Hoje custa-me o dia de ontem. Esqueço rapidamente as resoluções inabaláveis tomadas no calor do acontecimento de que nada do que não se passou ontem me iria afectar e começo a deixar baixar uma sensação pesada que me sobe ou que me desce e que me turva um sentimento de esperança de encontrar acompanhamento para uma solidão que afinal pareço já não querer e ponho a cara debaixo da torneira que escorre apenas água e que desejava aberta para um fluxo imenso de cascata que me lavasse totalmente por dentro e me deixasse puro e cristalino, página em branco para ser rescrita com outras letras, letras redondas e cheias que construíssem um outro diferente.
Sacudo e sacudo-me e olho o dia de ontem e mergulho para trás no tempo na direcção de outros dias e de outras memórias e chego à meninice e a tardes passadas nas casas de amigos que não sei por onde andam e que fui perdendo na dispersão da vida e relembro particularmente as nossas buscas aos segredos escondidos nos fundos das gavetas e por detrás dos livros das estantes e que achávamos que nos apressavam o ser adulto e nós por ignorante razão queríamos rapidamente ser adultos porque seriamos então livres de escolha e livres para ter o que nos apetecesse e comer gelados de gelo de manhã à noite com tardes inteiras nos cinemas ou na praia e sermos donos de automóveis sem tejadilho que voassem baixinho sobre a estrada.
Um dia encontrámos bem escondido por entre os outros um disco de anedotas de um velho cómico e que ouvimos vezes sem conta não tanto pelas anedotas que não entendíamos mas porque falava de sexo e de palavrões e constituía um objectivo de tesouro procurado e proibido. Não me lembro das anedotas, apenas de uma que fixei quase palavra a palavra e que fui repetindo ao longo da vida e que falava de uma aula de zoologia dada no jardim zoológico por um professor que em frente à jaula das hienas, ensinava aos seus alunos que aquele era um bicho peculiar que ria muito e que tinha a particularidade de se alimentar das fezes de outros animais e de ter relações sexuais com o seu parceiro apenas uma vez por ano.
A anedota tinha o seu clímax cómico dado pelo aluno mais traquina que interpelava o professor e lhe perguntava: “Se a hiena é um bicho que só come a merda que os outros cagam e só fode uma vez por ano, ri de quê?”. Nós sabíamos o que era foder ou pensávamos que sabíamos e dizer merda dava estatuto de rebelde e nós éramos rebeldes sem controlo e donos do nosso mundo e nunca compreendi a tragédia da anedota. Imagino hoje o velho cómico a gravar a bolacha de vinil como um palhaço triste a quem as lágrimas se secaram numa cara pintada de branco e lábios evidenciados por um vermelho vivo e que fazia rir com a ironia de uma anedota que fala de bichos que desprezamos mas que se reflecte na realidade cruel de sermos nós bichos que vivemos para comer e que muitas vezes comemos a merda que os outros cagam, literalmente ou figurativamente e que procuramos não associar a felicidade ao número de vezes que fodemos por ano.
Porque é que nos rimos? De que é que nos rimos? Que parâmetros defini para ser feliz? Reparo que ainda tenho a cabeça debaixo da torneira que não se transformou numa cascata fluida de água e que não me lavou por dentro mas acordou-me de novo para o dia que será banal e sem mais história e confundo-me na imagem que vejo no espelho com um bicho peludo de olhos negros e orelhas espetadas e boca curva que se ri, que se ri de mim porque pensa que sou um palhaço triste e eu rio-me também porque serei uma hiena perversa com maior ambição.
Carmel-Bad Day