terça-feira, 29 de junho de 2010

Generation Gap?


Muse & The Edge – Where the streets have no name

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [8] – O admirável mundo novo edição de coleccionador


Ainda odeio as vuvuzelas! E depois desta surpreendente declaração de sentimento gostaria de anunciar que no final fui fraco e acabei por ceder às insistentes campanhas de arregimentação que vários dos ilustres visitantes deste blog me moveram e fiz-me parte daquela coisa que dá pelo nome de Facebook.

Olho-me agora de forma diferente ao espelho, mas se calhar é porque com esta idade ainda consigo ter efervescências borbulhosas no nariz o que não deixando de ser notável se nota porque fica tudo vermelho com uma cabecinha esbranquiçada daquelas que dá vontade de espremer. Por outro lado e regressando ao Facebook com ajuda e até um bocado empurrado criei a conta no meu nome impróprio que muitos sabem uso legitimamente com propriedade e desatei-me a fazer amigos e ao fim de dois dias já tinha mais de trinta o que me deixou contente e orgulhoso porque descobri que além de conseguir descobrir trinta otários que me querem como amigo ainda por cima me deixam coscuvilhar pormenores da sua vida intima.

Pois tenho que dar o braço a torcer só um bocadinho senão dói muito que aquilo até é giro e é um sitio onde há mulheres boas ou melhor dizendo que eu gosto de parecer espiritual, boas mulheres. Por outro lado fiquei um bocado decepcionado porque toda a gente me dizia que ia conseguir rever a malta toda que tinha andado comigo na creche e na pré-primária e fartar-me de gozar porque está tudo velho e gordo e afinal não encontro ninguém. Das duas uma ou o pessoal do meu tempo tem todo mais juízo que eu e dedica-se a coisas mais interessantes como por exemplo outra coisa qualquer ou então um dos 6723 indígenas que me aparecem na lista é mesmo o Zé Carlos e eu não lhe consigo reconhecer o nariz.

Agora o que me parece mesmo deprimente é os grupos… Muito gostamos nós de molhadas e quanto maiores melhores. Mas mau mesmo são os grupos revivalistas que querem fazer recordar quão jovens e tótós éramos todos os que nos juntávamos no tal café que tinha o tal empregado que era meio coxo e que se calhar até já morreu ou então é bem velhote e depois aparece sempre o iluminado que diz que não que ainda na semana passada o viu no supermercado a comprar um pacote de flocos e um queijo fresco e que até estava fino. Depois claro vêem as fotos carcomidas ou com aquelas cores estranhas dos setentas ou dos oitentas e vai de comentar com os olhó e olhá e às vezes até se deixam escapar aquelas coisas que até nem dão jeito que toda a gente fique agora a saber depois de tantos anos a tentar esquecer.

Mas pronto estou no facebook mas continuo a odiar as Vuvuzelas.

Nota do autor: Aquilo lá no Facebook funciona um pouco como um apêndice deste blog e um apêndice para quem não sabe e eu descobri muito recentemente por más razões é algo que ou não serve para nada ou ainda não se sabe para o que é que serve. A diferença é que lá é assim a modos como um lugarzinho com direito de admissão onde o bar está sempre aberto e todos sabem o nosso nome e é verdade que sendo um lugar comum não deixa de ser verdade. Assim quem se quiser amigalhar por lá pode sempre aparecer mas desde já aviso que só serão aceites pessoas reais ou que consigam provar que o são e neste caso a única excepção é aquela menina de Braga que nunca ninguém viu mas que se supõe que existe e sim tu é de ti que estou a falar...


Kid Creole & The Coconuts - I'm A Wonderful Thing Baby

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [7] – O admirável mundo novo


Odeio as vuvuzelas! De repente alguém me disse que o mundo podia ser visto a 3 dimensões e que nem precisava de sair da sala ou da cozinha ou mesmo da casa de banho para o ver assim de forma tão profunda. Odeio mesmo as vuvuzelas! Como é que de repente sem que tivéssemos dado por isso o mundo ficou a 3 dimensões é um mistério com algum relevo e passado o trocadilho forçado parece que a explicação é antiga mas só agora depois do tal Avatar se percebeu que nos fazia mesmo falta dar outra dimensão à coisa. Mas é que odeio mesmo muito as vuvuzelas! Parece no entanto que não é apenas com os nossos bonitos olhos que podemos ver o mundo a 3 dimensões, serão necessários uns óculos polarizados que não se devem confundir com polaróides que são aquelas máquinas que tiram fotografias instantâneas sem serem telemóveis nem com polinizações que só serve para me fazer espirrar e besuntar o monitor com nhanha viscosa. Já vos disse que odeio as vuvuzelas? Para o mundo poder ser visto a 3 dimensões fará ainda falta uma televisão mais especial que aquela que tanto trabalho deu a convencer a dita que preferia ir de férias para Torremolinhos a comprar com a promessa que aquilo não ia parecer enorme na sala e que até seria mal os vizinhos já todos terem e agente não. Odeio as vuvuzelas tanto mas tanto que quando ouço uma até me arrepiam os pintelinhos da nuca. Aqui o escriba que para quem não sabe até ganha a vida com estas coisas tecnológicas e que devia estar caladinho e aplaudir que o mundo se queira ver agora a 3 dimensões, não consegue deixar de achar piada a imaginar a malta toda sentada na sala com ar de imbecil de óculos à José Cid escarrapachados no nariz a olhar para dentro de um aquário. Penso que já vos terei dito que odeio as vuvozelas! Sim, porque o efeito de uma televisão a 3 dimensões é muito parecido com o de olhar para dentro de um aquário, embora com a vantagem de que não é necessário dar de comer aos peixes nem limpar o verdete do vidro.

Agora gostaria de aproveitar a oportunidade e comunicar ao mundo que odeio as vuvuzelas e que sinto uma vontade enorme de as enfiar pelo cu acima a quem se atrever a tocar uma à minha frente e posso garantir que isso terá um efeito tridimensional que dispensará os óculos ou outro investimento mais avultado e aqui fica o aviso que quem avisa amigo é.

No vídeo abaixo, não foi maltratado nenhum animal e acima de tudo nenhuma vuvuzela foi tocada.

Caetano Veloso - Luna Rossa

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [6] – O ser estranho que é a mulher


Aqui há dias surgiu-me uma epifania e este não é o nome esquisito de nenhuma miúda gira que me pediu amizade no facebook até porque eu ainda não tenho conta naquilo embora esteja sinceramente a pensar ter porque ao que parece a coisa tem interesse para lá de plantar batatas e assumi de uma vez por todas que não entendo, nunca irei entender e nem sei se quero mesmo entender as mulheres.

Pensava eu na minha ingenuidade de homem pouco vivido que o amor que uma mulher sente por um homem poderia morrer como morrem todos os bichos subitamente ou por doença prolongada ou todas as plantas por falta ou excesso de rega, mas não, o amor que uma mulher sente por um homem é eterno e quando supostamente ela diz a todas as amigas ou a quem tiver a paciência de a ouvir que acabou tudo, na realidade o que acontece é que o amor se transforma numa outra forma de amar, que a mulher confunde por vezes com ódio mas que continua a ser amor daquele que a leva a não pensar noutra coisa do que no ser amado ou a querer estar no mesmo espaço do ser amado e a não falar noutra coisa com as amigas do que do ser amado independentemente de falar mal e porcamente, não deixa de falar.

Um homem quando deixa de amar uma mulher ou vira desgraçadinho, alcoólico, toxicodependente ou cliente de psicanalista ou parte para outra e tenta compensar a falta de amar com excesso de sexo mas nunca, de forma alguma quer voltar a estar no mesmo espaço físico que a ex amada ou a contacta por tudo e por nada ou se penteia e veste umas calças novas e sapatos engraxados na esperança de a encontrar na paragem do autocarro. A mulher não, se amou ganhou o direito de ser chata de ser inoportuna de ser melga de ser doentia na obsessão de continuar a viver na orbita do ser amado.

Aquela história que conta que todas as mulher tem a capacidade de transformar um qualquer sapo num príncipe é uma das maiores fraudes que impingem às criancinhas logo desde pequeninas, porque a verdade diz exactamente o contrário, toda a mulher consegue com a maior das facilidades transformar o seu príncipe encantando que tanto amou num sapo desprezível e baboso e no entanto, embora o consiga trocar com supostas vantagens por um pepino cor de beterraba com a mais valia de ainda por cima não ressonar, nunca o deixa de amar nem que seja por pena ou por ódio.


Regina Spektor - Fidelity

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ámen

Porque por aqui se morre de tédio, há que matar o tempo no outro lado…

»».««


Siouxsie and the Banshees - Melt
(Para os distraidos o guitarrista é o Robert Smith dos Cure)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Não me apetece…


…Voltar a correr atrás de quimeras e outros bichos com asas e penas coloridas e sonhos suaves que se podem comer sem risco de engordar. Não me apetece escrever com data marcada palavras bonitas ou nada que se pareça com dever. Não me apetece ter agora nada mais do que vontade de mim. Não me apetece sentir qualquer pudor em ser egoísta e esquecer por alguns instantes que a minha importância se relativiza pela importância de quem me é mais importante. Não me apetece saber que não sou Sol, fonte e suficiente para todos os que quero e que ainda sou por obrigação algo que não quero ser para outros que não quero que façam já ou ainda parte de mim.

Não me apetece seguir regras, seguir horários, seguir rumos, seguir costumes, seguir outros filhos, seguir o vento, seguir a fome. Não me apetece dançar por fora do ritmo que sinto no corpo que ainda sabe escutar. Não me apetece ter que justificar os meus apetites ou a minha falta deles. Não me apetece estar onde estou e não estar noutro lado. Não me apetece saber que me falta coragem ou sobra consciência de largar tudo e ficar nu num lugar onde nada mais me falta que o que me sacia.

Não me apetece dores nem sedes. Não me apetece acordar ou adormecer nalgumas manhãs. Não me apetece o escuro sem a tua luz. Não me apetece rasgar o passado nem antever o futuro. Apenas me apetece não me apetecer.


James-Sound

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Citações que ainda um dia serão famosas [2]


Os problemas que sei resolver com o dinheiro que consigo ter na carteira não são mais que insignificantes.
(LBJ – Maecenas compelido de causas menores e pactos que deveriam estabilizar )


AUREA - Busy (for me)
(PS. Para quem como eu andava distraído esta menina é Portuguesa.)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Faz favor de passar…

…e ir ler lá do outro lado, mas antes gostava de vos dizer que adoro o nome desta banda e que vale a pena ouvir a música porque é daquelas que nos fazem assobiar e sorrir só porque sim…

»».««


Club Des Belugas Orquestra - It's Beautiful Day

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Keep it Simple…


Não foram precisas carradas de fogo de artifício nem toneladas de fumo nem muitas luzes a piscar sem sentido. Houve a honestidade, houve o suor, houve a entrega de um grande performer muito bem acompanhado para me dar o melhor concerto a que já assisti, quem foi ao engano saiu rendido, sempre disse que este senhor era muito mais do que queria parecer ser e não tenho dúvidas que o seu próximo concerto em Lisboa irá encher um estádio amarelo esverdeado…


MIKA – Stuck in the middle


MIKA – Good gone girl

domingo, 9 de maio de 2010

Citações que ainda um dia serão famosas [1]

Comparar uma Mulher a uma flor é como reduzir o jardim a um canteiro.
(LBJ – Observador de pássaros)


Amy Winehouse - Will You Still Love Me Tomorrow

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 23


Queria poder contar com pontos de retorno. Queria parar o mundo neste instante e guardar a vida num lugar seguro, uma caixa, uma carta ou um frasco que pudesse rolhar de vidro opaco longe dos olhos e de todos para que a incerteza fosse sempre um caminho seguro. Quero o poder de voltar aqui e agora apenas estalando os dedos, tlec e tenho uma nova oportunidade de me falhar. Não me importa emendar o tempo, hora a hora ou dia a dia como o faço com as palavras que me desagradam e que apago e reescrevo com outras letras ou sons ou significados, não me importa trilhar todo o caminho por muita pedra que me sangre os pés, chegar ao fim e ver o final mas gostaria de ter a possibilidade de escolha de um novo recomeço a partir de um ponto ou instante como este em que o que está mal até não está mal de todo.

Sou fraco porque escolho não escolher, é mais fácil deixar seguir o rio em direcção a onde quer que vá chegar, alguns rios conseguem até chegar ao mar e chegar ao mar é fazer parte de algo imenso ou apenas diluir ilusões, a água deixa de ser doce quando chega ao mar, onde ficará a fronteira entre a água do rio que é doce e a água do mar que é salgada? Sou como a água que flui pelo caminho mais fácil, sou como a água que flui sem perceber que deixa de ser doce e se salina e amarga, sou como a água por vezes transparente outras opaco e estou a deixar-me fluir somente porque me atrai o mar.

A sua mão está pousada na minha perna, oculta pela mesa, acaricia o interior das minhas coxas num movimento inequívoco de sedução. A mulher do cabelo amarelo que já não é amarelo mas feito de muitos dourados e castanhos, sorri-me com os olhos e diz-me que sente o desejo de voltar a ver o meu corpo nu, quer olhar-me com as pontas dos dedos e com as pontas dos seios e com a humidade dos lábios, quer sentir os contornos escondidos da minha pele com o seu roçar impudico. Tenho vontade de dizer alguma coisa que não sei se é um concordar ou um discordar mas sou afogado de vontade pela vontade de um beijo que me cola a boca e deixo-me fluir pelo desejo.

Sinto-me mal por me sentir bem e quero fugir mas fico preso por uma mão que agora me segura firme uma erecção que não tenho forma de controlar, há um convite implícito nos seus olhos castanhos que brilham como o mar num dia de verão e eu sei que a vou seguir para onde for que for o caminho que me quiser levar e que me vou deitar a seu lado à espera que me cubra com o seu corpo que adivinho suave. Vou-me deitar no leito que me leva por um caminho que escolho pela minha fraqueza de não conseguir escolher, estou preso pela atracção do mar que antevejo nos olhos de uma mulher que sinto real pela mão que me prende mas que me atrai por um sentimento irreal de perigo, tenho medo da incerteza mas é ela que me fascina e puxa e que faz não querer mais do que deixar fluir.

Acabo o dia na noite suado e sem saber se o que sinto agora é arrependimento ou medo e se pudesse ter o botão que me levasse a um ponto de retorno, se o apertaria agora ou se ainda me deixaria ficar a fluir neste desejo que começou por não ser o meu mas que me foi cercando num caminho fácil e me contagiou porque sou fraco e estendo a mão e sinto-lhe a ponta de um mamilo, hirto e compreendo que não o conseguiria apertar…


James - Sit Down

domingo, 2 de maio de 2010

Happy Birthday part 2


De repente apercebi-me que este blog faz hoje 2 anos e vá de escrever à pressa e adiar a publicação do último texto para daqui a uns dias e pronto já cansado vamos lá fazer um balanço que é para estas coisas que servem os aniversários.

Ora em idade de blog não sei a que é correspondem 2 anos, assumindo que os blogs são como os cães o que até nem me parece mal comparado de todo, tendo em conta aquela coisa do fiel amigo e companheiro e as pulgas, então este blog está a entrar na adolescência ou seja está naquela fase em que se quer fazer muita coisa mas o tempo vai faltando e se acaba por se ir fazendo o que se pode e nalguns casos se aprende a gostar de cerveja e noutros a ficar agarrado a coisas piores.

Para quem por cá não anda há algum tempo convêm explicar que a mecânica deste blog é alimentada por vídeos emprestados dai e dacolá e de textos escritos por mim que na maior parte das vezes são ficções pouco imaginativas de coisas que me vão alem brando.

Se quiser sintetizar numa palavra o balanço deste ano que passou esta seria mudança. Aqueles que me conhecem para além do virtual e começam a ser alguns, sabem que quis mudar o que já não me fazia sentido e que a muitos pareci louco ao querer fazer tudo ao mesmo tempo, mas aqui estou para provar que a fortuna calha aos audazes e o que ainda me falta hei-de também rapidamente conquistar.

Relativamente a este novo ano bloguístico, este blog para recuperar o ritmo tem que introduzir algumas rubricas novas e assim o novo alinhamento para os próximos meses serão a continuidade do “Diário do louco impoluto” e da “fabulandia”, os “Privilégios do Disparate” além dos “(in)mundanismos” irão ter também uma série de rascunhos verbais sobre o livro de génesis mas para aqueles que estão já a acender as tochas tentarei que não seja nada de muito herético. Depois para dar o tal ritmo tenho que ter posts mais pequenos, porque escrever textos de algumas centenas de palavras não é assim tão fácil como eu pensava e por isso vão aparecer duas novas rubricas, que são as “Citações que ainda um dia serão famosas” e os “Títulos de livros e filmes improváveis” e claro os tão apreciados "inquisitórios", no fundo coisitas leves para ajudar a digerir.

Visto isto e o resto, resta-me agradecer a todos os que aqui passaram, sobretudo aqueles que se deram ao trabalho de se apagarem como meus seguidores e neste ano que passou foram uma boa meia dúzia e esperar que neste novo ano bloguístico continue a merecer o vosso amor ou o vosso ódio mas nunca a indiferença.

Beijos para as meninas e abraços para os meninos.
LBJ


B-52’s - Rock lobster

sábado, 17 de abril de 2010

Saturday Night News


Que não me estranhem a ausência. Novos desafios profissionais obrigam-me a ter que adquirir um novo ritmo de vida e por agora menos tempo para andar por estes mundos. Mas vou tentar voltar aos poucos, tenho muitas histórias para contar e ainda a grande história para escrever e não me vou esquecer dos vossos cantos, mesmo que não deixe nota, saibam que vou passando por lá.

Para quem se distraiu apaixonei-me pelo orvalho por aqui: »».««

Uma grande nuvem de cinza espalhou-se pela Europa e fechou muitas portas de saída e outras tantas de entrada, como tudo na vida o desalento de tantos é a bênção de poucos. Gosto por demais deste Libanês, fresco, descontraído, despretensioso e alegre e que tem o condão de me pôr bem disposto e a abanar a cabeça e a bater o pé, que me perdoem os puristas, faz-me lembrar, pela pose e pela expressão que dá ao corpo o meu saudoso Freddy Mercury. Não podia ir ao concerto, a data era-me impossível, mas eis que os deuses nórdicos decidiram cuspir fogo e tapar os céus e acabando por lhe fechar a porta de saída que o traria ao redondel de Lisboa e eu que sou atento a sinais do destino, já tratei de arranjar forma de lá estar em Maio… a dançar em boa companhia.


MIKA - Blame It On The Girls

domingo, 11 de abril de 2010

Fabulando [3]


O Horácio na sua juventude tinha sido um cão insatisfeito com a vida pacata que se levava pela terriola onde até as moscas eram enfadonhas, mesmo quando se punham umas sobre as outras em pilhas de duas ou três ou até quatro a fazer coisas divertidas ainda eram chatas. Um dia o Horácio acordou decidido, arrebitou-se todo e disse às pulgas que se ia pôr a andar dali para fora, correr mundo e conhecer coisas novas, aprender línguas e quem sabe pelo caminho papar umas cadelinhas e fazer fortuna. Muitas das pulgas quiseram saltar fora e outras nem por isso porque a carne era fraca mas o sangue abundante e lá embarcaram na aventura de serem embarcadiças de um cão embarcadiço num navio da marinha mercante que transportava para lá uma coisas e para cá outras e fazia muitas escalas.

Rapidamente o Horácio se adaptou aquela vida errante de ser um cão que flutuava entre portos distantes portas abertas ao mar de lugares exóticos onde haviam cheiros e cores e costumes diferentes de tudo o que a imaginação alguma vez podia imaginar e nalguns fez amigos e noutros inimigos mas em todos arranjou paixões nem sempre correspondidas mas sempre desejadas e pelas quais lutava com todas as suas forças, porque era um cão fogoso e diziam até jeitoso no seu tom dourado de corpo esguio e cauda robusta e felpuda. Houveram assim muitas cadelas e outras bichas similares porque nunca apreciara coisas esquisitas mas sempre manteve uma regra de ouro de nunca mas mesmo nunca ter mais do que uma fêmea em cada porto.

Com o passar dos anos era inevitável que os filhos começassem a aparecer como surpresas no regresso a cada lugar e quando ouvia aquela frase gaguejada que começava quase sempre com um querido tenho uma coisa para te contar, lá punha o seu sorriso mais complacente e um brilho de orgulho no olhar que mirava os pimpolhos que lhe eram apresentados como seus e nunca mas mesmo nunca contestou a sua responsabilidade paternal, mesmo quando era por demais evidente que havia ali qualquer coisa estranha e as contas nem batiam certo. Se o queriam para pai, se achavam que ele era cão suficiente para ter aquele papel, ele só se poderia sentir orgulhoso e abraçar aquele que o esperava como exemplo como seu de sangue e sentimento.

A fortuna nunca apareceu de um pontapé numa pedra, mas o tempo e alguma poupança trouxe um pé de meia que lhe permitiu encarar o Outono da vida de uma forma mais serena e menos atribulada e um dia o Horácio acordou decidido e disse às pulgas que ia voltar para casa e elas perguntaram, mas a qual casa, uma vez que tantas tinha e o Horácio com o olhar mais sério do mundo e algo zangado lá lhes explicou que independentemente das andanças, casa só havia uma, lá bem longe onde as uvas produziam vinho que lhe recordavam a cara do pai e toda a comida tinha o cheiro da mãe e nesse mesmo dia se pôs a caminho e ao chegar comprou por bom preço a tasca do cavalo do Manel que se queria retirar para pastagens mais verdejantes e de vento mais sereno e rapidamente conquistou a clientela que já era cliente e outra que pela simpatia e boa pinga cliente se fez.

Agora o Horácio estava ali de tomatada inchada prestes a contar aos amigos que na véspera lhe tinha entrado pela porta um dos filhos longínquos de quem mais se orgulhava e que tinha trazido com ele uma história que lhe voltara a acordar a sede de aventura…


The Specials - Ghost Town

domingo, 4 de abril de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 22


Estou parado num sinal vermelho. A sociedade estabelece códigos simples para nos dar ordem como partes individuais que deviam funcionar num todo. Vermelho para parar, amarelo para atentar, verde para realizar, não há complexidades nas cores para que o cérebro não tenha dúvidas na mensagem, educação, formatação, condicionalismo reflexivo na mais pura e elementar essência. Como que para me contrariar os pensamentos observo um casal de cegos que atravessa a estrada à minha frente. De braço dado exploram o caminho com varas compridas de metal, tic tic tic tic e avançam. O homem é mais velho que a mulher, tanto podem ser um casal como pai e filha mas as varetas nunca se cruzam e é essa a dança que me fascina, tic tic tic tic, não consigo perceber a diferença de cada som porque só ouço tic tic tic tic, mas sinto que para eles há tics que são sons de cor vermelha e tics que são sons de cor amarela e tics que são sons de cor verde e o casal chega à segurança do passeio e procura a referência da parede e depois segue decidido para um café quase junto à esquina, encontram a porta com uma facilidade impressionante e deixo de os ouvir, tic tic tic tic.

Estou tão fascinado que me desligo do condicionalismo reflexivo que me diz para avançar porque o sinal ficou verde e sou empurrado de novo para a realidade por um coro de apitos e faces iradas de pessoas que não tem tempo a perder com um casal de cegos que não vê vermelhos, nem verdes, mas que sabem a diferença de cada tic tic e que até podem ser pai e filha mas que fazem dançar as varetas sem nunca as cruzar. Não consigo conceber poder ver sem os olhos e decido na minha visão romântica de que vejo aquele casal unidos pelo sangue e pelo defeito e pela qualidade na partilha da ausência de luz e que não cruzam as varetas para poder aumentar a amplitude dos sons da sua visão.

Não concebo imaginar sem uma imagem e não sei se sou afortunado ou limitado pela minha visão. Vi dois cegos que imaginei como um pai e uma filha cegos da sua cegueira e avançando de braço dado sem medo de superar os obstáculos que a vida ou o acaso ou o que foi que o destino ou o acidente lhes colocou no caminho porque é preciso avançar para poder chegar a algum lado. Não consigo imaginar uma imagem porque a vejo e não sei se nesta minha limitação não perdi espaço para a minha imaginação. Estou condicionado pelo preconceito de cores que não imagino porque as vejo e que me impõem reacções de avançar ou hesitar ou parar.

A minha cegueira não é física é uma cegueira de ignorância e não tenho com quem a partilhar de braço dado e sinto vontade de falar com aqueles cegos. Queria perceber como ouvem as cores e as cheiram e as sentem com a pele dos dedos. Queria poder apagar todas as cores e imaginá-las de forma diferente, sinto-me egoísta por isso, sinto-me egoísta pela atracção da liberdade da cegueira, sinto-me egoísta porque sinto que aqueles cegos provavelmente dariam tudo para poder ver o que eu vejo e não perceberiam porque quereria eu poder imaginar o que eles não conseguem ver. Fecho os olhos mas a escuridão não me liberta, é apenas escuridão sem nenhuma luz, a imagem do que me rodeia não muda no meu imaginário porque apenas fechei os olhos.

Queria hoje voltar a rebaptizar as cores, imaginar o amarelo do calor do Sol e o azul do som do mar e o verde do cheiro da relva acabada de cortar e o branco do frio da neve e o vermelho da paixão no sentir bater um coração deitado a meu lado na cama. Queria hoje inventar novas cores, a cor do suor, a cor de uma lágrima, a cor de um riso, a cor do amor e a cor do ódio. Queria hoje libertar a minha imaginação de todas as cores que me oprimem e libertar-me desta cegueira que me entra pelos olhos.

Wah - Story of the Blues