segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [5] – O ser Português (e)Dependente


Quem tem medo do lobo mau? Poucos terão coragem de admitir que depois de deixar de mijar na cama ainda tem medo do lobo mau, assim como poucos terão coragem de dizer em público que ainda tem medo da gripe que era dos porcos e depois virou quase histeria planetária de quem não tinha mais nada com que se chatear, muitos dirão que cautelas e caldinhos de galinha nunca fizeram mal a ninguém e que se não foi desta que o mundo acabou, será para a próxima e outros dirão que foi tudo uma negociata, como já ouve outras, há que aproveitar o medo da populaça de que o céu lhes pode cair em cima para vender vacinas e dar trabalho às gráficas a fazer panfletos e cartazes com regras básicas de higiene e que mal tem que de repente se possa ganhar muito dinheiro a vender gel mal cheiroso e dispensadores do mesmo que todos compraram como papo-secos.

Somos todos uns ingratos porque só sabemos criticar e há que louvar os que nos governam e tentam conduzir para um futuro brilhante como povo ingovernável que somos, porque tomou as medidas que tinha que tomar e que até apenas se limitou a fazer o que os outros países muito mais evoluídos que nós também fizeram e que agora até como brilhante negociador vai conseguir dispensar o excesso das vacinas que afinal já não precisamos e que ninguém venha dizer que para anular a encomenda só teremos que pagar um bocadinho a mais do que o lucro que quem as fabrica teria porque isso são só más-línguas e nunca se há-de provar, porque quem sabe só tem a perder se botar a boca no trombone.

Irrita-me este povo, mais ainda por me sentir tão parte dele, somos e eu também sou, muito maldizente, quase mesquinho e não tenho razões para me orgulhar. Por exemplo, gosto de dizer mal dos arrumadores de carros. E digo mal porquê? Não fazem eles um serviço que na maior parte das vezes não é mais do que me ameaçar sem palavras de que se não der a moedinha me arrisco a encontrar o carro devidamente autografado ou com o limpa pára-brisas velho que já não limpava porra nenhuma pronto a ser substituído por um novo que limpe melhor. Que mal tem que não haja um cantinho deste País onde caiba um carro que não tenha já alocado um tipo com mau aspecto a abanar os braços e estender a mão, ò tio não se arranja uma moedinha? E um cigarrinho? Sem querer exagerar e deixo aqui um desafio para quem gosta de contar e fazer estatísticas, não deve faltar muito para termos mais arrumadores do que carros e se calhar não era má ideia se as marcas de automóveis começassem a incluir como opção o dito e lá podia vir o carrito com bancos eléctricos, tecto de abrir, GPS e um arrumador já sem tomar banho há uma semana. Podiam até prever um espaço para o arrumar, agora que os carros já nem trazem pneu suplente, com jeito até se encaixava nem que fosse um arrumador pequenino.

Ora o que leva alguém a querer ser arrumador? As contingências da vida, muitos dirão, o desemprego e o desespero e as dependências de coisas menos licitas mas que os fazem felizes por um bocadinho e é desprezível da minha parte estar a ironizar com isto, porque quem escolhe ser arrumador não tem outra opção de vida e que a muitos até custa riscar carros. São arrumadores porque ninguém lhes dá outra possibilidade de dependência além das dependências que os condicionaram a ser dependentes e se houvesse vontade politica para acabar com os arrumadores bastaria pagar um subsídio que os compensasse da perda de rendimento e se há subsídios para tudo e se o Português aprendeu a viver de mão estendida e a conseguir dormir de cabeça erguida sem nenhum problema em ser dependente que mal tem mais um grupo de infortunados dependentes.

Uma moedinha aqui e outra ali e o dia está feito. Eu admiro o esforço enorme que aquela gente tem em fazer de tudo para não ter que se esforçar a fazer outra coisa. É de louvar o esforço que muitos se dão em arranjar mecanismos oportunistas de tirar partido das oportunidades mesmo que para isso tenham que viver o resto da vida sem poder agarrar as verdadeiras oportunidades da vida e eu até sei do que estou a falar.


Pink Martini- Je ne veux pas travailler

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 21


Estou num quarto rodeado de rostos mortos. Alguns são variantes de cinzentos e negros e luz que se fixou no papel, o tempo que passou revela-se nos tons amarelados que vão apagando as imagens como o fumo se esfuma no nada. Nenhum me sorri, são sobretudo fotografias de homens como se não importasse muito ao passado fazer perdurar no futuro os rostos das suas mulheres. Na minha memória ainda tenho a cor de alguns dos rostos agora mortos, mas não me lembro dos seus sorrisos e pouco dos seus nomes. Aqueles rostos são responsáveis por eu estar aqui e exigem-me que os respeite é por isso que ali estão pendurados naquela parede branca, a minha árvore genealógica de raízes profundas e muitos ramos retorcidos.

Na minha família morre-se novo e eu alterno em querer quebrar a tradição ou aceitar o desígnio. Já não penso muito nisso, sei que a morte chegará um dia e que terei o meu rosto pendurado nestas paredes, mas gostava que alguém se lembrasse do meu sorriso. Espero que a morte chegue sem me avisar de véspera e sem hora marcada mas ambiciono ter tempo para me eternizar em obra que ainda não realizei. Venho aqui hoje olhar o único destino que tenho como certo, tudo o resto ainda posso escolher ou deixar que aconteça por acção ou acaso.

Agora, aqui e neste instante, não acredito que na morte possa ser mais que um rosto pendurado na parede e um corpo que apodrece na terra ou arde na urna mas sei de outros que pensavam como eu e que depois mudaram e passaram a acreditar numa continuidade espiritual por influência divina, glorificado no céu como recompensa pelas acções de bondade ou ardendo no inferno pelos actos do egoísmo. Eu não quero acreditar que na morte possa ser mais do que um rosto eternizado até o tempo me consumir de amarelo porque sei que o egoísmo é o maior dos pecados e eu sou egoísta e não quero viver a pensar que poderei ser na morte menos do que fui em vida.

Hoje vim aqui para confrontar estes rostos que não passam de sombras do passado, nenhum deles, por maior medo que me tivesse causado em menino, pode agora fazer-me mudar o que decidir fazer ou acusar-me por falta ou por excesso. Sou tão livre do seu julgamento no que for o resto da minha vida como eles são livres do meu julgamento no que restou da sua morte, um rosto pendurado na parede que apenas lamento que não sorria. Sei que o meu não será o último rosto na parede mas pergunto-me quem o pendurará e até quando a importância das paredes não suplantará a importância dos rostos mortos e todos acabem esquecidos numa caixa debaixo de uma escada como pasto para ratazanas.

Hoje aqui estive, quem sabe pela última vez a olhar para o passado sem lamentar que não retorne e a pensar que amanhã é já daqui a algumas horas e que nesse entretanto muitos rostos poderão ser pendurados em paredes ou esquecidos sem glória. Já decidi que amanhã será o inicio do meu caminho, quer ele me leve à imortalidade do reconhecimento ou à vontade do esquecimento, não voltarei a voltar a trás nem a olhar a luz que já se apagou nem recear ser julgado por quem já morreu. Fecho a porta e estou de novo tão só como estava antes mas sinto-me mais só ainda e preciso de acreditar que o que me falta agora já não me faz falta. Deixei o passado simbolicamente fechado naquele quarto onde será relembrado e celebrado apenas pelos rostos mortos, será um passado guardado sem sorrisos, porque esses trago estampados num rosto que ainda não morreu.


Nirvana - About a girl

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Emocionalmente


A forma como sentimos uma emoção é o que nos distingue, mais do que a forma do rosto ou a cor da pele ou mesmo o género é a diferença no sentir que nos aproxima ou nos afasta. O que te faz chorar pode-me ser indiferente, o que me faz tremer pode ser-te inexplicável.

Quantos tentaram explicar o amor com palavras e imagens e sons, exportar a emoção suprema num registo que se traduz por símbolos ou em imagens que se sucedem na simulação de movimento ou em rotações que fazem vibrar em ecos de melodias. Como posso dizer que não sei o que é o amor quando não sei o que é o amor? Como me podem garantir que saberei reconhecer o amor? Como saberei reconhecer que é diferente da emoção que me desperta a suavidade da sombra de uma cortina que se abana junto à janela que dá para o mar num dia solarengo?

Eu não sei o que é a fome. Não posso ousar dizer que sei o que é ter fome porque não comi ainda hoje, mas sei que ainda vou comer. Não posso dizer que sei o que é a fome da mesma forma que o farrapo de homem que me estende a mão num semáforo que ficou vermelho e que escreveu num pedaço de cartão sujo que tem fome.

Eu não sei o que é a dor de quem nada tem quando o que não tenho apenas me falta porque não o tenho. Eu não sei o que é a dor de esgravatar no que resta de uma vida, nos destroços de uma casa, por um sinal de esperança de um coração que ainda bate.

As emoções são o que nos distingue…

Vejam e escutem o vídeo abaixo e digam-me que emoção vos despertou?


Karen O & The Kids - All Is Love

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Inquisitório - Sobre aquelas coisas que gostaríamos mesmo de saber sobre as mulheres


Tenho pelas mulheres uma enorme curiosidade científica e a experiência dos anos apenas me trouxe a sabedoria de me afastar de algumas perguntas sobre pena de pagar em penitência ou abstinência a audácia de as ter feito. Agora esta coisa dos blogs e a possibilidade de me esconder debaixo de um anonimato permite-me armar em covarde forte, daqueles que batem e fogem e perguntar descaradamente o que nunca me atreveria a perguntar no meu habitat natural.

1- O que é que nunca se encontrará dentro de uma mala de mulher?

2- Quais são os critérios de escolha de um penso higiénico?

3- Qual é o valor ideal na famosa relação tamanho/qualidade?

4- Burro que carregue ou cavalo que derrube?

5- Se um desconhecido de repente lhe oferecer flores isso é…?

6- Sexo antes e amor depois ou antes pelo contrário?

7- Menage é uma palavra feminina ou masculina?

8- Porque é que as mulheres acham que os homens gostam de sexo oral?


Tinha ainda mais uma dúzia de perguntas para fazer mas fui ameaçado de boicote se as fizesse e por isso são oito que é um número redondinho e à prova de baldas na resposta… e este inquisitório tanto dá pró menino como prá menina…


Shivaree - Bossa Nova

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [4] – O ser Português Experto


Sei pouco de muita coisa o que faz de mim um especialista de coisa nenhuma ou um consultor de qualquer coisa. Não me considero especial por esta minha qualidade porque é uma deformidade conformemente genética ou uma conformidade disformemente genética e que herdei já não me lembro bem de quem porque sempre fui um calinas a história, mas que partilho com os meus companheiros de povo e raça. Pode-se dizer que o povo Português é um povo de consultores natos, especialistas naturais e sobretudo de orçamentistas despretensiosos.

Não adianta praguejar nem dar murros no volante ou mandar foder aqueles cabrões todos que abrandam para ver os carros que bateram há horas e que já estão estacionados à beira da estrada sem estorvar ninguém porque mesmo sem que nos apercebamos, também espreitamos pelo canto do olho e pensamos que aquilo vai custar uma pipa de massa a arranjar e que é pena que o gajo que está ali com as mãos na cabeça a olhar incrédulo para a chapa mal amanhada e para os faróis descaídos no chão não conheça a oficina do senhor Manel porque lhe arranjava aquilo por metade do preço. E é assim que de uma maneira geral o Português, mesmo sem qualquer formação no assunto consegue calcular de forma muito precisa no seu próprio entendimento o custo de seja o que for, desde os sapatos da gaja que atravessou a passadeira a correr e que até marchava passando pelo brinco do maricas que se vê logo que é ali sentado e rodeado de miúdas giras que não percebem que o gajo não engana ninguém até aos custos da manutenção mensal da pedra que cobre o centro cultural de Belém ou de quanto custa mudar as lâmpadas todas da sede da caixa geral de depósitos ou os estragos que provocaria um maremoto no Tejo caso os Lisboetas puxassem todos o autoclismo no intervalo do Gato Fedorento.

No que diz respeito a sermos especialistas de tudo e mais alguma coisa que ninguém tenha duvidas e se as tiverem basta entrarem numa tasca qualquer daquelas de esquina ao lado da paragem do autocarro ou da estação de metro mais perto e pedir uma bifana bem temperada ou um prego mal passado a regar com um copo de tinto martelado ou de verde pressionado ou mais vulgarmente com uma bejeca que vão ver a malta toda fluida a discorrer sobre o casamento de homossexuais do mesmo sexo ou lésbicas do sexo oposto da mesma forma que falam de terrorismo religioso ou do papa que dorme às escondidas com cuecas com pequenas suásticas estampadas e dos casos dramáticos do futebol no fim de semana passado que vão ter consequências no futebol do fim de semana seguinte.

Por fim e porque não todo o Português ambiciona ser consultor o que significa que alguém lhe reconhece finalmente o talento e que lhe paga bem pagada a ciência empírica que sempre teve para dar e que agora pode vender. Só os otários dão conselhos porque quem é esperto vende-os e uma vez mais não me venham os falsos moralistas dizer que sim e que não porque na realidade apenas ainda não conseguiram encontrar quem os queira ouvir e auscultar. Eu cá já fui pago para ser consultado e não me importava nada de o voltar a ser e atenção que daqui ninguém vai defraudado porque se há alguém que sabe e acredita no que diz esse sou eu e se tem dúvidas paguem para ver.

A música linda roubei à Jane que é ingénua e a deixou à mão de semear mas por ser boa pessoa vou por uma vez ignorar a lei basilar do consultor que é referir sem referenciar.


Jack Savoretti - Harder Than Easy

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 20


Sou o observador do mundo, centro-me num ponto e imagino que tudo se passa ao meu redor, imagino que tudo se passa porque eu estou ali, o espectador da vida ou o realizador que bateu a claquete e que deixa a acção correr ao sabor do improviso e da capacidade dos actores surpreenderem o público. Sou um observador centrado num ponto que está numa esquina de uma rua que não sei para onde vai nem de onde vem porque sempre a atravesso perpendicular aos seus destinos e hoje não sei porquê parei ali naquele ponto, cruzado de pedras de calcário e basalto e fiquei com vontade de seguir numa das direcções mas não consigo decidir qual.

Do outro lado um cão deitado sem trela nem dono ergue a cabeça e ladra e depois levanta-se e corre atrás de um carro que passa lentamente porque quem lá vai dentro procura algo ou se calhar apenas um lugar para parar e o cão ladra e corre saltando para a roda sem se aproximar demasiado. Pergunto-me porque correrão os cães atrás de carros? Talvez porque tem tempo para perder ou tempo para passar e eu viro a cabeça a acompanhar o cão triste alegre com a sua liberdade e a sua fome. O carro perde-se numa outra curva e deixo de ver o cão que o seguiu e fico ali ainda sem saber por onde ir.

Penso que hoje não tenho que decidir o que vou fazer amanhã e penso nela e nas suas lágrimas e penso que nunca lhe disse aquelas três palavras que sei que lhe soariam piedosas ou cheias de significado vazio. Não tive ainda coragem de admitir que nunca lhe direi aquelas três palavras e não sei se anseia que as diga ou que não as diga para que não se quebrem as barreiras que nos unem ou as pontes que nos separam. Estou aqui parado a pensar numa mentira que sei ser a realidade de hoje e quero acreditar que se pode construir com ela um amanhã, nada mais tenho para dar, nada mais tenho para receber, nada mais ainda tenho…

O cão regressa a passo e parece coxear, mas os cães sempre me pareceram coxear depois de correrem e se calhar é o destino de quem corre sem razão ou com a razão de correr. Sinto-me também coxo nos meus sentimentos e queria apenas ficar aqui sem ter que decidir ou ter a liberdade de correr atrás do próximo carro que passasse sem o receio de regressar a coxear e a lamber o tempo passado no tempo que perdi. Consigo decidir sozinho que não me decidirei ainda hoje sair da perpendicular que não me leva a lado nenhum e sigo em frente ignorando o cão que se voltou a deitar abandonado no seu mundo à espera de uma outra razão para correr ou à espera de uma mão que o acarinhe e lhe diga três palavras com significado.

Há quanto tempo me perdi nestas ruas vazias de outros destinos? Há quanto tempo me perdi destas palavras que não te direi? Há quanto tempo me perdi de vontade de sair das perpendiculares da vida e arriscar correr sem medo de coxear? Olho para as minhas mãos e já não vejo as grilhetas mas sinto-lhe as marcas e sinto-me o prisioneiro que lutou toda a vida para se libertar e descobrir que afinal depois das correntes lhe restou apenas um quarto branco ainda sem paredes nem portas nem janelas nem objectivos. Sinto pena do cão que deixei para trás e sinto pena de mim que segui em frente nesta perpendicular muda de três palavras que falam de amor e que poderiam secar as tuas lágrimas ou inundarem o teu rosto e fico na segurança de não correr atrás de carros que não sei para onde me levam mas que sei não me fazerem voltar a coxear.

Nota: Todos os textos que publiquei neste blog se emparelham com uma música que normalmente é escolhida depois de o ter escrito, neste caso foi ao contrário, a Storyteller enviou-me esta música com o desafio de que me inspirasse nela para escrever um texto, nem faço ideia se o consegui…


Snow Patrol-Chasing Cars

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Cruzar de fronteiras


Bye bye MMIX, bem-vindo MMX…


Temos a tendência de inventar fronteiras, riscos no espaço e no tempo que atravessamos com vontade de mudança e hoje iremos cruzar mais uma. Este foi para mim um ano de grandes transformações e como em todas transformações há sempre coisas más e coisas boas. Este foi um ano de muitas velocidades, de desconstruir para construir, de fins e princípios. Fiz e desfiz, assumi o que estava mal e iniciei novos caminhos, o que será será e será consequência da minha escolha e isso deixa-me cheio porque sou hoje dono das minhas consequências.

Neste novo ano retomarei os meus escritos, sobretudo o Louco e os Privilégios do disparate aparte isso sei que as responsabilidades profissionais me irão tomar muito tempo, pelo que as deambulações pelos vossos blogs serão mais difíceis mas tentarei sempre arranjar tempo para vos visitar e deixar os meus acrescentos.

Para já tenho dois desafios para responder, por acaso da mesma pessoa que além de ser meio louca é também egocêntrica, mas como é um doce de miúda lá me convence a alinhar nestas coisas. O primeiro desafio é escrever um episódio do louco inspirado numa música que me enviou e será o dia 20 a publicar no início de Janeiro. O segundo é ser júri num concurso que aquela cabecinha estranha inventou e que desde já vos convido à participação, até porque o prémio é tentador e penso que já vos disse que a miúda é louca…

Podem saber mais no link abaixo mas não lhe digam que vão da minha parte senão ela fica convencida que me endrominou.

http://omeucarroelindo.blogspot.com/2009/12/historias-do-arco-iris.html

Para quem aqui passa pelo prazer de me ler pode contar que aqui continuarei a escrever por esse prazer e sou sincero neste desejo de que este ano que vai começar seja o melhor ano das nossas vidas!


U2-New Years Day

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [3] – É Natal… É Natal…


Na terra onde nasci e onde cresci e por onde fui ficando, havia um ceguinho que se profissionalizou na arte de pedir esmola, homem visionário que se antecipou no tempo e que viu antes de todo um povo que o nosso futuro estava em estender a mão. Todo o santo dia este homem, ocupava o seu local de trabalho na rua principal e oscilando o corpo numa performance muito treinada lá ia cantando a sua ladainha e recolhendo as moedinhas das boas almas ou clientes habituais que por ali iam passando. Dizem as más-línguas que quando morreu descobriram em sua casa uma pequena fortuna em dinheiro e relativamente a esse facto eu apenas comento que antes isso que a ter aplicado toda no BPN e o que me importa é que quando chegava a esta altura do ano o ceguinho mudava a sua ladainha costumeira e dizia de 10 em 10 segundos: É Natal… É Natal…

Muito se fala sobre o Natal sobretudo nesta época do Natal e muitos o exortam e outros não podem passar sem ele e também há aqueles que o odeiam e os que o usam para criticar a hipocrisia da humanidade e os outros como eu que pensaram usá-lo para se lamentar das desgraças e auto flagelar-me mas depois comi meia dúzia de navalheiras e bebi um par de coronas e para respeitar a tradição ainda uma fatia de bolo rei, na realidade comi duas e passou-me a neura. Assim este texto que era para ter começado com um chove lá fora porque o céu chora por aqueles a quem lhes falta no Natal, sobre o efeito das Coronas, que para quem não sabe é a melhor cerveja do mundo e que deve se ser bebida pela garrafa com um gomo de lima enfiado no gargalo e eu não tinha e usei limão o que não é a mesma coisa, foi transformado numa outra coisa mais alegre e aconchegante e a realidade é que chove lá fora apenas porque estamos no Inverno.

Pois é Natal. Este ano o povo na sua infinita sabedoria e naquela nossa mania de copiar tudo o que vem de Espanha decidiu abandonar o Pai Natal da Coca-Cola pendurado numa corda à janela e voltar à devoção ao Menino Jesus o que claro me alegrou bastante porque este blog estava a precisar de ser divulgado e toda a publicidade é bem vinda mesmo a má publicidade e má publicidade porque há que admitir que as imagens que se penduram por todo o lado são mesmo muito feias e que a malta se esquece que o J. Cristo era filho de gente vulgar e não da Angelina Jolie e do Brad Pitt e que a probabilidade de ter a testa enrugada e o nariz torto será grande.

Não quero ser mal interpretado e olhado com um bicho esverdeado nem visitado por fantasmas, nada tenho contra o Natal e muito me alegra a alegria dos outros e este texto apenas pretende dar algumas pistas para o desvendar do mistério do Natal que tanto inspira e faz transpirar e com sinceridade e não tendo o tempo nem a disposição de visitar todas as casas reais ou virtuais de quem gosto e a quem quero bem a desejar um bom Natal ou votos pré-formatados, venho expressar a todos aqueles que por aqui tem a coragem de passar o desejo de que este Natal vos traga por motivações positivas, negativas ou de indiferença, vontade de viver e de ser melhor, não porque é Natal mas porque descobriram que a vida vale a pena ser vivida e sempre se pode melhorar.


The Pogues and Kirsty MacColl - Fairytale of New York


(Kirsty MacColl foi morta num acidente de barco num mês de Dezembro poucos dias antes do Natal, morreu ao salvar o filho. Quem a matou foi julgado como homicida e condenado a pagar uma multa de €50… A justiça divina deveria substituir a dos homens sempre que aplicável, mas ainda não era Natal.)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Musicalidades com condimento #15

Falta-nos na vida dois botões…

Falta-nos na vida um botão de “Fast Forward” para chegar …

Falta-nos na vida um botão de “Rewind” para voltar…



Concha Buika - La Boheme

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [2] – Técnicas avançadas de marketing


Se perguntar a quatrocentas e vinte oito mulheres o que é que a Leopoldina e a Popota tem em comum arrisco-me a que quatrocentas e catorze me dêem respostas que vão discorrer sobre espécies animais, estatura, peso, personalidade, cor dos olhos, textura da pele, aeróbica, artes marciais, moda, roupas, sapatos, dança e outras coisas que só as mulheres poderiam discorrer, outras onze pura e simplesmente vão ignorar-me com desprezo e aquelas três a quem tive mesmo muitas dúvidas se deveria perguntar vão devolver-me a pergunta com outras perguntas a que fujo de responder porque são feias como a parte de trás de um desastre e eu sou um rapaz sério.

Se perguntar a qualquer homem, invariavelmente me dirá: “mamas!”.

Eu sou agnóstico o que quer dizer que estou pronto para acreditar desde que me mostrem, até me podem enganar com uma boa ilusão, mas estou pronto a acreditar. Muita gente que não é agnóstica como eu acredita que Deus fez o homem à sua imagem e que depois lhe sacou uma parte que não lhe fazia muita falta e fez a mulher. Ora dizem, não sou eu que digo, dizem que a mulher foi feita a partir de uma costela do homem e dizem, não sou eu digo, dizem que foi feita para que o homem não se sentisse só ou seja se quisermos ser mauzinhos e aí já serei eu a dizer, a mulher só aparece porque não havia ainda Playstations, nem Sport-tv, nem garrafas de cerveja de abertura fácil e latinhas de amendoins e cajus baratas nalguns supermercados ou seja a mulher nasce como um parque de diversões o que explica o porquê de ter mamas.

Não me perguntem porque é que os homens gostam tanto de mamas, mais ainda porque é que a maior parte dos homens gostam tanto de mamas grandes, eu por mim porque tenho a mania que sou erudito gosto de mamas com carácter ou na falta dele de mamas grandes. Não é por acaso, de modo nenhum inocente que a Pópinhas e a Leopinhas viram evidenciados aquele par de atributos que convence qualquer pai babão ou mãe que diz que é moderna de espírito aberto e um enorme sentido de humor mas que na realidade tem uma inveja do caraças, a comprar todos os brinquedos que os putos mais otários escolheram na carta que escreveram ao pai Natal ou aqueles que os mais espertos simplesmente marcaram no catálogo do hipermercado.

Quer se queira quer não se queira e eu quero, se não bastassem todos os outros argumentos as mulheres tem mamas o que é uma vantagem desleal e deveria de haver uma comissão reguladora e avaliadora que regulasse e avaliasse e não pensem que, ao contrário de tantas outras comissões, que são um peso oneroso para o erário público esta o seria porque não faltariam voluntários dispostos a acabar com esta injustiça e regular e avaliar e apalpar porque tem que haver evidentemente benefícios fiscais para fomentar o mecenato e o voluntariado.

Parem um bocadinho para pensar e meditem nas consequências que podem ocorrer se de repente todas as cadeias de lojas de brinquedos começarem a recorrer às mamas para aumentar as vendas… é que caso não se lembrem a mascote da Toys r us é uma girafa… macho… que se chama Geoffrey e assusta-me muito imaginá-la transsexuada com hormonas ou cirurgia a abanar as mamas novas em frente às criancinhas. São coisas destas que me tiram o sono…


Black Eyed Peas - My Humps

sábado, 12 de dezembro de 2009

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [1] – O ser Português


É inevitável sou Português! Primeiro tive as minhas suspeitas quando fui confrontado a Oeste com uma imensidão de água que pelo sabor e textura me pareceu o atlântico e a Este com uma gente arrevesada que fala de uma forma tal qual a do Dartacão de modo bem audível e com a mania de que são melhores que muitos e se calhar até são mas nunca o havemos de aceitar até porque historicamente já os vencemos três vezes, tanto quanto julgo saber e a última foi com um golo do Nuno Gomes, aquele puto do Benfica de cabelo comprido e eterno ar de puto que eu até acho que ocupa sobretudo espaço, mas há muitos mais especialistas disto da bola que eu que não percebo nada disto e que dizem que é bom que ele ocupe espaço, já agora para quem não sabe ou nunca quis saber, o Benfica é um clube de bairro que cresceu um nadita e se tornou o entretêm preferido de conversa quando se quer falar de futebol ou de outra coisa qualquer e o futebol é o desporto que mais homens praticam sem nunca se terem cansado. Depois foi a língua que me fez ainda mais desconfiado, a malta à minha volta toda comunica com uma espécie de dialecto deslavado parecido com o Brasileiro e eu quando interrogado respondia e entendiam-me, está bem que nem sempre mas o que é certo é que mesmo em discordância ou ignorância havia ali qualquer coisa de muito parecido com comunicação. Por fim a forma de estar no mundo, tão nossa e só nossa que nos faz seres únicos e inequívocos.

Eu sou Português o que implica inerentemente ser um gajo porreiro. É verdade! até me pisarem os calos ou me confrontarem quando estou ao volante ou tentarem ultrapassar na bicha para meter o totoloto, sou um gajo porreiro. Isso não faz de mim manso ou mais ou menos apto para enfrentar a vida como homenzinho mas sobretudo um gajo pacholas para ter uma conversa sobre assuntos sem importância, bom para beber um copo ou dois ou uma grande bebedeira de cair de caixão à cova ou pura e simplesmente um tipo bom para ter ao lado numa hora difícil, fácil de angariar para causas que precisem de manadas ou para me esfalfar para falar Espanhol ou Inglês ou Francês ou mesmo Alemão com estranjas que vem para cá passear e não fazem o mínimo esforço para falar a nossa língua e ainda ontem pude apreciar uma que por acaso era boa como milho a pedir no self-service lechuga quando toda a gente se tirasse os olhos do rabo da miúda via que aquilo era alface e da meio ranhosa de folha velha.

Perguntem a quem quiserem e a primeira coisa que vão dizer da malta é que somos porreiros, somos e devemos ter orgulho disso, eu prefiro ser um gajo porreiro a ser cabrão ou fiho-da-puta, pelo menos numa primeira impressão, mas não pensem que para ser português basta ser porreiro, não mas ajuda muito e sobre as outras coisas que nos fazem ainda mais Portugueses voltarei a falar mais para a frente, entretanto fiquem com um conselho de um gajo porreiro, a melhor forma de ter sucesso neste nosso País é apelar ao nosso porreirismo, mas cuidado somos porreiros mas não gostamos de ser otários e aliás nunca somos otários porque esses são os estranjas que nos visitam e que mamam a lechuga ranhosa e por isso se nos quiserem encular com qualquer treta porreirista façam-no de uma forma porreira se faz favor.

Porque é natal e sou Português ou um gajo Porreiro, venha o que vier primeiro, aqui vos deixo uma musiquinha que já não ouvia há uns anitos e que alguém decidiu que era uma boa musiquinha de Natal e não vai de modas, árvore gigante a ofuscar o monumento fálico do Cutileiro, luzes acção e pimba para acompanhar o espectáculo arrefinfa-lhe com uma mariquice anti-guerra como se fosse um cântico natalício, somos ou não somos uns gajos porreiros?


Jona Lewie - Stop the Cavalry

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Ghost of Christmas past




Chingon - Malaguena Salerosa

domingo, 6 de dezembro de 2009

Musicalidades com condimento #14


Hoje sinto-me bem comigo e se calhar por isso apetece-me abrir a janela e soltar o ar que armazenei no peito nos últimos tempos.

FODA-SE!!!! Quem me conhece sabe que não é bom ter-me como inimigo.

FODA-SE!!!! Quem me conhece sabe da minha elevada inteligência selectiva e que quando me empenho e a canalizo para uma causa dificilmente me param.

FODA-SE!!!! Quem tem obrigação de me conhecer melhor sabe que a única forma de me vencer sem perder é não entrar em guerra comigo…

Esta música que escolhi é a ideal para abrir a janela e soltar o ar que armazenamos no peito por isso aqui vos desafio, ponham-na a tocar o mais alto possível e enfrentem quem merece a vossa ira e gritem comigo:

VAI PARA O CARALHO!!!!



Muse- Uprising

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 19


Acordei hoje com a memória enublada de ontem, acordei enrolado sobre o meu corpo e o dela enrolado entre os dois. Acordei de uma noite sem sonhos ou sem lembranças de ter sonhado e com a boca seca como se tivesse matado a fome com papel velho. Mexi-me na tentativa de desenrolar o meu corpo do seu sem a acordar e ouvi dos seus lábios um gemido indistinto de causa. Levantei-me e deixei-a nua sobre a cama, a pele lisa oscilava com a respiração serena e apetecia-me senti-la com as mãos ou ser mais audaz e acordá-la com um manto de beijos.

Entrei na banheira e abri a torneira sentado na borda enquanto esperava que água me aquecesse a mão perdida debaixo do fluxo que me escorria dos dedos e dos olhos que vagueavam pelas vagas dos pensamentos vazios e num momento senti o calor e estremeci de susto e de dor e de realidade. Accionei o chuveiro no botão, a água corre-me desde a base do pescoço e lentamente traz-me de volta ao mundo no mesmo fluxo que me leva as gotas por entre os dedos em direcção ao fundo, vejo ainda o fio de água e consigo descriminar cada gota no espaço até explodir numa superfície imaculada de branco a meus pés, vejo cada gota a abrir como uma flor e a cada instante sinto o tempo acelerar e retomar o seu ritmo e a água a deixar de ser um fio mágico de gotas que se abrem em flor a meus pés mas apenas um liquido quente sobre um corpo que desperta.

Sinto-lhe a respiração antes de lhe sentir o toque. Sinto o seu toque nas costas e a respiração na nuca e depois o abraço por trás com o peito que me acaricia, sinto o conforto dos seus pêlos púbicos que me roçam as nádegas e me fazem crescer de tesão e a sua mão que toma a posse do meu sexo. Volto-me e beijo-lhe os lábios enquanto a água nos cai por entre os corpos de novo enrolados. O barulho da água que cai expande-se nos ouvidos, ouço agora outra água que cai em forma de chuva sobre o metal da guarda da janela e se espalha no vidro, apetece-me abri-la e deixar que o chuveiro dos céus se junte à água quente e nos lave e nos leve de novo a um tempo mais lento.

Estamos cobertos de água e inundados pelo som da água que nos envolve e seguro-lhe o rosto com as mãos e vejo que outra água lhe sai dos olhos e pergunta-me do que me lembro da noite e eu digo-lhe que nada ou quase nada, que bebemos até o tempo parar e que acordei com a água quente que agora partilho e ela diz que me inveja porque o tempo não parou para ela e que se lembra de tudo o que me disse e tudo o que lhe disse e de tudo o que eu não a deixei dizer e de tudo o que não me deixou dizer e as lágrimas correm agora mais quentes que a água quente que chove cá dentro e mais frias que a água fria que chove lá fora e eu afogo-me perdido no meio de toda aquela água sem saber mais o que lhe dizer.

Pede-me que a deixe só, pede-me só que a deixe, pede-me que a deixe ser de novo só ela e a esperança de o tempo passar sem dor nem sentir e que não a deixe só com a esperança a sentir que vai apenas e de novo sentir a dor de estar só e lá fora a chuva não pára de cair e eu perco-me nas suas palavras de solidão e dor e abandono e desesperança e quero dizer-lhe que serei algo mais do que posso ser mas não consigo e as palavras afogam-se na garganta e lá fora a chuva não para de cair e eu afogo-me nas lágrimas que lhe escorrem nos olhos e prometo-lhe que não lhe farei promessas e afogo-me no vazio do que lhe digo e pede-me que a deixe só e eu saio para a rua e deixo que a chuva me escorra o cabelo para que me possa trazer a memória das palavras que deixei afogar.


Massive Attack – Teardrop

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Musicalidades com condimento #13


A morte leva sempre demasiado cedo os génios…

Uma sentida homenagem a duas importantes referências na minha vida:
Freddie Mercury (Stone Town, 5 de setembro de 1946 — Londres, 24 de novembro de 1991)
Jim Henson (Greenville, Mississippi, 24 de setembro de 1936 – Nova Iorque, 16 de maio de 1990).


The Muppets - Bohemian Rhapsody