Acordei hoje com a memória enublada de ontem, acordei enrolado sobre o meu corpo e o dela enrolado entre os dois. Acordei de uma noite sem sonhos ou sem lembranças de ter sonhado e com a boca seca como se tivesse matado a fome com papel velho. Mexi-me na tentativa de desenrolar o meu corpo do seu sem a acordar e ouvi dos seus lábios um gemido indistinto de causa. Levantei-me e deixei-a nua sobre a cama, a pele lisa oscilava com a respiração serena e apetecia-me senti-la com as mãos ou ser mais audaz e acordá-la com um manto de beijos.
Entrei na banheira e abri a torneira sentado na borda enquanto esperava que água me aquecesse a mão perdida debaixo do fluxo que me escorria dos dedos e dos olhos que vagueavam pelas vagas dos pensamentos vazios e num momento senti o calor e estremeci de susto e de dor e de realidade. Accionei o chuveiro no botão, a água corre-me desde a base do pescoço e lentamente traz-me de volta ao mundo no mesmo fluxo que me leva as gotas por entre os dedos em direcção ao fundo, vejo ainda o fio de água e consigo descriminar cada gota no espaço até explodir numa superfície imaculada de branco a meus pés, vejo cada gota a abrir como uma flor e a cada instante sinto o tempo acelerar e retomar o seu ritmo e a água a deixar de ser um fio mágico de gotas que se abrem em flor a meus pés mas apenas um liquido quente sobre um corpo que desperta.
Sinto-lhe a respiração antes de lhe sentir o toque. Sinto o seu toque nas costas e a respiração na nuca e depois o abraço por trás com o peito que me acaricia, sinto o conforto dos seus pêlos púbicos que me roçam as nádegas e me fazem crescer de tesão e a sua mão que toma a posse do meu sexo. Volto-me e beijo-lhe os lábios enquanto a água nos cai por entre os corpos de novo enrolados. O barulho da água que cai expande-se nos ouvidos, ouço agora outra água que cai em forma de chuva sobre o metal da guarda da janela e se espalha no vidro, apetece-me abri-la e deixar que o chuveiro dos céus se junte à água quente e nos lave e nos leve de novo a um tempo mais lento.
Estamos cobertos de água e inundados pelo som da água que nos envolve e seguro-lhe o rosto com as mãos e vejo que outra água lhe sai dos olhos e pergunta-me do que me lembro da noite e eu digo-lhe que nada ou quase nada, que bebemos até o tempo parar e que acordei com a água quente que agora partilho e ela diz que me inveja porque o tempo não parou para ela e que se lembra de tudo o que me disse e tudo o que lhe disse e de tudo o que eu não a deixei dizer e de tudo o que não me deixou dizer e as lágrimas correm agora mais quentes que a água quente que chove cá dentro e mais frias que a água fria que chove lá fora e eu afogo-me perdido no meio de toda aquela água sem saber mais o que lhe dizer.
Pede-me que a deixe só, pede-me só que a deixe, pede-me que a deixe ser de novo só ela e a esperança de o tempo passar sem dor nem sentir e que não a deixe só com a esperança a sentir que vai apenas e de novo sentir a dor de estar só e lá fora a chuva não pára de cair e eu perco-me nas suas palavras de solidão e dor e abandono e desesperança e quero dizer-lhe que serei algo mais do que posso ser mas não consigo e as palavras afogam-se na garganta e lá fora a chuva não para de cair e eu afogo-me nas lágrimas que lhe escorrem nos olhos e prometo-lhe que não lhe farei promessas e afogo-me no vazio do que lhe digo e pede-me que a deixe só e eu saio para a rua e deixo que a chuva me escorra o cabelo para que me possa trazer a memória das palavras que deixei afogar.
Massive Attack – Teardrop