Saio de casa e avisto ao perto, mesmo do outro lado da rua a mulher do outro lado da rua, o cabelo não me parece tão amarelo como da outra vez que me avistou simples e nu e sinto-me frágil porque agora estou vestido e ainda não protegido o suficiente pela minha loucura, não me apetece dizer olá nem ser julgado pelos seus olhos que adivinho castanhos e fujo na direcção contrária como se houvesse uma direcção certa e perco-me pelo caminho.
Quando dou por mim estou por onde cresci, no velho bairro onde larguei a pele de menino. Algumas casas estão exactamente como as deixei outras não reconheço, as ruas parecem-me mais estreitas, as poucas árvores cansadas, há muitos carros que usurpam os passeios que eram nossos, outrora largos o suficiente para caberem balizas feitas de imaginação e montes de pedras soltas, agora divididos por uma fileira de tubos metálicos que garantem que sobra espaço até à parede para um percurso em fila indiana, nem o suficiente para um passeio de mão dada entre dois amantes ou de um pai que protege na sua o calor da mão do filho.
A velha escola primária onde nunca andei ainda lá está, a estatística do alfabeto empurrou-me para outra mais longe e eu na altura não me importei porque me sentia mais livre, menos vigiado, era já assim um ser que gostava de voar em navegação solitária sem controlo e a distância etiquetava-me como anónimo aos olhos críticos. Sempre preferi ser índio ou bandido ou procurar em vez de esconder ou inventar novos jogos que só eu entendia as regras. Não me lembro de ser um aluno brilhante, duvido que a minha professora se lembre sequer de mim se ainda for viva e eu também não me recordo do seu nome ou do seu rosto mas lembro-me que tinha óculos que lhe ampliavam os olhos, tanto que me gravou na memória um rosto só com olhos que me analisavam e avaliavam e julgavam e castigavam porque eu não era um aluno brilhante, apenas mais um desgraçado de futuro banal em construção e ela não era paga para entender que tinha que cavar mais fundo para puxar o que eu podia ser, que eu tinha inteligência selectiva ou loucura latente e que perdia a oportunidade de um dia poder dizer com orgulho às outras velhas na fila da mercearia que tinha sido a minha mestra e tirar uma amarela foto da carteira e mostrar que eu era este aqui de ar tímido e sorriso traquinas mas já com aquele brilho dos que vão ser grandes na vida.
O nosso poiso favorito de brincadeira era um terreno vazio mesmo na esquina e a que chamávamos de largo porque era grande e nunca tivera nenhuma construção e por isso não tinha muros nem vedações e nós jardinávamos com os pés e garantíamos que as ervas daninhas não nos roubavam o espaço e ali nasceram mil aventuras e cidades desenhadas na areia ladeadas por estradas sem imite de velocidade onde partilhávamos os carrinhos comprados na feira ou pistas de obstáculos para caricas e covinhas para berlindes ou rectângulos de saltar ao pé-coxinho. Hoje no meu largo está um prédio onde habitam pessoas que não me conhecem e não me pagam aluguer pelos sonhos e gargalhadas que ali deixei.
Tento reconhecimento nas caras com que me cruzo mas sei que o tempo nos transforma noutras imagens e que um a um todos partimos para outras vidas e outros lugares e que a morte substitui vizinhos e que aquela à janela já não é a velha bisbilhoteira que denunciava as nossas maldades em troca de castigos que me proibiam de sair nas tardes de mais chuva ou mais frio ou mais calor e em que eu aproveitava para ler tudo o que podia, gostava hoje de lhe poder agradecer ter feito mais por mim do que aquela professora de quem só me lembro dos olhos.
A Flock Of Seagulls - I Ran