quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 11


Quis tirar um dia só para mim. Telefonei a dizer-lhes que não, que riscassem um daqueles dias que ainda me deviam de um ano destes passados, aqueles que acabo por me esquecer e ninguém faz por me lembrar. Meti-me no carro e procurei uma praia que por ser meio da semana ainda deveria ter areia disponível por entre corpos que se deitam e corpos que se movem e corpos que jogam jogos de bolas que voam pelo ar e chocam com outros corpos entre risos e outros protestos. Despi a roupa e simulando pudor ocultei o enfiar dos calções por trás da toalha que estendi de seguida sobre o areal depois de afastar com o pé duas ou três beatas de cigarros já ressequidas.

O mar estava calmo sem ondas coberto de reflexos de luz que pareciam nadar sem destino. Tirei da mochila um creme que iria proteger-me a pele e espalhei-o generosamente pelo corpo que alcançava e fiquei a ambicionar outras mãos mais suaves que me tocassem noutros lugares mais profundos. Sentei-me e franzi os olhos reduzindo o horizonte a tentar esconder o brilho do Sol, observei em redor, pequenas ilhas de gente, em cada uma história que se podia imaginar pela forma como se dispunham os corpos, pela forma como se olham, pela forma como se tocam ou pela forma como se ignoram.

Ali do meu lado um casal jovem, talvez ainda adolescentes, ele deitado de barriga para baixo disfarça a cobiça com que a olha, as curvas expostas ao dourar lento do Sol, os peitos espetados em desafio e um sorriso nos lábios discreto e poderoso, sem as ouvir adivinho as palavras desajeitadas do rapaz, adivinho a descrição de feitos inconsequentes e a ambição de um futuro de aventuras onde ela teria o papel principal da heroína, adivinho palavras que fazem promessas que não se podem quebrar e ela é hoje a sua musa podendo ser amanhã a sua glória. Ali mais abaixo dois homens de ar meio perdido, predadores sem dentes e bico arqueado, devoram as mulheres que passam ruminando comentários entre si como machos primários, são símbolos incompreendidos de virilidade ou fontes ignoradas de prazer, reis bastardos a quem roubaram um reino mas que ali estão prontos e aptos para a sua reconquista. Acolá uma família com filhos encontra motivos fáceis para gritar, gritam entre si, gritam para se ouvirem, gritam para expulsar frustrações e desgastes, gritam para ignorar uma falta de coragem não assumida ou simplesmente a falta de uma saída. Mais abaixo vejo dois corpos que se confundem e que me confundem não distingo na mistura das carnes o princípio de um e o fim do outro, ali não há palavras, ali não há necessidade de haver palavras. Aqui quase ao lado uma mulher só foge do mundo para dentro de um livro de capa elegante com cores de paixão. Ainda mais abaixo dois idosos molham os pés a pensar noutros tempos, aqueles em que a praia era quase só para eles e não havia esta confusão e as pessoas eram bem-educadas que se cumprimentavam e toda a gente se conhecia pelo nome.

Fui mergulhar nas águas, nadei e afastei-me da areia até me sentir de novo apenas só, nadei até as ilhas de gente serem apenas pontos indistintos, sem histórias para imaginar, naquela imensidão de mar reavaliei o meu presente e reafirmei o meu futuro e inventei-me sentado naquela praia completamente deserta olhando a areia que me escorre por entre os dedos, percebendo que cada grão é um cristal poderoso que por muito ínfimo que seja reflecte a luz e faz a praia ser dourada e que todos são diferentes e que esta praia dourada é a fronteira entre dois mundos, um que me afasta e outro que me flui e senti a atracção de me deixar levar pela maré que me podia arrastar para longe mas essa não é a minha natureza e nadei de regresso a mim.

Tenho na mala do carro uma camisa por lavar com dois dias de suor, amanhã irei resolver esse assunto…


Bruce Springsteen & Sting - The River

domingo, 13 de setembro de 2009

Incentivadores de ódio


Este meu blog é o meu blog que nunca usei para atacar ninguém e tem sido um meio de transmitir os meus sentires, realidades e ficções que querem sair da minha cabeça, apenas isso e nunca será mais que isso.

Este blog tem tido para mim o efeito secundário de me ter permitido conhecer algumas pessoas a quem não tenho nenhum problema de classificar de amigos, pessoas extraordinárias que por outro modo nunca teria conhecido e que hoje me ajudam a olhar o futuro de uma forma mais risonha, pessoas que me enriquecem com a sua forma de estar, pessoas que confiam em mim e em quem confio, pessoas que me conhecem melhor do que muitas com quem partilhei tanto tempo e que se acham no direito de me julgar e odiar.

Recebi um comentário anónimo a propósito do post:
http://littleboyj.blogspot.com/2009/09/diario-de-um-louco-impoluto-dia-10.html

“Você devia ter mais cuidado com a lingua, afinal tem telhados de vidro, seu porco é isso que quer ensinar aos seus filhos tenha vergonha, para homens como você deveria haver pena de morte.... Não apague o comentário...seu porque e ainda tem a mania que escreve bem vá tirar a 4ª classe a ver se aprende alguma coisa..”


Não sei nem quero saber quem é esta pessoa, embora me fosse muito fácil sabê-lo dada a minha profissão e os meus contactos mas sei que é alguém que não me conhece, mas que se acha no direito de me insultar, classificar e julgar e alguém a quem não vou sequer responder mas que suspeito estar a ser incentivada por ódios alheios e que os pretende propagar e por isso apenas digo, olhe-se no espelho e para seu bem e daqueles que tem que partilhar o seu mundo encontre razões para ser feliz…


Supertramp-Logical song

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Privilégio do Disparate – décimo descendente, desviante, desinteressado, desigual e mediado por entre folhos de outros rubores.



Fasten your seat belts…

Se a vida fosse um imenso parque de diversões nasceríamos todos sem medo de andar nas montanhas russas e a fome poderia ser saciada por flocos de algodão doce de todas as cores e maçãs caramelizadas e polvo assado e farturas secas de óleo e churros recheados com muitos gostos e todos os carros podiam chocar sem risco de mossas e as guerras seriam resolvidas nas barraquinhas de tiro e os carrosséis seriam transportes de massa com cavalinhos imortais e cisnes e unicórnios e o choro proibido e a ausência de dor dispensaria os hospitais e os políticos alvos empilhados para meias enroladas e se derrubássemos cinco teríamos direito a um urso de peluche ou uma entrada na casa dos espelhos que nos mostrava a imagem que queremos ter sem convexidades nem psicoses e os loucos adorados como profetas e todos os poetas seriam cantores e o namoro uma ciência com cátedra de múltiplas vertentes práticas e a reprodução um acto divino e o sexo apenas sexo e sempre acompanhado de música ambiente e nos cinemas só se podia entrar despido de preconceitos e sair vestido de riso e não se envelhecia apenas se crescia em experiência e a palavra felicidade decretada como banida por redundância de sentido.

You finished your ride, buy another ticket or welcome to reality…



Frankie Goes To Holllywood-Relax

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 10


Hoje custa-me o dia de ontem. Esqueço rapidamente as resoluções inabaláveis tomadas no calor do acontecimento de que nada do que não se passou ontem me iria afectar e começo a deixar baixar uma sensação pesada que me sobe ou que me desce e que me turva um sentimento de esperança de encontrar acompanhamento para uma solidão que afinal pareço já não querer e ponho a cara debaixo da torneira que escorre apenas água e que desejava aberta para um fluxo imenso de cascata que me lavasse totalmente por dentro e me deixasse puro e cristalino, página em branco para ser rescrita com outras letras, letras redondas e cheias que construíssem um outro diferente.

Sacudo e sacudo-me e olho o dia de ontem e mergulho para trás no tempo na direcção de outros dias e de outras memórias e chego à meninice e a tardes passadas nas casas de amigos que não sei por onde andam e que fui perdendo na dispersão da vida e relembro particularmente as nossas buscas aos segredos escondidos nos fundos das gavetas e por detrás dos livros das estantes e que achávamos que nos apressavam o ser adulto e nós por ignorante razão queríamos rapidamente ser adultos porque seriamos então livres de escolha e livres para ter o que nos apetecesse e comer gelados de gelo de manhã à noite com tardes inteiras nos cinemas ou na praia e sermos donos de automóveis sem tejadilho que voassem baixinho sobre a estrada.

Um dia encontrámos bem escondido por entre os outros um disco de anedotas de um velho cómico e que ouvimos vezes sem conta não tanto pelas anedotas que não entendíamos mas porque falava de sexo e de palavrões e constituía um objectivo de tesouro procurado e proibido. Não me lembro das anedotas, apenas de uma que fixei quase palavra a palavra e que fui repetindo ao longo da vida e que falava de uma aula de zoologia dada no jardim zoológico por um professor que em frente à jaula das hienas, ensinava aos seus alunos que aquele era um bicho peculiar que ria muito e que tinha a particularidade de se alimentar das fezes de outros animais e de ter relações sexuais com o seu parceiro apenas uma vez por ano.

A anedota tinha o seu clímax cómico dado pelo aluno mais traquina que interpelava o professor e lhe perguntava: “Se a hiena é um bicho que só come a merda que os outros cagam e só fode uma vez por ano, ri de quê?”. Nós sabíamos o que era foder ou pensávamos que sabíamos e dizer merda dava estatuto de rebelde e nós éramos rebeldes sem controlo e donos do nosso mundo e nunca compreendi a tragédia da anedota. Imagino hoje o velho cómico a gravar a bolacha de vinil como um palhaço triste a quem as lágrimas se secaram numa cara pintada de branco e lábios evidenciados por um vermelho vivo e que fazia rir com a ironia de uma anedota que fala de bichos que desprezamos mas que se reflecte na realidade cruel de sermos nós bichos que vivemos para comer e que muitas vezes comemos a merda que os outros cagam, literalmente ou figurativamente e que procuramos não associar a felicidade ao número de vezes que fodemos por ano.

Porque é que nos rimos? De que é que nos rimos? Que parâmetros defini para ser feliz? Reparo que ainda tenho a cabeça debaixo da torneira que não se transformou numa cascata fluida de água e que não me lavou por dentro mas acordou-me de novo para o dia que será banal e sem mais história e confundo-me na imagem que vejo no espelho com um bicho peludo de olhos negros e orelhas espetadas e boca curva que se ri, que se ri de mim porque pensa que sou um palhaço triste e eu rio-me também porque serei uma hiena perversa com maior ambição.


Carmel-Bad Day

domingo, 6 de setembro de 2009

Outros Beirais


Por estes dias ando por outras paragens:

http://prisaodepalavras.blogspot.com/2009/09/contra-o-tempo-com-contratempos.html

Deixo-vos aqui uma música que faz parte da banda sonora do último filme de um dos meus realizadores favoritos e que invejo pela forma como conta histórias e pelas bandas sonoras com que acompanha os seus filmes. Uma grande música que inunda de som e fogo uma cena fantástica, fica o desafio para adivinharem do que falo e sobretudo para irem ver o filme.


David Bowie-Cat People (Putting Out Fire)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 9

Penso nas palavras do poeta. A vida é a arte do encontro… Penso que passamos a vida à procura de encontro e a chocar de frente com o desencontro. Imagino-me muitas vezes a entrar num bar ou num simples café ou algures onde existam pessoas que nunca vi ou que vejo todos os dias sem nunca lhes ter ouvido a voz ou de ter conhecido o que as atormenta ou as apaixona, pessoas com quem me encontro no desencontro e passar por elas nesse desencontro sem perceber que aquela ali no canto ou a outra ali sentada ou aquela que até me olhou de fugida poderia ter sido a pessoa mais importante da minha vida.

Algumas pessoas importantes da nossa vida podem ser herdadas por laços de família, mas todas as outras são encontros. A vida organiza-se para nos proporcionar encontros. Somos agrupados desde que nascemos, em creches, em escolas, em casas, em ruas, em festas, em praias, em lutas, em crenças, em trabalhos, em empregos e escolhemos ou somos escolhidos. Podemos encontrar amigos, paixões e até amores e ainda outros que nos são indiferentes, aqueles com quem ficamos para sempre mesmo sem ficar ou os outros que nos foram importantes durante uma importância de tempo e que descobrimos depois que afinal não o eram ou os que se transformam de paixões em ilusões ou decepções ou que até vimos a odiar como corpos físicos ou abcessos de espírito que nos assombram.

Podemos questionar da importância do valor dos encontros quando traduzidos em frutos de amizade ou de paixão seja ela degenerativa ou regenerativa embora assuma que a paixão tem sempre um prazo de validade que não vem escrito na embalagem e que até pode ser efémera ou eterna e que o tempo que dura não se mede por padrões de linearidade. Mas eu continuo a preferir os encontros que nos ficam em amizade e que quero no meu egoísmo e na minha entrega incondicionais. Por isso tenho tão poucos amigos e tão poucos os que já não tenho medo de perder porque na sua incondicionalidade se tornaram imunes aos humores e aos rumores e aos dissabores, os que nos ouvem sem falar e nos falam depois de nos ouvir e nos criticam sem nos criticar e nos apoiam e nos empurram quando vacilamos e nos amparam antes de cair ou nos estendem a mão quando já estamos no chão.

Hoje estou aqui sem saber se me encontrarei em amizade ou em paixão ou se apenas num passar de tempo que até pode ser agradável ou de incomodos com risos francos ou fingidos de boa educação ou palavras trocadas com franqueza ou de conveniência e confesso-me ansioso como um adolescente falho de experiencia à espera de que não se notem as borbulhas e as comichões que não quero coçar e de que não sei o que fazer com as mãos, porque as mãos sempre me atrapalham num primeiro encontro e às vezes ainda num segundo e que só sei o que sinto por alguém quando sei o que fazer com as mãos.

Ligo o carro porque a Lua já há muito enxotou o Sol para o outro lado e sinto que a vida me brindou com mais um desencontro, ela, a mulher que me queria conhecer um pouco mais já não viria a este encontro ou nos teríamos desencontrado numa hora errada ou numa esquina errada ou no arrependimento de uma decisão que se tomou num impulso e que se esvaiu de vontade com o passar do tempo ou então algo diferente, algo indesculpável, algo justificável mas pouco me importa porque no final apenas sobra uma oportunidade talvez perdida ou uma oportunidade talvez ganha e arranco com o carro em direcção a um local qualquer que ainda não sei onde fica mas que terá que me preencher um tempo imprevisto.


Vinicius de Moraes e Toquinho - Samba de Bênção

domingo, 30 de agosto de 2009

Uma casa no campo


Porque tenho andado por esta vida algumas vezes em companhia mas quase sempre sozinho, porque o Agosto está a terminar e com ele metade de uma vida, porque já não sinto o cheiro a mar nem o calor do Sol que me muda a cor da pele, porque este mundo que se estende por fios e silício me tem trazido o privilégio da amizade, porque entre o cruzar de fumos e os reflexos dourados de um copo coberto de espuma se podem trocar conversas sem tempo, porque a palavra bonita no teu caso se transcende em cambiantes que se desabrocham para alem do que os olhos vem, porque sou sincero quando digo que gostaria de roubar pequeninas partes da tua historia para romancear outras historias, porque esta canção parece ter sido escrita para ti minha amiga.


Elis Regina-Casa no campo

domingo, 23 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 8



Gosto de fazer longas viagens sozinho. Gosto do tempo que me sobra nesse tempo para pensar sem a interferência do ruído dos pensamentos dos outros e mecanizo a condução do carro, numa velocidade constante e tento construir a estrada só para mim, afasto-me de quem me precede e ignoro quem me persegue, nunca dou pelo que demoro, parto no instante em que me desligo do mundo e mergulho em mim e chego quando o caminho acaba. Gosto de fazer viagens e passar esse tempo comigo numa oportunidade rara de comunhão e escolho por companhia ou banda sonora um qualquer posto de rádio com poucas palavras e surpresas em cada música que possa assobiar ou cantar em voz alta as palavras que conheço ou como as percebo.

Hoje fui e vim e entre ir e vir fui profissional e nada mais. O importante e relevante foi o ir e o vir e tudo o resto se passou em cenários montados e orquestrados dentro da minha cabeça e arrumei coisas velhas, desisti de alguns farrapos de ideias ou agora sem sentido ou agora sem vontade ou agora sem possibilidade ou agora sem coragem e marquei objectivos e resoluções e imaginei o dia de amanhã como um dia feliz e isso fez-me cantar em voz mais alta a canção que tocava e que estranhamente não recordo. Mantenho-me firme em me deixar seguir pelo caminho que me conduz, não mais resistir à corrente que me leva a entender tudo como o entendo e dizer o que sinto que devo no momento e na sua forma crua, sem coberturas brilhantes ou apetitosas que escondam banalidades.

Gostava de largar tudo e escolher outra coisa, seria bom se a vida fosse um menu em que se prova uns gramas de todos os pratos e ainda uns gramas dos que nos agradaram mais para tirar todas as dúvidas e por fim escolher sem receios de decepção ou indigestão. Gostava de ser personagem da minha própria história e poder contá-la com as palavras que me apetecesse, com palavras que se transformassem em realidades de apoteose ou na simplicidade de um beijo dado numa chegada ou numa partida, jamais esquecido e que sempre retorna aos lábios nos momentos de pior dúvida. Gostava de ser pedra na minha arquitectura, actor principal na minha encenação mas sou e ainda apenas eu e nada consigo vislumbrar do dia depois de amanhã.

Paro para meter gasolina numa bomba de auto-estrada. É um local por onde se passa sem passar, onde se para sem pudor de voltar a partir e interrompo os meus pensamentos porque o carro me pede combustível e o cansaço me pede um café e a fome qualquer coisa que a sacie e opto por algo mais doce e vejo no olhar de quem me serve o desalento de alguém que vê os outros chegarem para logo partirem, hospedeira de viajantes ancorada na viagem e tenho um impulso de lhe perguntar se não gostaria também de partir mas não o faço porque me iria sentir cruel em questionar possibilidades a quem não tem opções e apenas sorrio e forço com isso o retorno de um esgar na face, sem desprezo mas com desconsolo.

Chego como normalmente sem vontade de me sentir e faço por ignorar tudo o resto em troca de um bom banho. Deixo a água correr sobre a pele e lavar a distância que percorri, porque fui e voltei sem mais significado e relembro em velocidade acelerada tudo o que pensei e pergunto-me se não deveria escrever algumas coisas para não as esquecer mas sei que não o farei, há muito que deixei de escrever para mim, há muito que deixei de escrever para os outros, há muito que me ancorei nesta parte da viagem e desisti desse destino.


Henry Mancini-Pink Panther Theme

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 7


Volto à lavandaria, estou a precisar de uma camisa mais bem lavada e sem os vincos que se teimam em vincar naquelas com que luto no final de cada domingo. Vou pelo caminho a esquecer o cheiro como se pudesse esquecer um cheiro por antecipação, temos sentidos imperfeitos, gostava de os poder controlar, ver apenas as cores que me iludem, cheirar apenas os aromas que me excitam, ouvir apenas os ritmos que me movem, saborear apenas os gostos que me inebriam, sentir apenas a suavidade de uma pele no seu calor e o tremor no toque da carícia.

Hoje a empregada não está sozinha, está acompanhada de outra mulher mais jovem e sorri quando me vê como se me reconhecesse o que me surpreende porque consigo normalmente passar sem ser reconhecido e tira debaixo do balcão uma lata de um spray qualquer que espalha generosamente o que deixa no ar um cheiro a fruta madura ou flores esquisitas ou uma mistura agradável de ambas e pergunta-me se gosto mais assim e que dali o cliente nunca vai descontente. Rio-me com sinceridade e sei que o sabe porque quando me rio consigo transmitir um fio de alegria que me sai dos olhos e não sei porque não procuro mais razões para o fazer. Dou-lhe o recibo e vai lá dentro e vejo que comenta qualquer coisa em voz baixa com a outra mulher e regressa com a minha camisa suspensa num cabide tosco de arame torcido e envolta em plástico e diz-me que a nódoa saiu totalmente e que é uma camisa muito bonita e inclina-se sobre o balcão e indica-me que a imite e com os lábios quase a tocar-me nos ouvidos sussurra-me.

Sussurra-me que a deixei a pensar sobre as nódoas e que agora fica a imaginar a vida de cada cliente de acordo com as manchas nas roupas que lhe entregam e acha isso interessantíssimo e começou a ler livros sobre mistérios e psicologia e hábitos alimentares mediterrâneos e que de repente por uma coisinha de nada está mais feliz e me gostaria de conhecer melhor e que lhe perdoe o atrevimento, que não costuma ser assim impulsiva e nem sabe porque o está a fazer. Olho pela primeira vez para a mulher, olho-a pela primeira vez como mulher e noto-lhe os olhos e o rosto, sempre me fixo inicialmente nos olhos de quem olho e só depois procuro o rosto nos lábios, na forma como a pele se arredonda ou se esguia em torno do nariz e agora que a olho pela primeira vez como mulher vejo realmente a mulher e fico sem saber o que lhe dizer por que não esperava encontrar ali uma mulher, apenas alguém que não precisava apagar da memória porque nunca tinha lá estado e agora era tarde demais.

Estamos ainda ambos inclinados sobre o balcão, os seus lábios ainda suficientemente perto para lhe sentir o respirar calmo, os rostos ainda suficientemente afastados para não nos contagiarem os rubores e pergunto-lhe o que me poderia ensinar sobre os hábitos alimentares mediterrâneos e dá uma gargalhada enquanto se endireita e parece-me estranho não fazer o mesmo e vejo-a agora por inteiro e diz-me que conhece um pequeno restaurante que me poderia ensinar mais sobre esse assunto do que mil livros e que não é caro e suficientemente calmo para uma boa conversa e hoje já não podia mas amanhã teria mesmo muito prazer se eu quisesse e acabo por sorrir e dizer que amanhã não podia eu porque tinha que viajar e regressaria tarde mas no dia a seguir estava totalmente livre para um almoço ou jantar e prefere jantar porque teremos mais tempo e fica combinado o sitio e a hora a que a apanho e iremos no meu carro.

Saio entontecido pelo inesperado e surpreendido por não me ter enroscado nas minhas dúvidas, levo na mão e na ponta do dedo uma camisa lavada que já não irei vestir amanhã.


A minha amiga Hedgie que foi a minha primeira comentadora e a primeira a dizer que esta forma tonta de escrever lhe agradava, foi a minha visitante número 2222 e eu gosto de números e o que eles nos significam ou talvez não e por isso achei que merecia uma prenda sim senhora e aqui está esta musiquinha que lhe dedico porque sei que muito lutou para hoje poder também dizer de voz solta esta mensagem.


Luz Casal - No Me Importa Nada

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 6


Respiro… Sei que existo porque respiro, não porque penso, o pensamento pode ser enganador e eu confio mais no respirar sempre que tenho dúvidas levo a mão ao rosto e sinto o ar que me sai das narinas e fico confortável. Eu quero muito continuar vivo, por mim vivia para sempre e sei que o digo agora porque o corpo ainda não envelheceu o suficiente e que se envelhece para que se tudo falhar pelo caminho um dia já não queremos continuar vivos, uma espécie de salvaguarda final mas gostava tanto de fazer tanto que por vezes me perco e na indecisão acabo por não fazer nada.

Alguém me estende um jornal e diz que é de graça, fico parado a olhar alguém que é uma rapariga que mastiga uma pastilha ou algo que tem dentro da boca e não sorri apenas me pressiona com os olhos a aceitar o que me estende, aceito porque sinto que é importante para ela que o aceite e assim que o faço vira-se e procura outros que como eu estejam dispostos a aceitar e fico a ver o seu corpo que não dança enquanto se move e penso que podia aproveitar e dançar enquanto distribui os jornais, eu teria gostado de a ver aproximar-se de mim a dançar e estender-me o jornal, nem precisava de dizer nada, nem sorrir, porque entendo que devemos guardar os sorrisos para quando é importante.

Eu não gosto de jornais e fico tentado a me afastar e deitá-lo no lixo sem que ninguém veja, porque me envergonha que me vejam como desrespeitoso e eu respeito quem imprimiu o jornal e quem o escreveu e a rapariga que não dança mas que o distribui a quem passa e por quem e pelo que nele é noticia. Eu não gosto de jornais mas gosto de ver as palavras semeadas por entre as imagens e folheio as páginas e desfoco a visão até não entender as letras e admirar os padrões que se reconstroem em quadros abstractos e imagino a vida e tudo o que está por diante e por detrás e à volta como um gigantesco museu onde basta desfocar os olhos para ver as peças de arte expostas.

Foco de novo na página das palavras cruzadas e sinto pena de quem as inventa, não consigo conceber nada mais complicado do que encaixar palavras em palavras e significados e lastimo o desperdício de mais uma mente brilhante e as contingências que a conduziram aquele trabalho e acalento-me dizendo que o faz pelo prazer do jogo e que é paga para fazer o que gosta e que eu sou pago por fazer o que tenho que fazer e que gostaria de fazer outra coisa mas não tenho coragem e reparo que o sinonimo de sentimento forte para com o próximo com quatro letras tanto pode ser amor como ódio e volto a perguntar-me porque estarei eu de novo a tentar encaixar justamente aquelas palavras.

Procuro a secção de necrologia e vejo quem morreu ontem e anteontem e na semana passada e há um ano atrás, quem resta informa quem não sabe e agradece a quem soube, normalmente não reconheço ninguém mas sempre lhes digo umas palavras baixinho porque acredito que quando se morre apenas se morre e não nos fica a pairar por aí uma alma ou um corpo incorpóreo a zelar pelo que se deixou e assim aquelas fotos são a ultima oportunidade de quem morreu de eu as conhecer e lá sussurro um muito prazer e tenho realmente muita pena de não termos tido a oportunidade de poder conviver e partilhar ideias mas a vida é mesmo assim e um dia morre-se.


Alesha Dixon-The Boy Does Nothing

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Privilégio do Disparate–Ed. Esp.cem interesses cem limites cem escrúpulos cem pudores cem estupores cem vergonhas cem tretas cem riquezas cem cem

Gostamos de efemérides, razões para festejar, estabelecer marcos e pontos de referência onde paramos e bebemos um copo e brindamos ao passado e ao futuro e aproveitamos para falar de coisas sem importância e outras causas fracturantes, reunimos os amigos e convidamos também aqueles que nem gostamos muito mas que parece mal não convidar até porque se não os convidássemos muitos dos outros não viriam e a festa seria um fiasco e nada pior que uma comemoração falhada porque é um ponto no tempo e na história que não se repetirá.

Para os mais distraídos este é o post numero cem deste blogue e quase que não era porque como sou muito aéreo nem os estava a contar mas aconteceu que reparei de repente que o anterior era o 99 e a inevitabilidade do sistema de numeração leva a que este seja o cem, por outro lado se este post não fosse o cem nunca o escreveria o que quer dizer que temos aqui um paradoxo notável e algo que sei me vai ocupar longas horas de reflexão se não vejamos estou a escrever o post número cem porque é o número cem ou seja a causa é o efeito e acho que acabei de violar uma ou duas leis da física e nem sei se existe legislação que puna quem viola estas leis e se não há devia haver porque todas as leis devem ser implementáveis, fiscalizáveis e puníveis por incumprimento ou dolo e acho que me estou a repetir e que já usei esta frase no passado mas que se lixe que hoje é dia de festa.

O cem é importante porque é um numero redondo são dez dezenas, pode ser decomposto em matriz e é um factor de escala e que me perdoem os matemáticos pelos disparates que estou a dizer mas gosto do cem, suei para cá chegar cem querer ser vaidoso todos os textos me saíram do pêlo cem copypastes e cem fotos para encher e cem referências cruzadas para a criatividade de terceiros e não estou a criticar quem o faz sobretudo porque muitos o fazem maravilhosamente bem e me dão prazer por o fazerem.

Bom… Antes que me perca queria agradecer a presença de todos os que aqui puderam estar hoje presentes e que sei serem poucos de acordo com as estatísticas e que sou um cabrão que escreve difícil e de forma elitista ou banalidades e coisas sem interesse e poucos mexericos e nada de intrigas de bastidores políticos ou desportivos e que bem que podia escrever mais sobre sexo porque sei até que quando me empenho na coisa até consigo provocar alguma comichão e que não falo de moda nem de ralações ou relações entre bichos assexuados ou pessoas o que quer dizer que a vossa presença ainda me é mais querida e pensem que são uma espécie em vias de extinção porque este blogue mantém constante nas duas dezenas o numero diário de visitantes há meses o que pela ordem natural das espécies o que não cresce não gera diversidade e vai acabar por se consumir ou neste caso transformar-se num pequeno clube de qualquer coisa e aceitam-se sugestões para a decoração.

Paro antes que comece a chorar com a comoção porque sou um ser sensível embora possa não o parecer e como estou em maré de comemorações queria comemorar a perca de consciência cívica e humanista e política e interventiva da classe artística, aquela que a tantos chega e que tanto poder teve no passado e porque me lembrei de Aung San Suu Kyi e desta velha canção… Tchinn Tchinn.


The Specials -Nelson Mandela

sábado, 15 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 5


Saio de casa e avisto ao perto, mesmo do outro lado da rua a mulher do outro lado da rua, o cabelo não me parece tão amarelo como da outra vez que me avistou simples e nu e sinto-me frágil porque agora estou vestido e ainda não protegido o suficiente pela minha loucura, não me apetece dizer olá nem ser julgado pelos seus olhos que adivinho castanhos e fujo na direcção contrária como se houvesse uma direcção certa e perco-me pelo caminho.

Quando dou por mim estou por onde cresci, no velho bairro onde larguei a pele de menino. Algumas casas estão exactamente como as deixei outras não reconheço, as ruas parecem-me mais estreitas, as poucas árvores cansadas, há muitos carros que usurpam os passeios que eram nossos, outrora largos o suficiente para caberem balizas feitas de imaginação e montes de pedras soltas, agora divididos por uma fileira de tubos metálicos que garantem que sobra espaço até à parede para um percurso em fila indiana, nem o suficiente para um passeio de mão dada entre dois amantes ou de um pai que protege na sua o calor da mão do filho.

A velha escola primária onde nunca andei ainda lá está, a estatística do alfabeto empurrou-me para outra mais longe e eu na altura não me importei porque me sentia mais livre, menos vigiado, era já assim um ser que gostava de voar em navegação solitária sem controlo e a distância etiquetava-me como anónimo aos olhos críticos. Sempre preferi ser índio ou bandido ou procurar em vez de esconder ou inventar novos jogos que só eu entendia as regras. Não me lembro de ser um aluno brilhante, duvido que a minha professora se lembre sequer de mim se ainda for viva e eu também não me recordo do seu nome ou do seu rosto mas lembro-me que tinha óculos que lhe ampliavam os olhos, tanto que me gravou na memória um rosto só com olhos que me analisavam e avaliavam e julgavam e castigavam porque eu não era um aluno brilhante, apenas mais um desgraçado de futuro banal em construção e ela não era paga para entender que tinha que cavar mais fundo para puxar o que eu podia ser, que eu tinha inteligência selectiva ou loucura latente e que perdia a oportunidade de um dia poder dizer com orgulho às outras velhas na fila da mercearia que tinha sido a minha mestra e tirar uma amarela foto da carteira e mostrar que eu era este aqui de ar tímido e sorriso traquinas mas já com aquele brilho dos que vão ser grandes na vida.

O nosso poiso favorito de brincadeira era um terreno vazio mesmo na esquina e a que chamávamos de largo porque era grande e nunca tivera nenhuma construção e por isso não tinha muros nem vedações e nós jardinávamos com os pés e garantíamos que as ervas daninhas não nos roubavam o espaço e ali nasceram mil aventuras e cidades desenhadas na areia ladeadas por estradas sem imite de velocidade onde partilhávamos os carrinhos comprados na feira ou pistas de obstáculos para caricas e covinhas para berlindes ou rectângulos de saltar ao pé-coxinho. Hoje no meu largo está um prédio onde habitam pessoas que não me conhecem e não me pagam aluguer pelos sonhos e gargalhadas que ali deixei.

Tento reconhecimento nas caras com que me cruzo mas sei que o tempo nos transforma noutras imagens e que um a um todos partimos para outras vidas e outros lugares e que a morte substitui vizinhos e que aquela à janela já não é a velha bisbilhoteira que denunciava as nossas maldades em troca de castigos que me proibiam de sair nas tardes de mais chuva ou mais frio ou mais calor e em que eu aproveitava para ler tudo o que podia, gostava hoje de lhe poder agradecer ter feito mais por mim do que aquela professora de quem só me lembro dos olhos.


A Flock Of Seagulls - I Ran

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 4


Saem de um pequeno buraco. Seguem num carreiro que se estende como uma cobra ínfima feita de minúsculas partes que se agitam. Seguem numa ordem de ir e vir sem aparente nexo. Seguem sem sons de comando ou palavras de incentivo. Seguem sem notar que as observo no seu seguir, no seu agitar, na sua ordem sem nexo, no seu silêncio.

Agarro num pequeno pau e começo a fazer riscos no chão como obstáculos. No inicio alguma desordem e um debandar ao longo dos sulcos e depois de novo o carreiro se refaz e a minha acção é anulada pela vontade das formigas. Coloco o pau no seu caminho separando umas das outras e uma vez mais agitação, confusão e depois de novo o carreiro se refaz com os insectos habilmente a treparem o meu nada e a sua montanha.

Ponho-me a pensar se me conseguem ver, se sentem a minha gigantesca presença, se percebem que as podia esmagar sem esforço, apenas elevando o pé e deixando a gravidade fazer o resto. Podia esmagá-las por capricho ou porque sou louco ou porque queria demonstrar que tenho poder perante seres que me deviam venerar, porque neste instante eu sou quem pode decidir se continuam a ser formigas em carreiro ou pedaços desfeitos. Eu sou o mais perto de Deus que estas formigas podem alcançar, posso trazer-lhes abundância de comida e água, posso aligeirar-lhes o caminho ou posso destruir o seu mundo.

Imagino-me como formiga e elevo os olhos à procura do meu Deus. O que me distingue das formigas é a capacidade de pensamento ordenado, de aceitar, ignorar ou negar um Deus que poderá ou não ter o poder de pegar num pequeno pau e varrer o meu mundo, de me fazer feliz ou miserável ou louco ou mais feliz e menos miserável por me fazer louco e se me imaginar formiga e parte da raça humana que fez deste planeta o seu formigueiro e assumiu comportamentos de insecto em carreiro então poderá haver agora um pé levantado sobre mim pensando se me esmaga ou deixa viver mais um dia.

Debruço-me sobre as formigas, quase a tocar-lhes com o nariz e não noto nenhuma alteração de comportamento pela minha proximidade e sopro suavemente e faço uma voar uns centímetros e aterrar e voltar ao carreiro como se nada se tivesse passado e começo a cantar uma canção qualquer que me andava na cabeça desde manhã. É uma canção sem nenhum significado, apenas uma melodia que me ocupa o pensamento e me faz esquecer por uns momentos ideias teológicas de escalas finitas, sou Deus na minha imensidão perante o carreiro, sou formiga na minha insignificância perante o que desconheço e me faz pensar em melodias sem importância.

Sacudo o pó que se pegou às calças e abandono o carreiro à sua sorte ou à vontade de outros Deuses mais competentes que eu ou mais cruéis ou com outras vontades de agir, substituo o cantar pelo silvo de um assobio, agora a canção já só tem melodia e recordo que era uma que o meu avô gostava de assobiar, escrita por alguém estrangeiro e que ouvira num filme sem cores, no tempo em que o cinema eram actores e jogos de sombras e começo a preocupar-me com esta loucura que me faz pensar de mais em coisas sérias e na minha importância e no meu avô e na forma simples com que viveu a vida e na forma inaceitável como aceitou a inevitabilidade da morte como a vontade de um Deus que me dizia imenso à sua dimensão.

Velho tonto… Nada é mais do que factores de escala e para me provar da minha grandeza volto a trás e ponho a mão no bolso e encontro alguns farelos do bolo de arroz que comi de manhã e jogo-os na direcção do carreiro. Hoje fui um Deus generoso, trouxe abundância e não exigi devoção, nem templos nem sacrifícios e o carreiro desfaz-se numa dança de insectos que se atarefa em redor da minha bondade e sigo por ali abaixo a assobiar uma velha canção.


Zeca Afonso-A formiga no carreiro

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 3


Acordei hoje com as sombras a bailar no tecto do quarto. Nem reparei na persiana aberta quando me deitei e o Sol aproveitou para entrar-me pela janela e fazer uma visita. As sombras despertam-me sentimentos de carícia, o Sol é um bom amigo, gosto de luz e de calor e de sombras, essas contam-me histórias que estão dentro d e mim e que se animam em vénia à minha imaginação.

Agora vejo silhuetas de pessoas que sei que não existem e que parecem conversar sem motivo, pelo prazer da conversa, não ouço as palavras porque as sombras não tem som, mas sei que não falam de mágoas nem solidão nem de ódio, não sei se falam de amor mas não me importa e penso que gostaria de ser uma sombra vagante, de me poder colar a sítios e pessoas e ficar ali como parte de algo feliz, como observador que se move num referencial perfeito.

As sombras mudam e como que se fundem num beijo, sei que agora não há som mesmo não havendo e que neste meu delírio de uma manhã solarenga me deixo enrolar pela preguiça que me mantém colado à cama com os olhos a saltar entre a realidade e a vontade de voltar a sonhar. O despertador toca no momento em que uma das sombras se afasta lentamente da outra como alguém que parte sem dor e decido que também eu tenho que partir porque esta loucura que sinto crescer de dia para dia ainda não me alimenta.

Abro a janela e avisto sobre o muro de um quintal sobranceiro um melro de bico alaranjado, as penas negras agitam-se irrequietas e a ave parece olhar para mim e reconhecer-me como o doido do prédio em frente, invejo-lhe as asas e a irresponsabilidade e levanta voo numa direcção qualquer. Reparo nesse instante que estou completamente nu e que numa varanda do outro lado da rua uma mulher de cabelo pintado de amarelo me lança um sorriso trocista, aceno-lhe sem me cobrir.

Não há mais sombras no tecto do quarto, apenas uma mancha uniforme como um livro com uma só palavra escrita e ponho-me a pensar que palavra escolheria eu se apenas pudesse escrever uma só palavra, não seria amor nem seria ódio e acho estranho ser a segunda vez que me vem à cabeça hoje essas palavras e procuro outras palavras e fico cheio de palavras e sem palavras e decido que se tivesse que escolher seria apenas palavra, porque essa me daria o maior poder do mundo, porque em si encerra todas as outras.

Às vezes penso se devo recear as sombras, se elas não existem apenas para esconder luz ou se projectam para me ocultar a verdadeira cor das coisas, serei eu dono da minha sombra? Poderei ser eu responsável perante alguém pelas cores e luz que ela esconde dos outros? Agora aqui não tenho sombra definida, apenas uma mancha ténue que se espalha de mim e morre sem eu perceber, tenho que sair daqui para lhe dar mais forma, regar-me de luz para que me possa contar a sua história e explicar o que pretende de mim.

Sinto-me angustiado por não me sentir de outra forma e recordo-me do sorriso trocista da mulher do cabelo amarelo, o que me dirá quando se cruzar comigo na rua? Talvez o mesmo que o melro quando voar sobre mim, nada, ou talvez me diga que me viu lobo na pele de um cordeiro ou cordeiro na pele de um lobo, que me deseja ou que gostaria de poder apagar a minha imagem da sua visão. Tento lembrar-me do seu rosto mas apenas vejo o cabelo amarelo ou seria o sol que o pintou? O sol hoje acordou-me com sombras que se enamoraram no tecto do meu quarto e pintou de amarelo o cabelo de uma mulher que me viu vestido na minha nudez e me sorriu.

Hoje vesti-me de branco para poder honrar o sol e andei sempre sobre a minha sombra.

Nota: Atendendo a vários pedidos público o texto completo.

Mike Oldfield-Moonlight Shadow

domingo, 9 de agosto de 2009

O Privilégio do Disparate – Nono sinfónico de cariz industrial com laivos de arquitecto louco projectando catedrais sobre o tecto do mundo


Eu gosto de comer peixe. Hábito só de adulto que em puto aquilo tinha muitas espinhas e não era comida que se apresentasse sem riscos de birra e horas a imaginar que o prato era um espaço de aventura com as batatas e os legumes a tomarem a forma de selvas inexploradas e aquela coisa branca e esponjosa uma alcateia de bichos ferozes que tinham que ser esmagados e no final engolidos pelo ser supremo, futuro imperador de uma cadeia de lojas de brinquedos e fábricas de chocolates, qual bombeiro ou astronauta ou polícia, isso era para quem não tinha imaginação e eu disso sempre tive de sobra, nunca soube foi o que fazer com ela.

Voltando ao peixe… Eu gosto de peixe frito, se forem peixitos caninhos ou um sável ou uma bela xaputa que foi um peixe que sempre me deu vontade de rir por causa claro está do nome e era o peixe favorito da minha avó que me ensinou a comer aquelas partes escuras da cabeça que são uma delicia, mas ria que nem um sacana cada vez que ela dizia que hoje havia xaputa frita para o almoço e era assim ainda palmo e meio de gente mas já tinha maldade no corpo que eu isso também sempre tive. O problema dos peixinhos fritos são as espinhas que eu por mais pequeninas e insignificantes não consigo mesmo engolir, tenho um trauma com as espinhas, penso que posso sufocar com aquilo espetado e demoro horas a separa-las o que me torna uma companhia desequilibrada para o almoço com o pessoal todo já a beber café e eu ainda de faca e garfo na mão e olhos esbugalhados a dissecar peixes e por falar em café já falarei disso mais tarde.

Mas o que gosto mesmo é de peixe grelhado, sobretudo se for escalado, sei que os puristas me dirão que o bom peixe grelhado se deve comer sem que o fogo toque na carne, mas eu gosto e pronto e já agora acompanhado de um bom repolho salteado ou umas migas de pão em forma de bolo com muito alho e uma salada mista com tomate e alface e pimento assado e cebola doce regado com uma sangria feita com vinho verdadeiro e muita fruta e já agora em agradável companhia, com risos e histórias e o que eu gosto de rir enquanto como e de ouvir contar histórias, é garantia de uma boa digestão. Podia escrever uma tese sobre a arte de comer peixe grelhado ou falar de sardinhas que é outra iguaria que só comecei a apreciar já galifão ou falar de bacalhau que é na realidade a grande herança que os Portugueses irão deixar ao mundo assim o bicho não se extinga ou se torne apenas acessível a quem ganhe o euro-milhões o que aliás me leva a considerar que o nosso governo deveria pensar seriamente na problemática do futuro do bacalhau, começar por o tornar património nacional, instituir institutos e confrarias e distinções honorificas e títulos de nobreza a quem apresentasse novas formas de o confeccionar e garantir a sua continuidade nem que tenha de ser declarando guerra à Noruega e anexando aqueles mares que deviam ser nossos, ficassem lá eles com o petróleo que não me faz falta nenhuma.

De bacalhau gosto de qualquer maneira, desde a simples punheta de bacalhau que merece que explique como eu a faço e sei que virão muitos dizer que não é nada assim, mas desculpem lá a brejeirice, punhetas cada um bate como sabe e pode e eu desfio o bacalhau cru em lascas e ponho a demolhar pouco tempo e depois com o punho espremo e escorro a água e vai para uma tigela daquelas fundas de preferência amarela e não me perguntem porquê, mas uma boa punheta de bacalhau tem que ser feita em tigela amarela e depois é só temperar com azeite e vinagre e cebola e alho porque o alho está para o bacalhau como os orégãos estão para os caracóis e a canela para o arroz-doce ou para a encharcada. Pode ser cozido com batatas e grão, assado, à Zé-do-Pipo outro que devia fazer parte dos nossos livros de história ou à lagareiro ou com natas ou aldrabado, nunca encontrei uma maneira de confeccionar bacalhau que não tenha gostado e olhem que bem tenho procurado.

Não vou falar de sobremesas para não estragar a linha mas quero falar de café, porque alguém me desafiou a falar de invenções importadas de outro países com café, para mim beber café é beber uma bica ou um cimballino como lhe chama a malta do porto e leva dois l’s sim senhora porque a expressão é do povo em honra das maquinetas que o tiravam e que passe a publicidade ainda hoje por ai andam e continuam a ter a marca Cimballi. Temos em Portugal as melhores misturas de café do mundo, sabemos da arte de o torrar então porque é que inventamos? Eu aceito que nas lojas do Clooney se vende bom café e que as cápsulas preservam e que o marketing é fabuloso e também aderi, mas não é a isso que me refiro, falo daquelas cadeias que servem baldes de café em copos de papel ao preço de um bilhete de cinema e de um pacote dos grandes de pipocas. Eu sempre achei que em Portugal não tinham hipótese, porque o povo nunca gastaria mais do que algumas dezenas de cêntimos na biquita, mas não é que começam a aparecer por aí como cogumelos e o rebanho faz bicha. Lá me argumentaram que fazem um bom capuccino, para mim bebida de maricas, basta atender ao nome e da forma como é feito em meia chávena de mau café e meia de leite batido em espuminha, perceberam bem em espuminha com uma vareta com um arame que vibra na ponta e que transforma o leite numa coisa que só serve para se pegar ao lábio superior e nos envergonhar perante quem nos assiste a beber aquilo e o nome deriva de uns frades pequeninos e carecas que não tendo muito que fazer o inventaram. Ainda consigo perceber que uma senhora de gostos delicados, munida de lencinho para não deixar mal entendidos o consiga apreciar mas homem que é homem gosta de bacalhau e sardinhas e uma boa bica para terminar.

Sobre a música de hoje, roubei à Ana do sul, porque me apaixonei por esta Espanhola de voz caliente e como hoje falei de paixões pareceu-me apropriado…


Bebe - Siempre me quedara