segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Musicalidades com condimento #3

Vou-me interceptando entre as certezas e outras dúvidas…


Pablo Milanés & Simone - Yolanda

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Musicalidades com condimento #2

O silêncio sempre irá prevalecer sobre o ódio…


Uma das minhas músicas favoritas com vários sabores: Thelonious Sphere Monk – Round Midnight


Thelonious Monk Quartet


Hermeto Pascoal


Amy Winehouse


Dizzy Gillespie


Ella Fitzgerald


Miles Davis Quintet


Chick Corea


Herbie Hancock


Sarah Vaughan


Cassandra Wilson


Linda Ronstadt


Joe Jackson


Gotan Project & Chet Baker


Baden Powell

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Musicalidades com condimento #1

Às vezes sabe bem parar o tempo...

Suster a respiração...

Apenas ouvir um coração a bater...

Desejo inconscientemente que não seja o meu…



Concha Buika & Javier Limón - Volver, volver

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Até já


Quem me visita sabe que não costumo falar por aqui dos meus problemas pessoais, apenas salpico alguns textos com o meu estado de espírito do momento.

Agora cheguei a um ponto na minha vida onde tenho mesmo que me recolher para dentro de mim próprio, não para gládio de quem me quer mal, mas que se preocupe porque me estou a preparar para a enfrentar e não tenho por hábito perder batalhas sem me bater até ao limite das minhas forças.

Vou ali por umas semanas e volto já e por isso não irei publicar mais nenhum texto este mês e entregarei a gestão deste blog ao Puck que sei que irá continuar a escrever no Little Rob G e no Midsummer Night Dream, também não visitarei os vosso blogs nem vos irei comentar e peço desculpa por isso, mas prometo que porei a escrita em dia quando regressar.

Sei que tenho por aí amigos verdadeiros que ficarão preocupados quando lerem estas palavras e por isso vos deixo um abraço e um beijo e este desenho magnífico que a minha amiga Jane fez de propósito para este post:




Vasculhei a memória e encontrei uma das minhas músicas favoritas da minha juventude e que vem mesmo a jeito para dedicar à puta da minha vida.

Até já…


The Flying Lizards - Money

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Paralelos perpendiculares

Projecto intimidades em som por aqui e palavras por ali:


Holly Throsby - Now I love Someone

domingo, 11 de outubro de 2009

Flutuando por aí

Aos que me visitam ausentei-me para parte certa mas prometo voltar em breve e hoje estou assim entre mim e um mundo mais suave e sereno e abstraído da pressão do tempo e às vezes sabe bem este simples nada.


O que posso oferecer para quem perdeu tempo a aqui vir é apenas deixar um convite para dançar…



Black Eyed Peas-I gotta feeling

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O Privilégio do Disparate – décimo primeiro foi o verbo auxiliar educativo e marsupiais de saco cheio com laivos de sabedoria inodora

É nestes textos que me sinto mais à vontade, onde não preciso de pausar a escrita para escolher palavras e sigo por aí fora sem receios de que o resultado não seja o que no inicio esperava porque na realidade nada espero quando normalmente escrevo estas coisas. Hoje é uma excepção porque este privilégio tem objectivos o que é uma chatice porque não me posso perder nas palavras e por muito que me estenda, algures terei que voltar para trás e ir na direcção certa que é a resposta a um desafio da Tí Pronúncia que me fez já há algum tempo para dizer a que coisas estenderia de mão erguida um cartão vermelho.

Podia aqui falar de muita coisa que passasse por tanta coisa que vai mal neste mundo mas isso seria fora do âmbito do âmbito deste privilégio que é poder disparatar impunemente e por isso vou falar de estender cartões vermelhos a outras coisas que me irritam e que me levam a disparatar. Comecemos pela hipocrisia que me irrita solenemente e já me acusaram de ser hipócrita o que me irrita solenemente porque normalmente quem me acusa está a ser hipócrita mesmo sem o saber ou pior sabendo que o é e depois podia também falar de moralismos bacocos, detesto aquelas pessoas que se escondem atrás de figuras de barro mal pintadas e paternalismos de quem se acha sabedor da verdadeira verdade e atitudes sarcásticas que visam apenas ferir sem querer ensinar pelo caminho da ironia e de mentiras sem fins lucrativos para a comunidade e espertezas saloias que se topam até pelo cheiro e da falta de lealdade, porque a traição nunca poderá ser desculpável por razão alguma e das amizades de ocasião que para mim só fazem o ladrão e por fim dos sentimentos miseráveis que fazem o ser humano por vezes tão pequenino.

Ora contem lá se não foram dez cartões vermelhos rubros como o sangue que caracteriza a raiva e eu consigo ter raiva destas coisas porque não tenho problema em me afirmar como um bom cabrão para quem me tira do sério e sou a melhor pessoa do mundo para se ter como amigo e a pior pessoa do mundo para se ter como inimigo e a boa notícia é que por aqui na blogoesfera fiz sobretudo amigos e esses foram ficando e deixando de quando em vez uma palavra de carinho ou um abraço ou um empurrão na direcção certa.

Resta-me agradecer ainda uns prémios que alguns amigos de que falei acharam disparatadamente que este blog merecia e cá estou eu com o privilégio de lhes poder agradecer essa plena forma de amizade. E é nem um prémio nem dois mas três que tenho o privilégio de aqui expor e agradecer.

O primeiro veio da Tí Pronúncia que para quem não sabe é uma grande Mulher do norte, sabedora das coisas e uma amiga antiga por quem tenho um carinho enorme.


O segundo veio da Teresa que é alguém com quem tive o prazer de partilhar um momento que sei ter sido especial para ela e que foi o lançamento do seu livro e que passe a publicidade merece que o procurem nas bancas e se não o encontrarem sempre lhe podem pedir para vos vender um exemplar, o meu está autografado e não o cedo, é meu.


O terceiro veio de uma amiga muito especial, uma grande contadora de histórias e um poço de sabedoria diversa e uma pessoa com uma alegria de viver contagiante e a melhor das companhias para se ter num dia difícil.

Mandam as regras que agora nomeie outros blogs que mereçam os dois primeiros prémios, porque sei que o terceiro a ST gosta de ser ela a atribui-lo, mas alguns já os terão e por isso a todos os que fazem parte da minha lista de sítios por onde posso andar escolham lá um prémio que ainda não tenham e levem-no para o vosso cantinho como prova do meu carinho.




Bee Gees - I Started a Joke

domingo, 4 de outubro de 2009

Pausa para chocolate abolachado


Conforme anunciado o meu louco chegou ao fim da primeira série que teve 16 dias impolutos e 16 porque é um número divisível muitas vezes e porque me simboliza códigos tecnológicos e outras tretas do género que não tem qualquer importância mas que me dão um ar de sabedoria avulsa.

Convêm referir que estes textos são ficção, aquela ficção que eu gosto de dizer que é cozinhada e condimentada com artifícios de realidade. Nesta série introduzi 3 personagens, um homem e 2 mulheres que se irão relacionar nos textos seguintes e nada tenho previsto, a história irá desenrolar-se de acordo com o que me vier a apetecer.

Para quem não reparou estes textos tem apenas referências vagas, não existe cenário, nem idades, nem nomes e isso irá manter-se. O homem é alguém que manifesta de forma explícita o seu descontentamento e que quer ter mais do que a vida já lhe deu e acredita que isso o está a levar a um estado de loucura que o ajuda a enfrentar as suas dúvidas e das mulheres de uma apenas temos uma imagem vaga e quase nenhuma presença nesta série e da outra sabemos que se acomodou com a vida que lhe foi parca de realização e contentamento.

Os textos podem agora ser lidos em sequência e aqui vai uma ajudinha:
Dia 1 Dia 2 Dia 3 Dia 4 Dia 5 Dia 6 Dia 7 Dia 8
Dia 9 Dia 10 Dia 11 Dia 12 Dia 13 Dia 14 Dia 15 Dia 16

Gostaria de ter a vossa impressão imaginando que estão a ler as 16 primeiras páginas de um livro.

Esta pausa do meu louco irá durar um par de semanas e no entretanto vou tentar escrever uns textos que tenho adiados e alguns outros privilégios e a pedido de alguns de vós vou fazer um inquisitório e ceder às pressões do Puck, que para quem não sabe é um bicho pequenino e embirrento com quem partilho o blog e fiz um acordo com ele que passa por ele não me chatear por uns tempos e eu ajudá-lo a criar um blog só para ele fazendo publicidade no meu. Esse blog vai funcionar como uma adenda deste e contar uma história diferente, levantando um bocadinho do véu e só deixando ver o dedão do pé, o blog vai chamar-se Little Rob G e digam lá se o bicho não é invejoso?



Freddie Mercury - The Great Pretender

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 16



Senti um impulso para parar pelo caminho e entrar numa florista e comprei umas flores, sabia o que queria e escolhi rapidamente de forma simples e sem composição de ramo, apenas flores sem artifícios e puras na sua beleza de flor. Estacionei o carro, saí e toquei à campainha sem certezas de me anunciar para uma casa vazia e estranhei o alívio de ouvir a porta abrir-se. Subi os degraus em saltos longos a dois e dois e ela esperava-me ao cimo das escadas com surpresa por me ver ali, sem nada mais beijei-a carinhosamente nos lábios e entreguei-lhe as flores. Sete rosas vermelhas e um antúrio, recebeu-as nas mãos com um sorriso sincero e perguntou-me o porquê das flores.

As flores por si só porque sim e porque acreditava no prazer de eu as dar e dela as receber e aquelas porque me significavam… As sete rosas pela paixão do número e pela paixão que a ela me transportavam. Ao sétimo dia a possuíra e sete são as virtudes que devem ser recompensadas que nela reconhecia e sete são os pecados que sei ter cometido que quero que me perdoe e sete são os pontos do seu corpo que a ela me prendem, os olhos, a boca, os seios e tapou-me a boca com um beijo e mandou-me parar de dizer asneiras. Quando recuperei o ar continuei com o meu discurso e disse-lhe ainda que sete eram as cores do arco-íris que vira reflectidas nas lágrimas das suas dúvidas e que durante sete dias estaria a lua cheia pela nossa paixão no céu, voltou-me a beijar e disse-me que iria colocar as flores em água para que não morressem.

Voltou. Sentou-se a meu lado no sofá e disse-me que não teria muito tempo, tinha que ir trabalhar e que não esperava nada me ver ali e eu disse-lhe que a desejava e ela olhou-me fundo nos meu olhos e levantando-se dirigiu-se à estante e retirou uma moldura com uma foto de uma criança que sorria montada num triciclo e disse-me que aquele era o seu filho e o seu único amor e a sua única preocupação, que também me desejava mas que não queria, não podia por ele perder-se no caminho que encontrara na vida e que a mantinha fiel ao acordar e desperta ao adormecer. Quis dizer algo mas senti que o que dissesse só me afastaria e não disse nada e procurei os seus lábios que encontrei húmidos e doces e beijei-a.

Partilhámos os nossos corpos, saciamos a nossa fome de desejo e a nossa sede de paixão e senti que agora naquele instante não havia culpas nem receio de arrependimentos mas que elas viriam mais tarde e eu não queria que viessem mas não sabia como as evitar, como exorcizar as dúvidas que nos assombram quando já sofremos as partidas da vida e que papel podia ter aquela mulher no meu projecto de loucura. Interrompeu-me os pensamentos com o olhar no relógio e disse-me que tínhamos que nos vestir e que tinha mesmo que sair e ir trabalhar e perguntou-me se não devia também de estar a trabalhar e eu disse-lhe que não, que hoje não iria trabalhar e que provavelmente não voltaria ao meu emprego e limitou-se a mirar-me de uma forma inexpressiva que me gelou, porque não me condenava nem me louvava.

Na despedida perguntou-me o porquê do antúrio e eu sorri e disse-lhe que o colocasse no meio das rosas e que esperava que enquanto se mantivesse viçoso a fizesse lembrar-se de mim…


Confesso que roubei informação bibliográfica descaradamente à minha amiga Ti Pronúncia aqui mas sei que ela é uma alma generosa e não se importa…

Alannah Miles-Black Velvet

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 15



Aproximo lentamente os meus lábios dos seus. A aproximação dura o momento de uma eternidade que se estende para além da compreensão do tempo e quando o toque acontece imagino que todos os pássaros do mundo pararam de bater as asas suspensos apenas na definição de uma película fotográfica que se revela em mim. Envolvo o seu lábio inferior nos meus partilhando a dádiva de uma suave humidade e depois os meus lábios estão dentro dos seus e os seus dentro dos meus e as nossas línguas ganham vida própria numa valsa dançada sem regras. O beijo é uma onda que avança no nosso mar de desejo e que no seu espraiar nos nivela as dunas de qualquer dúvida, juntam-se na dança dois pares de mãos em carícias sobre o que ainda não é pele e ambos sentimos que queremos que seja pele e de uma forma natural estamos nus sentados sobre a cama, os troncos colados envolvidos em abraço e há apenas uma boca que entre as duas respira o mesmo ar afogado num sufoco urgente de paixão.

Olhamo-nos agora sem beijo, ambos sabemos que já não podemos parar e que seremos apenas corpos sem vontade ao sabor da vontade do tesão tenso que nos aura da pele e ela deixa-se cair puxando-me para cima de si e eu encaixo-me entre as suas coxas e procuro encontrar o caminho guiado pela sua humidade que se funde e atrai a minha e a penetração acontece sem dor e a cada milímetro que entro dentro dela sinto-me mais parte de um corpo que é agora uma extensão do meu. Ouço o seu suspiro, a brisa do seu respirar e a pressão do seu interior e oscilo suavemente os quadris no receio de entrar numa espiral sem controlo e cadencio o ritmo tentando concentrar-me apenas no prazer que lhe vejo nos olhos e sinto as suas mãos apertarem-me as nádegas que empurra com força fazendo-me entrar ainda mais no seu calor e a sua respiração acelera e foge-lhe dos lábios um misto de som significado sem significação e os olhos perdem-se e pressinto a urgência do seu orgasmo e pressiono-me até ao fim contraindo o sexo até sentir o derramar do êxtase que lhe confirmo no olhar e saboreio a acalmia que agora lhe irradia do corpo mas eu não quero parar e ela sorri e volta a puxar-me para si e incentiva-me a acelerar o ritmo, diz-me sem palavras que agora vai esperar por mim e espera e acabamos inertes esvaídos num beijo com outro sabor.

Estamos agora deitados lado a lado e falamos da inconsciência que nos tomou e sossega-me porque não corre o risco de engravidar e que está pura de doenças por castidade e eu digo-lhe o mesmo com a certeza de que não acredita nas minhas palavras e vejo que as lágrimas lhe invadem os olhos e pergunto-lhe se está arrependida e diz-me que não, que não ligue e que está feliz mas que não pode deixar de antecipar um sentimento de eminente abandono e chamo-lhe tonta e puxo-a para mim num outro beijo e no desejo de partilhar de novo o seu suor e desta vez é ela que se penetra em mim e que se cadencia nos movimentos que lhe fazem oscilar os seios que acaricio e que lhe beijo alternadamente, sou controlado pelo seu cavalgar, espectador privilegiado do acontecimento do seu prazer, demasiado excitado para a acompanhar vejo-a atingir os seus cumes uma e outra vez.

Sai de mim saciada e devora-me com um beijo, os peitos erectos que se roçam nos meus e sinto a sua mão que se aperta no meu sexo e sorri-me com um brilho traquinas no olhar e procura-me entre as pernas e toma-me na sua boca e do resto apenas me resta uma memória rendida.


Procurava a música ideal para este post, quando num comentário a minha amiga Storyteller a simpática miúda que tem um carro lindo decidiu deixar-me uns versos de uma canção do Angelo Badalamenti, ignorante e curioso e totalmente devoto à santa Laura Palmer fui à procura e foi paixão ao primeiro acorde, por favor ponham a música a tocar e releiam o texto. Não tenho palavras para te agradecer querida amiga…




Tim Booth and Angelo Badalamenti - Fall in Love With Me

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 14


Eu cheguei e ela chegou, somos folhas soltas caídas de uma árvore vulgar que se cruzam ao sabor do vento e que terminam casualmente juntas num pedaço de passeio. Olhamo-nos sem palavras e faço sentir que as desculpas são inúteis e sugiro que nos sentemos naquela mesa donde se pode ver o rio. Ambos estamos em silêncio a ver um par de gaivotas que pousam na margem e se movem no chão da mesma forma desajeitada com que agora me sei vazio de palavras.

Sinto-me um adolescente num primeiro encontro sonhando com a perspectiva de um beijo e ela percebe, sei que as mulheres tem uma enorme facilidade de perceberem estas coisas e ela puxa-me para fora do meu casulo com uma conversa casual sobre qualquer tema pouco importante e depois começamos a contar histórias da vida que já vivemos e do que nos importa e a procurar estabelecer pontes entre as nossas causalidades e a remexer nas memórias no entretanto em que não cruzo e descruzo os dedos e sorrio como um tolo.

Conta-me que sonhara um dia em ser alguém e que sabia o que queria da vida mas que foi empurrada por necessidade para trás de um balcão e depois de outro e outro até terminar rodeada de roupa alheia, conta-me que um dia engravidou depois de uma única noite em que se entregou a um homem que já não se encontrava a seu lado quando o dia amanheceu, conta-me que não teve coragem de tomar a decisão que todos lhe diziam ser a mais acertada e que os meses passaram e que uma criança nasceu e que hoje o seu pequenino grande amor está longe a crescer com familiares que nunca lhe perdoaram os pecados e conta-me que os sonhos se foram desvanecendo nas brumas do tempo e que agora já não lhe doem ao acordar nem lhe trazem mais as lágrimas para fora dos olhos nem que lhe importam realmente as razões que a prendem acordada ancorada ao tecto do quarto enquanto as horas passam e ouve a música melancólica do vizinho solitário que mora ao lado e os ruídos da dança de sexo do jovem casal mesmo por cima do seu quarto.

Conta-me que gosta de ser só porque se vai redimindo dos erros que não pode espelhar em mais ninguém senão em si própria e que a vida podia ser pior porque lhe permite sobreviver com algumas sobras de dinheiro que envia todos os meses para o filho que um dia terá uma vida diferente da sua e será o motivo do seu orgulho e acabará com o vazio que sente na alma. Conta-me que não percebe porque razão quis estar aqui comigo e porque razão me conta o que me conta e que gosta do meu sorriso e que se sentiu atraída pelo meu ar contraditório de quem anda perdido na certeza de um caminho.

Conto-lhe que sou egoísta por ter tanto do que não teve e que ainda assim não me satisfaz e do que gostava de ser diferente e das minhas ambições e do que me preparo para fazer e acabo a pedir-lhe desculpas. Peço-lhe desculpas por ela e não por mim e fico preso no seu olhar que parece não me perceber e que me manda parar de pedir desculpas e que me diz sem muitas palavras que gostava de ter a minha força ou a minha coragem ou partilhar um pouco de ambas. Estende-me a mão que escondo dentro da minha e ainda não tocámos nos pratos que se arrefecem nem nos copos que transparecem cheios de um líquido rubro de vinho escolhido ao acaso. Antecipo um beijo que irá fazer de amanhã um dia diferente e de nós a possibilidade de ser soma de partes solitárias que se encontram num rabisco disperso e equacionado na convergência das nossas vidas.


Elvis Costello-She

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 13


Apetecia-me apenas estar deitado sem motivos de barriga para cima à espera que hoje fosse amanhã. Apetecia-me não ter que estar aqui nem ali nem em lado absolutamente nenhum. Não tenho ainda a coragem de saltar dias, de dobrar o tempo de acordo com os meus apetites e matar de vez a necessidade de satisfazer as necessidades que já não me satisfazem.

Fui convidado para esperar no gabinete que é amplo e aberto à luz por muitas janelas, penso que existem dois tipos de gente que se quer mostrar importante, aquelas que nos fazem esperar em salas de sofás escolhidos com mau gosto e completos por uma mesinha baixa coberta de revistas que nos desafiam a inteligência e os outros que nos convidam a entrar no seu antro de poder. Estou de pé em frente a uma mesa em que todos os papéis estão meticulosamente ordenados e em que dois telefones não param de acender e apagar luzes e em que um conjunto de fotografias me mostra uma família sorridente e em que penso que a razão porque estão ali expostas é para que eu as veja e as inveje e que não é por acaso que as fotos estão viradas para mim e não para quem as devia amar.

Atrás um conjunto de prateleiras expõe troféus de muitas conquistas e feitos e algumas bandeiras e placas gravadas com datas e um aquário iluminado por uma luz fraca o suficiente para que se vejam os peixes de muitos tipos e tamanhos que nadam de um lado para o outro e de cima para baixo. Ponho-me a pensar se aqueles peixes têm a noção de quão limitada é a amplitude do seu mundo e o egoísmo de quem o limita. Este aquário será apenas para quem o tem um meio de sentir o seu poder sobre os peixes ou um meio de aliviar pressões pela observância da monotonia dos seus movimentos. Agora um deles avermelhado de cauda em forma de vela olha para mim de frente e abre e fecha a boca como se me perguntasse se deste lado também me reciclam o ar por bombas eléctricas ou se a temperatura que me cerca é mantida constante ou se me alimentam meticulosamente sempre à mesma hora através de um mecanismo de rodinhas e furinhos que se encadeiam.

Naquela troca de olhares entre seres confinados aos seus mundos de que lado estará o verdadeiro aquário? Quem observa quem? Os peixes são felizes porque estão livres de nadar no seu infinito finito, sem razões para se preocuparem com a qualidade da sua vida que é hoje a mesma que foi ontem e que salvo alguma falha técnica será a mesma amanhã. O peixe não pára de me olhar, sem piscar os olhos, imóvel junto ao vidro que nos separa e eu tenho vontade de mergulhar naquele seu espaço limitado de preocupações e partilhar a sua liberdade restrita. Gostaria que aquelas janelas se abrissem para um mar imenso para que os pudesse soltar num gesto revelador de inconformismo e de quebra de protocolos de racionalidade e assim assumir a loucura que anseio assumir perante quem me mantém confinado a um aquário que não me aquece nem me recicla o ar nem me alimenta nem me deixa nadar sem perceber as limitações do meu espaço.

Alguém entra e me cumprimenta e me intimida a sentar e começamos a conversar e eu dou por mim a falar de que tenho vontade de abrir janelas e voar para outros destinos ou nadar para direcções desconhecidas e sinto o incómodo do meu interlocutor que não percebe porque assobio agora a velha canção que o meu avô assobiava quando estava feliz, nem percebe porque me levanto e vou dar de comer aos peixes numa hora que não seria a hora deles comerem, nem percebe porque me rio por os ver agitados de volta dos farelos e nem percebe porque razão deixei de perceber as paredes de vidro que me rodeavam.


U2 -11 O'Clock Tick Tock

sábado, 19 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 12


Chego de saco de plástico na mão, lá dentro trago apenas uma desculpa para aqui chegar, trago algo impregnado com o meu cheiro e ainda outros cheiros que me relembram uma longa noite passada entre o fumo de muitos cigarros e o esvaziar de uma curta garrafa de ardor que serviu para me arrefecer as incertezas num momento de esquecimento forçado. Depressa percebo que não encontrarei o que aqui vinha procurar, apenas a mulher mais jovem que se agita quando me vê e começa a falar mais depressa do que eu a consigo perceber.

Conta-me que a colega não está, que teve que se ausentar por causa de um assunto de família e de doença e que tinha ficado desesperada por me ter faltado, por ter faltado ao encontro que tanto tinha antecipado e que não tinha o meu contacto para me avisar, para me explicar o que se passava e que tinha partido de coração partido. Pede-me que acredite, pede-me que lhe deixe forma de me contactar, que a colega voltará em breve. Peço que se acalme e que sim lhe deixarei o meu número e que esperarei pelo telefonema da colega e que a entendo e que o futuro é amanhã e não foi ontem. Acabo por trocar uma camisa por lavar, sebenta de incertezas e artifícios por uma promessa de um recomeço.

Saio dali a pensar nas razões que me levam a ter episódios de insegurança mesmo naquilo que nada pode ainda significar. Cruzo-me com gentes a quem avalio os pensares e o que as move e o que as apaixona e o que as faz sair de casa decididas a viver mais um dia. O telefone toca e interrompe-me os pensamentos, atendo solicito e enceno cenários de coisas que tem que acontecer porque alguém necessita que aconteçam e deixo de ser aquilo que gostaria de ser para voltar a ser aquele que esperam que eu seja e isso incomoda-me. Cada vez me incomoda mais manter uma imagem e imagino se esta multidão que me rodeia interpreta um papel principal na sua própria vida ou apenas um papel secundário redundante insignificante irrelevante.

Decido sorrir por ter vontade e por me lembrar na mulher de cabelo amarelo que me viu um dia nu e desta mulher que lava camisas e que passou a ver na vida simplicidades com outras dimensões e que me quer conhecer e o quanto isso me atrai e porque isso me atrai e o telefone toca de novo. Desta vez ouço do outro lado uma voz feminina que se interrompe para me convencer de razões, por fim acabamos por combinar um novo encontro daqui a dois dias e porque é sábado poderemos almoçar e talvez passear à beira do rio ou ir a um cinema ou o que me apetecer porque foi ela que me falhou e eu digo que não, que fez o que tinha que fazer porque a vida traz-nos outras prioridades que se nos antecipam e despedimo-nos com um beijo.

Passo agora por alguém que me estende a mão solicitando piedade, o cheiro a álcool revela-me o teor da sua fome, mas agora não me importa justificar a forma da fome se ela existe e levo a mão ao bolso e despejo na sua algumas moedas de diferentes cores e tamanhos e pergunto-lhe porquê. Olha-me de olhos perdidos e surpreende-me que compreenda a pergunta mas não lhe saem da boca respostas apenas um encolher de ombros que quer que eu entenda e eu entendo porque percebo que o que me separa daquela fome foram apenas instantes ou acasos ou medos ou falsas sensações de coragem e nunca remorsos.

Volto a vestir a mascara do lobo sobre a pele do cordeiro e entro no edifício de paredes que me apertam a vida neste sufoco sem que o grito que me quer sair da alma se faça ouvir.


The Passions - I'm in love with a German film star

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 11


Quis tirar um dia só para mim. Telefonei a dizer-lhes que não, que riscassem um daqueles dias que ainda me deviam de um ano destes passados, aqueles que acabo por me esquecer e ninguém faz por me lembrar. Meti-me no carro e procurei uma praia que por ser meio da semana ainda deveria ter areia disponível por entre corpos que se deitam e corpos que se movem e corpos que jogam jogos de bolas que voam pelo ar e chocam com outros corpos entre risos e outros protestos. Despi a roupa e simulando pudor ocultei o enfiar dos calções por trás da toalha que estendi de seguida sobre o areal depois de afastar com o pé duas ou três beatas de cigarros já ressequidas.

O mar estava calmo sem ondas coberto de reflexos de luz que pareciam nadar sem destino. Tirei da mochila um creme que iria proteger-me a pele e espalhei-o generosamente pelo corpo que alcançava e fiquei a ambicionar outras mãos mais suaves que me tocassem noutros lugares mais profundos. Sentei-me e franzi os olhos reduzindo o horizonte a tentar esconder o brilho do Sol, observei em redor, pequenas ilhas de gente, em cada uma história que se podia imaginar pela forma como se dispunham os corpos, pela forma como se olham, pela forma como se tocam ou pela forma como se ignoram.

Ali do meu lado um casal jovem, talvez ainda adolescentes, ele deitado de barriga para baixo disfarça a cobiça com que a olha, as curvas expostas ao dourar lento do Sol, os peitos espetados em desafio e um sorriso nos lábios discreto e poderoso, sem as ouvir adivinho as palavras desajeitadas do rapaz, adivinho a descrição de feitos inconsequentes e a ambição de um futuro de aventuras onde ela teria o papel principal da heroína, adivinho palavras que fazem promessas que não se podem quebrar e ela é hoje a sua musa podendo ser amanhã a sua glória. Ali mais abaixo dois homens de ar meio perdido, predadores sem dentes e bico arqueado, devoram as mulheres que passam ruminando comentários entre si como machos primários, são símbolos incompreendidos de virilidade ou fontes ignoradas de prazer, reis bastardos a quem roubaram um reino mas que ali estão prontos e aptos para a sua reconquista. Acolá uma família com filhos encontra motivos fáceis para gritar, gritam entre si, gritam para se ouvirem, gritam para expulsar frustrações e desgastes, gritam para ignorar uma falta de coragem não assumida ou simplesmente a falta de uma saída. Mais abaixo vejo dois corpos que se confundem e que me confundem não distingo na mistura das carnes o princípio de um e o fim do outro, ali não há palavras, ali não há necessidade de haver palavras. Aqui quase ao lado uma mulher só foge do mundo para dentro de um livro de capa elegante com cores de paixão. Ainda mais abaixo dois idosos molham os pés a pensar noutros tempos, aqueles em que a praia era quase só para eles e não havia esta confusão e as pessoas eram bem-educadas que se cumprimentavam e toda a gente se conhecia pelo nome.

Fui mergulhar nas águas, nadei e afastei-me da areia até me sentir de novo apenas só, nadei até as ilhas de gente serem apenas pontos indistintos, sem histórias para imaginar, naquela imensidão de mar reavaliei o meu presente e reafirmei o meu futuro e inventei-me sentado naquela praia completamente deserta olhando a areia que me escorre por entre os dedos, percebendo que cada grão é um cristal poderoso que por muito ínfimo que seja reflecte a luz e faz a praia ser dourada e que todos são diferentes e que esta praia dourada é a fronteira entre dois mundos, um que me afasta e outro que me flui e senti a atracção de me deixar levar pela maré que me podia arrastar para longe mas essa não é a minha natureza e nadei de regresso a mim.

Tenho na mala do carro uma camisa por lavar com dois dias de suor, amanhã irei resolver esse assunto…


Bruce Springsteen & Sting - The River

domingo, 13 de setembro de 2009

Incentivadores de ódio


Este meu blog é o meu blog que nunca usei para atacar ninguém e tem sido um meio de transmitir os meus sentires, realidades e ficções que querem sair da minha cabeça, apenas isso e nunca será mais que isso.

Este blog tem tido para mim o efeito secundário de me ter permitido conhecer algumas pessoas a quem não tenho nenhum problema de classificar de amigos, pessoas extraordinárias que por outro modo nunca teria conhecido e que hoje me ajudam a olhar o futuro de uma forma mais risonha, pessoas que me enriquecem com a sua forma de estar, pessoas que confiam em mim e em quem confio, pessoas que me conhecem melhor do que muitas com quem partilhei tanto tempo e que se acham no direito de me julgar e odiar.

Recebi um comentário anónimo a propósito do post:
http://littleboyj.blogspot.com/2009/09/diario-de-um-louco-impoluto-dia-10.html

“Você devia ter mais cuidado com a lingua, afinal tem telhados de vidro, seu porco é isso que quer ensinar aos seus filhos tenha vergonha, para homens como você deveria haver pena de morte.... Não apague o comentário...seu porque e ainda tem a mania que escreve bem vá tirar a 4ª classe a ver se aprende alguma coisa..”


Não sei nem quero saber quem é esta pessoa, embora me fosse muito fácil sabê-lo dada a minha profissão e os meus contactos mas sei que é alguém que não me conhece, mas que se acha no direito de me insultar, classificar e julgar e alguém a quem não vou sequer responder mas que suspeito estar a ser incentivada por ódios alheios e que os pretende propagar e por isso apenas digo, olhe-se no espelho e para seu bem e daqueles que tem que partilhar o seu mundo encontre razões para ser feliz…


Supertramp-Logical song