domingo, 2 de maio de 2010

Happy Birthday part 2


De repente apercebi-me que este blog faz hoje 2 anos e vá de escrever à pressa e adiar a publicação do último texto para daqui a uns dias e pronto já cansado vamos lá fazer um balanço que é para estas coisas que servem os aniversários.

Ora em idade de blog não sei a que é correspondem 2 anos, assumindo que os blogs são como os cães o que até nem me parece mal comparado de todo, tendo em conta aquela coisa do fiel amigo e companheiro e as pulgas, então este blog está a entrar na adolescência ou seja está naquela fase em que se quer fazer muita coisa mas o tempo vai faltando e se acaba por se ir fazendo o que se pode e nalguns casos se aprende a gostar de cerveja e noutros a ficar agarrado a coisas piores.

Para quem por cá não anda há algum tempo convêm explicar que a mecânica deste blog é alimentada por vídeos emprestados dai e dacolá e de textos escritos por mim que na maior parte das vezes são ficções pouco imaginativas de coisas que me vão alem brando.

Se quiser sintetizar numa palavra o balanço deste ano que passou esta seria mudança. Aqueles que me conhecem para além do virtual e começam a ser alguns, sabem que quis mudar o que já não me fazia sentido e que a muitos pareci louco ao querer fazer tudo ao mesmo tempo, mas aqui estou para provar que a fortuna calha aos audazes e o que ainda me falta hei-de também rapidamente conquistar.

Relativamente a este novo ano bloguístico, este blog para recuperar o ritmo tem que introduzir algumas rubricas novas e assim o novo alinhamento para os próximos meses serão a continuidade do “Diário do louco impoluto” e da “fabulandia”, os “Privilégios do Disparate” além dos “(in)mundanismos” irão ter também uma série de rascunhos verbais sobre o livro de génesis mas para aqueles que estão já a acender as tochas tentarei que não seja nada de muito herético. Depois para dar o tal ritmo tenho que ter posts mais pequenos, porque escrever textos de algumas centenas de palavras não é assim tão fácil como eu pensava e por isso vão aparecer duas novas rubricas, que são as “Citações que ainda um dia serão famosas” e os “Títulos de livros e filmes improváveis” e claro os tão apreciados "inquisitórios", no fundo coisitas leves para ajudar a digerir.

Visto isto e o resto, resta-me agradecer a todos os que aqui passaram, sobretudo aqueles que se deram ao trabalho de se apagarem como meus seguidores e neste ano que passou foram uma boa meia dúzia e esperar que neste novo ano bloguístico continue a merecer o vosso amor ou o vosso ódio mas nunca a indiferença.

Beijos para as meninas e abraços para os meninos.
LBJ


B-52’s - Rock lobster

sábado, 17 de abril de 2010

Saturday Night News


Que não me estranhem a ausência. Novos desafios profissionais obrigam-me a ter que adquirir um novo ritmo de vida e por agora menos tempo para andar por estes mundos. Mas vou tentar voltar aos poucos, tenho muitas histórias para contar e ainda a grande história para escrever e não me vou esquecer dos vossos cantos, mesmo que não deixe nota, saibam que vou passando por lá.

Para quem se distraiu apaixonei-me pelo orvalho por aqui: »».««

Uma grande nuvem de cinza espalhou-se pela Europa e fechou muitas portas de saída e outras tantas de entrada, como tudo na vida o desalento de tantos é a bênção de poucos. Gosto por demais deste Libanês, fresco, descontraído, despretensioso e alegre e que tem o condão de me pôr bem disposto e a abanar a cabeça e a bater o pé, que me perdoem os puristas, faz-me lembrar, pela pose e pela expressão que dá ao corpo o meu saudoso Freddy Mercury. Não podia ir ao concerto, a data era-me impossível, mas eis que os deuses nórdicos decidiram cuspir fogo e tapar os céus e acabando por lhe fechar a porta de saída que o traria ao redondel de Lisboa e eu que sou atento a sinais do destino, já tratei de arranjar forma de lá estar em Maio… a dançar em boa companhia.


MIKA - Blame It On The Girls

domingo, 11 de abril de 2010

Fabulando [3]


O Horácio na sua juventude tinha sido um cão insatisfeito com a vida pacata que se levava pela terriola onde até as moscas eram enfadonhas, mesmo quando se punham umas sobre as outras em pilhas de duas ou três ou até quatro a fazer coisas divertidas ainda eram chatas. Um dia o Horácio acordou decidido, arrebitou-se todo e disse às pulgas que se ia pôr a andar dali para fora, correr mundo e conhecer coisas novas, aprender línguas e quem sabe pelo caminho papar umas cadelinhas e fazer fortuna. Muitas das pulgas quiseram saltar fora e outras nem por isso porque a carne era fraca mas o sangue abundante e lá embarcaram na aventura de serem embarcadiças de um cão embarcadiço num navio da marinha mercante que transportava para lá uma coisas e para cá outras e fazia muitas escalas.

Rapidamente o Horácio se adaptou aquela vida errante de ser um cão que flutuava entre portos distantes portas abertas ao mar de lugares exóticos onde haviam cheiros e cores e costumes diferentes de tudo o que a imaginação alguma vez podia imaginar e nalguns fez amigos e noutros inimigos mas em todos arranjou paixões nem sempre correspondidas mas sempre desejadas e pelas quais lutava com todas as suas forças, porque era um cão fogoso e diziam até jeitoso no seu tom dourado de corpo esguio e cauda robusta e felpuda. Houveram assim muitas cadelas e outras bichas similares porque nunca apreciara coisas esquisitas mas sempre manteve uma regra de ouro de nunca mas mesmo nunca ter mais do que uma fêmea em cada porto.

Com o passar dos anos era inevitável que os filhos começassem a aparecer como surpresas no regresso a cada lugar e quando ouvia aquela frase gaguejada que começava quase sempre com um querido tenho uma coisa para te contar, lá punha o seu sorriso mais complacente e um brilho de orgulho no olhar que mirava os pimpolhos que lhe eram apresentados como seus e nunca mas mesmo nunca contestou a sua responsabilidade paternal, mesmo quando era por demais evidente que havia ali qualquer coisa estranha e as contas nem batiam certo. Se o queriam para pai, se achavam que ele era cão suficiente para ter aquele papel, ele só se poderia sentir orgulhoso e abraçar aquele que o esperava como exemplo como seu de sangue e sentimento.

A fortuna nunca apareceu de um pontapé numa pedra, mas o tempo e alguma poupança trouxe um pé de meia que lhe permitiu encarar o Outono da vida de uma forma mais serena e menos atribulada e um dia o Horácio acordou decidido e disse às pulgas que ia voltar para casa e elas perguntaram, mas a qual casa, uma vez que tantas tinha e o Horácio com o olhar mais sério do mundo e algo zangado lá lhes explicou que independentemente das andanças, casa só havia uma, lá bem longe onde as uvas produziam vinho que lhe recordavam a cara do pai e toda a comida tinha o cheiro da mãe e nesse mesmo dia se pôs a caminho e ao chegar comprou por bom preço a tasca do cavalo do Manel que se queria retirar para pastagens mais verdejantes e de vento mais sereno e rapidamente conquistou a clientela que já era cliente e outra que pela simpatia e boa pinga cliente se fez.

Agora o Horácio estava ali de tomatada inchada prestes a contar aos amigos que na véspera lhe tinha entrado pela porta um dos filhos longínquos de quem mais se orgulhava e que tinha trazido com ele uma história que lhe voltara a acordar a sede de aventura…


The Specials - Ghost Town

domingo, 4 de abril de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 22


Estou parado num sinal vermelho. A sociedade estabelece códigos simples para nos dar ordem como partes individuais que deviam funcionar num todo. Vermelho para parar, amarelo para atentar, verde para realizar, não há complexidades nas cores para que o cérebro não tenha dúvidas na mensagem, educação, formatação, condicionalismo reflexivo na mais pura e elementar essência. Como que para me contrariar os pensamentos observo um casal de cegos que atravessa a estrada à minha frente. De braço dado exploram o caminho com varas compridas de metal, tic tic tic tic e avançam. O homem é mais velho que a mulher, tanto podem ser um casal como pai e filha mas as varetas nunca se cruzam e é essa a dança que me fascina, tic tic tic tic, não consigo perceber a diferença de cada som porque só ouço tic tic tic tic, mas sinto que para eles há tics que são sons de cor vermelha e tics que são sons de cor amarela e tics que são sons de cor verde e o casal chega à segurança do passeio e procura a referência da parede e depois segue decidido para um café quase junto à esquina, encontram a porta com uma facilidade impressionante e deixo de os ouvir, tic tic tic tic.

Estou tão fascinado que me desligo do condicionalismo reflexivo que me diz para avançar porque o sinal ficou verde e sou empurrado de novo para a realidade por um coro de apitos e faces iradas de pessoas que não tem tempo a perder com um casal de cegos que não vê vermelhos, nem verdes, mas que sabem a diferença de cada tic tic e que até podem ser pai e filha mas que fazem dançar as varetas sem nunca as cruzar. Não consigo conceber poder ver sem os olhos e decido na minha visão romântica de que vejo aquele casal unidos pelo sangue e pelo defeito e pela qualidade na partilha da ausência de luz e que não cruzam as varetas para poder aumentar a amplitude dos sons da sua visão.

Não concebo imaginar sem uma imagem e não sei se sou afortunado ou limitado pela minha visão. Vi dois cegos que imaginei como um pai e uma filha cegos da sua cegueira e avançando de braço dado sem medo de superar os obstáculos que a vida ou o acaso ou o que foi que o destino ou o acidente lhes colocou no caminho porque é preciso avançar para poder chegar a algum lado. Não consigo imaginar uma imagem porque a vejo e não sei se nesta minha limitação não perdi espaço para a minha imaginação. Estou condicionado pelo preconceito de cores que não imagino porque as vejo e que me impõem reacções de avançar ou hesitar ou parar.

A minha cegueira não é física é uma cegueira de ignorância e não tenho com quem a partilhar de braço dado e sinto vontade de falar com aqueles cegos. Queria perceber como ouvem as cores e as cheiram e as sentem com a pele dos dedos. Queria poder apagar todas as cores e imaginá-las de forma diferente, sinto-me egoísta por isso, sinto-me egoísta pela atracção da liberdade da cegueira, sinto-me egoísta porque sinto que aqueles cegos provavelmente dariam tudo para poder ver o que eu vejo e não perceberiam porque quereria eu poder imaginar o que eles não conseguem ver. Fecho os olhos mas a escuridão não me liberta, é apenas escuridão sem nenhuma luz, a imagem do que me rodeia não muda no meu imaginário porque apenas fechei os olhos.

Queria hoje voltar a rebaptizar as cores, imaginar o amarelo do calor do Sol e o azul do som do mar e o verde do cheiro da relva acabada de cortar e o branco do frio da neve e o vermelho da paixão no sentir bater um coração deitado a meu lado na cama. Queria hoje inventar novas cores, a cor do suor, a cor de uma lágrima, a cor de um riso, a cor do amor e a cor do ódio. Queria hoje libertar a minha imaginação de todas as cores que me oprimem e libertar-me desta cegueira que me entra pelos olhos.

Wah - Story of the Blues

segunda-feira, 29 de março de 2010

Criação literária


Este blog um dia destes vai fazer dois anos e quem por aqui passa e não vai apenas passando já terá reparado que tenho postado menos, andado mais ausente destas e de outras paragens virtuais. Não posso dizer que é desencanto, nem que o que me motivava há um ano atrás me deixou de motivar, mas na realidade a minha vida mudou radicalmente neste último ano, nem tudo foram rosas e nem tudo foram ainda prosas mas os espinhos também não foram mais do que arranhões e comichões, coisas que incomodam mas que não deixam marcas, coisas que o tempo tornarão insignificantes.

Posso dizer que dentro dos muitos tipos de blogs que por aí pululam este é um que mostra a música que me apetece ouvir e a minha criatividade na manipulação das palavras em formar coisas escritas. Já tive por aqui quem me dissesse que tinha jeito para escrever, já tive por aqui gente que disse que eu não percebo nada disto mas tenho a mania que percebo e gente que nem se rala se eu escrevo bem ou mal mas que gosta ou se diverte ou se acalenta com o que lê por aqui. Na realidade eu, acima de todos os que por aqui passam, gosto do que escrevo e de como escrevo, eu sou o meu maior critico e apreciador e por isso tenho postado menos, porque agora ao contrário do que acontecia há um ano atrás já não encho chouriços, escrevo quando sinto vontade e necessidade escrever e o que sai me dá prazer de ler.

Tenho lido alguns dos blogs que por aí pululam e há por aí alguns muito bons e de gente que tenho que reconhecer que escreve bem e que até me deixam com uma pontinha grande de inveja, muitos estão ali ao lado evidenciados mas há outros que por vezes espreito e que não consigo perceber o que leva a achar quem escreve e quem lê que vale a pena continuar. Não vou dar exemplos, mas desgosto sobretudo dos que semeiam palavras caras e com muitas sílabas e de preferência completamente desconhecidas do comum dos leitores, há que impressionar pela evidência da sabedoria do escritor sobre a ignorância do leitor, porque quem não consegue perceber a beleza da veste do rei que vai nu ou é muito burro ou para lá caminha.

Gostava de saber escrever como escrevem os grandes escritores. Os textos que me dão mais prazer de ler foram invariavelmente escritos por mim num frenesim em minutos e sem mudar uma única palavra, como num transe criativo. Eu acho que o que me separa dos grandes escritores é que eu apenas consigo ter transes criativos de curta duração e que estes os conseguem manter no tempo que intervala o era uma vez e o fim. Que raio de merda esta de não ser mais do que um gago criativo…



Pearl Jam- Just Breathe

segunda-feira, 22 de março de 2010

Comboios


Sinto saudades do tempo em que os comboios eram enormes na minha perspectiva de menino e me deixavam a pensar que eram coisas zangadas, veneráveis e respeitáveis porque faziam barulho e fumo e cheiravam a cheiros que eu não cheirava em mais lado nenhum. Sempre gostei de comboios. Sempre achei que um dia como o de hoje poderia procurar um comboio que me levasse para um outro sitio qualquer. Sempre imaginei que um dia chegaria de gabardine cinzenta e chapéu de aba, elegante e distinto de mala imaculada de cigarro no canto da boca como num filme negro sem outras cores que não as que derivam do branco e do preto e que estaria parado na gare um grande comboio, qual ser ou máquina mitológica à espera que eu chegasse, o tal passageiro especial à volta de quem toda a acção se desenrola e que calmamente entraria a bordo com um olhar enigmático tiraria o chapéu sorrindo para os outros já sentados que espantados com a minha presença nada diriam, pela sua condição de meros figurantes e que me iria sentar no melhor lugar da carruagem junto à janela depois de ter depositado em segurança a mala num compartimento à altura da minha cabeça. O comboio partiria e tudo o resto seria uma aventura cujas dificuldades apenas serviriam para demonstrar as minha capacidades e o final nada mais do que seria feliz.

Afinal na vida real existem apeadeiros ou locais por onde os comboios passam nem sempre parando mas eu sim estou aqui parado e o pesado casaco já me fez suar debaixo da chuva quente desta meia estação e os cigarros que fumei são vazios de encanto e cheios de nicotina que me faz tossir e cheirar mal e tenho pousada uma mala velha cheia de roupa e outras coisas que lá enfiei sem critério e espero que ainda pare por aqui um comboio em breve, porque nem sempre param, porque este é um mero ponto de passagem onde esperam pessoas vulgares, pessoas de apeadeiros, pessoas que estão num meio entre destinos que não é tão importante para que todos os comboios lá parem. Estou num meio entre destinos e tenho no bolso um bilhete de comboio que gostava que me garantisse passagem segura a um outro sitio qualquer que não sei onde fica e não quero saber como lá chegar mas espero que o comboio lá me leve, seguro sobre os carris assentes por quem aprendeu antes de mim o caminho que leva a esse outro sitio qualquer.

Sei que passei por louco quando disse ao cobrador que queria um bilhete para um outro sitio qualquer e nem me sorriu quando perguntou se queria que esse outro sitio qualquer fosse outro longe ou outro mais perto. Longe o mais longe possível, quero que o que me custou a partir me compense o que vai demorar a chegar, quero ainda poder apreciar a viagem, sem tempo ou pressa, ver a paisagem até que me pareça que é ela que se move no meu referencial parado num ponto para onde o ponteiro do relógio apontou e não mais se mexeu. Não me importa as etiquetas de covardia e desprezo com que vão classificar a minha fuga, aliás já nada me importa, quero ser neste comboio o mesmo passageiro insignificante que fui na vida, quero não ser notado nem pelo meu riso nem pela minha lágrima, já não me importa sequer ser memória, quero apenas poder embarcar depressa no comboio que me leve aquele outro sitio qualquer sem nunca lá chegar até que a morte da vida me separe.


The Clash - Train In Vain

sábado, 20 de março de 2010

Fabulando [2]


e o Januário acabou a ir pelos ares…
…E aterrou estatelado no solo com todas as penas em desalinho meio tonto senão tonto de todo sem perceber o que se tinha passado, o pato ria a bandeiras despregadas com o bico tão aberto que parecia que só tinha bico e a vaca de pernas bem escancaradas e rabo no chão esfregava a genitália na relva e gritava de aflição. Januário que podia lá ter a mania que era galo mas no fundo era boa ave, levantou-se a correr em direcção à vaca para lhe perguntar: “magoei-te querida? Fui muito bruto?” o que ainda fez com que o pato mais se desmanchasse, tanto que quase só faltava cobri-lo de arroz e levar ao forno. A cena era realmente digna de um bom realizador Italiano daqueles que é pecado dizer que não se percebe patavina o que querem dizer, a vaca que se esfregava com ar doloroso, o pato que se rebolava de asa na barriga a grasnar risadas e o pobre do Januário galo de boa criação aflito com a donzela em sofrimento.
No fim tudo se acalmou e a Vaca que até tinha nome mas que o guardava só para si porque na vida que levava gostava de o preservar a bem da família, lá se recompôs das pernas e depois de respirar fundo uma ou cinco vezes pediu desculpa ao galo porque não sabia o que se tinha passado e que nunca antes se tinha passado daquela forma e ambos se viraram para o pato como se à espera que dali, viesse a sabedoria que os esclarecesse e este quando reparou que só ele ainda achava graça à história de uma vaca quase entrar em dores de parto quando acirrada por um galo velho lá encolheu os ombros e disse ao galo que o melhor era irem beber um copo à tasca do Horácio porque pelos vistos a vaca era alérgica a cabidela. Ahhh, disseram vaca galo com alívio e o pato que era sacana como um macaco não pôde deixar de reparar na ironia do trocadilho.

O Horácio contrariamente ao que se podia por um momento pensar não era um cavalo mas um cão rafeiro que se dizia perdigueiro e que era dono de uma taberna ao fundo da terra no cruzamento da estrada que vinha debaixo com a outra que ia para cima. Animal vivido tinha sempre uma boa história para contar desde que não se fosse para o tasco fazer sala e sorriu quando viu entrar as aves, o pato que conhecia pelo nome de Alfonso ou lá o que era e o seu grande amigo Januário de que se lembrava desde o tempo de pinto, recebeu-os de patas abertas e logo perguntou o que queriam beber. Ficaram-se pelas cervejas porque estava calor e lhes apetecia leguminosas mas que estavam salgadas como tudo e atrás de um pires veio outro e passado um bom bocado já atafulhavam os bicos de gargalhadas e cascas de tremoço e a mesa composta com canecas alinhadas pelas asas.
O Horácio ao vê-los tão animados foi-se chegando e num sussurro disse-lhes que tinha uma coisa para contar mas que só sobre juras de segredo daquelas inquebráveis sob pena de lhes cair todas as penas, lhes podia contar…



Madness - One Step Beyond

quarta-feira, 17 de março de 2010

Fabulando [1]


Januário era um galo que já não tinha a crista tão altiva como antigamente e a voz esganiçava-se para ainda acordar a vizinhança mas não queria de forma alguma dar parte de fraco e mantinha a galinhagem sempre de rabo encostado à parede, mais pelos arremessos e bater de asas do que pelos arrebites porque na realidade aquilo que tanto o orgulhara na juventude já pouco ou nada se levantava.
Um dia em conversa com um pato faroleiro da vizinhança que por ali passara para trincar umas maçãs que por aquela época caiam em abundância da velha macieira junto ao córrego, soube que havia não muito longe dali uma vaca nova que era um espectáculo de criatura com uns quadris arqueados e tetas rosadas espetadinhas e que não era nada esquisita não se importando de dar umas baldas a quem fosse que fosse com vontade de a pôr a mugir com gosto. Claro que o Pato se gabou de já lá ter ido e que a coisa tinha sido de tal forma que a bovina até esfregara com os cornos no chão de tanto prazer e o Januário que nunca fora de levar desaforo para casa disse logo que amanhã mesmo lá iria cantarolar à dita e que se ela fosse na conversa não só a poria de chifres bem enterrados como todo o lameiro ficaria bem lavrado com o arrastar do bicho. O pato que era esperto como um sabujo e percebendo que o galo só estava a cantar de galo quis apostar que ele nem a faria balir e o galo não teve outra hipótese sob pena de cair em descrédito com as frangas de aceitar a aposta.
No dia seguinte ainda o Sol não ia muito alto no céu, já o desgraçado do pato o esperava ao fundo do caminho com ar de ganso convencido e Januário lá teve que ir atrás dele certo que aquele seria o caminho que o levaria ao fim dos seus dias de soberania na capoeira e que para além de ir perder como paga da aposta aquelas três penas do cu que tanto se orgulhava ainda iria ter que aguentar com a história de fracasso que o malfadado anfíbio poria a circular. Mal chegado avistou logo a bela da vaca ruminando sobre a erva verde e que bela ela realmente era, toda branca com malhas negras bem dispostas e grandes olhos pestanudos, uma tesão noutros tempos e agora apenas uma comichão mas lábia ainda tinha e depois de um pequeno prefácio de dois dedos de conversa a animal lá percebeu ao que vinha e encolheu os ombros e piscou o olho em sinal que queria festa e o bom do Januário lá se encavalitou na sua traseira para pelo menos dar o seu melhor e depois foi um ver se te avias a vaca de repente desatou aos saltos e aos pinotes e o Januário acabou a ir pelos ares…

(Nota do autor: Estou cansado vou dormir acabem lá a história por mim sff.)


Fun Boy Three - The Lunatics Have Taken Over the Asylum

terça-feira, 9 de março de 2010

Esperarei por ti…

…O tempo que for preciso.

Skylark
Have you anything to say to me
Won't you tell me where my love can be
Is there a meadow in the mist
Where someone's waiting to be kissed

Oh skylark
Have you seen a valley green with spring
Where my heart can go a-journeying
Over the shadows and the rain
To a blossom-covered lane

And in your lonely flight
Haven't you heard the music in the night
Wonderful music
Faint as a will o' the wisp
Crazy as a loon
Sad as a gypsy serenading the moon

Oh skylark
I don't know if you can find these things
But my heart is riding on your wings
So if you see them anywhere
Won't you lead me there
Oh skylark
Won't you lead me there


Renee Olstead & David Foster - Skylark

sexta-feira, 5 de março de 2010

Porque hoje é mesmo sexta…


… e a Story que é aquela miúda que sabe mesmo tudo deu o mote desta música fantástica que os Cure fizeram em resposta aos New Order e porque hoje é mesmo sexta deixo-vos aqui um desejo e um desafio de vida, ora ouçam lá com atenção a letra.


The Cure-Friday I’m In Love

terça-feira, 2 de março de 2010

Inquisitório - Sobre existencialismos e outras coisas acabadas em ismos ou paralelismos no mesmo tom

Estamos num inverno que parece teimar em continuar cinzento e húmido e de todo o lado vêm sinais que anima quem nos quer desanimar com imagens apocalípticas e já agora vender um lugar cativo para um espectáculo do fim do mundo. Este é o tempo propício para pensamentos de dúvida e ideias de incerteza. Do optimismo do pessimista se faz o pessimismo do optimista e apetece-me uma resposta original a estas perguntas:

1- Levantar de tarde numa manhã de domingo é uma questão de orgulho ou de preconceito?

2- É mais aceitável socialmente tirar macacos do nariz ou do sótão?

3- Optas pelos teus slips dogmaticamente ou paradigmaticamente?

4- Porque é difícil de acreditar que a descrença no amor à primeira vista não é apenas miopia?

5- Chanel?

6- Pensão completa com Jacuzzi no inferno ou com sauna no paraíso?

7- Por quanto tempo pensas que podes parar no meio do parque a olhar os pássaros chilrear, as flores a crescer, as crianças a brincar, os cisnes brancos flutuando no lago e o calor do Sol a aconchegar-te o corpo envolto numa brisa suave sem que um pombo te cague em cima?

8- Por que raio a música deste post fala de uma segunda-feira se hoje é terça?


New Order - Blue Monday

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

I’m late, I’m late for a very important date


Tic tac tic tac tic tac. Passo o tempo a sentir o tempo a passar ou passo o tempo a querer que o tempo passe. A diferença entre o sentir e o querer não impede o tempo de passar.

Tic tac tic tac tic tac. Passo o tempo a querer ainda sentir ou passo o tempo a sentir ainda querer. Gostava de querer sentir a diferença de passar o tempo a sentir querer a indiferença do tempo passar.

Tic tac tic tac tic tac. Sinto-me já diferente porque o tempo passa e quero ainda ser indiferente por me passar o tempo. Ainda ontem era hoje e já hoje será amanhã.

Tic tac tic tac tic tac. Será ainda cedo ou já será tarde para passar o tempo a ver o tempo passar porque ainda ontem era cedo e já amanhã será tarde.

Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac.


Norah Jones-Chasing Pirates

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Boletim Informativo


Há muito tempo que não escrevo neste blog apenas pela obrigação de escrever. Raramente escrevi neste blog de forma explícita sobre a minha vida pessoal. Apenas aqueles que me conhecem pessoalmente encontram nas minhas palavras significados que são não mais do que abstracções semânticas.

Muito se tem falado ultimamente de liberdade de expressão e tenho visto que por vezes há quem invoque nos blogs essa liberdade de poderem dizer o que lhes vai na cabeça e que em nome dessa liberdade de expressão ninguém tem o direito de lhes tirar esse direito.

Ora bem, um blog não é um meio de informação público. Pelo menos este não o é. Aqui só há uma pessoa que tem total liberdade de expressão porque entendo este blog como a minha casa de palavras. Isso não quer dizer que pretenda fazer censura ou que não aceite quem me critique ou que me dêem opiniões, mesmo que essas não sejam as minhas, nada disso, mas reservo-me no entanto o direito de poder ter a última palavra.

Por aqui só havia uma pessoa que não era bem vinda, agora há duas e isso porque no passado dia 10 às 8h30 da manhã tive uma visita oriunda de uma empresa de crédito automóvel e que me visitou depois de ter recebido um mail calunioso a incentivá-la a vir aqui ler pretensos insultos. Ora a verdade só é insultuosa para quem não tem vergonha na cara e depois quando quiser insultar alguém, irei fazê-lo de forma clara e inequívoca e não omitindo as razões que me levam a fazê-lo e até pode ser que o faça um dia, mas não tenho nisso nenhum objectivo de vida.

À semelhança de muitos, este frio e outros afazeres tem-me mantido afastado de blogoesfera, mas este blog não vai fechar e espero em breve retomar a escrita regular de vários textos que tenho na cabeça, mas gostaria que de uma vez por todas que quem não gosta do que escrevo ou quem não gosta de mim e do que sou e do que represento, não ponha aqui os pés, nem aquela que não é bem vinda, nem a outra que vem para poder anuir ao fel. Façam lá o favor de ficarem no vosso canto de insignificância que eu ficarei no meu.


The Clash - London Calling

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [5] – O ser Português (e)Dependente


Quem tem medo do lobo mau? Poucos terão coragem de admitir que depois de deixar de mijar na cama ainda tem medo do lobo mau, assim como poucos terão coragem de dizer em público que ainda tem medo da gripe que era dos porcos e depois virou quase histeria planetária de quem não tinha mais nada com que se chatear, muitos dirão que cautelas e caldinhos de galinha nunca fizeram mal a ninguém e que se não foi desta que o mundo acabou, será para a próxima e outros dirão que foi tudo uma negociata, como já ouve outras, há que aproveitar o medo da populaça de que o céu lhes pode cair em cima para vender vacinas e dar trabalho às gráficas a fazer panfletos e cartazes com regras básicas de higiene e que mal tem que de repente se possa ganhar muito dinheiro a vender gel mal cheiroso e dispensadores do mesmo que todos compraram como papo-secos.

Somos todos uns ingratos porque só sabemos criticar e há que louvar os que nos governam e tentam conduzir para um futuro brilhante como povo ingovernável que somos, porque tomou as medidas que tinha que tomar e que até apenas se limitou a fazer o que os outros países muito mais evoluídos que nós também fizeram e que agora até como brilhante negociador vai conseguir dispensar o excesso das vacinas que afinal já não precisamos e que ninguém venha dizer que para anular a encomenda só teremos que pagar um bocadinho a mais do que o lucro que quem as fabrica teria porque isso são só más-línguas e nunca se há-de provar, porque quem sabe só tem a perder se botar a boca no trombone.

Irrita-me este povo, mais ainda por me sentir tão parte dele, somos e eu também sou, muito maldizente, quase mesquinho e não tenho razões para me orgulhar. Por exemplo, gosto de dizer mal dos arrumadores de carros. E digo mal porquê? Não fazem eles um serviço que na maior parte das vezes não é mais do que me ameaçar sem palavras de que se não der a moedinha me arrisco a encontrar o carro devidamente autografado ou com o limpa pára-brisas velho que já não limpava porra nenhuma pronto a ser substituído por um novo que limpe melhor. Que mal tem que não haja um cantinho deste País onde caiba um carro que não tenha já alocado um tipo com mau aspecto a abanar os braços e estender a mão, ò tio não se arranja uma moedinha? E um cigarrinho? Sem querer exagerar e deixo aqui um desafio para quem gosta de contar e fazer estatísticas, não deve faltar muito para termos mais arrumadores do que carros e se calhar não era má ideia se as marcas de automóveis começassem a incluir como opção o dito e lá podia vir o carrito com bancos eléctricos, tecto de abrir, GPS e um arrumador já sem tomar banho há uma semana. Podiam até prever um espaço para o arrumar, agora que os carros já nem trazem pneu suplente, com jeito até se encaixava nem que fosse um arrumador pequenino.

Ora o que leva alguém a querer ser arrumador? As contingências da vida, muitos dirão, o desemprego e o desespero e as dependências de coisas menos licitas mas que os fazem felizes por um bocadinho e é desprezível da minha parte estar a ironizar com isto, porque quem escolhe ser arrumador não tem outra opção de vida e que a muitos até custa riscar carros. São arrumadores porque ninguém lhes dá outra possibilidade de dependência além das dependências que os condicionaram a ser dependentes e se houvesse vontade politica para acabar com os arrumadores bastaria pagar um subsídio que os compensasse da perda de rendimento e se há subsídios para tudo e se o Português aprendeu a viver de mão estendida e a conseguir dormir de cabeça erguida sem nenhum problema em ser dependente que mal tem mais um grupo de infortunados dependentes.

Uma moedinha aqui e outra ali e o dia está feito. Eu admiro o esforço enorme que aquela gente tem em fazer de tudo para não ter que se esforçar a fazer outra coisa. É de louvar o esforço que muitos se dão em arranjar mecanismos oportunistas de tirar partido das oportunidades mesmo que para isso tenham que viver o resto da vida sem poder agarrar as verdadeiras oportunidades da vida e eu até sei do que estou a falar.


Pink Martini- Je ne veux pas travailler

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 21


Estou num quarto rodeado de rostos mortos. Alguns são variantes de cinzentos e negros e luz que se fixou no papel, o tempo que passou revela-se nos tons amarelados que vão apagando as imagens como o fumo se esfuma no nada. Nenhum me sorri, são sobretudo fotografias de homens como se não importasse muito ao passado fazer perdurar no futuro os rostos das suas mulheres. Na minha memória ainda tenho a cor de alguns dos rostos agora mortos, mas não me lembro dos seus sorrisos e pouco dos seus nomes. Aqueles rostos são responsáveis por eu estar aqui e exigem-me que os respeite é por isso que ali estão pendurados naquela parede branca, a minha árvore genealógica de raízes profundas e muitos ramos retorcidos.

Na minha família morre-se novo e eu alterno em querer quebrar a tradição ou aceitar o desígnio. Já não penso muito nisso, sei que a morte chegará um dia e que terei o meu rosto pendurado nestas paredes, mas gostava que alguém se lembrasse do meu sorriso. Espero que a morte chegue sem me avisar de véspera e sem hora marcada mas ambiciono ter tempo para me eternizar em obra que ainda não realizei. Venho aqui hoje olhar o único destino que tenho como certo, tudo o resto ainda posso escolher ou deixar que aconteça por acção ou acaso.

Agora, aqui e neste instante, não acredito que na morte possa ser mais que um rosto pendurado na parede e um corpo que apodrece na terra ou arde na urna mas sei de outros que pensavam como eu e que depois mudaram e passaram a acreditar numa continuidade espiritual por influência divina, glorificado no céu como recompensa pelas acções de bondade ou ardendo no inferno pelos actos do egoísmo. Eu não quero acreditar que na morte possa ser mais do que um rosto eternizado até o tempo me consumir de amarelo porque sei que o egoísmo é o maior dos pecados e eu sou egoísta e não quero viver a pensar que poderei ser na morte menos do que fui em vida.

Hoje vim aqui para confrontar estes rostos que não passam de sombras do passado, nenhum deles, por maior medo que me tivesse causado em menino, pode agora fazer-me mudar o que decidir fazer ou acusar-me por falta ou por excesso. Sou tão livre do seu julgamento no que for o resto da minha vida como eles são livres do meu julgamento no que restou da sua morte, um rosto pendurado na parede que apenas lamento que não sorria. Sei que o meu não será o último rosto na parede mas pergunto-me quem o pendurará e até quando a importância das paredes não suplantará a importância dos rostos mortos e todos acabem esquecidos numa caixa debaixo de uma escada como pasto para ratazanas.

Hoje aqui estive, quem sabe pela última vez a olhar para o passado sem lamentar que não retorne e a pensar que amanhã é já daqui a algumas horas e que nesse entretanto muitos rostos poderão ser pendurados em paredes ou esquecidos sem glória. Já decidi que amanhã será o inicio do meu caminho, quer ele me leve à imortalidade do reconhecimento ou à vontade do esquecimento, não voltarei a voltar a trás nem a olhar a luz que já se apagou nem recear ser julgado por quem já morreu. Fecho a porta e estou de novo tão só como estava antes mas sinto-me mais só ainda e preciso de acreditar que o que me falta agora já não me faz falta. Deixei o passado simbolicamente fechado naquele quarto onde será relembrado e celebrado apenas pelos rostos mortos, será um passado guardado sem sorrisos, porque esses trago estampados num rosto que ainda não morreu.


Nirvana - About a girl