Acabei mesmo por levar a camisa à lavandaria, não sei porquê aquele cheiro que sai das lavandarias desperta em mim um processo hormonal qualquer que me leva a pensar em coisas diferentes de roupa limpa. A senhora foi profissional e não ofereceu garantias que as nódoas iam sair e eu perguntei-lhe se não se sentia tentada a analisar as manchas das coisas que lhe entregavam. Uma mancha vermelha, podia ser sangue seco, vestígios de um crime hediondo e ainda impune, outras manchas podiam ser histórias de amor ou restos de ódios, ciúmes, marcas de solidão ou lágrimas secas, queria saber se existia um código de ética dos lavadeiros que a impedisse de revelar os meus segredos se os descobrisse e riu-se ,muito embora eu estivesse a falar a sério.
Expliquei-lhe que a nódoa era de molho, o amarelado tinha que ver com a mostarda que era uma especiaria sem efeitos secundários comprovados, apenas um condimento que servia para alterar o sabor da comida, de a tornar mais afeiçoada ao meu paladar e que gostava de sentir na língua sabores amargos e se não se importava de eu voltar apenas daqui a uma semana porque o cheiro ali incomodava-me, não que cheirasse mal mas porque me fazia pensar em coisas que não me apetecia pensar e disse-me que sim que podia voltar quando quisesse e reiterou que não fazia promessas de que a nódoa saísse e eu fiquei contente porque não gosto que me prometam coisas, sinto-me sempre logo devedor e teimo em me desapontar porque facilmente crio expectativas de outras coisas.
Fui beber um café. Não consigo beber o café sem açúcar mas tento pôr pouquinho, assim a modos que meio pacotinho daqueles que sempre nos informam de qualquer coisa, aliás os pacotes são muito subvalorizados como meio de comunicação, eu enquanto mexo o café sempre leio tudo de ponta a ponta, absorvo toda e qualquer informação, se me quiserem convencer de algo, esta é a altura ideal, aquela onde estou mais permeável a comprar um par de sapatos novos, uma estante para o escritório, aderir a uma nova religião ou votar naquele candidato que tudo promete e nada cumpre.
Esta minha predisposição de bicho manso e convencível tem muito a ver com o dilema com que me debato naquele instante em que pego na colher e a mergulho no líquido escuro e fumegante e fico sem saber se a devo rodar no sentido dos ponteiros do relógio ou ao contrário. Nunca consegui perceber qual é o mais eficiente e porque é que de uma maneira geral acabo por rodar sempre no sentido certo ou se calhar no errado, mas o que é certo é que o açúcar se dissolve e o café arrefece, porque eu nem gosto muito do café quente e faz-me impressão aquelas pessoas que pedem uma chávena escaldada, mais valia porem a língua debaixo da mangueira de vapor da maquineta e engolirem depois, ninguém me convence que isso não estraga o gosto do café, que as papilas gustativas não ficam dormentes e com vontade de emigrarem para outra boca de pessoa com mais juízo.
Terei que um dia destes voltar a falar de café, fiquei viciado já em adulto e tenho uma relação moderna e liberal com o café, não que consiga funcionar sem ele, mas se não o beber não ando a cair aos tombos, simplesmente o cérebro recusa-se a somar mais do que dois algarismos de um digito de cada vez e sou incapaz de articular uma explicação simples seja do que for, mas não fico desesperado com sintomas de ausência se a maquina estiver avariada ou se não tiver trocos, pura e simplesmente disfarço, faço cara de poucos amigos, daquelas que é melhor não me dizer nada porque a resposta sai torta e hoje consegui não escrever nada relacionado com loucura o que quer dizer que começa a fazer parte da minha normalidade.
Lisa Ekdahl-Cry me a river