terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O Principio da Incerteza.

Segundo Heisenberg e em linguagem de leigos, as leis da física impedem-nos de medir com precisão o estado de uma partícula, porque o simples acto da medida interfere e altera com esse mesmo estado.

Portando este principio, pode-se assumir que a incerteza é um dos factos incontornáveis para o funcionamento da vida. A certeza da incerteza limita-nos na ambição do saber e precisar o estado quântico da nossa importância e influencia naqueles com quem interagimos. Medir o efeito de uma lágrima, de um afecto ou acto meigo é tão impossível como quantificar o resultado de uma raiva, do grito dado num parque pejado de aves amansadas pela necessidade da fome e do ignorar a quem apenas nos estende a mão a pedir ajuda.

A humanidade e as partículas simples que a compõem, têm assim o refugio da ignorância como desculpa comportamental, somos apenas bichos civilizados, condicionados por leis que nos ultrapassam, limitados no calculo da consequência e assim libertos da responsabilidade do fazer.
Tivemos pois, que inventar códigos de moral, leis de funcionamento em grupo, éticas e deontologias, como forma de nos auto limitar, procurar na segurança da regra a alternativa ao principio da incerteza de um ínfimo sorriso.


The The-Uncertain Smile

Pequenino sou no talento, insignificante na capacidade expressão, humildemente cito José Régio e o seu Cântigo Negro e de cabeça baixa me fico por aqui.

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



Maria Bethânia-Cântigo Negro de José Régio

3 comentários:

Who Am I disse...

Usava imensas vezes esta frase "Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!", mas depois achei que era apenas uma revelia pouco profícua.

(ena, até pareço um dicionário)
ahahahhah

Ana Teresa disse...

Desculpa, hoje apeteceu-me andar por aqui...
Tão curioso teres escrito sobre isto.
Sobre o "Princípio da Incerteza, sempre lhe dei um espaço para uma interpretação criativa... Eu sei que é arbitrário, mas numa adaptação livre e saindo do hermético, digo que num determinado momento temos um Objecto que é protagonista.

Todo o universo e agentes de influência e estimulação levitam e interagem com Ele como único actor de palco. Acontece porém, que na obscuridade, essas manifestações colhem, inúmeras subversões, actividades paralelas e vidas próprias que, de algum modo, por acção directa ou indirecta, o destituíram num momento para que um outro ocupe o seu lugar. E é nesta sucessão de actividade que se gera a mudança , acção e obviamente a incógnita de qual será a preponderante nas muitas frentes de manifestação que nos enchem a vida - sobre-estimulados, sim. Vivemos a sentir muito, querer sentir menos, reclamar cegar de tanto sentir, exigir sentir mais. E então penso, o livre arbítrio conduz-nos onde podemos ficar. A toda a hora escolhemos ou somos escolhidos somos o actor ou o provocador que toma o seu lugar. Cansa, uma estafa associada a ruídos, bruás e dilemas. Um Desgaste, sem dúvida, toda a dinâmica causa dispêndio, mas é ela enfim que nos permite viver universos em forma de uma nano molécula que sorri.

Foi onírico longo e chato eu sei, desculpa-me o exercício prolixo....

LBJ disse...

Ana,

Desculpa mas fizeste-me sorrir com o teu exercício que está perfeito :)

Sabes que sempre achei que este tema merecia um melhor texto e um dia destes vou revisitá-lo :)

Obrigado :)

Beijos