;D
ColdPlay – Viva la Vida
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
O Privilégio do Disparate – A caminho do fim do Mundo – Semana 04 – (Não devia ter comido aquela porcaria no fim)
Se há coisa que o nosso povo gosta é de adiar problemas. Porque é que a malta se há-de chatear antes se é inevitável que se vai chatear depois e depois até pode ser que a coisa não corra tão mal quanto parecia que ia correr. Entretanto vai-se vivendo.
Aqui há uns meses quando foi necessário inventar um orçamento para 2011, os nossos sacrossantos governantes anunciaram medidas duras e que havia chegado o tempo de ter que apertar o cinto e aliviar o peso à carteira e cortar no prescindível e redefinir o imprescindível e que haveria reduções de salários e aumento de impostos e que não era possível garantir escândalos e mexericos que distraíssem o povo todos os dias mas que prometiam fazer o que pudessem. Entretanto veio o Natal e penduraram-se bolinhas nas árvores.
Chegámos a 2011 com cautelas, alguns foguetes e muita malta deixou de fumar por uns dias e começou a haver menos transito nas ruas antes do meio do mês. Eu lembro-me que quando comprei o meu primeiro carro, ainda com muito cabelo na cabeça e barba revolucionária, punha sempre quinhentos paus de gasolina e aquilo dava para o que desse e se desse para cada vez menos, paciência, porque o que sobrava na carteira não dava para mais e ainda não haviam cartões de crédito nem empréstimos para comprar bimbys. Mas parece que finalmente a enorme veia ecológica e responsabilidade civil das nossas gasolineiras e até alguma vontade de ter lucro de forma obscena teve o seu resultado na redução da marca de carbono no alcatrão das auto-estradas.
Penso eu que toda a gente sabe que os funcionários públicos recebem antes de toda a gente e se calhar nem toda a gente sabe porquê mas eu sempre achei que era para ajudar o pequeno comercio e os funcionários públicos perceberam pela primeira vez na semana passada o que é que receberam de salário e finalmente perceberam o que o desgoverno do governo implica no governo do seu próprio desgoverno.
Se há coisa que o nosso povo gosta é de adiar problemas e quando estes definitivamente aparecem de os resolver de forma simples e concisa e se lhe cortam dez porcento no salário então passam a trabalhar menos quinze porcento por conta da inflação e do aumento que mereciam e que agora nunca vão ter. Somos um povo que a faz pela calada e que se manifesta de forma silenciosa e eficaz e que faz do zelo a sua arma. Pois que se espere nas filas das repartições e nas filas dos hospitais e que se entupa ainda mais a nossa já tão fluida justiça porque ou há justiça ou comem todos e não seria justo que apenas os que vivem do estado e para o estado tivessem que pagar a crise.
Não quero de forma alguma que esta minha prosa ponha em causa o profissionalismo da nossa gente e cada qual sabe de si e que se calhar só mesmo quando se começar a morrer nos bancos de urgência dos hospitais por excesso de zelo se vai perceber que algo vai mesmo mal neste bananal e que a procissão nem chegou ao adro e que ainda não se percebeu bem o impacto dos aumentos dos impostos e que o sobreendividamento das famílias tanto é sobre por pouco como por muito e que entretanto virá outra vez o natal e a oportunidade de pendurar bolinhas na árvore.
Mas o governo cumpre as suas promessas e se temos os aumentos e as reduções também temos os entreténs com crimes e sexo e violência e relações supostamente pecaminosas que só deviam importar a quem realmente importam e ainda o tal nome da criança que ninguém percebe e que eu não percebo como foi possível registar com tanta regra e burocracia a não ser claro que se explique por ser filha de gente importante para resolver todos os problemas do País ou porque o pessoal das conservatórias tem uma forma engraçada e peculiar de protestar contra a crise.
MLER IFE DADA - Zuvi Zeva Novi
Etiquetas
O privilégio do Disparate
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
O Privilégio do Disparate – A caminho do fim do Mundo – Semana 03 – (Não sei se fiz bem em ter vindo por aqui…)
A pedido de várias famílias, vou falar esta semana de Salazar que como alguns saberão já está morto e enterrado e o mesmo deverá acontecer com o Marquês de Pombal e provavelmente com o Dom Sebastião. Como sou um ignorante curioso fui consultar a wikipedia e descobri que a maior parte dos Portugueses já nasceu depois de Salazar ter morrido e que no caso do Marquês de Pombal e de Dom Sebastião parece-me que nem vale a pena fazer as contas.
Não consigo portanto compreender porque tantos que nunca conviveram nem privaram com tais figuras as invocam constantemente nas horas más e sobretudo naquelas horas de lamento em que o Português é tão fluente e que gosto de apelidar de “O que esta malta e esta merda toda precisava era de um homem como aquele”.
Cronologicamente falando o povo ainda espera que Dom Sebastião regresse numa manhã de nevoeiro e conduza o País à glória e o que eu ainda não percebi é se se espera que o Rei tenha estado num limbo temporal ou congelado num cilindro extraterrestre e regresse fresquinho nos seus 24 anos ou se pelo contrário com a experiência dos seus 457 aninhos. Será que regressa montado no seu cavalo branco ou mais moderno empinado numa daquelas coisas de duas rodas que ainda um dia tenho que experimentar? Eu como sou um gajo desconfiado não me fio num tipo de 24 anos que não tem perfil no facebook e muito menos num geriátrico que não se deverá conseguir mexer sem a ajuda de cordéis e drogas duras, isto já para não falar na questão dos cheiros esquisitos.
Poucos saberão que o Marquês de Pombal também era Sebastião de seu nome ou se calhar era eu o único que não sabia, mas todos sabem que é na sua praça que se festejam coisas importantes como as vitórias nos campeonatos da bola ou do berlinde e as vitórias nas eleições dos partidos ou dos Presidentes ou das coisas e as vitórias no que for que valha a pena festejar até cair de bêbedo e que a rotunda é lixada de se fazer e que obriga a olho atento para evitar bate-chapa e outros mimos. Ora parece que o Marquês gostava de reformas e de que se fizessem coisas e não olhava a meios para atingir os fins e cá para mim os primeiros que o invocam seriam os primeiros a queixar-se depois das dores nos calos.
Deus, Pátria e Família sempre necessariamente por essa ordem para que nunca nos falte Fátima, Fado e Futebol. Eu embora faça parte daquela minoria dos Portugueses que já cá estava quando Salazar ainda cá andava, não posso dizer que vivia aterrorizado pela opressão da PIDE ou pela perspectiva da guerra ou pela ignorância do Povo, eu queria era jogar às caricas e não percebia se éramos um País atrasado algures no cú da Europa ou o melhor sitio do Mundo para levar no toutiço se não nos portássemos bem. Deus nunca me disse nada, a Pátria cada vez menos e da família nem vale a pena falar e sinto que se Salazar cá voltasse eu estava lixado escrito de uma outra forma, porque acima de tudo com mais ou menos cacetada para chegar ao final do mês prezo sobretudo a liberdade de poder falar, de poder escrever estes disparates sem receio de abrir a porta quando ouço tocar à campainha.
Se consigo compreender que assim não vamos lá, não consigo perceber porque é que tanto animal deste rebanho acha que guardado por pastor de samarra pesada e crucifixo ao pescoço e armado com um cajado robusto e cães de dentes afiados, seria mais feliz. Passamos demasiado tempo a olhar para trás e a buscar ensinamentos na história sem percebermos que se calhar somos reféns dessa mesma historia e que o que nos orgulha também nos pode envergonhar e que para colher é preciso semear e que para semear é preciso rasgar primeiro a terra e que água parada tende a cheirar mal e que tanto disparate se pode dizer acerca de tudo que no final todos podemos parecer génios ou tontos.
A minha geração é uma geração entalada em múltiplos sentidos mas sobre isso se me apetecer falo para a semana e se não me apetecer não falo e essa liberdade nenhum morto me pode tirar.
Heróis do mar - Brava dança dos heróis
Etiquetas
O privilégio do Disparate
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
O Privilégio do Disparate – A caminho do fim do Mundo – Semana 02 – (Será que apaguei a luz da casa de banho?)
Conforme prometido vou falar das eleições e do Salazar e do que mais for preciso para encher esta página de baforadas e outros cheiros. Sendo eu uma pessoa muito distraída e cuja principal fonte de informação são as conversas de hora de almoço e de café e de cruzamento no corredor a caminho de ir fazer chichi, quase que me escapava que vai haver ainda este mês eleições para Presidente da República cá na terrinha. É que o povo não fala muito nisso, vá lá saber-se porquê.
Eu confesso que não gosto do Cavaco e não tenho nada contra nem a favor do Alegre e antes de ser acusado de falta de respeito, desde já esclareço que me estou a referir aos personagens e não aos homens ou aos políticos ou aos talvez respeitáveis cidadãos ou aos notáveis membros do nosso sistema governamental e como personagens a sua semelhança coincidente com algo ou tudo isto é apenas realidade na vontade de quem me lê. Não gosto do personagem Cavaco pelas mesmas razões que a maior parte das pessoas que não gostam dele não gostam dele ou seja pela arrogância e pela pose e por ter a certeza de nunca ter dúvidas e pelo tabu dos tabus e pela enervante gestão dos timings e pela forma como come o bolo rei com as migalhas a caírem por todo o lado enquanto tenta meter mais bolo na boca ainda de boca cheia. Haverá quem não goste do Cavaco por razões mais válidas que a minha, mas eu sou um homem simples do povo e não me ralo com as questiúnculas financeiras e hipotéticas trafulhices com bancos falidos ou nacionalizados ou as duas coisas nem com o passado politico brilhante ou desastroso nem com o facto de não me lembrar de nada importante que tenha feito no seu primeiro mandato mas nem que ele nascesse duas vezes me sairia da cabeça aquela imagem do bolo rei.
Eu confesso que Alegre me é indiferente e acho que é por não conseguir compreender poesia, nunca aprendi, eu lido com as palavras de forma linear, uma a seguir à outra e não lhes consigo reconhecer o ritmo ou a música ou a tal dita poesia, palavras são palavras que podem ser sentidas mas tem que me fazer sentido e na poesia eu perco-me muitas vezes com essa falta de sentido e acho mesmo que é por isso que o Alegre me é indiferente, pela falta de sentido. Do ponto de vista particular destas eleições e olhando agora para a coisa como uma competição, acho o que mais falta ao Alegre é um adversário à altura. O povo gosta pouco de se chatear e se mexer e ir votar a favor de algo que já não acredita mas adora ir votar contra algo que ainda acredita e o azar do Alegre é que o povo, mesmo aquele que não gosta do Cavaco, não não gosta o suficiente para se chatear e se mexer em ir votar contra ele, sobretudo porque ainda por cima o Sócrates lixou o Alegre ao dar-lhe o seu apoio e isso é coisa para fazer o povo esquecer qualquer fatia de bolo rei. Completando o raciocínio faz falta a Alegre nestas eleições um adversário do calibre de Soares bem apoiado por Sócrates para que a malta se chateasse e se mexesse e fosse exercer o seu dever e prazer de votar contra, a favor de uma causa nobre.
No final acho que estas eleições não passarão de uma curta metragem com personagens irrelevantes e alguns figurantes que farão dignamente o seu papel e que esses merecem o meu respeito por serem verdadeiros homens de causas, mesmo que perdidas ou até no caso de alguns me parecerem meio alucinados mas eu gosto de gente de causas e melhor ainda se forem meio alucinados e é natural que acabe por dar o meu voto a um deles, mais que não seja para chatear, o que não me orgulha mas também não me causa embaraço. Por fim acho que ao fim de três décadas disto de eleições presidenciais estava mais que na hora de todos percebermos a mecânica da coisa e alterar o período de vigência de 5 para 10 anos o que no mínimo seria uma medida higiénica e ecológica.
Não falei do Salazar mas não faz mal porque era uma promessa em tempo de eleições sem prazo de validade nem penalidades por incumprimento.
Clã - Tira a Teima
Etiquetas
O privilégio do Disparate
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
O Privilégio do Disparate – A caminho do fim do Mundo – Semana 01 – (Não esquecer de meter lenços de papel no bolso)
Parece que o Mundo vai acabar em 2012 e mesmo ainda não sabendo se o Mundo que acaba é o meu ou o teu, o de alguns ou o de todos nós e se isso é realmente uma coisa ruim ou apenas eutanásia e aquela coisa das baratas se safarem ou não, eu acho que isto de ir a caminho do fim do Mundo merece um registo de jornada.
Não tendo nada melhor para falar nestes primeiro dias do final do Mundo, queria falar do “Zé Maria” e da Ensitel e do Salazar e de eleições e de outras coisas importantes que me irei lembrando à medida que for escrevendo. Ora começando pelo Zé Maria, constou-me que voltou a haver outro Big Brother e quando digo constou-me não é de modo algum caganeirice ou mania de que sou melhor que os outros e não vejo essas coisas, mas, na realidade nesta altura da vida não tenho televisão. Também me constou que nesta nova incarnação do Big Brother reinventaram o “Zé Maria” e com tal sucesso que parece que até ganhou o “concurso”.
Para o Português, o “Zé Maria” era o arquétipo daquele que ninguém quer ser mas que todos acham muito bem que alguém seja e que merece por não conseguir ser outra coisa, toda a nossa simpatia e apoio e ajuda na forma de chamadas de valor acrescentado para que deixe de ser aquilo e passe a ser a outra coisa que nós até já gostaríamos de ser. Podia agora fazer a analogia do patinho feio e do cisne mas eu não gosto dos bichos, acho que fazem muita porcaria e prefiro falar antes do complexo do coitadinho.
Debaixo do complexo do coitadinho cabe toda a vontade, voluntariedade ou viscosidade que o nosso povo tem para com causas e o que nós gostamos de causas e de vestir as dores do outro não tem paralelo. Nenhum outro povo tão incapaz de agir em causa própria é tão bom em se aglutinar em causa alheia como o bom povo Português e se para ajudar na capacidade de mobilização para a festa ,o outro, for um pobre coitado ou como quem diz um coitadinho, então saímos lá de trás e levamos tudo pela frente. Por isso não me espanta que se tenha recuperado o coitadinho do “Zé Maria”, transfigurado num outro António qualquer, pastor que já guardou gado e outras bichinhas e se tenha feito repetir a alegre história para ficar a ver se a história triste depois não se repete.
Mudando completamente de assunto ou talvez não e sendo eu um crente que acha que mandar a gaja gira e abonada da recepção lidar com cobradores persistentes é mais eficaz que os assustar com a malta do armazém, temos o tal caso da Ensitel que veio demonstrar que as redes sociais são um meio poderosíssimo de chamar o Povo às causas e de como gerir crises de cabeça no ar e mão no peito pode ser tão desastroso como tentar pedir a uma manada de bois em correria e a deitar baba pela boca para pararem lá com jeitinho. Uma vez mais temos o povo que se inflamou por combustão espontânea em defesa de alguém que poucos realmente conheciam contra os maus que todos pareciam realmente conhecer. Não pondo em causa a legitimidade da causa, acho graça que tantos estivessem dispostos a atear fogo à fogueira que iria consumir a bruxa má do Oeste sem reparar que havia muita gente agarrada àquela pira, mas a malta queria lá saber das centenas que ficariam sem emprego desde que fosse feita justiça. O que vale é que no final lá prevaleceu o bom senso de que persistir na burrice já era asneirice e que a parte ofendida era afinal realmente digna de ser defendida e não queria sangue mas apenas paz..
Com isto tudo já não me sobra espaço para falar do Salazar ou de eleições ou de me lembrar de outras coisas importantes mas fica prometido que o tentarei fazer para a semana isto se o meu mundo ou o vosso no entretanto não decidir acabar.
EZ SPECIAL - Sei Que Sabes Que Sim
Etiquetas
O privilégio do Disparate
sábado, 1 de janeiro de 2011
Na Aurora de um Novo Ano.
“Um dos maiores erros da humanidade é passar tanto tempo em contagens decrescentes…”
Ora cá estamos em 2011, numa nova década e já maduros de vida neste século. Impõem-se neste dia fechar balanços, tomar resoluções e por entre dentadas em uvas encarquilhadas almejar feitos e factos. No que toca a este Blog, não se pode dizer que o ano que se encerrou tenha sido prolifero e sei que tenho estado ausente e antes de mais impõe-se um agradecimento aos que por aqui foram passando e até um pedido de desculpas por essa minha ausência que realmente se acentuou nas últimas semanas. Sem promessas nem ameaças irei ser mais regular e quem quiser por cá continuar a passar será bem vindo e se não for por pérolas de sabedoria ou literárias que seja por graça ou por amizade.
Ora cá estamos no Ano de 2011, que será sem dúvida um Ano difícil, um ano que se inicia com certezas de incerteza e que recomendo se gaste calmamente com a confiança que outros melhores ainda virão. No que me diz respeito e tendo sido 2010 um ano de transição, não me fiz novas promessas nem enviei às estrelas ou outros rebentamentos piscantes, desejos de coisas ou outras loisas, apenas vou procurar ser feliz e quando digo feliz não estou a falar daquela felicidade bacoca de superficialidade de falsas aparências que algumas pessoas acham que têm que continuamente anunciar ao Mundo, não, estou a falar da felicidade que se consegue na realização pessoal e no convívio com amigos e na partilha de pele com amantes.
Neste Ano de 2011 congratulo-me pelos que estão, Bem Hajam!
Desejo a todos que neste novo ciclo, nesta nova contagem nos consigamos melhorar.
The Cure - Lullaby
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
:D
Não deixa de ser hilariante assistir a alguém que está enfiado na merda até aos cabelos pôr-se de boca aberta a tentar cantar a Marselhesa…
Django Reinhardt & Le Quintette du Hot Club de France with Stéphane Grappelli - Echoes of France (La Marseillaise)
Etiquetas
Musicalidades com condimento
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Diário de um louco impoluto – Dia 25
Sinto que os meus dias se transformam com demasiada facilidade em semanas e depois em meses e ainda em anos. Passo demasiado tempo a ver o tempo passar e tenho falta desse tempo que me passa. Por muito que me esforce não consigo fazer parar o relógio, parar a contagem dos números que se sucedem, 1, 2 , 3, 60 e mais 1 e mais 2 e mais e mais. Não me sinto velho por ver o tempo passar mas sinto-me com menos tempo, apenas menos tempo para fazer tudo o que queria ainda fazer.
Tenho inveja daqueles que conseguem transformar o tempo em fatias de oportunidade para fazer o que decidem fazer, tenho inveja dos que não dão tempo à preguiça e ao ócio e à doçura de deixar a água escorrer por entre os dedos enquanto miram as rugas da cara no espelho. Tenho inveja daqueles que organizam a vida em momentos de fazer isto e aquilo e que não cedem à tentação de não fazer ou de fazer outra coisa qualquer. Tenho inveja dos que já fizeram e ainda tem tempo para fazer o que ainda não fiz e que já penso não ter tempo para fazer.
Amanheço com certezas de vontade e adormeço com vontade de certezas e no entretanto vou-me indo sem me ir ainda com a desculpa de que ainda há-de haver tempo para tudo e o tempo matreiro deixa-se escorregar devagarinho como uma sombra que desliza num lago pardacento ou como um fio de areia tão ínfimo que me parece apenas o dourado de um cabelo suspenso numa ampola. Já não espero que o tempo me perdoe, tenho consciência e dor da falta que ele me faz e da forma como o maltratei com a minha manha de não querer, de não me apetecer, de não saber como lhe pegar.
Eu às vezes sinto que a minha preguiça é mórbida, como um vicio que me enrola num torpor e é só mais um bocadinho que já lá vou e é só mais um bocadinho que já faço e é só mais um bocadinho que já começo e é só mais um bocadinho que já acabo e depois de repente já não há tempo para ir ou para fazer ou para começar ou para acabar, não há tempo paciência, mas soube tão bem não ir e não fazer e não ter que acabar o que não comecei e amanhã haverá outra vez tempo.
Que não me falte o tempo de não ter tempo para ter tempo de voltar a ter tempo outra vez e porque o tempo me estica e me encolhe nos maus e bons momentos e parece-me enorme enquanto me custa e ínfimo enquanto me agrada e a mim agrada-me a preguiça e custa-me a obrigação e sempre amanheço com certezas e adormeço com vontades e no entretanto escoou-se mais um fio e esgueirou-se mais uma sombra e o dourado vai ficando mais grisalho e o lago mais escuro porque o tempo teima em me querer cobrar a sua taxa que afinal pago em tempo com tempo.
Gostava que hoje fosse ainda ontem. Gostava que este frio Outonal fosse ainda uma brisa fresca de Verão. Gostava de voltar a ter aquele tempo que perdi por aqui e por ali e que perdi sem saber porquê, apenas porque sim. O tempo não espera por nós ou aprendemos a caminhar ao seu lado ou a correr atrás dele. Falta-me sobretudo tempo para transformar em palavras os meus dias que se vão passando em semanas e depois em meses e ainda em anos e mais que esse tempo que passou faltam-me as palavras que não ficaram, aquelas que deixei por escrever e as outras que perdi na memória da erosão do amanhecer. Não lamento o tempo que não tive, lamento o tempo que não fui capaz de ter e peço perdão às palavras que deixei perder, peço perdão por não lhes ter dado tempo, faltam palavras às minhas rugas, faltam palavras às minhas dores, faltam palavras aos meus júbilos, faltam palavras ao meu tempo.
Edith Piaf - Non, Je ne Regrette Rien
Etiquetas
Diário de um louco impoluto
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Aos poucos…
…As peças vão-se encaixando e é engraçado que muitas vezes quando se colam cacos nos sobram coisas que não nos fazem falta nenhuma…
Não que me tire qualquer prazer disso mas já dizia o La Fontaine rescrevendo Esopo que às vezes quem muito canta no Verão chora no Outono…
Hoje ensaio coisas por aqui »».««
Banda do Casaco - Natação Obrigatória
Etiquetas
Prisão de Palavras
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [11] – O ter que ser Português
Não sou especialista nem em economia nem politica, aliás, bem vistas as coisas tenho uma daquelas profissões chatas em que não somos especialistas em coisa nenhuma e quando parece que sabemos um bocadinho mais de qualquer coisa a coisa torna-se irrelevante. Embora não sendo especialista, sempre vou ouvindo aqui e ali que isto está muito mal e que somos um povo à beira do abismo a quem os governantes e orientadores diz que a única saída é apertar o cinto e seguir em frente. Sei que a piada é velha mas não encontro melhor alegoria que esta e até percebo que estando à beira do abismo tudo se resolva com um salto de fé desde que a altura me garanta que não haverá contas de hospital para pagar e que quem vier atrás pelo menos consiga arranjar um buraco para me enterrar porque eu não gostaria de ficar por aí a cheirar mal.
Na realidade não percebo nada de politica nem de economia nem de sociologia o que a bem dizer me habilita como bom Português a poder opinar sobre qualquer assunto em conversas de corredor, vizinhanças de máquinas de café e balneários sem ter receios de dizer asneiras. Por isso na minha humilde opinião sempre vos digo que acho que o Português se deixa cozer bem em lume brando e que não será por acaso que somos os inventores do banho Maria que como toda a gente sabe é a melhor forma de aquecer o arroz sem o esturricar ou o deixar agarrar à panela. É por isso que os nossos pastores nos conseguem tão facilmente levar a qualquer lado e a malta embora resmungando e com alguns arrebites esporádicos lá vai arrastando os pés e agora espanta-se por já não haver mais caminho em frente.
Outra das nossas características tão invejada pelos povos daqueles países mais sérios da Europa central é a nossa capacidade de sermos parvos com um enorme sentido de humor e ontem depois de ver os mineiros Chilenos saírem do buraco não faltou comediante nacional que não alvitrasse que o método se calhar com jeitinho podia ser ampliável de 33 indivíduos a 10 milhões de artolas e que qualquer dos mineiros daria um bom consultor de ministro em Portugal. Enfim dá para sorrir e a malta gosta mesmo é de rir e não sei se já repararam que é fácil encontrar na cara dos nossos idosos aquelas rugas que se abrem do nariz aos lábios, sinais do tempo e de tempos de muita galhofa.
Depois há aquela lei dos “F’s” que diz que ao Português para estar entretido e não chatear muito basta ter com fartura coisas começadas por “F” e claro que aqui virão os tais brincalhões danados para a brincadeira falar de Foder ou ser Fodido, mas não, eu estava mesmo era a pensar em Futebóis e Fátima e Folhetins que a moda do Fado já passou e dirão os teóricos conspirativos que não é por acaso que agora com a grande crise instalada e o anuncio do orçamento para 2011 se reinventou o “grande irmão” ou que a selecção se deixou atrasar para depois se contratar um salvador com tranquilidade e risco ao meio ou que ontem foi dia 13 aqui e na Cova da Iria…
Talking Heads - Once In A Lifetime
Etiquetas
O privilégio do Disparate
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Diário de um louco impoluto – Dia 24
Sinto que há demasiado tempo não me transcrevo neste diário. Sinto falta da catarse de deixar as palavras reflectirem o meu sentir, deixar os verbos desmascararem a minha raiva, deixar as virgulas assinalarem as minhas dúvidas, deixar-me escorrer por entre o que escrevo.
Sinto que há demasiado tempo ando a adiar o amanhã e a continuar a lamentar o ontem enquanto hoje ainda me perco e se calhar por isso ou por outra razão qualquer estou a caminhar por entre árvores espaçadas e terra batida. O dia está solarengo e a pedir uma sombra e procuro-a sobre um banco de madeira maltratada pelos anos e por muitos que o usaram para muitas coisas. Os veios estão abertos como gretas e cruzados aqui e ali por riscos incertos de pontas arrastadas de navalhas e bicos de pregos, reconheço esboços de corações atravessados por setas e promessas de amor eterno. Gosto do árido das tábuas e verifico que a ferrugem cristalizou nas ferragens e não me suja as mãos.
Sinto que há demasiado tempo não me preocupo com o que sinto ou que sinto que devia de me preocupar com o que não sinto e acabo por encolher os ombros e deixar acabar mais um dia com a certeza que amanhã virá outro e que há sempre tempo para tudo desde que o queiramos verdadeiramente mas eu sei que o tempo tem os dias contados e bem contados. Admiro o banco onde estou sentado e a capacidade que teve de envelhecer desempenhando o seu papel. Admiro ou talvez inveje o que já testemunhou e a sorte de ser um objecto inerte livre de sentir colocado num local onde o vento sopra e a chuva cai e o Sol brilha ou se esconde atrás das nuvens e onde se cheira a relva e as folhas caem e de ser útil sem questionar a razão de o ser ou querer ainda ser mais que apenas útil.
Sinto que há demasiado tempo ainda para me sentar neste banco mas que é demasiadamente pouco para o que quero que me falte e entre o que me falta e o tempo que me resta há uma disputa e eu estou sentado neste banco a assistir sem querer tomar partido. Vejo lá em baixo uma velha dar de comer aos pombos. Penso que já uma vez escrevi que não gosto de pombos. Não reconheço utilidade aos pombos e acho que a única coisa que os pombos fazem é comer e cagar e entre as duas foder e reproduzir-se como ratos. Costumo dizer que os pombos são como ratos com asas e se acreditasse em Deus nas minhas preces perguntaria: Diz-me Deus porque criaste os pombos? Acho que se acreditasse em Deus e lhe fizesse esta pergunta iria ter uma resposta, posso ter dúvidas na existência de Deus mas não tenho nenhuma dúvida que se perguntasse para que é que servem a merda dos pombos ele me diria e de forma a que eu iria perceber e entender. Se calhar aquela velha que está a dar de comer aos pombos, acredita em Deus e um dia perguntou-lhe e agora que já sabe para que é que servem a merda dos pombos, passa todos os dias por aqui com pão que esfarela para os alimentar para que possam comer e cagar e entre as duas foder e ainda cumprir o desígnio de Deus.
Sinto que há demasiado tempo que estou aqui sentado neste banco a ver uma velha a cumprir os desígnios de Deus e pergunto-me se quando ela se dirigiu a Deus e lhe perguntou para que é que serviam os pombos se não estaria aqui sentada neste mesmo banco e se não estou a perder a oportunidade de também eu encontrar a minha resposta. Parece-me fácil acreditar, mais fácil que continuar a duvidar que não há razões para a existência dos pombos e que os problemas existencialistas dos homens se podem resolver percebendo que há sempre uma razão para além de comer, cagar e entretanto foder, basta acreditar.
Jethro Tull - Too Old To Rocknroll Too Young To Die
Etiquetas
Diário de um louco impoluto
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
O Privilégio do Disparate – (IN)Mundanismos [10] – O poder de ter poder
Parece que já não vale muito a pena falar das vuvuzelas por isso vou continuar a falar no Facebook e não me venham dizer que fiquei viciado na coisa porque é mentira, só lá vou sempre que posso e os rumores de que me levanto a meio da noite para fumar um cigarro e ver se tenho comentários são calunias, eu só não deixo de fumar porque não quero, tiro prazer da coisa e tenho uma certeza inabalável de que não irei morrer disso. Tenho que confessar que antes de ter entrado neste admirável mundo de amizades, convívio e galhofa e quiçá fruto da minha ingenuidade e juventude, pensava que o Facebook não era mais que uma espécie de clube tuperware para troca de mimos sobre futilidades e claro havia apenas o tal famoso farmville que entretinha a malta.
Quando me comecei a amigalhar, palavra que ao contrário de mudasti merece entrar no léxico nacional, primeiro porque faz sentido e é fácil de conjugar, eu amigalho-me, tu amigalhas-te, ele amigalha-se, nós amigalhamo-nos, vós amigalhai-vos, eles amigalham-se e por aí fora e segundo porque não faz publicidade a nenhuma beberragem açucarada de utilidade duvidosa, logo percebi que o Facebook era muito mais do que eu podia imaginar ou sonhar. De repente o meu espaço começou a ser invadido por ofertas de pedidos ou pedidos de ofertas de coisas fantásticas, assombrosas, mirabolantes plenas de graça imaginação e fantasia. Havia Ilhas e fronteiras e gangsters e máfias e parques de diversão e bolinhas de sabão e abraços e beijinhos e flores e questionários de tudo e algo mais e o primeiro conselho que me deram quando me olharam no olhos e me viram em pânico a tremer a olhar para aquilo tudo foi: Elimina.
E aprendi aos poucos a eliminar. Sempre que me aparecia algo estranho, pimbas eliminava e já não me aparecia mais. Esta capacidade que o Facebook nos oferece de eliminar o que nos desagrada é o que mais me agrada no sistema porque não se fica apenas pelas jigajogas e traquitanas, mas pode ser estendido a pessoas. Sim perceberam bem o Facebook permite ao comum dos mortais eliminar pessoas e tanto quanto sei continuando a passar pela casa partida sem ter que ir parar à prisão.
Por isso meus amigos façam como eu, se sabem daquela pessoa chata cuja infelicidade vos bateu à porta no dia em que a conheceram e que teima em vos lembrar que ainda mexe e que mantém intacto o talento de debitar disparates mais rapidamente que a vossa vontade de verem se têm comentários novos ou que insiste em divulgar testes que atestam a sua imbecilidade ou que dizem que ela é o supra sumo da batata ou que explicam que grande amante ou beijoqueira se tornou quando vocês até sabem que o xarroco de olhos esbugalhados esquecido há dias na banca da peixeira e que a ASAE se o apanha leva para parte incerta, beija infinitamente melhor, eliminem.
Eliminar no Facebook é gratuito, a pessoa eliminada desaparece, nunca mais a vêm e ainda tem a vantagem de que ela também não vos consegue ver. Do ponto de vista virtual é quase tão bom como voltar atrás no tempo e nunca ter saído de casa naquele dia fatídico…
Durutti Column-The missing boy
Etiquetas
O privilégio do Disparate
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Recado
O pior Sentimento que alguém pode inspirar nos outros com as atitudes que toma é pena.
Cada vez há mais pessoas a ter pena de ti. A seguir virá o desprezo!
Bee Gees - Tragedy
Subscrever:
Mensagens (Atom)