domingo, 5 de abril de 2009

A Bela ou o Monstro?



Retorno aos filmes da Disney, com as suas mensagens ocultas, escolhendo hoje um dos mais óbvios crimes cinematográficos contra a emancipação das Mulheres , a Bela e o Monstro. Neste filme os autores revelam o seu desdém por elas, retratando as suas fobias e facetas psicóticas, dualidades de carácter e os seus monstros interiores.

No Inicio, temos a Bela, moçoila jeitosa e ambicionada pelos jovens da aldeia e a quem o melhor partido da região, o topo da lista dos solteiros mais desejados decide fazer a corte.
Num mundo normal que não o doentio dos animadores, a Bela aceitaria de imediato a proposta, teriam um curto noivado e um casamento de 1223 convidados, três filhos e embora casada com um burgesso fingiria felicidade para sempre. Aqui é retratada como uma gaja fútil e caprichosa que despreza o rapaz. Não contente decide fugir e perde-se numa floresta, que não é mais que uma imagem surreal do labirinto mental e atormentado da jovem.

Desvairada refugia-se num castelo, uma vez mais uma alegoria e o retrato pícaro da concha onde se fechou e é ai que todas as suas psicoses e traumas são demonstradas, com diálogos alucinados com chaleiras falantes, peças de mobiliário clássico saltitantes e archotes cantando com sotaque francês, encenações dignas de um Shining moderno com actores de papel.

No final a cena mais marcante com a Bela assumindo o seu Monstro de Mulher inconformada, dançando e beijando-o , enquanto o povo em desespero a tenta ajudar a derrotar a fera. A mulher reduzida a um ser narcisista acaba por transformar o seu desejo em corpo de homem idealizado manifestando o desprezo pela realidade da vida e a aceitação dos machos como parte dominante de uma relação saudável à luz do que é decente e aprovado pela santidade do matrimónio.
Tom Waits and Crystal Gayle-One From The Heart

22 comentários:

Bruno Fehr disse...

Ahahahaha excelente análise. É normal as mulheres irem baixando o seu nível de exigência consoante o tempo que passa... o homem por seu lado aumenta, quer sempre trocar uma mulher de 60 por duas de 30.

forteifeio disse...

Gostei imenso do texto com muitas linhas e entrelinhas dignas de muitissimas páginas de análise.

Ana GG disse...

Não considero que a mulher, com a idade, baixe o seu nível de exigência, pelo contário. O grau de exigência da mulher aumenta com a experiência, o aspecto físico do "parceiro" é que deixa de assumir tanta importância e são valorizados outros aspectos muito mais importantes (e difíceis de encontrar).

Quanto ao filme...podemos interpretá-lo também sob uma forma mais simplista e cor-de-rosa...a beleza não é exterior, nem um factor condicionante para amar.

IRRA que vocês gostam de complicar!

LBJ disse...

Bruno,

Penso que o que se passa com as Mulheres é que têm uma maior capacidade de resistência a situações de desconforto e de relacionamento do que os Homens, caso outros valores que considerem mais validos o justifiquem. Muitas vezes isso pode ser confundido com o baixar do nível de exigência.

Quanto a trocar uma de 60 por duas de 30 isso só com muitos “Blue Pils” que como vimos no Matrix é a escolha do sonho:)

LBJ disse...

Fortifeio,

Fico satisfeito que tenhas gostado:)

mf disse...

Tenho andado a pensar neste post e hoje encontrei um precisamente sobre histórias de encantar e o mal que fazem às criancinhas (http://o-destilado.blogspot.com/2009/04/coisas-do-incrivel.html).

As histórias de encantar transportam-nos para a nossa sociedade, onde a emancipação da mulher e a aceitação dos machos como parte integrante e igualitária de uma relação saudável são coisas de que se fala, mas que, na cabeça de muitos, ainda não existem. Digo muitos porque há mulheres e homens a perpetuar os preconceitos.

Quanto ao baixar de exigência... Ou é, como dizes, a capacidade de resistência (masoquismo, em alguns casos) ou então é simplesmente a perda completa de auto-estima. Há por aí muitos sapos (e sapas) que nunca chegarão a príncipes (ou a princesas)...

LBJ disse...

Ana,

Também concordo que com a “experiência” as Mulheres valorizam outros factores que não o aspecto físico, como já referi penso que as Mulheres têm uma maior capacidade de serem práticas, não entendas mal estas minhas palavras.

A leitura romântica do filme é a mais obvia, em que a verdadeira beleza é a interior, com este texto apenas procurei apresentar uma interpretação mais tenebrosa. Sem querer alimentar teorias da conspiração, sabes que os estúdios Disney não primam como candidatos à canonização. O conceito da dualidade do “normal/belo” e do monstro já vêm do Robert Louis Stevenson e não estamos a falar de uma obra romântica. De qualquer dos modos deixo claro no texto o meu total respeito pelo direito de escolha, nem sequer me vou arriscar a dizer-te que é o direito da Mulher mas sim do ser humano, ponto.

Em relação a sermos complicados, permite-me citar um grande escritor machista que disse “A vida é demasiado importante para ser levada a sério”, deixa lá o Irra:)

Pronúncia disse...

Não vi o filme e conheço mal a estória, pelo que o meu comentário vale pelo que aqui li.

Retive esta frase: "Num mundo normal que não o doentio dos animadores, a Bela aceitaria de imediato a proposta, teriam um curto noivado e um casamento de 1223 convidados, três filhos e embora casada com um burgesso fingiria felicidade para sempre".

Porque é que "num mundo normal" a Bela aceitaria de imediato a proposta?

Sabes, hoje em dia há muitas mulheres para quem o homem, o casamento e os filhos não são a prioridade da vida! O homem ainda vai tendo uma importância bastante grande na vida de qualquer mulher (e ainda bem), mas o casamento e os filhos já é outra estória completamente diferente...

E pelo que aqui li nos comentários, deduzi que para vocês homens quando falam em "nível de exigência" estão apenas a considerar o aspecto físico. Correcto?!

Apesar de bastante importante, porque o é, a exigência para mim é muito mais do que isso, a não ser que o único objectivo seja mostrar o "belo objecto" que nós temos em casa.

Uma pessoa é um conjunto de exterior e interior. E é por este conjunto que eu faço as minhas exigências. Mas eu sou eu, e cada um lá saberá quais os padrões que escolhe! :)

LBJ disse...

Hedgie,

Excelente post o que indicaste:)

Haverá sempre homens e mulheres a perpetuar os preconceitos, o ridículo é que rapidamente atingirás um equilíbrio de responsáveis entre os dois sexos.

Masoquismo e perca de auto-estima, sem duvida e como dizia o outro eu sei do que estou a falar…

Uma pergunta para a tua analogia batráquida, será que a incapacidade da transformação do dito em príncipe (ou princesa) é sempre responsabilidade do bicho ou poderá ser por vezes da má qualidade do beijo?

LBJ disse...

Pronúncia,

“Porque é que "num mundo normal" a Bela aceitaria de imediato a proposta?”
Claro que percebeste que estava a ser irónico.

Penso que a questão principal e aquela onde sempre nos iremos refugiar é o conceito que cada um de nós têm de beleza. Todos buscamos o belo, todos temos (in)capacidades distintas de o identificar e/ou estabelecer os seus próprios padrões nessa busca:)

Ana GG disse...

O "IRRA" foi apenas um reforço. Entendi perfeitamente o que querias transmitir e não te tiro a razão de todo...mas...há sempre um mas...

Não levo a vida assim tãoooooo a sério (credo, será que deixei transparecer isso).
;)

P.S. Acho que só a Pronúncia me compreende.
Pronúncia, amiga, as Mulheres estão contigo!
(não rima mas é verdade)

LBJ disse...

Ana,

De forma alguma achei que levavas a vida tão a sério:)

Isso das Mulheres terem essa capacidade de cerrarem fileiras é algo espantoso, tenho cá uma inveja:)

Uma achega e uma vez que se falou do conceito do belo, já alguém se deu ao trabalho de ouvir com atenção a musica do post? Quem consegue ser mais belo?

Ana GG disse...

Bem observado. Depois de ler o texto convenci-me que se tratava de um vídeo do filme :)

A música é divinal! Mais belo? Hummmm...a voz do Tom Waits sem dúvida!

mf disse...

Eu sei que tu sabes que eu sei... Parece que ambos sabemos do que estamos a falar, então...

Quanto à analogia... Boa pergunta...
Eu acho que às vezes é culpa do sapo. E às vezes é culpa do beijo que escolhem.

Eu diria que há sapos que são mesmo sapos. Independentemente do beijo, bom ou mau, nada os transforma em príncipes. Porque não querem (às vezes é só uma questão de vontade) ou porque não percebem que o podem ser. Nada a fazer, neste caso.

Depois há aqueles que, pela má qualidade do beijo, nunca deixam de ser sapos, mesmo quando querem. Porque são atraídos por beijos de qualidade duvidosa. Têm duas saídas: ou percebem que há beijos bons e que esses, ainda que raros, existem e partem em busca deles; ou deixam-se andar, cansados e lamentando-se da sua vida de sapos, e nada fazem para mudar.

Por fim, há aqueles que se vêem sapos quando se olham ao espelho (às vezes já foram príncipes e acharam que estavam enganados)... Mas de repente surge quem vê neles o príncipe escondido por trás do vidro. E o beijo parte-o e ajuda-os a ver aquilo que sempre foram... :)

mf disse...

Ah! E eu ouvi a canção. E fui atrás da letra! Muito bonita. Eu diria que é uma bela imagem da ternura que o amor tem...
Não, não há nada mais belo...

LBJ disse...

Ana,

Pois lá se foi o conceito da Bela e do Monstro… O Post de amanhã falará mais do filme de onde este musica faz parte.

LBJ disse...

Hedgie,

Então a culpa é sempre do sapinho? Um beijinho na testa e se nada acontecer a culpa é sempre do sapinho :(

Se não conhecias a musica, sempre te digo que esta banda sonora é talvez a mais bela que já foi feita para um filme:)

Princesa (des)encantada disse...

Já que fui citada (obrigada mf), e já que gostaste do meu post (obrigada LBJ), aqui fica a minha achega. O teu post, tal como diz o forteifeio, prestava-se a uma disertação digna de mestrado... Mas centro-me na discussão dos sapos e dos beijos, que é a minha triste especialidade, na qualidade de Princesa (des)encantada.

A grande questão aqui é que as Princesas em geral crescem na fantasia de que o seu beijo é mágico e que há necessariamente um Princípe escondido no sapo que decidem beijar. O “beijo” aqui é a entrega, o amor. Ou seja, as Princesas acreditam que o seu amor chega. Convenhamos que beijar um sapo, um bicho repugnante, é de uma generosidade extraordinária. E, de facto, entregarmo-nos a alguém, amar alguém, é um acto de grande generosidade e, em última análise, um acto de fé. Damo-nos por completo e acreditamos que o outro nos ama de volta, se entrega também. O busílis é que, muitas vezes, escolhemos os sapos errados, e é enfrentar essa desilusão de não reciprocidade, de engano, que é tremendo. Não tem nada a ver com a qualidade do beijo, da Princesa ou sequer do sapo. É apenas o sapo errado para aquela Princesa.

Não se “escolhe” amar alguém. Ama-se e pronto. E às vezes o outro não nos ama. É tramado lidar com isto, mas assim é a vida, muito diferente dos contos de encantar com que enganam as criancinhas que, como digo no meu post, “crescem a acreditar e morrem a beijar... sapos.”. E depois o pior é que há sapos que nunca serão os nossos Príncipes, sabem disso, mas gostam dos beijos e ali nos vão mantendo no engano. E esses, provavelmente, serão sempre sapos por mais Princesas que andem a enganar pelos beijos. Também há outros que são genuínos e recusam os beijos que sabem que não merecem, mas isso é raro e tão ou mais doloroso de enfrentar do que os enganos.

Acho que a beleza é condicionante do amor, apenas não a beleza física, e acho que é mais fácil para as mulheres dissociarem-se do físico e ver mais além, mais depressa, do que para os homens (idependentemente da idade). Concordo inteiramente com a Prunúncia – uma pessoa é mais do que um corpo. Para mim, amar alguém é encantarmo-nos, e enchermo-nos, da beleza que vemos no conjunto, no todo que é o outro, e sentir que esse outro, mesmo que pareça um sapo, merece a nossa entrega total, merece ter de nós tudo o que somos, acreditar que o amor chega mesmo.

Finalmente, a mf diz uma coisa linda que para mim se traduz no que também acredito que o amor é capaz de fazer: libertar-nos. De uma poetisa fabulosa (Maya Angelou), apenas estes versos de um poema lindo:

“(…) We are weaned from our timidity
In the flush of love’s light
We dare be brave
And suddenly we see
That love costs us all we are and will ever be
Yet it is only love which sets us free”

E sim, tens razão, a música é linda.

Marisa disse...

Fiquei com a cabeça a andar à roda com esta interpretação, uff! Nunca vás ver as Winx ou cortas os pulsos (por sorte não levei nenhum objecto cortante para a sala de cinema, só o meu amor de mãe!)

LBJ disse...

Princesa,

Vamos estabelecer uma base de entendimento para o raciocínio, assumo o meu papel de sapo em contraponto com as meninas que são Princesas:)

Antes de mais bem vinda. Dissertação digna de mestrado, deixa-me sem jeito na minha simplicidade de bicho esverdeado, habituado a um cantinho lamacento, é muita bondade da tua parte:)

Grande generosidade na disponibilidade para beijar um sapo, sem duvida! Quando me referia à má qualidade do beijo, não implicava a má qualidade da Princesa, apenas de que para aquele sapo poderia ser a Princesa errada. Ora tu colocas a questão exactamente no pólo oposto, se a Princesa têm Paixão (prefiro em contraponto ao amor) por aquele sapo e se entrega de corpo e alma ao beijo, ele têm que bastar para o transformar, se não resultar o erro têm que ser do sapo.

Depois e mais uma vez tens razão, o sapo no seu desconforto dificilmente recusa a perspectiva do beijo, mas também como referiste nem temos saída, porque a recusa não vai deixar a Princesa mais segura da sua realeza.

Penso que deixei claro que a beleza é um conceito que tendo preconceito é consequência da capacidade de ver e não de olhar. O olhar com Paixão aclara e completa a imagem do que olhamos.

A Paixão tanto nos liberta como prende e é essa a sua maior virtude.

LBJ disse...

Marisa,

Bem vinda:)

Este post faz parte de uma série a que chamei de “contos de Incontar”, se este te arrepiou não leias o anterior sobre a “Branca de Neve”:)

A ideia é dar outra roupagem aos contos, assim a modos como versões Punk de obras de musica clássica e escolhi a Disney porque estão a jeito:)

Neste caso e porque se adequava, aproveitei para lançar algumas pistas sobre preconceitos.

mf disse...

Não foi isso que eu quis dizer... :(
Pelo contrário, há muitos sapinhos que são enormes vítimas de beijos envenenados. Tão envenenados que eles perdem a capacidade de se transmutarem nos príncipes que são... É o caso dos últimos. Esses não têm culpa... Falta-lhes é muitas vezes alguém que lhes dê muitos beijos-colo para perceberem que também os há assim e que o veneno pode ser extirpado...