Senti um impulso para parar pelo caminho e entrar numa florista e comprei umas flores, sabia o que queria e escolhi rapidamente de forma simples e sem composição de ramo, apenas flores sem artifícios e puras na sua beleza de flor. Estacionei o carro, saí e toquei à campainha sem certezas de me anunciar para uma casa vazia e estranhei o alívio de ouvir a porta abrir-se. Subi os degraus em saltos longos a dois e dois e ela esperava-me ao cimo das escadas com surpresa por me ver ali, sem nada mais beijei-a carinhosamente nos lábios e entreguei-lhe as flores. Sete rosas vermelhas e um antúrio, recebeu-as nas mãos com um sorriso sincero e perguntou-me o porquê das flores.
As flores por si só porque sim e porque acreditava no prazer de eu as dar e dela as receber e aquelas porque me significavam… As sete rosas pela paixão do número e pela paixão que a ela me transportavam. Ao sétimo dia a possuíra e sete são as virtudes que devem ser recompensadas que nela reconhecia e sete são os pecados que sei ter cometido que quero que me perdoe e sete são os pontos do seu corpo que a ela me prendem, os olhos, a boca, os seios e tapou-me a boca com um beijo e mandou-me parar de dizer asneiras. Quando recuperei o ar continuei com o meu discurso e disse-lhe ainda que sete eram as cores do arco-íris que vira reflectidas nas lágrimas das suas dúvidas e que durante sete dias estaria a lua cheia pela nossa paixão no céu, voltou-me a beijar e disse-me que iria colocar as flores em água para que não morressem.
Voltou. Sentou-se a meu lado no sofá e disse-me que não teria muito tempo, tinha que ir trabalhar e que não esperava nada me ver ali e eu disse-lhe que a desejava e ela olhou-me fundo nos meu olhos e levantando-se dirigiu-se à estante e retirou uma moldura com uma foto de uma criança que sorria montada num triciclo e disse-me que aquele era o seu filho e o seu único amor e a sua única preocupação, que também me desejava mas que não queria, não podia por ele perder-se no caminho que encontrara na vida e que a mantinha fiel ao acordar e desperta ao adormecer. Quis dizer algo mas senti que o que dissesse só me afastaria e não disse nada e procurei os seus lábios que encontrei húmidos e doces e beijei-a.
Partilhámos os nossos corpos, saciamos a nossa fome de desejo e a nossa sede de paixão e senti que agora naquele instante não havia culpas nem receio de arrependimentos mas que elas viriam mais tarde e eu não queria que viessem mas não sabia como as evitar, como exorcizar as dúvidas que nos assombram quando já sofremos as partidas da vida e que papel podia ter aquela mulher no meu projecto de loucura. Interrompeu-me os pensamentos com o olhar no relógio e disse-me que tínhamos que nos vestir e que tinha mesmo que sair e ir trabalhar e perguntou-me se não devia também de estar a trabalhar e eu disse-lhe que não, que hoje não iria trabalhar e que provavelmente não voltaria ao meu emprego e limitou-se a mirar-me de uma forma inexpressiva que me gelou, porque não me condenava nem me louvava.
Na despedida perguntou-me o porquê do antúrio e eu sorri e disse-lhe que o colocasse no meio das rosas e que esperava que enquanto se mantivesse viçoso a fizesse lembrar-se de mim…
Confesso que roubei informação bibliográfica descaradamente à minha amiga Ti Pronúncia aqui mas sei que ela é uma alma generosa e não se importa…
Alannah Miles-Black Velvet