Estamos nus de joelhos sentados no chão. Uma garrafa que já esteve cheia no inicio da noite e apenas um copo entre os corpos nus sentados sobre os joelhos no chão. Beijo-lhe os lábios e pauso-me na humidade que lhe enche os olhos. Apenas um copo tão pequeno que se consegue ocultar na palma de uma mão. Apenas um copo agora vazio de humidade e que encho pausado nos seus olhos que me bebem de desejo e sem a deixar de olhar bebo de um trago, bebo sem o beber do engolir e retenho o liquido que me arde dentro da boca e permito que o fogo do álcool me adormeça a língua e sinto que me seca a saliva como um rio seca uma gota de chuva.
Colo os meus lábios aos seus e controlo um fio de fogo fluido que se escorre entre as bocas, o destilado ganha na transferência cambiantes adocicados pela adição do meu sabor e pauso pausado nos seus olhos para que o possa engolir e repito o beijo de fogo fluído até deixar apenas na boca aquele que sei ser o meu quinhão e engulo-o. Estamos nus de joelhos sentados no chão com os braços entrelaçados em abraço e sinto o seu peito perdido no meu e percorro-lhes as costas apenas com a suavidade das impressões dos dedos, como se maior pressão a pudesse esmagar. Beijamo-nos agora sem o fogo fluido mas com o fogo da paixão e não há tesão física entorpecida pelo efeito do álcool, apenas tesão emocional que bebemos dos lábios um do outro.
Volto a encher o copo e volto a vazá-lo de um trago e evito os seus lábios que se procuram insinuar nos meus, volto a pausar-me nos seus olhos e digo-lhe com os meus que espere, percorro com o liquido toda a boca, deixo que me expanda a carne e os sentidos, que me entonteça a língua e por fim mergulho os lábios em bico na sua boca e liberto o fogo que a faz engasgar e sinto o pulsar do seu corpo e o ar que lhe sai com aromas de inebriar e engulo o que me resta e sufoco-a com um novo beijo e acabamos a rir de lágrimas nos olhos antes do abraço doce do consolo.
Já não há liquido na garrafa e o copo já não está entre os nossos corpos nus e rolou para longe dos joelhos sentados no chão e estamos com as testas coladas e os olhos desfocados e pausados um no outro, vazios e cheios de significado as minhas mãos acariciam o seu peito e as suas acariciam-me o sexo tão adormecido como a minha língua, mas ambos sabemos que hoje o nosso sexo não terá penetração, fodemos com os sentidos ampliados ou alterados, fodemos ou amamos e neste instante não faz qualquer diferença, sentimo-nos completamente um do outro, dois corpos nus apartados por um espaço que já não existe.
Um de nós pega na garrafa e tenta encontrar um resto de bebida sacudindo-a sobre o copo que não sei como voltou a estar entre nós de joelhos sentados no chão e o outro ri-se, não sei qual de nós sacode a garrafa nem qual de nós se ri mas sei que um de nós beijou o outro com os lábios bem abertos e sem língua e lembro-me de pensar que é difícil beijar sem língua e que um bom beijo não tem sempre que ter língua. Depois olhou para a foto da criança que brincava e começou a chorar e eu quis beber as suas lágrimas como se assim conseguisse secar a sua fonte e voltar a tê-la só para mim.
Tudo se move em movimento lento mas gira em redor destes corpos que já não conseguem perceber que já não estão de joelhos sentados no chão e começamos a dizer coisas um ao outro que não queremos dizer e calamo-nos um ao outro com beijos que acabam por nos reduzir a dois corpos que respiram e que suspiram e que se adormecem nos braços um do outro com a esperança que o dia amanheça sem lembrança e sem ressaca ou pelo menos sem arrependimento.
Pink Martini- Kikuchiyo To Mohshimasu
