Hoje pela primeira vez em muito tempo não senti um sufoco sem explicação. Cantarolei uma música sem destino enquanto tomava um duche, fiz ou desfiz a barba sem desprezar a imagem reflectida no espelho e apreciei o que comi antes de acender um cigarro. Fumei sentado a olhar o fumo e a cada chupão observo o incandescer laranja de fogo que me consome um pouco mais de tempo e penso que consumi a minha vida passada como um cigarro fumado à pressa sem apreciar o seu prazer e o seu passar, apenas pelo vício e pela necessidade física de a consumir.
Não me lembro porque comecei a fumar, um dia como muitos experimentei e não me lembro porque não gostei mas sei que não gostei e por isso voltei a experimentar e não gostei um pouco menos e continuei a experimentar até deixar de não gostar. Um dia como muitos passou a fazer parte da minha rotina consumir fumo, queimar folhas secas enroladas em folhas de papel que transformo em cinza. De cada cigarro que fumo resta uma ponta alaranjada que me deverá proteger de algo que não entendo bem e um monte de cinza sem valor e o fumo que fiz passar por mim e que se dissipa deixando ainda um cheiro que não gosto.
Cada vez mais fumo de uma forma egoísta, um acto privado de satisfação de vício. Porque não gosto do cheiro que resta no ar de um cigarro consumido não entendo o acto social de fumar em grupo e fujo do fumo dos outros para me esconder no meu. Não sei se perdi amigos por fumar ou por não fumar mas fui acabando sozinho acompanhado por um cigarro e depois outro porque parece que haverá sempre mais um cigarro que se pode acender num acto antecipado de necessidade e que depois se vai diminuindo em fogo laranja incandescente até restar uma ponta alaranjada que me sobra e me falta de entendimento.
Vêm-me sempre à boca o primeiro cigarro da manhã. Faz-me tossir de forma violenta como se o meu corpo quisesse expulsar aquele veneno volátil ou dar-me um aviso que estou a persistir num erro, persisto em ignorá-lo, mergulho na crença de que evitamos a ressaca continuando a beber e que não fumo o suficiente para tornar os danos irreversíveis e que um dia irei parar e todo o mal não passará de cinza inútil de um cigarro que se consumiu num tempo que ficou para trás. Resisto a acender mais um cigarro porque o fumo irá deixar ainda um cheiro que não gosto nesta casa onde necessariamente terei que dormir esta noite e saio para a rua.
Saí para a rua e deixei de resistir e acendo mais um cigarro isolado numa esquina entre caminhos que me podem levar a uma vida de cigarros já consumidos ou a outra vida que me traga cigarros que consiga fumar sem desperdício de cinza e fumo e pontas de cor alaranjada. Estou parado numa esquina, só com o meu cigarro e sem a ouvir a primeira vez ouço-a repetir: “Dás-me lume?”. Viro-me e ela está ali na minha frente também de cigarro entre as mãos e a boca com um meio sorriso nos lábios: “Não te importas de me dar lume?”. O cabelo já não é amarelo mas feito de muitos dourados e castanhos e sorri com olhar traquinas ou travesso e sinto-me confuso porque nunca os soube distinguir nos olhos de uma mulher.
Faço brotar a chama da ponta do isqueiro que treme soprada por um vento que não consigo ver e a extingue. Volto a insistir e a chama resiste uns segundos mas não o suficiente para conseguir contaminar de fogo a ponta do cigarro e sinto que me sente a insegurança e aproxima o rosto das minhas mãos que protegem agora o fogo e reparo no fumo que se enrola por entre os dedos e sobe ao céu em espirais. Continua a sorrir enquanto dá baforadas curtas com o cigarro que mal lhe toca os lábios vermelhos que eu imagino de fogo puro e mais quentes que a chama laranja que se vai reduzindo a cinza. Continua a sorrir e toca-me o rosto e beija-me suavemente a face sussurrando um obrigado e afasta-se e eu fico ali parado a ver aquele corpo afastar-se e eu fico ali parado apenas com um isqueiro nas mãos e eu fico ali parado a sentir um odor de perfume doce que me deixa ali parado sem saber bem o que fazer e sem o saber acendo mais um cigarro.
Pink Floyd - Have a Cigar
