segunda-feira, 22 de março de 2010

Comboios


Sinto saudades do tempo em que os comboios eram enormes na minha perspectiva de menino e me deixavam a pensar que eram coisas zangadas, veneráveis e respeitáveis porque faziam barulho e fumo e cheiravam a cheiros que eu não cheirava em mais lado nenhum. Sempre gostei de comboios. Sempre achei que um dia como o de hoje poderia procurar um comboio que me levasse para um outro sitio qualquer. Sempre imaginei que um dia chegaria de gabardine cinzenta e chapéu de aba, elegante e distinto de mala imaculada de cigarro no canto da boca como num filme negro sem outras cores que não as que derivam do branco e do preto e que estaria parado na gare um grande comboio, qual ser ou máquina mitológica à espera que eu chegasse, o tal passageiro especial à volta de quem toda a acção se desenrola e que calmamente entraria a bordo com um olhar enigmático tiraria o chapéu sorrindo para os outros já sentados que espantados com a minha presença nada diriam, pela sua condição de meros figurantes e que me iria sentar no melhor lugar da carruagem junto à janela depois de ter depositado em segurança a mala num compartimento à altura da minha cabeça. O comboio partiria e tudo o resto seria uma aventura cujas dificuldades apenas serviriam para demonstrar as minha capacidades e o final nada mais do que seria feliz.

Afinal na vida real existem apeadeiros ou locais por onde os comboios passam nem sempre parando mas eu sim estou aqui parado e o pesado casaco já me fez suar debaixo da chuva quente desta meia estação e os cigarros que fumei são vazios de encanto e cheios de nicotina que me faz tossir e cheirar mal e tenho pousada uma mala velha cheia de roupa e outras coisas que lá enfiei sem critério e espero que ainda pare por aqui um comboio em breve, porque nem sempre param, porque este é um mero ponto de passagem onde esperam pessoas vulgares, pessoas de apeadeiros, pessoas que estão num meio entre destinos que não é tão importante para que todos os comboios lá parem. Estou num meio entre destinos e tenho no bolso um bilhete de comboio que gostava que me garantisse passagem segura a um outro sitio qualquer que não sei onde fica e não quero saber como lá chegar mas espero que o comboio lá me leve, seguro sobre os carris assentes por quem aprendeu antes de mim o caminho que leva a esse outro sitio qualquer.

Sei que passei por louco quando disse ao cobrador que queria um bilhete para um outro sitio qualquer e nem me sorriu quando perguntou se queria que esse outro sitio qualquer fosse outro longe ou outro mais perto. Longe o mais longe possível, quero que o que me custou a partir me compense o que vai demorar a chegar, quero ainda poder apreciar a viagem, sem tempo ou pressa, ver a paisagem até que me pareça que é ela que se move no meu referencial parado num ponto para onde o ponteiro do relógio apontou e não mais se mexeu. Não me importa as etiquetas de covardia e desprezo com que vão classificar a minha fuga, aliás já nada me importa, quero ser neste comboio o mesmo passageiro insignificante que fui na vida, quero não ser notado nem pelo meu riso nem pela minha lágrima, já não me importa sequer ser memória, quero apenas poder embarcar depressa no comboio que me leve aquele outro sitio qualquer sem nunca lá chegar até que a morte da vida me separe.


The Clash - Train In Vain

sábado, 20 de março de 2010

Fabulando [2]


e o Januário acabou a ir pelos ares…
…E aterrou estatelado no solo com todas as penas em desalinho meio tonto senão tonto de todo sem perceber o que se tinha passado, o pato ria a bandeiras despregadas com o bico tão aberto que parecia que só tinha bico e a vaca de pernas bem escancaradas e rabo no chão esfregava a genitália na relva e gritava de aflição. Januário que podia lá ter a mania que era galo mas no fundo era boa ave, levantou-se a correr em direcção à vaca para lhe perguntar: “magoei-te querida? Fui muito bruto?” o que ainda fez com que o pato mais se desmanchasse, tanto que quase só faltava cobri-lo de arroz e levar ao forno. A cena era realmente digna de um bom realizador Italiano daqueles que é pecado dizer que não se percebe patavina o que querem dizer, a vaca que se esfregava com ar doloroso, o pato que se rebolava de asa na barriga a grasnar risadas e o pobre do Januário galo de boa criação aflito com a donzela em sofrimento.
No fim tudo se acalmou e a Vaca que até tinha nome mas que o guardava só para si porque na vida que levava gostava de o preservar a bem da família, lá se recompôs das pernas e depois de respirar fundo uma ou cinco vezes pediu desculpa ao galo porque não sabia o que se tinha passado e que nunca antes se tinha passado daquela forma e ambos se viraram para o pato como se à espera que dali, viesse a sabedoria que os esclarecesse e este quando reparou que só ele ainda achava graça à história de uma vaca quase entrar em dores de parto quando acirrada por um galo velho lá encolheu os ombros e disse ao galo que o melhor era irem beber um copo à tasca do Horácio porque pelos vistos a vaca era alérgica a cabidela. Ahhh, disseram vaca galo com alívio e o pato que era sacana como um macaco não pôde deixar de reparar na ironia do trocadilho.

O Horácio contrariamente ao que se podia por um momento pensar não era um cavalo mas um cão rafeiro que se dizia perdigueiro e que era dono de uma taberna ao fundo da terra no cruzamento da estrada que vinha debaixo com a outra que ia para cima. Animal vivido tinha sempre uma boa história para contar desde que não se fosse para o tasco fazer sala e sorriu quando viu entrar as aves, o pato que conhecia pelo nome de Alfonso ou lá o que era e o seu grande amigo Januário de que se lembrava desde o tempo de pinto, recebeu-os de patas abertas e logo perguntou o que queriam beber. Ficaram-se pelas cervejas porque estava calor e lhes apetecia leguminosas mas que estavam salgadas como tudo e atrás de um pires veio outro e passado um bom bocado já atafulhavam os bicos de gargalhadas e cascas de tremoço e a mesa composta com canecas alinhadas pelas asas.
O Horácio ao vê-los tão animados foi-se chegando e num sussurro disse-lhes que tinha uma coisa para contar mas que só sobre juras de segredo daquelas inquebráveis sob pena de lhes cair todas as penas, lhes podia contar…



Madness - One Step Beyond

quarta-feira, 17 de março de 2010

Fabulando [1]


Januário era um galo que já não tinha a crista tão altiva como antigamente e a voz esganiçava-se para ainda acordar a vizinhança mas não queria de forma alguma dar parte de fraco e mantinha a galinhagem sempre de rabo encostado à parede, mais pelos arremessos e bater de asas do que pelos arrebites porque na realidade aquilo que tanto o orgulhara na juventude já pouco ou nada se levantava.
Um dia em conversa com um pato faroleiro da vizinhança que por ali passara para trincar umas maçãs que por aquela época caiam em abundância da velha macieira junto ao córrego, soube que havia não muito longe dali uma vaca nova que era um espectáculo de criatura com uns quadris arqueados e tetas rosadas espetadinhas e que não era nada esquisita não se importando de dar umas baldas a quem fosse que fosse com vontade de a pôr a mugir com gosto. Claro que o Pato se gabou de já lá ter ido e que a coisa tinha sido de tal forma que a bovina até esfregara com os cornos no chão de tanto prazer e o Januário que nunca fora de levar desaforo para casa disse logo que amanhã mesmo lá iria cantarolar à dita e que se ela fosse na conversa não só a poria de chifres bem enterrados como todo o lameiro ficaria bem lavrado com o arrastar do bicho. O pato que era esperto como um sabujo e percebendo que o galo só estava a cantar de galo quis apostar que ele nem a faria balir e o galo não teve outra hipótese sob pena de cair em descrédito com as frangas de aceitar a aposta.
No dia seguinte ainda o Sol não ia muito alto no céu, já o desgraçado do pato o esperava ao fundo do caminho com ar de ganso convencido e Januário lá teve que ir atrás dele certo que aquele seria o caminho que o levaria ao fim dos seus dias de soberania na capoeira e que para além de ir perder como paga da aposta aquelas três penas do cu que tanto se orgulhava ainda iria ter que aguentar com a história de fracasso que o malfadado anfíbio poria a circular. Mal chegado avistou logo a bela da vaca ruminando sobre a erva verde e que bela ela realmente era, toda branca com malhas negras bem dispostas e grandes olhos pestanudos, uma tesão noutros tempos e agora apenas uma comichão mas lábia ainda tinha e depois de um pequeno prefácio de dois dedos de conversa a animal lá percebeu ao que vinha e encolheu os ombros e piscou o olho em sinal que queria festa e o bom do Januário lá se encavalitou na sua traseira para pelo menos dar o seu melhor e depois foi um ver se te avias a vaca de repente desatou aos saltos e aos pinotes e o Januário acabou a ir pelos ares…

(Nota do autor: Estou cansado vou dormir acabem lá a história por mim sff.)


Fun Boy Three - The Lunatics Have Taken Over the Asylum

terça-feira, 9 de março de 2010

Esperarei por ti…

…O tempo que for preciso.

Skylark
Have you anything to say to me
Won't you tell me where my love can be
Is there a meadow in the mist
Where someone's waiting to be kissed

Oh skylark
Have you seen a valley green with spring
Where my heart can go a-journeying
Over the shadows and the rain
To a blossom-covered lane

And in your lonely flight
Haven't you heard the music in the night
Wonderful music
Faint as a will o' the wisp
Crazy as a loon
Sad as a gypsy serenading the moon

Oh skylark
I don't know if you can find these things
But my heart is riding on your wings
So if you see them anywhere
Won't you lead me there
Oh skylark
Won't you lead me there


Renee Olstead & David Foster - Skylark

sexta-feira, 5 de março de 2010

Porque hoje é mesmo sexta…


… e a Story que é aquela miúda que sabe mesmo tudo deu o mote desta música fantástica que os Cure fizeram em resposta aos New Order e porque hoje é mesmo sexta deixo-vos aqui um desejo e um desafio de vida, ora ouçam lá com atenção a letra.


The Cure-Friday I’m In Love

terça-feira, 2 de março de 2010

Inquisitório - Sobre existencialismos e outras coisas acabadas em ismos ou paralelismos no mesmo tom

Estamos num inverno que parece teimar em continuar cinzento e húmido e de todo o lado vêm sinais que anima quem nos quer desanimar com imagens apocalípticas e já agora vender um lugar cativo para um espectáculo do fim do mundo. Este é o tempo propício para pensamentos de dúvida e ideias de incerteza. Do optimismo do pessimista se faz o pessimismo do optimista e apetece-me uma resposta original a estas perguntas:

1- Levantar de tarde numa manhã de domingo é uma questão de orgulho ou de preconceito?

2- É mais aceitável socialmente tirar macacos do nariz ou do sótão?

3- Optas pelos teus slips dogmaticamente ou paradigmaticamente?

4- Porque é difícil de acreditar que a descrença no amor à primeira vista não é apenas miopia?

5- Chanel?

6- Pensão completa com Jacuzzi no inferno ou com sauna no paraíso?

7- Por quanto tempo pensas que podes parar no meio do parque a olhar os pássaros chilrear, as flores a crescer, as crianças a brincar, os cisnes brancos flutuando no lago e o calor do Sol a aconchegar-te o corpo envolto numa brisa suave sem que um pombo te cague em cima?

8- Por que raio a música deste post fala de uma segunda-feira se hoje é terça?


New Order - Blue Monday

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

I’m late, I’m late for a very important date


Tic tac tic tac tic tac. Passo o tempo a sentir o tempo a passar ou passo o tempo a querer que o tempo passe. A diferença entre o sentir e o querer não impede o tempo de passar.

Tic tac tic tac tic tac. Passo o tempo a querer ainda sentir ou passo o tempo a sentir ainda querer. Gostava de querer sentir a diferença de passar o tempo a sentir querer a indiferença do tempo passar.

Tic tac tic tac tic tac. Sinto-me já diferente porque o tempo passa e quero ainda ser indiferente por me passar o tempo. Ainda ontem era hoje e já hoje será amanhã.

Tic tac tic tac tic tac. Será ainda cedo ou já será tarde para passar o tempo a ver o tempo passar porque ainda ontem era cedo e já amanhã será tarde.

Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac.


Norah Jones-Chasing Pirates

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Boletim Informativo


Há muito tempo que não escrevo neste blog apenas pela obrigação de escrever. Raramente escrevi neste blog de forma explícita sobre a minha vida pessoal. Apenas aqueles que me conhecem pessoalmente encontram nas minhas palavras significados que são não mais do que abstracções semânticas.

Muito se tem falado ultimamente de liberdade de expressão e tenho visto que por vezes há quem invoque nos blogs essa liberdade de poderem dizer o que lhes vai na cabeça e que em nome dessa liberdade de expressão ninguém tem o direito de lhes tirar esse direito.

Ora bem, um blog não é um meio de informação público. Pelo menos este não o é. Aqui só há uma pessoa que tem total liberdade de expressão porque entendo este blog como a minha casa de palavras. Isso não quer dizer que pretenda fazer censura ou que não aceite quem me critique ou que me dêem opiniões, mesmo que essas não sejam as minhas, nada disso, mas reservo-me no entanto o direito de poder ter a última palavra.

Por aqui só havia uma pessoa que não era bem vinda, agora há duas e isso porque no passado dia 10 às 8h30 da manhã tive uma visita oriunda de uma empresa de crédito automóvel e que me visitou depois de ter recebido um mail calunioso a incentivá-la a vir aqui ler pretensos insultos. Ora a verdade só é insultuosa para quem não tem vergonha na cara e depois quando quiser insultar alguém, irei fazê-lo de forma clara e inequívoca e não omitindo as razões que me levam a fazê-lo e até pode ser que o faça um dia, mas não tenho nisso nenhum objectivo de vida.

À semelhança de muitos, este frio e outros afazeres tem-me mantido afastado de blogoesfera, mas este blog não vai fechar e espero em breve retomar a escrita regular de vários textos que tenho na cabeça, mas gostaria que de uma vez por todas que quem não gosta do que escrevo ou quem não gosta de mim e do que sou e do que represento, não ponha aqui os pés, nem aquela que não é bem vinda, nem a outra que vem para poder anuir ao fel. Façam lá o favor de ficarem no vosso canto de insignificância que eu ficarei no meu.


The Clash - London Calling

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [5] – O ser Português (e)Dependente


Quem tem medo do lobo mau? Poucos terão coragem de admitir que depois de deixar de mijar na cama ainda tem medo do lobo mau, assim como poucos terão coragem de dizer em público que ainda tem medo da gripe que era dos porcos e depois virou quase histeria planetária de quem não tinha mais nada com que se chatear, muitos dirão que cautelas e caldinhos de galinha nunca fizeram mal a ninguém e que se não foi desta que o mundo acabou, será para a próxima e outros dirão que foi tudo uma negociata, como já ouve outras, há que aproveitar o medo da populaça de que o céu lhes pode cair em cima para vender vacinas e dar trabalho às gráficas a fazer panfletos e cartazes com regras básicas de higiene e que mal tem que de repente se possa ganhar muito dinheiro a vender gel mal cheiroso e dispensadores do mesmo que todos compraram como papo-secos.

Somos todos uns ingratos porque só sabemos criticar e há que louvar os que nos governam e tentam conduzir para um futuro brilhante como povo ingovernável que somos, porque tomou as medidas que tinha que tomar e que até apenas se limitou a fazer o que os outros países muito mais evoluídos que nós também fizeram e que agora até como brilhante negociador vai conseguir dispensar o excesso das vacinas que afinal já não precisamos e que ninguém venha dizer que para anular a encomenda só teremos que pagar um bocadinho a mais do que o lucro que quem as fabrica teria porque isso são só más-línguas e nunca se há-de provar, porque quem sabe só tem a perder se botar a boca no trombone.

Irrita-me este povo, mais ainda por me sentir tão parte dele, somos e eu também sou, muito maldizente, quase mesquinho e não tenho razões para me orgulhar. Por exemplo, gosto de dizer mal dos arrumadores de carros. E digo mal porquê? Não fazem eles um serviço que na maior parte das vezes não é mais do que me ameaçar sem palavras de que se não der a moedinha me arrisco a encontrar o carro devidamente autografado ou com o limpa pára-brisas velho que já não limpava porra nenhuma pronto a ser substituído por um novo que limpe melhor. Que mal tem que não haja um cantinho deste País onde caiba um carro que não tenha já alocado um tipo com mau aspecto a abanar os braços e estender a mão, ò tio não se arranja uma moedinha? E um cigarrinho? Sem querer exagerar e deixo aqui um desafio para quem gosta de contar e fazer estatísticas, não deve faltar muito para termos mais arrumadores do que carros e se calhar não era má ideia se as marcas de automóveis começassem a incluir como opção o dito e lá podia vir o carrito com bancos eléctricos, tecto de abrir, GPS e um arrumador já sem tomar banho há uma semana. Podiam até prever um espaço para o arrumar, agora que os carros já nem trazem pneu suplente, com jeito até se encaixava nem que fosse um arrumador pequenino.

Ora o que leva alguém a querer ser arrumador? As contingências da vida, muitos dirão, o desemprego e o desespero e as dependências de coisas menos licitas mas que os fazem felizes por um bocadinho e é desprezível da minha parte estar a ironizar com isto, porque quem escolhe ser arrumador não tem outra opção de vida e que a muitos até custa riscar carros. São arrumadores porque ninguém lhes dá outra possibilidade de dependência além das dependências que os condicionaram a ser dependentes e se houvesse vontade politica para acabar com os arrumadores bastaria pagar um subsídio que os compensasse da perda de rendimento e se há subsídios para tudo e se o Português aprendeu a viver de mão estendida e a conseguir dormir de cabeça erguida sem nenhum problema em ser dependente que mal tem mais um grupo de infortunados dependentes.

Uma moedinha aqui e outra ali e o dia está feito. Eu admiro o esforço enorme que aquela gente tem em fazer de tudo para não ter que se esforçar a fazer outra coisa. É de louvar o esforço que muitos se dão em arranjar mecanismos oportunistas de tirar partido das oportunidades mesmo que para isso tenham que viver o resto da vida sem poder agarrar as verdadeiras oportunidades da vida e eu até sei do que estou a falar.


Pink Martini- Je ne veux pas travailler

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 21


Estou num quarto rodeado de rostos mortos. Alguns são variantes de cinzentos e negros e luz que se fixou no papel, o tempo que passou revela-se nos tons amarelados que vão apagando as imagens como o fumo se esfuma no nada. Nenhum me sorri, são sobretudo fotografias de homens como se não importasse muito ao passado fazer perdurar no futuro os rostos das suas mulheres. Na minha memória ainda tenho a cor de alguns dos rostos agora mortos, mas não me lembro dos seus sorrisos e pouco dos seus nomes. Aqueles rostos são responsáveis por eu estar aqui e exigem-me que os respeite é por isso que ali estão pendurados naquela parede branca, a minha árvore genealógica de raízes profundas e muitos ramos retorcidos.

Na minha família morre-se novo e eu alterno em querer quebrar a tradição ou aceitar o desígnio. Já não penso muito nisso, sei que a morte chegará um dia e que terei o meu rosto pendurado nestas paredes, mas gostava que alguém se lembrasse do meu sorriso. Espero que a morte chegue sem me avisar de véspera e sem hora marcada mas ambiciono ter tempo para me eternizar em obra que ainda não realizei. Venho aqui hoje olhar o único destino que tenho como certo, tudo o resto ainda posso escolher ou deixar que aconteça por acção ou acaso.

Agora, aqui e neste instante, não acredito que na morte possa ser mais que um rosto pendurado na parede e um corpo que apodrece na terra ou arde na urna mas sei de outros que pensavam como eu e que depois mudaram e passaram a acreditar numa continuidade espiritual por influência divina, glorificado no céu como recompensa pelas acções de bondade ou ardendo no inferno pelos actos do egoísmo. Eu não quero acreditar que na morte possa ser mais do que um rosto eternizado até o tempo me consumir de amarelo porque sei que o egoísmo é o maior dos pecados e eu sou egoísta e não quero viver a pensar que poderei ser na morte menos do que fui em vida.

Hoje vim aqui para confrontar estes rostos que não passam de sombras do passado, nenhum deles, por maior medo que me tivesse causado em menino, pode agora fazer-me mudar o que decidir fazer ou acusar-me por falta ou por excesso. Sou tão livre do seu julgamento no que for o resto da minha vida como eles são livres do meu julgamento no que restou da sua morte, um rosto pendurado na parede que apenas lamento que não sorria. Sei que o meu não será o último rosto na parede mas pergunto-me quem o pendurará e até quando a importância das paredes não suplantará a importância dos rostos mortos e todos acabem esquecidos numa caixa debaixo de uma escada como pasto para ratazanas.

Hoje aqui estive, quem sabe pela última vez a olhar para o passado sem lamentar que não retorne e a pensar que amanhã é já daqui a algumas horas e que nesse entretanto muitos rostos poderão ser pendurados em paredes ou esquecidos sem glória. Já decidi que amanhã será o inicio do meu caminho, quer ele me leve à imortalidade do reconhecimento ou à vontade do esquecimento, não voltarei a voltar a trás nem a olhar a luz que já se apagou nem recear ser julgado por quem já morreu. Fecho a porta e estou de novo tão só como estava antes mas sinto-me mais só ainda e preciso de acreditar que o que me falta agora já não me faz falta. Deixei o passado simbolicamente fechado naquele quarto onde será relembrado e celebrado apenas pelos rostos mortos, será um passado guardado sem sorrisos, porque esses trago estampados num rosto que ainda não morreu.


Nirvana - About a girl

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Emocionalmente


A forma como sentimos uma emoção é o que nos distingue, mais do que a forma do rosto ou a cor da pele ou mesmo o género é a diferença no sentir que nos aproxima ou nos afasta. O que te faz chorar pode-me ser indiferente, o que me faz tremer pode ser-te inexplicável.

Quantos tentaram explicar o amor com palavras e imagens e sons, exportar a emoção suprema num registo que se traduz por símbolos ou em imagens que se sucedem na simulação de movimento ou em rotações que fazem vibrar em ecos de melodias. Como posso dizer que não sei o que é o amor quando não sei o que é o amor? Como me podem garantir que saberei reconhecer o amor? Como saberei reconhecer que é diferente da emoção que me desperta a suavidade da sombra de uma cortina que se abana junto à janela que dá para o mar num dia solarengo?

Eu não sei o que é a fome. Não posso ousar dizer que sei o que é ter fome porque não comi ainda hoje, mas sei que ainda vou comer. Não posso dizer que sei o que é a fome da mesma forma que o farrapo de homem que me estende a mão num semáforo que ficou vermelho e que escreveu num pedaço de cartão sujo que tem fome.

Eu não sei o que é a dor de quem nada tem quando o que não tenho apenas me falta porque não o tenho. Eu não sei o que é a dor de esgravatar no que resta de uma vida, nos destroços de uma casa, por um sinal de esperança de um coração que ainda bate.

As emoções são o que nos distingue…

Vejam e escutem o vídeo abaixo e digam-me que emoção vos despertou?


Karen O & The Kids - All Is Love

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Inquisitório - Sobre aquelas coisas que gostaríamos mesmo de saber sobre as mulheres


Tenho pelas mulheres uma enorme curiosidade científica e a experiência dos anos apenas me trouxe a sabedoria de me afastar de algumas perguntas sobre pena de pagar em penitência ou abstinência a audácia de as ter feito. Agora esta coisa dos blogs e a possibilidade de me esconder debaixo de um anonimato permite-me armar em covarde forte, daqueles que batem e fogem e perguntar descaradamente o que nunca me atreveria a perguntar no meu habitat natural.

1- O que é que nunca se encontrará dentro de uma mala de mulher?

2- Quais são os critérios de escolha de um penso higiénico?

3- Qual é o valor ideal na famosa relação tamanho/qualidade?

4- Burro que carregue ou cavalo que derrube?

5- Se um desconhecido de repente lhe oferecer flores isso é…?

6- Sexo antes e amor depois ou antes pelo contrário?

7- Menage é uma palavra feminina ou masculina?

8- Porque é que as mulheres acham que os homens gostam de sexo oral?


Tinha ainda mais uma dúzia de perguntas para fazer mas fui ameaçado de boicote se as fizesse e por isso são oito que é um número redondinho e à prova de baldas na resposta… e este inquisitório tanto dá pró menino como prá menina…


Shivaree - Bossa Nova

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [4] – O ser Português Experto


Sei pouco de muita coisa o que faz de mim um especialista de coisa nenhuma ou um consultor de qualquer coisa. Não me considero especial por esta minha qualidade porque é uma deformidade conformemente genética ou uma conformidade disformemente genética e que herdei já não me lembro bem de quem porque sempre fui um calinas a história, mas que partilho com os meus companheiros de povo e raça. Pode-se dizer que o povo Português é um povo de consultores natos, especialistas naturais e sobretudo de orçamentistas despretensiosos.

Não adianta praguejar nem dar murros no volante ou mandar foder aqueles cabrões todos que abrandam para ver os carros que bateram há horas e que já estão estacionados à beira da estrada sem estorvar ninguém porque mesmo sem que nos apercebamos, também espreitamos pelo canto do olho e pensamos que aquilo vai custar uma pipa de massa a arranjar e que é pena que o gajo que está ali com as mãos na cabeça a olhar incrédulo para a chapa mal amanhada e para os faróis descaídos no chão não conheça a oficina do senhor Manel porque lhe arranjava aquilo por metade do preço. E é assim que de uma maneira geral o Português, mesmo sem qualquer formação no assunto consegue calcular de forma muito precisa no seu próprio entendimento o custo de seja o que for, desde os sapatos da gaja que atravessou a passadeira a correr e que até marchava passando pelo brinco do maricas que se vê logo que é ali sentado e rodeado de miúdas giras que não percebem que o gajo não engana ninguém até aos custos da manutenção mensal da pedra que cobre o centro cultural de Belém ou de quanto custa mudar as lâmpadas todas da sede da caixa geral de depósitos ou os estragos que provocaria um maremoto no Tejo caso os Lisboetas puxassem todos o autoclismo no intervalo do Gato Fedorento.

No que diz respeito a sermos especialistas de tudo e mais alguma coisa que ninguém tenha duvidas e se as tiverem basta entrarem numa tasca qualquer daquelas de esquina ao lado da paragem do autocarro ou da estação de metro mais perto e pedir uma bifana bem temperada ou um prego mal passado a regar com um copo de tinto martelado ou de verde pressionado ou mais vulgarmente com uma bejeca que vão ver a malta toda fluida a discorrer sobre o casamento de homossexuais do mesmo sexo ou lésbicas do sexo oposto da mesma forma que falam de terrorismo religioso ou do papa que dorme às escondidas com cuecas com pequenas suásticas estampadas e dos casos dramáticos do futebol no fim de semana passado que vão ter consequências no futebol do fim de semana seguinte.

Por fim e porque não todo o Português ambiciona ser consultor o que significa que alguém lhe reconhece finalmente o talento e que lhe paga bem pagada a ciência empírica que sempre teve para dar e que agora pode vender. Só os otários dão conselhos porque quem é esperto vende-os e uma vez mais não me venham os falsos moralistas dizer que sim e que não porque na realidade apenas ainda não conseguiram encontrar quem os queira ouvir e auscultar. Eu cá já fui pago para ser consultado e não me importava nada de o voltar a ser e atenção que daqui ninguém vai defraudado porque se há alguém que sabe e acredita no que diz esse sou eu e se tem dúvidas paguem para ver.

A música linda roubei à Jane que é ingénua e a deixou à mão de semear mas por ser boa pessoa vou por uma vez ignorar a lei basilar do consultor que é referir sem referenciar.


Jack Savoretti - Harder Than Easy

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 20


Sou o observador do mundo, centro-me num ponto e imagino que tudo se passa ao meu redor, imagino que tudo se passa porque eu estou ali, o espectador da vida ou o realizador que bateu a claquete e que deixa a acção correr ao sabor do improviso e da capacidade dos actores surpreenderem o público. Sou um observador centrado num ponto que está numa esquina de uma rua que não sei para onde vai nem de onde vem porque sempre a atravesso perpendicular aos seus destinos e hoje não sei porquê parei ali naquele ponto, cruzado de pedras de calcário e basalto e fiquei com vontade de seguir numa das direcções mas não consigo decidir qual.

Do outro lado um cão deitado sem trela nem dono ergue a cabeça e ladra e depois levanta-se e corre atrás de um carro que passa lentamente porque quem lá vai dentro procura algo ou se calhar apenas um lugar para parar e o cão ladra e corre saltando para a roda sem se aproximar demasiado. Pergunto-me porque correrão os cães atrás de carros? Talvez porque tem tempo para perder ou tempo para passar e eu viro a cabeça a acompanhar o cão triste alegre com a sua liberdade e a sua fome. O carro perde-se numa outra curva e deixo de ver o cão que o seguiu e fico ali ainda sem saber por onde ir.

Penso que hoje não tenho que decidir o que vou fazer amanhã e penso nela e nas suas lágrimas e penso que nunca lhe disse aquelas três palavras que sei que lhe soariam piedosas ou cheias de significado vazio. Não tive ainda coragem de admitir que nunca lhe direi aquelas três palavras e não sei se anseia que as diga ou que não as diga para que não se quebrem as barreiras que nos unem ou as pontes que nos separam. Estou aqui parado a pensar numa mentira que sei ser a realidade de hoje e quero acreditar que se pode construir com ela um amanhã, nada mais tenho para dar, nada mais tenho para receber, nada mais ainda tenho…

O cão regressa a passo e parece coxear, mas os cães sempre me pareceram coxear depois de correrem e se calhar é o destino de quem corre sem razão ou com a razão de correr. Sinto-me também coxo nos meus sentimentos e queria apenas ficar aqui sem ter que decidir ou ter a liberdade de correr atrás do próximo carro que passasse sem o receio de regressar a coxear e a lamber o tempo passado no tempo que perdi. Consigo decidir sozinho que não me decidirei ainda hoje sair da perpendicular que não me leva a lado nenhum e sigo em frente ignorando o cão que se voltou a deitar abandonado no seu mundo à espera de uma outra razão para correr ou à espera de uma mão que o acarinhe e lhe diga três palavras com significado.

Há quanto tempo me perdi nestas ruas vazias de outros destinos? Há quanto tempo me perdi destas palavras que não te direi? Há quanto tempo me perdi de vontade de sair das perpendiculares da vida e arriscar correr sem medo de coxear? Olho para as minhas mãos e já não vejo as grilhetas mas sinto-lhe as marcas e sinto-me o prisioneiro que lutou toda a vida para se libertar e descobrir que afinal depois das correntes lhe restou apenas um quarto branco ainda sem paredes nem portas nem janelas nem objectivos. Sinto pena do cão que deixei para trás e sinto pena de mim que segui em frente nesta perpendicular muda de três palavras que falam de amor e que poderiam secar as tuas lágrimas ou inundarem o teu rosto e fico na segurança de não correr atrás de carros que não sei para onde me levam mas que sei não me fazerem voltar a coxear.

Nota: Todos os textos que publiquei neste blog se emparelham com uma música que normalmente é escolhida depois de o ter escrito, neste caso foi ao contrário, a Storyteller enviou-me esta música com o desafio de que me inspirasse nela para escrever um texto, nem faço ideia se o consegui…


Snow Patrol-Chasing Cars

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Cruzar de fronteiras


Bye bye MMIX, bem-vindo MMX…


Temos a tendência de inventar fronteiras, riscos no espaço e no tempo que atravessamos com vontade de mudança e hoje iremos cruzar mais uma. Este foi para mim um ano de grandes transformações e como em todas transformações há sempre coisas más e coisas boas. Este foi um ano de muitas velocidades, de desconstruir para construir, de fins e princípios. Fiz e desfiz, assumi o que estava mal e iniciei novos caminhos, o que será será e será consequência da minha escolha e isso deixa-me cheio porque sou hoje dono das minhas consequências.

Neste novo ano retomarei os meus escritos, sobretudo o Louco e os Privilégios do disparate aparte isso sei que as responsabilidades profissionais me irão tomar muito tempo, pelo que as deambulações pelos vossos blogs serão mais difíceis mas tentarei sempre arranjar tempo para vos visitar e deixar os meus acrescentos.

Para já tenho dois desafios para responder, por acaso da mesma pessoa que além de ser meio louca é também egocêntrica, mas como é um doce de miúda lá me convence a alinhar nestas coisas. O primeiro desafio é escrever um episódio do louco inspirado numa música que me enviou e será o dia 20 a publicar no início de Janeiro. O segundo é ser júri num concurso que aquela cabecinha estranha inventou e que desde já vos convido à participação, até porque o prémio é tentador e penso que já vos disse que a miúda é louca…

Podem saber mais no link abaixo mas não lhe digam que vão da minha parte senão ela fica convencida que me endrominou.

http://omeucarroelindo.blogspot.com/2009/12/historias-do-arco-iris.html

Para quem aqui passa pelo prazer de me ler pode contar que aqui continuarei a escrever por esse prazer e sou sincero neste desejo de que este ano que vai começar seja o melhor ano das nossas vidas!


U2-New Years Day