Sinto saudades do tempo em que os comboios eram enormes na minha perspectiva de menino e me deixavam a pensar que eram coisas zangadas, veneráveis e respeitáveis porque faziam barulho e fumo e cheiravam a cheiros que eu não cheirava em mais lado nenhum. Sempre gostei de comboios. Sempre achei que um dia como o de hoje poderia procurar um comboio que me levasse para um outro sitio qualquer. Sempre imaginei que um dia chegaria de gabardine cinzenta e chapéu de aba, elegante e distinto de mala imaculada de cigarro no canto da boca como num filme negro sem outras cores que não as que derivam do branco e do preto e que estaria parado na gare um grande comboio, qual ser ou máquina mitológica à espera que eu chegasse, o tal passageiro especial à volta de quem toda a acção se desenrola e que calmamente entraria a bordo com um olhar enigmático tiraria o chapéu sorrindo para os outros já sentados que espantados com a minha presença nada diriam, pela sua condição de meros figurantes e que me iria sentar no melhor lugar da carruagem junto à janela depois de ter depositado em segurança a mala num compartimento à altura da minha cabeça. O comboio partiria e tudo o resto seria uma aventura cujas dificuldades apenas serviriam para demonstrar as minha capacidades e o final nada mais do que seria feliz.
Afinal na vida real existem apeadeiros ou locais por onde os comboios passam nem sempre parando mas eu sim estou aqui parado e o pesado casaco já me fez suar debaixo da chuva quente desta meia estação e os cigarros que fumei são vazios de encanto e cheios de nicotina que me faz tossir e cheirar mal e tenho pousada uma mala velha cheia de roupa e outras coisas que lá enfiei sem critério e espero que ainda pare por aqui um comboio em breve, porque nem sempre param, porque este é um mero ponto de passagem onde esperam pessoas vulgares, pessoas de apeadeiros, pessoas que estão num meio entre destinos que não é tão importante para que todos os comboios lá parem. Estou num meio entre destinos e tenho no bolso um bilhete de comboio que gostava que me garantisse passagem segura a um outro sitio qualquer que não sei onde fica e não quero saber como lá chegar mas espero que o comboio lá me leve, seguro sobre os carris assentes por quem aprendeu antes de mim o caminho que leva a esse outro sitio qualquer.
Sei que passei por louco quando disse ao cobrador que queria um bilhete para um outro sitio qualquer e nem me sorriu quando perguntou se queria que esse outro sitio qualquer fosse outro longe ou outro mais perto. Longe o mais longe possível, quero que o que me custou a partir me compense o que vai demorar a chegar, quero ainda poder apreciar a viagem, sem tempo ou pressa, ver a paisagem até que me pareça que é ela que se move no meu referencial parado num ponto para onde o ponteiro do relógio apontou e não mais se mexeu. Não me importa as etiquetas de covardia e desprezo com que vão classificar a minha fuga, aliás já nada me importa, quero ser neste comboio o mesmo passageiro insignificante que fui na vida, quero não ser notado nem pelo meu riso nem pela minha lágrima, já não me importa sequer ser memória, quero apenas poder embarcar depressa no comboio que me leve aquele outro sitio qualquer sem nunca lá chegar até que a morte da vida me separe.
The Clash - Train In Vain