação, se me quiserem convencer de algo, esta é a altura ideal, aquela onde estou mais permeável a comprar um par de sapatos novos, uma estante para o escritório, aderir a uma nova religião ou votar naquele candidato que tudo promete e nada cumpre.

Esta minha predisposição de bicho manso e convencível tem muito a ver com o dilema com que me debato naquele instante em que pego na colher e a mergulho no líquido escuro e fumegante e fico sem saber se a devo rodar no sentido dos ponteiros do relógio ou ao contrário. Nunca consegui perceber qual é o mais eficiente e porque é que de uma maneira geral acabo por rodar sempre no sentido certo ou se calhar no errado, mas o que é certo é que o açúcar se dissolve e o café arrefece, porque eu nem gosto muito do café quente e faz-me impressão aquelas pessoas que pedem uma chávena escaldada, mais valia porem a língua debaixo da mangueira de vapor da maquineta e engolirem depois, ninguém me convence que isso não estraga o gosto do café, que as papilas gustativas não ficam dormentes e com vontade de emigrarem para outra boca de pessoa com mais juízo.

Terei que um dia destes voltar a falar de café, fiquei viciado já em adulto e tenho uma relação moderna e liberal com o café, não que consiga funcionar sem ele, mas se não o beber não ando a cair aos tombos, simplesmente o cérebro recusa-se a somar mais do que dois algarismos de um digito de cada vez e sou incapaz de articular uma explicação simples seja do que for, mas não fico desesperado com sintomas de ausência se a maquina estiver avariada ou se não tiver trocos, pura e simplesmente disfarço, faço cara de poucos amigos, daquelas que é melhor não me dizer nada porque a resposta sai torta e hoje consegui não escrever nada relacionado com loucura o que quer dizer que começa a fazer parte da minha normalidade.


Lisa Ekdahl-Cry me a river

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 1

Acordei cedo…. Cedo para quem se deitou tão tarde e dormira apenas quatro horas intercaladas por aquela sensação de intermitência entre estados de consciência e sonho. Levantei-me de arrasto para a casa de banho e olhei o rosto reflectido no espelho, as manchas escuras debaixo dos olhos escavavam-se na pele e enchi a banheira, despi-me e entrei na água. Fechei os olhos e comecei a sentir frio, abri a torneira de água quente e o calor aumentou aos poucos até me incomodar, voltei a fechar a torneira.

O corpo submerso, as pernas arqueadas, fora da água, a superfície criava ondas minúsculas a cada respiração, imaginei que a água se tinha transformado em gelatina solidificada à volta do meu corpo, não ousava mexer-me para não romper a coesão perfeita entre o liquido e aquela massa de carne. Somos massas de carne que rompemos coesões de fluidos ou gases quando nos movemos e movemo-nos porque somos dotados de vontade e a vontade é o que nos separa do irracional e a racionalidade faz-me equacionar porque razão estou aqui mal dormido e só nesta banheira de água que me cobre toda a pele, do pescoço até às ancas.

De repente… O que eu gosto dos meus repentes, são aqueles momentos em que tudo fica claro, todas as boas decisões que tomei na vida foram sequencias e consequências de repentes, são aqueles momentos em que não tenho mais do que certezas e foi naquele repente em que ficou claro e que tive a certeza de que estava a ficar louco.

Fiquei feliz com a descoberta, senti-me aliviado, ainda não estava louco, apenas a caminho e isso permitia-me avaliar os meus pensamentos, mesmo os mais estranhos e bizarros, como normais para um louco em potencial, a partir deste instante o mundo mudou de cor, já não era um patinho feio mas um cisne mesmo feio e tudo o resto havia de caber debaixo desta etiqueta. O que fazer com esta descoberta fantástica? Tinha que registar este processo evolutivo, deixar testemunho, fazer um diário que não começasse por querido diário mas por hoje comecei o meu caminho para uma doce e saudável loucura.

Saí para a rua e assim que pisei o passeio uma pessoa, não quero perder significado por a identificar como homem ou mulher ou gorda ou magra ou baixa ou alta, uma pessoa comum que lhe faltava uma referencia e que me perguntou as horas ao que eu respondi que não usava relógio e que o tempo era uma coisa relativa e à qual dávamos demasiada importância, considerava o facto de os relógios serem redondos como uma fraude porque se o tempo existe ele estende-se em comprimento e nunca em retorno ao ponto de onde partiu e lembro-me também de ter falado noutras coisas que agora já não me lembro e que a pessoa me virou costas e abanou a cabeça e foi perguntar o mesmo a outra pessoa que estendeu o pulso e a enganou porque passamos a vida a enganarmo-nos uns aos outros mesmo que não nos demos conta disso.

No meu primeiro dia como louco ou sem excesso de pretensão como aprendiz de louco ou louco em estado embrionário, pouco mais foi digno de registo neste meu diário, salvo talvez que jantei um daqueles meus esparguetes aldrabados com ovos mexidos com tudo o que encontrei no frigorifico e muita pimenta e uma punheta de mostarda, mas não sei ainda se isto é um acontecimento digno de aqui ficar ou se apago depois e como de costume manchei a camisa a chupar a massa e não sei se as nódoas de mostarda saem com uma lavagem normal ou se é melhor ir à lavandaria amanhã, joguei-a para um canto e decidi que pensaria nisso depois.


Nota: Apenas irei publicar aqui algumas entradas deste diário, o resto digam-me o que fazer com elas.



Jason Mraz-lucky i'm in love with my best friend

domingo, 2 de agosto de 2009

Uma vez no outro lado

Hoje por aqui as palavras conduzem a outro lado:

http://prisaodepalavras.blogspot.com/2009/08/na-segunda-pessoa.html

Dias cinzentos inspiram historias cinzentas e apetecem sons tristes…


Eric Clapton-Tears in heaven

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Politiquices e cócegas no umbigo


Quem por aqui passa regularmente sabe que não costumo falar de politica. Não que não tenha consciência cívica ou opinião sobre o assunto, mas apenas porque há muito que me desencantei com esta classe de governantes e opositores e outros insectos que gravitam em torno do tão apetecível naco que é o poder. Sou como aquele que tendo sido um crente devoto, de repente, tem uma situação de vida tão injusta, tão inexplicável, tão imoral que deixa de acreditar em Deus, porque a alternativa seria ter de o classificar como aldrabão, cruel e trocista.

Sempre achei que aqueles que abraçam as causas do serviço publico o deveriam fazer por devoção, vocação ou aptidão, nenhum estudante teria acesso a um curso de medicina, como futuro responsável pelo bem maior que é a vida humana, sem que testes de aptidão comprovassem a sua vocação, da mesma forma para se fazer carreira na vida pública, como politico e possível gestor e governante teria que haver da parte de quem escolhe esta carreira uma verdadeira devoção e sentido de causa e uma vez mais testes que comprovassem e legitimassem essa carreira.

Assumindo como legitimo a possibilidade de alguém poder ter um harém, tem que se aceitar que o staff de suporte ou sejam mulheres ou eunucos, a imoralidade de uma situação é consequência na outra. Da mesma forma que a quem começa a trabalhar numa fábrica de chocolates lhe é permitido e incentivado a comer o que lhe apetecer, para que enjoe depressa.
Tudo isto para dizer que aos políticos deveria ser dada uma retribuição justa pelo serviço que prestam à população e ao País e que lhes permitisse viver uma vida muito confortável e ponto… tudo muito bem definido, sem qualquer acesso a fontes externas de riqueza e claro bem fiscalizado, com penas duras, duríssimas para quem cometesse crime. Não quero dizer que os políticos devessem ser eunucos engordados a chocolates mas que fossem incorruptíveis por falta de necessidade e excesso de risco.

Em Portugal, temos o que temos e se temos tão pouco pelo menos temos políticos que proporcionam ao povo algo extremamente valioso que é a vontade de rir e a quem vive de fazer caricaturas uma fonte de inspiração quase inesgotável e de vez em quando aparecem grandes talentos que agarram em toda esta fantástica matéria prima que tanto abunda e moldam-na em verdadeiras pérolas de humor e foi o que fizeram estes senhores, companheiros da blogoesfera e que tenho muito, mas mesmo muito prazer de ajudar a divulgar:

http://projectosdiferidos.blogspot.com/2009/07/don-corleone.html




Projectos Diferidos-Don Corleone

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A minha Lua e a minha estrela Sol



Às vezes, parados num instante de tempo olhamos para trás e não conseguimos visualizar obra. É nestes momentos que paro e foco o horizonte e vejo e sinto que é apenas por cegueira e desalento que me abstenho daquilo que é tão obvio, tão cheio de verdadeira importância.

Eu se nada mais conseguir realizar, poderei sempre dizer com um orgulho desmedido, de mão no peito e cabeça bem erguida, enfrentando qualquer vento de dúvida e as vozes que me querem derrubar, que fiz germinar nesta passagem pelo mundo, nesta vida que sei ser finita, uma importância tão brilhante como a Lua e uma importância tão acalentadora como a estrela Sol.

À minha Lua nomeei de sabedoria em antecipação ao destino e revela-se por vezes brilhante e tão cheia de promessas, outras em crescente de querer ser ou decrescente de ainda não ser ou somente serena de uma nova descoberta, apenas desejo que possa para sempre alumiar os meus dias e que me venha ainda a considerar merecedor do aconchego da mão que lhe estendo.

À minha estrela Sol nomeei de soberana em antecipação ao destino e revela-se por vezes quente e tão cheia de conforto, outras efervescente de vontades ou vibrante de antecipação ou ainda capaz de consumir a vida num lapso, apenas desejo que possa para sempre aquecer os meus dias e que me continue a considerar merecedor do aconchego da mão que me estendeu.

Tão diferentes e tão próximas, tão distantes e tão parecidas, parcelas do céu que caminham na Terra, tão cheias de encanto e beleza e que quero continuar a ver crescer em brilho e calor e me fazem esquecer num momento o azedo das agruras da vida.
Sou se nada mais, motivo de inveja de todos os que já tem tudo mas que nada tem do tudo que eu já tenho.


Rod Stewart-Have I told you lately

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Sobre uma noite numa árvore



Gosto de me transvestir de negro, deixar que a seda de um casaco de penas me cubra o corpo, de abrir as asas e sentir o vento e esconder-me por entre o contraste do verde e observar e de vez em quando soprar os meus ressentimentos de ser mais o que sou do que aquilo que não serei.

Sentados no banco, de traves de madeira maltratadas pelo tempo, um casal de apaixonados troca olhares e promessas de eternidades e outras banalidades fúteis.

O rapaz de olhos ambiciosos e mãos aventureiras – Gosto mais de ti do que alguma vez gostei de alguém, isto tem que ser o amor! – A palavra basilar de qualquer linguagem, usada com mestria é chave para todas as portas abrir , usada com sabedoria é química para transmutar qualquer vontade.
A rapariga de olhos expectantes e mãos perdidas – Tu dizes isso a todas, sabes que eu quando não estou contigo é como se faltasse uma parte de mim, adormeço a pensar em ti, sonho contigo e a primeira coisa que me vêm à cabeça quando acordo é o teu rosto, isso é que é amor! – A palavra trivial de qualquer linguagem, usada com naturalidade é porta para todas as chaves abrir, usada com normalidade é vontade para transmutar qualquer química.
O rapaz – Sabes que não, eu desde que te conheci que me sinto a flutuar nas asas do desejo – Poesia de cordel inspirada em títulos de filmes noir, sempre eficiente.
A rapariga – O que tu desejas é o meu corpo, poderes saciar a tua tesão – Poesia de fusão inspirada em títulos de filmes porno, sempre eficiente.
O rapaz – Sabes que não, eu apenas quero poder estar contigo, assim sentir o teu cheiro, a tua presença. – construção de pontes…
A rapariga – Então porque é que insistes em pedir-me mais do que te posso dar? – Implementação de portagens…
O – Sabes que não, apenas não consigo deixar de te querer, de te ter completa, minha, queria sentir-me uma parte de ti – Alargamento de faixas…
A – Mas eu não estou preparada, não sei se alguma vez estarei, temos tempo - Restrições à circulação…
O – Mas eu não sei se assim consigo aguentar. – Prelúdio…
A – Talvez seja melhor então acabarmos. - Tocata e fuga…
O – Não porque eu amo-te. – Afirmação e negação.
A – Sim porque eu amo-te. – Negação e afirmação.

I remembered my friend Willy when he asked me, what was the best way to understand love and whispered in the wind: Just dance…


Lady Gaga-Just Dance

terça-feira, 21 de julho de 2009

Um leve adeus



Antecipo a necessidade de dizer adeus a partes importantes da minha vida e vagueio em pensamentos de como o vou fazer, de que forma marcarei aqueles momentos se tiver mesmo que os concretizar em palavras.

O adeus é definitivo apenas quando se concretiza em cerimonia fúnebre, noutras formas pode ser apenas uma pausa de sentidos, um virar de esquina sem afastares de horizontes ou um ultrapassar de incómodos, situações que se resolvem, rasgos de velhas cartas salpicadas de bolor e de fotos esquecidas na paisagem.

Quando um adeus é de dor, deixa um amargo na boca e na alma, puxa-nos a tristeza na antecipação da saudade, do recordar de um tempo que se passou e que resta na memória, partimos com vontade de ficar, ali, aqui, mais um bocadinho, arrastando os pés, como se a nossa lentidão de ir invertesse o sentido do futuro em direcção ao passado.

Quando um adeus é de rancor, deixa um alivio no desejo que a mudança nos traga a paz esperançada ou um novo caminho ou uma nova possibilidade de outras escolhas, a troca de ausências por reservas de preenchimento e queremos ir sem olhar para trás, sem querer a cristalização das lágrimas em sal.

Mas um adeus é um adeus, um acto inevitável de quebra, um acto de génese triste ancorado no passado, seja ele uma memória que se quer feliz ou fugaz.

Tim Buckley-Once I was

domingo, 19 de julho de 2009

Arrumações de verão


Sou uma pessoa desorganizada por defeito e convicção, costumo citar muitas vezes uma frase que não sei a quem pertence e que me acompanha desde a juventude: “a organização é a qualidade que resta aos medíocres”, não que me ache tão brilhante que faça da bagunça uma bandeira mas na realidade, comigo o provável é a criação natural de pilhas, de papel, de livros, de dvd’s, de roupa por lavar, de lixo para reciclar, de ideias a desenvolver, enfim serei o anticristo para os arrumadinhos desta vida e o inimigo público numero um para os burocratas e daqueles que fazem da metodologia sequencial o seu credo.

Como todos os desorganizados genéticos, eu consigo funcionar maravilhosamente dentro do meu caos, quanta vezes surpreendi os meus colegas e colaboradores desesperados pela perca de um documento, com um enfiar de mão numa enorme pilha de papéis de cantos desalinhados e sacar de lá, à primeira, o tão desejado e considerado perdido para todo o sempre, claro que com um sorriso trocista, saía a inevitável frase, tira uma cópia e devolve e quando estiveres à rasca, sabes que eu tenho sempre tudo à mão, nunca ninguém percebeu que possuo aquilo a que chamo de memória relacional, consigo memorizar eventos por associação com outros eventos, a posição do documento na pilha, porque me lembrava da sequência com que o empilhei.

Claro que como em tudo, existem limites, agora sinto que a minha vida está também ele toda amontoada numa pilha e que chegou a hora de começar a reduzi-la em dimensão a escrever etiquetas em emoções e necessidades, a emparteleirar algumas coisas e decidi começar por este blog, que se iniciou como um sem importância, passou por uma procura de identidade e por ser um escape emocional e que agora quero como um veiculo de divulgação daquilo que assustadoramente me vem à cabeça, sejam emoções ou comoções, lapsos de imaginação ou histórias que quero contar. Decidi criar algumas etiquetas e vou tentar desenvolver algumas séries de textos encadeados por temáticas.

Claro que os “Privilégios do Disparate” são para continuar, estes são os meus textos sem regra, escrita crua, pura e dura onde me encontro mais nas entrelinhas do que nas palavras, escritos com a pontinha da caneta, quase sem tocar no papel, sem correcções e para leitores sem preconceitos. O meu conto que ainda não tem nome está numa fase de ainda não saber por onde ir, mas há-de lá chegar. Os contos de Incontar, vão retornar brevemente, com as versões hardcore do Pinóquio e do Peter Pan. Quero voltar a fazer inquisitórios, que vejo como a forma mais divertida de partilha e interacção com quem me lê, com a promessa de os fazer pequenos, com seis a dez perguntas. Como este blog irá continuar a ser a minha válvula de escape, haverão textos mais intimistas, escritos com outros cuidados, de palavras escolhidas a cinzel e martelinho de escultor. Vou também retomar a minha trilogia dos passarinhos, no seu objectivo inicial de cruzar personagens estereotipados em situações comuns. Por fim o Puck que está muito de malas feitas para outras paragens, terá para si a irresponsabilidade da escrita de textos sobre relações, textos incómodos de sentimentos fortes diluídos em enganos e desencontros e infortúnio e sentimentos transvestidos.

Fica também a minha vontade de maior disponibilidade de partilha na visita aos vossos cantos, porque são eles que fazem parte da minha aprendizagem, têm sido com eles que tenho aberto tantas janelas e a felicidade de vos conhecer a alguns virtualmente e a outros de olhos nos olhos, na coisa enorme que é o vosso sorrir, bem ajam por me privilegiarem.

Na prova que qualquer um pode almejar a partilhar a vida em grande companhia, bastando a alguns chegar a um vulgar cargo público, aqui vos deixo uma musiquinha.

Carla Bruni - Quelqu'un m'a dit

terça-feira, 14 de julho de 2009

O Privilégio do Disparate – Parte incontável de uma série fora de série noutro lado qualquer que não é um lado qualquer

Vamos parar por um pouco, vazar todos os pensamentos para um copo cheio de água e ouvir esta melodia, são só 3 minutos…


Melody Gardot-Baby I'm a Fool

Podemos voltar agora a beber a água do copo e o resto pode ser encontrado aqui:
http://prisaodepalavras.blogspot.com/2009/07/o-privilegio-do-disparate-parte.html

sexta-feira, 10 de julho de 2009

É a vida


Costumo dizer que a melhor forma de resolver um grande problema é decompô-lo em problemas mais pequenos e que os problemas devem ser resolvidos em fila indiana e não em pistas de piscina. Há no entanto alturas da vida onde por muito que se tente estas teorias não conseguem ser aplicáveis e que tudo parece acontecer ao mesmo tempo como se de repente fossemos um íman de acontecimentos que nos ultrapassam em velocidade e nos deixam parados sem saber o que fazer ou com vontade de correr numa direcção com o risco de ficarem para trás decisões que vamos lamentar mais tarde termos deixado escapar naquele momento certo de oportunidade de resolução.

Claro que nos piores momentos da vida, tudo nos parece ampliado em importância e os pequenos desaires são vistos como grandes dramas e os problemas realmente graves como impossíveis, injustos, imorais, ingratos e sentimo-nos como folhas soltas no vento incontrolável da vida, como sementes sem futuro de crescimento, como bolsas de ar vazios de conteúdo, seres impotentes à espera da ajuda do tempo.

Este será, numa visão minimal e egoísta da vida, o meu ponto negro, aquele que se me oferece sem saída, forçado a decidir no calor do momento, o instante que sentimos que poderemos lamentar para o resto da vida e aqui me revejo a contemplar um horizonte indistinto que me puxa a dar o passo em frente na beira do precipício e abro os braços na fé que as asas vão nascer e crescer e aprenderei a voar antes de tocar o fundo do meu amanhã.

Àqueles que me sentem em falta, não me levem a mal, espero poder voltar em breve.


Michael Bublé-That’s life

terça-feira, 7 de julho de 2009

Serpenteios


Há quem diga que sou cruel.

Há quem ainda diga que fui a serpente que invadiu o Éden, o primeiro intriguista, o primeiro motivador, o primeiro empresário, o primeiro politico, o primeiro entertainer, talvez sim ou talvez não, mas não fui eu que criei as maçãs, nem a capacidade de poder pecar nem a fome do desejo. Eu sou apenas um egocêntrico semeador de dúvidas.

Qual o padrão com que se mede a dimensão de um desejo?

Qual a velocidade com que se dilui a sedução numa solução de realidade?

Qual é a cor com que brilha uma ilusão?

Qual é a velocidade com que se extingue uma paixão numa estrada de ausência?

Qual é a forma com que se reveste um desencanto?

Qual é o som de um coro de lágrimas de desalento?

Qual é a imagem que sobra de uma memória dum futuro incerto?

Qual é o peso da solidão de um cheiro que se esvai?

Sibilo por entre preconceitos, transformo em gelo a incapacidade de sentir, num empedrado de emoções, vivo o reviver do teu passado e deixo-te morrer mais um dia.


Duffy-Live and let die

sábado, 4 de julho de 2009

Actos criativos



Será que tudo o que pensamos ser original, não foi já inventado? Será que todas as ideias que aqui escrevo, não estão já escritas algures?

Este blog pretende ser um meio de comunicação de criatividade, o canal de exposição de alguém que se assume como uma personalidade rosa dos ventos, multipolar, que alinha palavras que por vezes reflectem o seu estado de espírito e a sua realidade, outras pura e simplesmente sem ancoras no mundo real, palavras de ser alegre e triste, louco ou génio, estúpido, frio, distante, sensível, apaixonado, desesperado ou aquilo com que os leitores o possam ou desejem se identificar. Deixei de escrever pelo prazer de escrever, escrevo pelo prazer de me lerem ou pelo prazer que dou a quem me lê e colo o meu prazer a esse prazer, este blog ou este acto criativo terminará no dia em que sentir que esse prazer se extinguiu.

Este blog, para poder continuar a existir teve que diminuir o seu ritmo, o seu batimento criativo, a periodicidade das publicações baixou para dez por mês e para abrir novos caminhos criativos aceitou um novo autor, que tem uma personalidade bem definida , a génese do personagem inventado por Shakespeare e desenvolvido por Hugo Pratt e Gaiman, uma mistura dos três.
Esse novo autor, não se pode confundir comigo, está limitado pelo seu perfil e essa limitação liberta-o para poder contar aqui histórias que eu não poderia contar e como seria de esperar não agradou a alguns enquanto que outros o adoraram e inspiram-se nele para também desenvolverem os seus actos criativos e acharam que ele os poderia ajudar e convidaram-no a participar num novo blog que pretende ser o portal para reinos imaginados, territórios de magia, um espaço onde tudo pode acontecer, onde o inesperado é o esperado.

Sempre que vos apetecer algo diferente, deixarem por um bocadinho de ser adultos com certezas, abram esta porta, podem entrar ou simplesmente espreitar.

http://midsumernightdreams.blogspot.com/


Kate Bush-Wuntering heights

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ervas daninhas? Morangos silvestres?


Eu sou velho pela memória dos teus impares, eu sou criança pela memória dos meus pares.

Eu sou a soma e a diferença de todos os cinzentos que hão-de existir. Eu não criei o homem, mas ensinei-lhe a arte do chocolate e de juntar ovos com açúcar e de destilar álcool a partir de frutos e bagas e cactos e sementes e tubérculos e inventei o ciúme e as danças que se dançam sem tocar os corpos, eu sou o mestre soprador de ventos e brisas de ideias e as ideias que sopro, são sempre boas e más, tal como o amor e o ódio são o mesmo sentimento visto de pontas diferentes da corda, as ideias que dou são dádivas, o que se faz com elas não sou eu que faço, eu apenas observo, não sou sagrado nem profano, não quero ser venerado, nem ignorado, nem odiado, nem amado até porque o amor e o ódio são o mesmo sentimento visto em momentos diferentes da história, todo o ódio regenera em amor se não o deixarmos consumir-nos, todo o amor degenera em ódio se o deixarmos consumir-nos.

Eu nunca sou a força que faz rodar a moeda, nem a face que se oculta, nem a face que se mostra, mas posso ser a moeda, gosto de ser a moeda. Na realidade ainda sou uma criança, não tenho objectivos, apenas interesses momentâneos, agora interesso-me por ti que me lês, estou a soprar-te ao ouvido uma ideia, uma pergunta, uma opção, baixinho, suave e vou esperar a tua escolha com um sorriso antecipado nos lábios.

Onde estás tu quando eu sonho?


Teardrop explodes-When I dream

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Midwinter daymare – Entering Puck



Há dias de inverno em que a luz do dia se ofusca de cinzentos, filtrada por negras nuvens que se escurecem e teimam em não se querer chorar em lágrimas de chuva. Nesses dias as criaturas que vivem na noite abandonam os buracos e saem das florestas sem recear os medos ou os homens.

De tempos a tempos as fadas e outros seres de mistério e poder, sem se saber porquê, apenas movidos pela vontade própria decidem revelar-se às arvores ou a quem lhes apetece, aos bichos rasteiros, animais colectores ou predadores e até aos seres que se intitulam de humanos.
Fizeram-no ao bardo poeta, num momento de generosidade, sobre a forma de sonho numa noite quente, sem brisas. Mostraram-se ao poeta em formas belas inspirando arte escrita sobre a forma de comédia.
Fizeram-no ao Veneziano adoptado, num momento de encanto, sobre a forma de fábula céltica em tempo de guerra. Mostraram-se ao contador em formas de enigma inspirando arte pintada sobre a forma de lenda.
Fizeram-no ao mestre dos sonhos, num momento de trapaça, sobre a forma de personagens secundários numa história principal. Mostraram-se ao sonhador em formas de negro inspirando arte gráfica sobre a forma de fantasia.
Mas as fadas e os faunos e os duendes e os trolls e as banshees podem assumir a forma que quiserem e é raro que se mostrem como criaturas de sonho e é raro que nos inspirem bons sentimentos, preferem mais ser personagens de pesadelo, elementos manipuladores que nos puxam os cordelinhos das emoções só por que lhes caímos em desgraça e nem poderemos entender os seus objectivos pelo menos com nossos padrões de compreensão.

Foi num dia deste inverno em que me escureci da cor do céu, que o vi pela primeira vez, um ser pequeno, a dar-me pela cintura com pernas de bode e corpo de macaco, de rosto sorridente, que mudava de face por entre o feio e o belo, pequenos chifres e orelhas pequenas e pontiagudas. Esfreguei os olhos na dúvida da aparição e ele não desapareceu e disse-me que era Puck o artista maldito, servo de confiança do rei Oberon e amante da rainha Titania e agora meu conselheiro para os dias difíceis que me iriam visitar, para não me preocupar que ia ser o meu melhor amigo. Tentei sacudir-me do sonho, mas era dia e não dormia, era finalmente a loucura a conquistar o seu direito de me possuir.

“Eu sou tanto o produto da tua imaginação, como tu és da minha, podes aceitar-me como um incomodo, uma comichão num sitio que não podes coçar em público ou uma dor que começa na cabeça e vai acabar no recto ou podemos ser parceiros, amigos, companheiros de folia e bebida e comida e festa, eu peço pouco e dou muito, dizem que dou sorte a quem me aceita e dizem que posso ser mau, maldoso, trapaceiro, enganador, traiçoeiro mas na realidade esta é a minha natureza, estarei aqui para ti, eu peço pouco e dou muito, agora apenas quero um pedacinho do teu espaço, ambiciono voltar a interagir com os homens, quero contar as minhas histórias, quero partilhar os teus leitores, quero que me libertes, que me venhas buscar a Dublin, serei o lúpulo no fundo de uma pint de Guiness, sabes que o lúpulo tem sexo e na Guiness o lúpulo é sempre feminino, eu posso ter muitas formas e nem sempre me apraz ser homem”

Acabei por ceder à minha loucura e fui a Dublin, queria libertar-me da minha imaginação delirante e bebi muitas Guiness e não o vi, nem o senti e regressei convencido que estava são, mas estava errado e agora este espaço deixou de ser só meu e sei que não voltará a ser o mesmo, o meu pesadelo acordado começa ou termina hoje…

The Pogues With The Dubliners-Irish Rover

terça-feira, 23 de junho de 2009

Ausência


Aos que tem prazer de me visitar peço desculpa pela minha ausência. Aos que tem prazer de receber a minha visita peço desculpa pela minha ausência.

Quem já me conhece, sabe que atravesso um período muito complicado da minha vida, que procuro atravessar um banco de nuvens negras com a esperança de emergir em renascimento e poder almejar de novo a ver o sol. Esta é talvez a fase mais difícil de todo este processo e não tem sido fácil e faz com que tenha que me ausentar deste espaço virtual mais do que gostaria. Agora vou ainda ter que me ausentar por razões profissionais por algum tempo, vou encomendar o meu destino às banshees e leprechauns na esperança de ainda encontrar o que cá vou abandonar.

Deixo-vos o espírito de como vou e para onde vou e um até já.


Clannad-Theme from Harry’s game