sábado, 15 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 5


Saio de casa e avisto ao perto, mesmo do outro lado da rua a mulher do outro lado da rua, o cabelo não me parece tão amarelo como da outra vez que me avistou simples e nu e sinto-me frágil porque agora estou vestido e ainda não protegido o suficiente pela minha loucura, não me apetece dizer olá nem ser julgado pelos seus olhos que adivinho castanhos e fujo na direcção contrária como se houvesse uma direcção certa e perco-me pelo caminho.

Quando dou por mim estou por onde cresci, no velho bairro onde larguei a pele de menino. Algumas casas estão exactamente como as deixei outras não reconheço, as ruas parecem-me mais estreitas, as poucas árvores cansadas, há muitos carros que usurpam os passeios que eram nossos, outrora largos o suficiente para caberem balizas feitas de imaginação e montes de pedras soltas, agora divididos por uma fileira de tubos metálicos que garantem que sobra espaço até à parede para um percurso em fila indiana, nem o suficiente para um passeio de mão dada entre dois amantes ou de um pai que protege na sua o calor da mão do filho.

A velha escola primária onde nunca andei ainda lá está, a estatística do alfabeto empurrou-me para outra mais longe e eu na altura não me importei porque me sentia mais livre, menos vigiado, era já assim um ser que gostava de voar em navegação solitária sem controlo e a distância etiquetava-me como anónimo aos olhos críticos. Sempre preferi ser índio ou bandido ou procurar em vez de esconder ou inventar novos jogos que só eu entendia as regras. Não me lembro de ser um aluno brilhante, duvido que a minha professora se lembre sequer de mim se ainda for viva e eu também não me recordo do seu nome ou do seu rosto mas lembro-me que tinha óculos que lhe ampliavam os olhos, tanto que me gravou na memória um rosto só com olhos que me analisavam e avaliavam e julgavam e castigavam porque eu não era um aluno brilhante, apenas mais um desgraçado de futuro banal em construção e ela não era paga para entender que tinha que cavar mais fundo para puxar o que eu podia ser, que eu tinha inteligência selectiva ou loucura latente e que perdia a oportunidade de um dia poder dizer com orgulho às outras velhas na fila da mercearia que tinha sido a minha mestra e tirar uma amarela foto da carteira e mostrar que eu era este aqui de ar tímido e sorriso traquinas mas já com aquele brilho dos que vão ser grandes na vida.

O nosso poiso favorito de brincadeira era um terreno vazio mesmo na esquina e a que chamávamos de largo porque era grande e nunca tivera nenhuma construção e por isso não tinha muros nem vedações e nós jardinávamos com os pés e garantíamos que as ervas daninhas não nos roubavam o espaço e ali nasceram mil aventuras e cidades desenhadas na areia ladeadas por estradas sem imite de velocidade onde partilhávamos os carrinhos comprados na feira ou pistas de obstáculos para caricas e covinhas para berlindes ou rectângulos de saltar ao pé-coxinho. Hoje no meu largo está um prédio onde habitam pessoas que não me conhecem e não me pagam aluguer pelos sonhos e gargalhadas que ali deixei.

Tento reconhecimento nas caras com que me cruzo mas sei que o tempo nos transforma noutras imagens e que um a um todos partimos para outras vidas e outros lugares e que a morte substitui vizinhos e que aquela à janela já não é a velha bisbilhoteira que denunciava as nossas maldades em troca de castigos que me proibiam de sair nas tardes de mais chuva ou mais frio ou mais calor e em que eu aproveitava para ler tudo o que podia, gostava hoje de lhe poder agradecer ter feito mais por mim do que aquela professora de quem só me lembro dos olhos.


A Flock Of Seagulls - I Ran

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 4


Saem de um pequeno buraco. Seguem num carreiro que se estende como uma cobra ínfima feita de minúsculas partes que se agitam. Seguem numa ordem de ir e vir sem aparente nexo. Seguem sem sons de comando ou palavras de incentivo. Seguem sem notar que as observo no seu seguir, no seu agitar, na sua ordem sem nexo, no seu silêncio.

Agarro num pequeno pau e começo a fazer riscos no chão como obstáculos. No inicio alguma desordem e um debandar ao longo dos sulcos e depois de novo o carreiro se refaz e a minha acção é anulada pela vontade das formigas. Coloco o pau no seu caminho separando umas das outras e uma vez mais agitação, confusão e depois de novo o carreiro se refaz com os insectos habilmente a treparem o meu nada e a sua montanha.

Ponho-me a pensar se me conseguem ver, se sentem a minha gigantesca presença, se percebem que as podia esmagar sem esforço, apenas elevando o pé e deixando a gravidade fazer o resto. Podia esmagá-las por capricho ou porque sou louco ou porque queria demonstrar que tenho poder perante seres que me deviam venerar, porque neste instante eu sou quem pode decidir se continuam a ser formigas em carreiro ou pedaços desfeitos. Eu sou o mais perto de Deus que estas formigas podem alcançar, posso trazer-lhes abundância de comida e água, posso aligeirar-lhes o caminho ou posso destruir o seu mundo.

Imagino-me como formiga e elevo os olhos à procura do meu Deus. O que me distingue das formigas é a capacidade de pensamento ordenado, de aceitar, ignorar ou negar um Deus que poderá ou não ter o poder de pegar num pequeno pau e varrer o meu mundo, de me fazer feliz ou miserável ou louco ou mais feliz e menos miserável por me fazer louco e se me imaginar formiga e parte da raça humana que fez deste planeta o seu formigueiro e assumiu comportamentos de insecto em carreiro então poderá haver agora um pé levantado sobre mim pensando se me esmaga ou deixa viver mais um dia.

Debruço-me sobre as formigas, quase a tocar-lhes com o nariz e não noto nenhuma alteração de comportamento pela minha proximidade e sopro suavemente e faço uma voar uns centímetros e aterrar e voltar ao carreiro como se nada se tivesse passado e começo a cantar uma canção qualquer que me andava na cabeça desde manhã. É uma canção sem nenhum significado, apenas uma melodia que me ocupa o pensamento e me faz esquecer por uns momentos ideias teológicas de escalas finitas, sou Deus na minha imensidão perante o carreiro, sou formiga na minha insignificância perante o que desconheço e me faz pensar em melodias sem importância.

Sacudo o pó que se pegou às calças e abandono o carreiro à sua sorte ou à vontade de outros Deuses mais competentes que eu ou mais cruéis ou com outras vontades de agir, substituo o cantar pelo silvo de um assobio, agora a canção já só tem melodia e recordo que era uma que o meu avô gostava de assobiar, escrita por alguém estrangeiro e que ouvira num filme sem cores, no tempo em que o cinema eram actores e jogos de sombras e começo a preocupar-me com esta loucura que me faz pensar de mais em coisas sérias e na minha importância e no meu avô e na forma simples com que viveu a vida e na forma inaceitável como aceitou a inevitabilidade da morte como a vontade de um Deus que me dizia imenso à sua dimensão.

Velho tonto… Nada é mais do que factores de escala e para me provar da minha grandeza volto a trás e ponho a mão no bolso e encontro alguns farelos do bolo de arroz que comi de manhã e jogo-os na direcção do carreiro. Hoje fui um Deus generoso, trouxe abundância e não exigi devoção, nem templos nem sacrifícios e o carreiro desfaz-se numa dança de insectos que se atarefa em redor da minha bondade e sigo por ali abaixo a assobiar uma velha canção.


Zeca Afonso-A formiga no carreiro

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 3


Acordei hoje com as sombras a bailar no tecto do quarto. Nem reparei na persiana aberta quando me deitei e o Sol aproveitou para entrar-me pela janela e fazer uma visita. As sombras despertam-me sentimentos de carícia, o Sol é um bom amigo, gosto de luz e de calor e de sombras, essas contam-me histórias que estão dentro d e mim e que se animam em vénia à minha imaginação.

Agora vejo silhuetas de pessoas que sei que não existem e que parecem conversar sem motivo, pelo prazer da conversa, não ouço as palavras porque as sombras não tem som, mas sei que não falam de mágoas nem solidão nem de ódio, não sei se falam de amor mas não me importa e penso que gostaria de ser uma sombra vagante, de me poder colar a sítios e pessoas e ficar ali como parte de algo feliz, como observador que se move num referencial perfeito.

As sombras mudam e como que se fundem num beijo, sei que agora não há som mesmo não havendo e que neste meu delírio de uma manhã solarenga me deixo enrolar pela preguiça que me mantém colado à cama com os olhos a saltar entre a realidade e a vontade de voltar a sonhar. O despertador toca no momento em que uma das sombras se afasta lentamente da outra como alguém que parte sem dor e decido que também eu tenho que partir porque esta loucura que sinto crescer de dia para dia ainda não me alimenta.

Abro a janela e avisto sobre o muro de um quintal sobranceiro um melro de bico alaranjado, as penas negras agitam-se irrequietas e a ave parece olhar para mim e reconhecer-me como o doido do prédio em frente, invejo-lhe as asas e a irresponsabilidade e levanta voo numa direcção qualquer. Reparo nesse instante que estou completamente nu e que numa varanda do outro lado da rua uma mulher de cabelo pintado de amarelo me lança um sorriso trocista, aceno-lhe sem me cobrir.

Não há mais sombras no tecto do quarto, apenas uma mancha uniforme como um livro com uma só palavra escrita e ponho-me a pensar que palavra escolheria eu se apenas pudesse escrever uma só palavra, não seria amor nem seria ódio e acho estranho ser a segunda vez que me vem à cabeça hoje essas palavras e procuro outras palavras e fico cheio de palavras e sem palavras e decido que se tivesse que escolher seria apenas palavra, porque essa me daria o maior poder do mundo, porque em si encerra todas as outras.

Às vezes penso se devo recear as sombras, se elas não existem apenas para esconder luz ou se projectam para me ocultar a verdadeira cor das coisas, serei eu dono da minha sombra? Poderei ser eu responsável perante alguém pelas cores e luz que ela esconde dos outros? Agora aqui não tenho sombra definida, apenas uma mancha ténue que se espalha de mim e morre sem eu perceber, tenho que sair daqui para lhe dar mais forma, regar-me de luz para que me possa contar a sua história e explicar o que pretende de mim.

Sinto-me angustiado por não me sentir de outra forma e recordo-me do sorriso trocista da mulher do cabelo amarelo, o que me dirá quando se cruzar comigo na rua? Talvez o mesmo que o melro quando voar sobre mim, nada, ou talvez me diga que me viu lobo na pele de um cordeiro ou cordeiro na pele de um lobo, que me deseja ou que gostaria de poder apagar a minha imagem da sua visão. Tento lembrar-me do seu rosto mas apenas vejo o cabelo amarelo ou seria o sol que o pintou? O sol hoje acordou-me com sombras que se enamoraram no tecto do meu quarto e pintou de amarelo o cabelo de uma mulher que me viu vestido na minha nudez e me sorriu.

Hoje vesti-me de branco para poder honrar o sol e andei sempre sobre a minha sombra.

Nota: Atendendo a vários pedidos público o texto completo.

Mike Oldfield-Moonlight Shadow

domingo, 9 de agosto de 2009

O Privilégio do Disparate – Nono sinfónico de cariz industrial com laivos de arquitecto louco projectando catedrais sobre o tecto do mundo


Eu gosto de comer peixe. Hábito só de adulto que em puto aquilo tinha muitas espinhas e não era comida que se apresentasse sem riscos de birra e horas a imaginar que o prato era um espaço de aventura com as batatas e os legumes a tomarem a forma de selvas inexploradas e aquela coisa branca e esponjosa uma alcateia de bichos ferozes que tinham que ser esmagados e no final engolidos pelo ser supremo, futuro imperador de uma cadeia de lojas de brinquedos e fábricas de chocolates, qual bombeiro ou astronauta ou polícia, isso era para quem não tinha imaginação e eu disso sempre tive de sobra, nunca soube foi o que fazer com ela.

Voltando ao peixe… Eu gosto de peixe frito, se forem peixitos caninhos ou um sável ou uma bela xaputa que foi um peixe que sempre me deu vontade de rir por causa claro está do nome e era o peixe favorito da minha avó que me ensinou a comer aquelas partes escuras da cabeça que são uma delicia, mas ria que nem um sacana cada vez que ela dizia que hoje havia xaputa frita para o almoço e era assim ainda palmo e meio de gente mas já tinha maldade no corpo que eu isso também sempre tive. O problema dos peixinhos fritos são as espinhas que eu por mais pequeninas e insignificantes não consigo mesmo engolir, tenho um trauma com as espinhas, penso que posso sufocar com aquilo espetado e demoro horas a separa-las o que me torna uma companhia desequilibrada para o almoço com o pessoal todo já a beber café e eu ainda de faca e garfo na mão e olhos esbugalhados a dissecar peixes e por falar em café já falarei disso mais tarde.

Mas o que gosto mesmo é de peixe grelhado, sobretudo se for escalado, sei que os puristas me dirão que o bom peixe grelhado se deve comer sem que o fogo toque na carne, mas eu gosto e pronto e já agora acompanhado de um bom repolho salteado ou umas migas de pão em forma de bolo com muito alho e uma salada mista com tomate e alface e pimento assado e cebola doce regado com uma sangria feita com vinho verdadeiro e muita fruta e já agora em agradável companhia, com risos e histórias e o que eu gosto de rir enquanto como e de ouvir contar histórias, é garantia de uma boa digestão. Podia escrever uma tese sobre a arte de comer peixe grelhado ou falar de sardinhas que é outra iguaria que só comecei a apreciar já galifão ou falar de bacalhau que é na realidade a grande herança que os Portugueses irão deixar ao mundo assim o bicho não se extinga ou se torne apenas acessível a quem ganhe o euro-milhões o que aliás me leva a considerar que o nosso governo deveria pensar seriamente na problemática do futuro do bacalhau, começar por o tornar património nacional, instituir institutos e confrarias e distinções honorificas e títulos de nobreza a quem apresentasse novas formas de o confeccionar e garantir a sua continuidade nem que tenha de ser declarando guerra à Noruega e anexando aqueles mares que deviam ser nossos, ficassem lá eles com o petróleo que não me faz falta nenhuma.

De bacalhau gosto de qualquer maneira, desde a simples punheta de bacalhau que merece que explique como eu a faço e sei que virão muitos dizer que não é nada assim, mas desculpem lá a brejeirice, punhetas cada um bate como sabe e pode e eu desfio o bacalhau cru em lascas e ponho a demolhar pouco tempo e depois com o punho espremo e escorro a água e vai para uma tigela daquelas fundas de preferência amarela e não me perguntem porquê, mas uma boa punheta de bacalhau tem que ser feita em tigela amarela e depois é só temperar com azeite e vinagre e cebola e alho porque o alho está para o bacalhau como os orégãos estão para os caracóis e a canela para o arroz-doce ou para a encharcada. Pode ser cozido com batatas e grão, assado, à Zé-do-Pipo outro que devia fazer parte dos nossos livros de história ou à lagareiro ou com natas ou aldrabado, nunca encontrei uma maneira de confeccionar bacalhau que não tenha gostado e olhem que bem tenho procurado.

Não vou falar de sobremesas para não estragar a linha mas quero falar de café, porque alguém me desafiou a falar de invenções importadas de outro países com café, para mim beber café é beber uma bica ou um cimballino como lhe chama a malta do porto e leva dois l’s sim senhora porque a expressão é do povo em honra das maquinetas que o tiravam e que passe a publicidade ainda hoje por ai andam e continuam a ter a marca Cimballi. Temos em Portugal as melhores misturas de café do mundo, sabemos da arte de o torrar então porque é que inventamos? Eu aceito que nas lojas do Clooney se vende bom café e que as cápsulas preservam e que o marketing é fabuloso e também aderi, mas não é a isso que me refiro, falo daquelas cadeias que servem baldes de café em copos de papel ao preço de um bilhete de cinema e de um pacote dos grandes de pipocas. Eu sempre achei que em Portugal não tinham hipótese, porque o povo nunca gastaria mais do que algumas dezenas de cêntimos na biquita, mas não é que começam a aparecer por aí como cogumelos e o rebanho faz bicha. Lá me argumentaram que fazem um bom capuccino, para mim bebida de maricas, basta atender ao nome e da forma como é feito em meia chávena de mau café e meia de leite batido em espuminha, perceberam bem em espuminha com uma vareta com um arame que vibra na ponta e que transforma o leite numa coisa que só serve para se pegar ao lábio superior e nos envergonhar perante quem nos assiste a beber aquilo e o nome deriva de uns frades pequeninos e carecas que não tendo muito que fazer o inventaram. Ainda consigo perceber que uma senhora de gostos delicados, munida de lencinho para não deixar mal entendidos o consiga apreciar mas homem que é homem gosta de bacalhau e sardinhas e uma boa bica para terminar.

Sobre a música de hoje, roubei à Ana do sul, porque me apaixonei por esta Espanhola de voz caliente e como hoje falei de paixões pareceu-me apropriado…


Bebe - Siempre me quedara

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 2



Acabei mesmo por levar a camisa à lavandaria, não sei porquê aquele cheiro que sai das lavandarias desperta em mim um processo hormonal qualquer que me leva a pensar em coisas diferentes de roupa limpa. A senhora foi profissional e não ofereceu garantias que as nódoas iam sair e eu perguntei-lhe se não se sentia tentada a analisar as manchas das coisas que lhe entregavam. Uma mancha vermelha, podia ser sangue seco, vestígios de um crime hediondo e ainda impune, outras manchas podiam ser histórias de amor ou restos de ódios, ciúmes, marcas de solidão ou lágrimas secas, queria saber se existia um código de ética dos lavadeiros que a impedisse de revelar os meus segredos se os descobrisse e riu-se ,muito embora eu estivesse a falar a sério.

Expliquei-lhe que a nódoa era de molho, o amarelado tinha que ver com a mostarda que era uma especiaria sem efeitos secundários comprovados, apenas um condimento que servia para alterar o sabor da comida, de a tornar mais afeiçoada ao meu paladar e que gostava de sentir na língua sabores amargos e se não se importava de eu voltar apenas daqui a uma semana porque o cheiro ali incomodava-me, não que cheirasse mal mas porque me fazia pensar em coisas que não me apetecia pensar e disse-me que sim que podia voltar quando quisesse e reiterou que não fazia promessas de que a nódoa saísse e eu fiquei contente porque não gosto que me prometam coisas, sinto-me sempre logo devedor e teimo em me desapontar porque facilmente crio expectativas de outras coisas.

Fui beber um café. Não consigo beber o café sem açúcar mas tento pôr pouquinho, assim a modos que meio pacotinho daqueles que sempre nos informam de qualquer coisa, aliás os pacotes são muito subvalorizados como meio de comunicação, eu enquanto mexo o café sempre leio tudo de ponta a ponta, absorvo toda e qualquer informação, se me quiserem convencer de algo, esta é a altura ideal, aquela onde estou mais permeável a comprar um par de sapatos novos, uma estante para o escritório, aderir a uma nova religião ou votar naquele candidato que tudo promete e nada cumpre.

Esta minha predisposição de bicho manso e convencível tem muito a ver com o dilema com que me debato naquele instante em que pego na colher e a mergulho no líquido escuro e fumegante e fico sem saber se a devo rodar no sentido dos ponteiros do relógio ou ao contrário. Nunca consegui perceber qual é o mais eficiente e porque é que de uma maneira geral acabo por rodar sempre no sentido certo ou se calhar no errado, mas o que é certo é que o açúcar se dissolve e o café arrefece, porque eu nem gosto muito do café quente e faz-me impressão aquelas pessoas que pedem uma chávena escaldada, mais valia porem a língua debaixo da mangueira de vapor da maquineta e engolirem depois, ninguém me convence que isso não estraga o gosto do café, que as papilas gustativas não ficam dormentes e com vontade de emigrarem para outra boca de pessoa com mais juízo.

Terei que um dia destes voltar a falar de café, fiquei viciado já em adulto e tenho uma relação moderna e liberal com o café, não que consiga funcionar sem ele, mas se não o beber não ando a cair aos tombos, simplesmente o cérebro recusa-se a somar mais do que dois algarismos de um digito de cada vez e sou incapaz de articular uma explicação simples seja do que for, mas não fico desesperado com sintomas de ausência se a maquina estiver avariada ou se não tiver trocos, pura e simplesmente disfarço, faço cara de poucos amigos, daquelas que é melhor não me dizer nada porque a resposta sai torta e hoje consegui não escrever nada relacionado com loucura o que quer dizer que começa a fazer parte da minha normalidade.


Lisa Ekdahl-Cry me a river

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 1

Acordei cedo…. Cedo para quem se deitou tão tarde e dormira apenas quatro horas intercaladas por aquela sensação de intermitência entre estados de consciência e sonho. Levantei-me de arrasto para a casa de banho e olhei o rosto reflectido no espelho, as manchas escuras debaixo dos olhos escavavam-se na pele e enchi a banheira, despi-me e entrei na água. Fechei os olhos e comecei a sentir frio, abri a torneira de água quente e o calor aumentou aos poucos até me incomodar, voltei a fechar a torneira.

O corpo submerso, as pernas arqueadas, fora da água, a superfície criava ondas minúsculas a cada respiração, imaginei que a água se tinha transformado em gelatina solidificada à volta do meu corpo, não ousava mexer-me para não romper a coesão perfeita entre o liquido e aquela massa de carne. Somos massas de carne que rompemos coesões de fluidos ou gases quando nos movemos e movemo-nos porque somos dotados de vontade e a vontade é o que nos separa do irracional e a racionalidade faz-me equacionar porque razão estou aqui mal dormido e só nesta banheira de água que me cobre toda a pele, do pescoço até às ancas.

De repente… O que eu gosto dos meus repentes, são aqueles momentos em que tudo fica claro, todas as boas decisões que tomei na vida foram sequencias e consequências de repentes, são aqueles momentos em que não tenho mais do que certezas e foi naquele repente em que ficou claro e que tive a certeza de que estava a ficar louco.

Fiquei feliz com a descoberta, senti-me aliviado, ainda não estava louco, apenas a caminho e isso permitia-me avaliar os meus pensamentos, mesmo os mais estranhos e bizarros, como normais para um louco em potencial, a partir deste instante o mundo mudou de cor, já não era um patinho feio mas um cisne mesmo feio e tudo o resto havia de caber debaixo desta etiqueta. O que fazer com esta descoberta fantástica? Tinha que registar este processo evolutivo, deixar testemunho, fazer um diário que não começasse por querido diário mas por hoje comecei o meu caminho para uma doce e saudável loucura.

Saí para a rua e assim que pisei o passeio uma pessoa, não quero perder significado por a identificar como homem ou mulher ou gorda ou magra ou baixa ou alta, uma pessoa comum que lhe faltava uma referencia e que me perguntou as horas ao que eu respondi que não usava relógio e que o tempo era uma coisa relativa e à qual dávamos demasiada importância, considerava o facto de os relógios serem redondos como uma fraude porque se o tempo existe ele estende-se em comprimento e nunca em retorno ao ponto de onde partiu e lembro-me também de ter falado noutras coisas que agora já não me lembro e que a pessoa me virou costas e abanou a cabeça e foi perguntar o mesmo a outra pessoa que estendeu o pulso e a enganou porque passamos a vida a enganarmo-nos uns aos outros mesmo que não nos demos conta disso.

No meu primeiro dia como louco ou sem excesso de pretensão como aprendiz de louco ou louco em estado embrionário, pouco mais foi digno de registo neste meu diário, salvo talvez que jantei um daqueles meus esparguetes aldrabados com ovos mexidos com tudo o que encontrei no frigorifico e muita pimenta e uma punheta de mostarda, mas não sei ainda se isto é um acontecimento digno de aqui ficar ou se apago depois e como de costume manchei a camisa a chupar a massa e não sei se as nódoas de mostarda saem com uma lavagem normal ou se é melhor ir à lavandaria amanhã, joguei-a para um canto e decidi que pensaria nisso depois.


Nota: Apenas irei publicar aqui algumas entradas deste diário, o resto digam-me o que fazer com elas.



Jason Mraz-lucky i'm in love with my best friend

domingo, 2 de agosto de 2009

Uma vez no outro lado

Hoje por aqui as palavras conduzem a outro lado:

http://prisaodepalavras.blogspot.com/2009/08/na-segunda-pessoa.html

Dias cinzentos inspiram historias cinzentas e apetecem sons tristes…


Eric Clapton-Tears in heaven

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Politiquices e cócegas no umbigo


Quem por aqui passa regularmente sabe que não costumo falar de politica. Não que não tenha consciência cívica ou opinião sobre o assunto, mas apenas porque há muito que me desencantei com esta classe de governantes e opositores e outros insectos que gravitam em torno do tão apetecível naco que é o poder. Sou como aquele que tendo sido um crente devoto, de repente, tem uma situação de vida tão injusta, tão inexplicável, tão imoral que deixa de acreditar em Deus, porque a alternativa seria ter de o classificar como aldrabão, cruel e trocista.

Sempre achei que aqueles que abraçam as causas do serviço publico o deveriam fazer por devoção, vocação ou aptidão, nenhum estudante teria acesso a um curso de medicina, como futuro responsável pelo bem maior que é a vida humana, sem que testes de aptidão comprovassem a sua vocação, da mesma forma para se fazer carreira na vida pública, como politico e possível gestor e governante teria que haver da parte de quem escolhe esta carreira uma verdadeira devoção e sentido de causa e uma vez mais testes que comprovassem e legitimassem essa carreira.

Assumindo como legitimo a possibilidade de alguém poder ter um harém, tem que se aceitar que o staff de suporte ou sejam mulheres ou eunucos, a imoralidade de uma situação é consequência na outra. Da mesma forma que a quem começa a trabalhar numa fábrica de chocolates lhe é permitido e incentivado a comer o que lhe apetecer, para que enjoe depressa.
Tudo isto para dizer que aos políticos deveria ser dada uma retribuição justa pelo serviço que prestam à população e ao País e que lhes permitisse viver uma vida muito confortável e ponto… tudo muito bem definido, sem qualquer acesso a fontes externas de riqueza e claro bem fiscalizado, com penas duras, duríssimas para quem cometesse crime. Não quero dizer que os políticos devessem ser eunucos engordados a chocolates mas que fossem incorruptíveis por falta de necessidade e excesso de risco.

Em Portugal, temos o que temos e se temos tão pouco pelo menos temos políticos que proporcionam ao povo algo extremamente valioso que é a vontade de rir e a quem vive de fazer caricaturas uma fonte de inspiração quase inesgotável e de vez em quando aparecem grandes talentos que agarram em toda esta fantástica matéria prima que tanto abunda e moldam-na em verdadeiras pérolas de humor e foi o que fizeram estes senhores, companheiros da blogoesfera e que tenho muito, mas mesmo muito prazer de ajudar a divulgar:

http://projectosdiferidos.blogspot.com/2009/07/don-corleone.html




Projectos Diferidos-Don Corleone

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A minha Lua e a minha estrela Sol



Às vezes, parados num instante de tempo olhamos para trás e não conseguimos visualizar obra. É nestes momentos que paro e foco o horizonte e vejo e sinto que é apenas por cegueira e desalento que me abstenho daquilo que é tão obvio, tão cheio de verdadeira importância.

Eu se nada mais conseguir realizar, poderei sempre dizer com um orgulho desmedido, de mão no peito e cabeça bem erguida, enfrentando qualquer vento de dúvida e as vozes que me querem derrubar, que fiz germinar nesta passagem pelo mundo, nesta vida que sei ser finita, uma importância tão brilhante como a Lua e uma importância tão acalentadora como a estrela Sol.

À minha Lua nomeei de sabedoria em antecipação ao destino e revela-se por vezes brilhante e tão cheia de promessas, outras em crescente de querer ser ou decrescente de ainda não ser ou somente serena de uma nova descoberta, apenas desejo que possa para sempre alumiar os meus dias e que me venha ainda a considerar merecedor do aconchego da mão que lhe estendo.

À minha estrela Sol nomeei de soberana em antecipação ao destino e revela-se por vezes quente e tão cheia de conforto, outras efervescente de vontades ou vibrante de antecipação ou ainda capaz de consumir a vida num lapso, apenas desejo que possa para sempre aquecer os meus dias e que me continue a considerar merecedor do aconchego da mão que me estendeu.

Tão diferentes e tão próximas, tão distantes e tão parecidas, parcelas do céu que caminham na Terra, tão cheias de encanto e beleza e que quero continuar a ver crescer em brilho e calor e me fazem esquecer num momento o azedo das agruras da vida.
Sou se nada mais, motivo de inveja de todos os que já tem tudo mas que nada tem do tudo que eu já tenho.


Rod Stewart-Have I told you lately

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Sobre uma noite numa árvore



Gosto de me transvestir de negro, deixar que a seda de um casaco de penas me cubra o corpo, de abrir as asas e sentir o vento e esconder-me por entre o contraste do verde e observar e de vez em quando soprar os meus ressentimentos de ser mais o que sou do que aquilo que não serei.

Sentados no banco, de traves de madeira maltratadas pelo tempo, um casal de apaixonados troca olhares e promessas de eternidades e outras banalidades fúteis.

O rapaz de olhos ambiciosos e mãos aventureiras – Gosto mais de ti do que alguma vez gostei de alguém, isto tem que ser o amor! – A palavra basilar de qualquer linguagem, usada com mestria é chave para todas as portas abrir , usada com sabedoria é química para transmutar qualquer vontade.
A rapariga de olhos expectantes e mãos perdidas – Tu dizes isso a todas, sabes que eu quando não estou contigo é como se faltasse uma parte de mim, adormeço a pensar em ti, sonho contigo e a primeira coisa que me vêm à cabeça quando acordo é o teu rosto, isso é que é amor! – A palavra trivial de qualquer linguagem, usada com naturalidade é porta para todas as chaves abrir, usada com normalidade é vontade para transmutar qualquer química.
O rapaz – Sabes que não, eu desde que te conheci que me sinto a flutuar nas asas do desejo – Poesia de cordel inspirada em títulos de filmes noir, sempre eficiente.
A rapariga – O que tu desejas é o meu corpo, poderes saciar a tua tesão – Poesia de fusão inspirada em títulos de filmes porno, sempre eficiente.
O rapaz – Sabes que não, eu apenas quero poder estar contigo, assim sentir o teu cheiro, a tua presença. – construção de pontes…
A rapariga – Então porque é que insistes em pedir-me mais do que te posso dar? – Implementação de portagens…
O – Sabes que não, apenas não consigo deixar de te querer, de te ter completa, minha, queria sentir-me uma parte de ti – Alargamento de faixas…
A – Mas eu não estou preparada, não sei se alguma vez estarei, temos tempo - Restrições à circulação…
O – Mas eu não sei se assim consigo aguentar. – Prelúdio…
A – Talvez seja melhor então acabarmos. - Tocata e fuga…
O – Não porque eu amo-te. – Afirmação e negação.
A – Sim porque eu amo-te. – Negação e afirmação.

I remembered my friend Willy when he asked me, what was the best way to understand love and whispered in the wind: Just dance…


Lady Gaga-Just Dance

terça-feira, 21 de julho de 2009

Um leve adeus



Antecipo a necessidade de dizer adeus a partes importantes da minha vida e vagueio em pensamentos de como o vou fazer, de que forma marcarei aqueles momentos se tiver mesmo que os concretizar em palavras.

O adeus é definitivo apenas quando se concretiza em cerimonia fúnebre, noutras formas pode ser apenas uma pausa de sentidos, um virar de esquina sem afastares de horizontes ou um ultrapassar de incómodos, situações que se resolvem, rasgos de velhas cartas salpicadas de bolor e de fotos esquecidas na paisagem.

Quando um adeus é de dor, deixa um amargo na boca e na alma, puxa-nos a tristeza na antecipação da saudade, do recordar de um tempo que se passou e que resta na memória, partimos com vontade de ficar, ali, aqui, mais um bocadinho, arrastando os pés, como se a nossa lentidão de ir invertesse o sentido do futuro em direcção ao passado.

Quando um adeus é de rancor, deixa um alivio no desejo que a mudança nos traga a paz esperançada ou um novo caminho ou uma nova possibilidade de outras escolhas, a troca de ausências por reservas de preenchimento e queremos ir sem olhar para trás, sem querer a cristalização das lágrimas em sal.

Mas um adeus é um adeus, um acto inevitável de quebra, um acto de génese triste ancorado no passado, seja ele uma memória que se quer feliz ou fugaz.

Tim Buckley-Once I was

domingo, 19 de julho de 2009

Arrumações de verão


Sou uma pessoa desorganizada por defeito e convicção, costumo citar muitas vezes uma frase que não sei a quem pertence e que me acompanha desde a juventude: “a organização é a qualidade que resta aos medíocres”, não que me ache tão brilhante que faça da bagunça uma bandeira mas na realidade, comigo o provável é a criação natural de pilhas, de papel, de livros, de dvd’s, de roupa por lavar, de lixo para reciclar, de ideias a desenvolver, enfim serei o anticristo para os arrumadinhos desta vida e o inimigo público numero um para os burocratas e daqueles que fazem da metodologia sequencial o seu credo.

Como todos os desorganizados genéticos, eu consigo funcionar maravilhosamente dentro do meu caos, quanta vezes surpreendi os meus colegas e colaboradores desesperados pela perca de um documento, com um enfiar de mão numa enorme pilha de papéis de cantos desalinhados e sacar de lá, à primeira, o tão desejado e considerado perdido para todo o sempre, claro que com um sorriso trocista, saía a inevitável frase, tira uma cópia e devolve e quando estiveres à rasca, sabes que eu tenho sempre tudo à mão, nunca ninguém percebeu que possuo aquilo a que chamo de memória relacional, consigo memorizar eventos por associação com outros eventos, a posição do documento na pilha, porque me lembrava da sequência com que o empilhei.

Claro que como em tudo, existem limites, agora sinto que a minha vida está também ele toda amontoada numa pilha e que chegou a hora de começar a reduzi-la em dimensão a escrever etiquetas em emoções e necessidades, a emparteleirar algumas coisas e decidi começar por este blog, que se iniciou como um sem importância, passou por uma procura de identidade e por ser um escape emocional e que agora quero como um veiculo de divulgação daquilo que assustadoramente me vem à cabeça, sejam emoções ou comoções, lapsos de imaginação ou histórias que quero contar. Decidi criar algumas etiquetas e vou tentar desenvolver algumas séries de textos encadeados por temáticas.

Claro que os “Privilégios do Disparate” são para continuar, estes são os meus textos sem regra, escrita crua, pura e dura onde me encontro mais nas entrelinhas do que nas palavras, escritos com a pontinha da caneta, quase sem tocar no papel, sem correcções e para leitores sem preconceitos. O meu conto que ainda não tem nome está numa fase de ainda não saber por onde ir, mas há-de lá chegar. Os contos de Incontar, vão retornar brevemente, com as versões hardcore do Pinóquio e do Peter Pan. Quero voltar a fazer inquisitórios, que vejo como a forma mais divertida de partilha e interacção com quem me lê, com a promessa de os fazer pequenos, com seis a dez perguntas. Como este blog irá continuar a ser a minha válvula de escape, haverão textos mais intimistas, escritos com outros cuidados, de palavras escolhidas a cinzel e martelinho de escultor. Vou também retomar a minha trilogia dos passarinhos, no seu objectivo inicial de cruzar personagens estereotipados em situações comuns. Por fim o Puck que está muito de malas feitas para outras paragens, terá para si a irresponsabilidade da escrita de textos sobre relações, textos incómodos de sentimentos fortes diluídos em enganos e desencontros e infortúnio e sentimentos transvestidos.

Fica também a minha vontade de maior disponibilidade de partilha na visita aos vossos cantos, porque são eles que fazem parte da minha aprendizagem, têm sido com eles que tenho aberto tantas janelas e a felicidade de vos conhecer a alguns virtualmente e a outros de olhos nos olhos, na coisa enorme que é o vosso sorrir, bem ajam por me privilegiarem.

Na prova que qualquer um pode almejar a partilhar a vida em grande companhia, bastando a alguns chegar a um vulgar cargo público, aqui vos deixo uma musiquinha.

Carla Bruni - Quelqu'un m'a dit

terça-feira, 14 de julho de 2009

O Privilégio do Disparate – Parte incontável de uma série fora de série noutro lado qualquer que não é um lado qualquer

Vamos parar por um pouco, vazar todos os pensamentos para um copo cheio de água e ouvir esta melodia, são só 3 minutos…


Melody Gardot-Baby I'm a Fool

Podemos voltar agora a beber a água do copo e o resto pode ser encontrado aqui:
http://prisaodepalavras.blogspot.com/2009/07/o-privilegio-do-disparate-parte.html

sexta-feira, 10 de julho de 2009

É a vida


Costumo dizer que a melhor forma de resolver um grande problema é decompô-lo em problemas mais pequenos e que os problemas devem ser resolvidos em fila indiana e não em pistas de piscina. Há no entanto alturas da vida onde por muito que se tente estas teorias não conseguem ser aplicáveis e que tudo parece acontecer ao mesmo tempo como se de repente fossemos um íman de acontecimentos que nos ultrapassam em velocidade e nos deixam parados sem saber o que fazer ou com vontade de correr numa direcção com o risco de ficarem para trás decisões que vamos lamentar mais tarde termos deixado escapar naquele momento certo de oportunidade de resolução.

Claro que nos piores momentos da vida, tudo nos parece ampliado em importância e os pequenos desaires são vistos como grandes dramas e os problemas realmente graves como impossíveis, injustos, imorais, ingratos e sentimo-nos como folhas soltas no vento incontrolável da vida, como sementes sem futuro de crescimento, como bolsas de ar vazios de conteúdo, seres impotentes à espera da ajuda do tempo.

Este será, numa visão minimal e egoísta da vida, o meu ponto negro, aquele que se me oferece sem saída, forçado a decidir no calor do momento, o instante que sentimos que poderemos lamentar para o resto da vida e aqui me revejo a contemplar um horizonte indistinto que me puxa a dar o passo em frente na beira do precipício e abro os braços na fé que as asas vão nascer e crescer e aprenderei a voar antes de tocar o fundo do meu amanhã.

Àqueles que me sentem em falta, não me levem a mal, espero poder voltar em breve.


Michael Bublé-That’s life

terça-feira, 7 de julho de 2009

Serpenteios


Há quem diga que sou cruel.

Há quem ainda diga que fui a serpente que invadiu o Éden, o primeiro intriguista, o primeiro motivador, o primeiro empresário, o primeiro politico, o primeiro entertainer, talvez sim ou talvez não, mas não fui eu que criei as maçãs, nem a capacidade de poder pecar nem a fome do desejo. Eu sou apenas um egocêntrico semeador de dúvidas.

Qual o padrão com que se mede a dimensão de um desejo?

Qual a velocidade com que se dilui a sedução numa solução de realidade?

Qual é a cor com que brilha uma ilusão?

Qual é a velocidade com que se extingue uma paixão numa estrada de ausência?

Qual é a forma com que se reveste um desencanto?

Qual é o som de um coro de lágrimas de desalento?

Qual é a imagem que sobra de uma memória dum futuro incerto?

Qual é o peso da solidão de um cheiro que se esvai?

Sibilo por entre preconceitos, transformo em gelo a incapacidade de sentir, num empedrado de emoções, vivo o reviver do teu passado e deixo-te morrer mais um dia.


Duffy-Live and let die