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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 25


Sinto que os meus dias se transformam com demasiada facilidade em semanas e depois em meses e ainda em anos. Passo demasiado tempo a ver o tempo passar e tenho falta desse tempo que me passa. Por muito que me esforce não consigo fazer parar o relógio, parar a contagem dos números que se sucedem, 1, 2 , 3, 60 e mais 1 e mais 2 e mais e mais. Não me sinto velho por ver o tempo passar mas sinto-me com menos tempo, apenas menos tempo para fazer tudo o que queria ainda fazer.

Tenho inveja daqueles que conseguem transformar o tempo em fatias de oportunidade para fazer o que decidem fazer, tenho inveja dos que não dão tempo à preguiça e ao ócio e à doçura de deixar a água escorrer por entre os dedos enquanto miram as rugas da cara no espelho. Tenho inveja daqueles que organizam a vida em momentos de fazer isto e aquilo e que não cedem à tentação de não fazer ou de fazer outra coisa qualquer. Tenho inveja dos que já fizeram e ainda tem tempo para fazer o que ainda não fiz e que já penso não ter tempo para fazer.

Amanheço com certezas de vontade e adormeço com vontade de certezas e no entretanto vou-me indo sem me ir ainda com a desculpa de que ainda há-de haver tempo para tudo e o tempo matreiro deixa-se escorregar devagarinho como uma sombra que desliza num lago pardacento ou como um fio de areia tão ínfimo que me parece apenas o dourado de um cabelo suspenso numa ampola. Já não espero que o tempo me perdoe, tenho consciência e dor da falta que ele me faz e da forma como o maltratei com a minha manha de não querer, de não me apetecer, de não saber como lhe pegar.

Eu às vezes sinto que a minha preguiça é mórbida, como um vicio que me enrola num torpor e é só mais um bocadinho que já lá vou e é só mais um bocadinho que já faço e é só mais um bocadinho que já começo e é só mais um bocadinho que já acabo e depois de repente já não há tempo para ir ou para fazer ou para começar ou para acabar, não há tempo paciência, mas soube tão bem não ir e não fazer e não ter que acabar o que não comecei e amanhã haverá outra vez tempo.

Que não me falte o tempo de não ter tempo para ter tempo de voltar a ter tempo outra vez e porque o tempo me estica e me encolhe nos maus e bons momentos e parece-me enorme enquanto me custa e ínfimo enquanto me agrada e a mim agrada-me a preguiça e custa-me a obrigação e sempre amanheço com certezas e adormeço com vontades e no entretanto escoou-se mais um fio e esgueirou-se mais uma sombra e o dourado vai ficando mais grisalho e o lago mais escuro porque o tempo teima em me querer cobrar a sua taxa que afinal pago em tempo com tempo.

Gostava que hoje fosse ainda ontem. Gostava que este frio Outonal fosse ainda uma brisa fresca de Verão. Gostava de voltar a ter aquele tempo que perdi por aqui e por ali e que perdi sem saber porquê, apenas porque sim. O tempo não espera por nós ou aprendemos a caminhar ao seu lado ou a correr atrás dele. Falta-me sobretudo tempo para transformar em palavras os meus dias que se vão passando em semanas e depois em meses e ainda em anos e mais que esse tempo que passou faltam-me as palavras que não ficaram, aquelas que deixei por escrever e as outras que perdi na memória da erosão do amanhecer. Não lamento o tempo que não tive, lamento o tempo que não fui capaz de ter e peço perdão às palavras que deixei perder, peço perdão por não lhes ter dado tempo, faltam palavras às minhas rugas, faltam palavras às minhas dores, faltam palavras aos meus júbilos, faltam palavras ao meu tempo.


Edith Piaf - Non, Je ne Regrette Rien

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 24


Sinto que há demasiado tempo não me transcrevo neste diário. Sinto falta da catarse de deixar as palavras reflectirem o meu sentir, deixar os verbos desmascararem a minha raiva, deixar as virgulas assinalarem as minhas dúvidas, deixar-me escorrer por entre o que escrevo.

Sinto que há demasiado tempo ando a adiar o amanhã e a continuar a lamentar o ontem enquanto hoje ainda me perco e se calhar por isso ou por outra razão qualquer estou a caminhar por entre árvores espaçadas e terra batida. O dia está solarengo e a pedir uma sombra e procuro-a sobre um banco de madeira maltratada pelos anos e por muitos que o usaram para muitas coisas. Os veios estão abertos como gretas e cruzados aqui e ali por riscos incertos de pontas arrastadas de navalhas e bicos de pregos, reconheço esboços de corações atravessados por setas e promessas de amor eterno. Gosto do árido das tábuas e verifico que a ferrugem cristalizou nas ferragens e não me suja as mãos.

Sinto que há demasiado tempo não me preocupo com o que sinto ou que sinto que devia de me preocupar com o que não sinto e acabo por encolher os ombros e deixar acabar mais um dia com a certeza que amanhã virá outro e que há sempre tempo para tudo desde que o queiramos verdadeiramente mas eu sei que o tempo tem os dias contados e bem contados. Admiro o banco onde estou sentado e a capacidade que teve de envelhecer desempenhando o seu papel. Admiro ou talvez inveje o que já testemunhou e a sorte de ser um objecto inerte livre de sentir colocado num local onde o vento sopra e a chuva cai e o Sol brilha ou se esconde atrás das nuvens e onde se cheira a relva e as folhas caem e de ser útil sem questionar a razão de o ser ou querer ainda ser mais que apenas útil.

Sinto que há demasiado tempo ainda para me sentar neste banco mas que é demasiadamente pouco para o que quero que me falte e entre o que me falta e o tempo que me resta há uma disputa e eu estou sentado neste banco a assistir sem querer tomar partido. Vejo lá em baixo uma velha dar de comer aos pombos. Penso que já uma vez escrevi que não gosto de pombos. Não reconheço utilidade aos pombos e acho que a única coisa que os pombos fazem é comer e cagar e entre as duas foder e reproduzir-se como ratos. Costumo dizer que os pombos são como ratos com asas e se acreditasse em Deus nas minhas preces perguntaria: Diz-me Deus porque criaste os pombos? Acho que se acreditasse em Deus e lhe fizesse esta pergunta iria ter uma resposta, posso ter dúvidas na existência de Deus mas não tenho nenhuma dúvida que se perguntasse para que é que servem a merda dos pombos ele me diria e de forma a que eu iria perceber e entender. Se calhar aquela velha que está a dar de comer aos pombos, acredita em Deus e um dia perguntou-lhe e agora que já sabe para que é que servem a merda dos pombos, passa todos os dias por aqui com pão que esfarela para os alimentar para que possam comer e cagar e entre as duas foder e ainda cumprir o desígnio de Deus.

Sinto que há demasiado tempo que estou aqui sentado neste banco a ver uma velha a cumprir os desígnios de Deus e pergunto-me se quando ela se dirigiu a Deus e lhe perguntou para que é que serviam os pombos se não estaria aqui sentada neste mesmo banco e se não estou a perder a oportunidade de também eu encontrar a minha resposta. Parece-me fácil acreditar, mais fácil que continuar a duvidar que não há razões para a existência dos pombos e que os problemas existencialistas dos homens se podem resolver percebendo que há sempre uma razão para além de comer, cagar e entretanto foder, basta acreditar.


Jethro Tull - Too Old To Rocknroll Too Young To Die

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 23


Queria poder contar com pontos de retorno. Queria parar o mundo neste instante e guardar a vida num lugar seguro, uma caixa, uma carta ou um frasco que pudesse rolhar de vidro opaco longe dos olhos e de todos para que a incerteza fosse sempre um caminho seguro. Quero o poder de voltar aqui e agora apenas estalando os dedos, tlec e tenho uma nova oportunidade de me falhar. Não me importa emendar o tempo, hora a hora ou dia a dia como o faço com as palavras que me desagradam e que apago e reescrevo com outras letras ou sons ou significados, não me importa trilhar todo o caminho por muita pedra que me sangre os pés, chegar ao fim e ver o final mas gostaria de ter a possibilidade de escolha de um novo recomeço a partir de um ponto ou instante como este em que o que está mal até não está mal de todo.

Sou fraco porque escolho não escolher, é mais fácil deixar seguir o rio em direcção a onde quer que vá chegar, alguns rios conseguem até chegar ao mar e chegar ao mar é fazer parte de algo imenso ou apenas diluir ilusões, a água deixa de ser doce quando chega ao mar, onde ficará a fronteira entre a água do rio que é doce e a água do mar que é salgada? Sou como a água que flui pelo caminho mais fácil, sou como a água que flui sem perceber que deixa de ser doce e se salina e amarga, sou como a água por vezes transparente outras opaco e estou a deixar-me fluir somente porque me atrai o mar.

A sua mão está pousada na minha perna, oculta pela mesa, acaricia o interior das minhas coxas num movimento inequívoco de sedução. A mulher do cabelo amarelo que já não é amarelo mas feito de muitos dourados e castanhos, sorri-me com os olhos e diz-me que sente o desejo de voltar a ver o meu corpo nu, quer olhar-me com as pontas dos dedos e com as pontas dos seios e com a humidade dos lábios, quer sentir os contornos escondidos da minha pele com o seu roçar impudico. Tenho vontade de dizer alguma coisa que não sei se é um concordar ou um discordar mas sou afogado de vontade pela vontade de um beijo que me cola a boca e deixo-me fluir pelo desejo.

Sinto-me mal por me sentir bem e quero fugir mas fico preso por uma mão que agora me segura firme uma erecção que não tenho forma de controlar, há um convite implícito nos seus olhos castanhos que brilham como o mar num dia de verão e eu sei que a vou seguir para onde for que for o caminho que me quiser levar e que me vou deitar a seu lado à espera que me cubra com o seu corpo que adivinho suave. Vou-me deitar no leito que me leva por um caminho que escolho pela minha fraqueza de não conseguir escolher, estou preso pela atracção do mar que antevejo nos olhos de uma mulher que sinto real pela mão que me prende mas que me atrai por um sentimento irreal de perigo, tenho medo da incerteza mas é ela que me fascina e puxa e que faz não querer mais do que deixar fluir.

Acabo o dia na noite suado e sem saber se o que sinto agora é arrependimento ou medo e se pudesse ter o botão que me levasse a um ponto de retorno, se o apertaria agora ou se ainda me deixaria ficar a fluir neste desejo que começou por não ser o meu mas que me foi cercando num caminho fácil e me contagiou porque sou fraco e estendo a mão e sinto-lhe a ponta de um mamilo, hirto e compreendo que não o conseguiria apertar…


James - Sit Down

domingo, 4 de abril de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 22


Estou parado num sinal vermelho. A sociedade estabelece códigos simples para nos dar ordem como partes individuais que deviam funcionar num todo. Vermelho para parar, amarelo para atentar, verde para realizar, não há complexidades nas cores para que o cérebro não tenha dúvidas na mensagem, educação, formatação, condicionalismo reflexivo na mais pura e elementar essência. Como que para me contrariar os pensamentos observo um casal de cegos que atravessa a estrada à minha frente. De braço dado exploram o caminho com varas compridas de metal, tic tic tic tic e avançam. O homem é mais velho que a mulher, tanto podem ser um casal como pai e filha mas as varetas nunca se cruzam e é essa a dança que me fascina, tic tic tic tic, não consigo perceber a diferença de cada som porque só ouço tic tic tic tic, mas sinto que para eles há tics que são sons de cor vermelha e tics que são sons de cor amarela e tics que são sons de cor verde e o casal chega à segurança do passeio e procura a referência da parede e depois segue decidido para um café quase junto à esquina, encontram a porta com uma facilidade impressionante e deixo de os ouvir, tic tic tic tic.

Estou tão fascinado que me desligo do condicionalismo reflexivo que me diz para avançar porque o sinal ficou verde e sou empurrado de novo para a realidade por um coro de apitos e faces iradas de pessoas que não tem tempo a perder com um casal de cegos que não vê vermelhos, nem verdes, mas que sabem a diferença de cada tic tic e que até podem ser pai e filha mas que fazem dançar as varetas sem nunca as cruzar. Não consigo conceber poder ver sem os olhos e decido na minha visão romântica de que vejo aquele casal unidos pelo sangue e pelo defeito e pela qualidade na partilha da ausência de luz e que não cruzam as varetas para poder aumentar a amplitude dos sons da sua visão.

Não concebo imaginar sem uma imagem e não sei se sou afortunado ou limitado pela minha visão. Vi dois cegos que imaginei como um pai e uma filha cegos da sua cegueira e avançando de braço dado sem medo de superar os obstáculos que a vida ou o acaso ou o que foi que o destino ou o acidente lhes colocou no caminho porque é preciso avançar para poder chegar a algum lado. Não consigo imaginar uma imagem porque a vejo e não sei se nesta minha limitação não perdi espaço para a minha imaginação. Estou condicionado pelo preconceito de cores que não imagino porque as vejo e que me impõem reacções de avançar ou hesitar ou parar.

A minha cegueira não é física é uma cegueira de ignorância e não tenho com quem a partilhar de braço dado e sinto vontade de falar com aqueles cegos. Queria perceber como ouvem as cores e as cheiram e as sentem com a pele dos dedos. Queria poder apagar todas as cores e imaginá-las de forma diferente, sinto-me egoísta por isso, sinto-me egoísta pela atracção da liberdade da cegueira, sinto-me egoísta porque sinto que aqueles cegos provavelmente dariam tudo para poder ver o que eu vejo e não perceberiam porque quereria eu poder imaginar o que eles não conseguem ver. Fecho os olhos mas a escuridão não me liberta, é apenas escuridão sem nenhuma luz, a imagem do que me rodeia não muda no meu imaginário porque apenas fechei os olhos.

Queria hoje voltar a rebaptizar as cores, imaginar o amarelo do calor do Sol e o azul do som do mar e o verde do cheiro da relva acabada de cortar e o branco do frio da neve e o vermelho da paixão no sentir bater um coração deitado a meu lado na cama. Queria hoje inventar novas cores, a cor do suor, a cor de uma lágrima, a cor de um riso, a cor do amor e a cor do ódio. Queria hoje libertar a minha imaginação de todas as cores que me oprimem e libertar-me desta cegueira que me entra pelos olhos.

Wah - Story of the Blues

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 21


Estou num quarto rodeado de rostos mortos. Alguns são variantes de cinzentos e negros e luz que se fixou no papel, o tempo que passou revela-se nos tons amarelados que vão apagando as imagens como o fumo se esfuma no nada. Nenhum me sorri, são sobretudo fotografias de homens como se não importasse muito ao passado fazer perdurar no futuro os rostos das suas mulheres. Na minha memória ainda tenho a cor de alguns dos rostos agora mortos, mas não me lembro dos seus sorrisos e pouco dos seus nomes. Aqueles rostos são responsáveis por eu estar aqui e exigem-me que os respeite é por isso que ali estão pendurados naquela parede branca, a minha árvore genealógica de raízes profundas e muitos ramos retorcidos.

Na minha família morre-se novo e eu alterno em querer quebrar a tradição ou aceitar o desígnio. Já não penso muito nisso, sei que a morte chegará um dia e que terei o meu rosto pendurado nestas paredes, mas gostava que alguém se lembrasse do meu sorriso. Espero que a morte chegue sem me avisar de véspera e sem hora marcada mas ambiciono ter tempo para me eternizar em obra que ainda não realizei. Venho aqui hoje olhar o único destino que tenho como certo, tudo o resto ainda posso escolher ou deixar que aconteça por acção ou acaso.

Agora, aqui e neste instante, não acredito que na morte possa ser mais que um rosto pendurado na parede e um corpo que apodrece na terra ou arde na urna mas sei de outros que pensavam como eu e que depois mudaram e passaram a acreditar numa continuidade espiritual por influência divina, glorificado no céu como recompensa pelas acções de bondade ou ardendo no inferno pelos actos do egoísmo. Eu não quero acreditar que na morte possa ser mais do que um rosto eternizado até o tempo me consumir de amarelo porque sei que o egoísmo é o maior dos pecados e eu sou egoísta e não quero viver a pensar que poderei ser na morte menos do que fui em vida.

Hoje vim aqui para confrontar estes rostos que não passam de sombras do passado, nenhum deles, por maior medo que me tivesse causado em menino, pode agora fazer-me mudar o que decidir fazer ou acusar-me por falta ou por excesso. Sou tão livre do seu julgamento no que for o resto da minha vida como eles são livres do meu julgamento no que restou da sua morte, um rosto pendurado na parede que apenas lamento que não sorria. Sei que o meu não será o último rosto na parede mas pergunto-me quem o pendurará e até quando a importância das paredes não suplantará a importância dos rostos mortos e todos acabem esquecidos numa caixa debaixo de uma escada como pasto para ratazanas.

Hoje aqui estive, quem sabe pela última vez a olhar para o passado sem lamentar que não retorne e a pensar que amanhã é já daqui a algumas horas e que nesse entretanto muitos rostos poderão ser pendurados em paredes ou esquecidos sem glória. Já decidi que amanhã será o inicio do meu caminho, quer ele me leve à imortalidade do reconhecimento ou à vontade do esquecimento, não voltarei a voltar a trás nem a olhar a luz que já se apagou nem recear ser julgado por quem já morreu. Fecho a porta e estou de novo tão só como estava antes mas sinto-me mais só ainda e preciso de acreditar que o que me falta agora já não me faz falta. Deixei o passado simbolicamente fechado naquele quarto onde será relembrado e celebrado apenas pelos rostos mortos, será um passado guardado sem sorrisos, porque esses trago estampados num rosto que ainda não morreu.


Nirvana - About a girl

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 20


Sou o observador do mundo, centro-me num ponto e imagino que tudo se passa ao meu redor, imagino que tudo se passa porque eu estou ali, o espectador da vida ou o realizador que bateu a claquete e que deixa a acção correr ao sabor do improviso e da capacidade dos actores surpreenderem o público. Sou um observador centrado num ponto que está numa esquina de uma rua que não sei para onde vai nem de onde vem porque sempre a atravesso perpendicular aos seus destinos e hoje não sei porquê parei ali naquele ponto, cruzado de pedras de calcário e basalto e fiquei com vontade de seguir numa das direcções mas não consigo decidir qual.

Do outro lado um cão deitado sem trela nem dono ergue a cabeça e ladra e depois levanta-se e corre atrás de um carro que passa lentamente porque quem lá vai dentro procura algo ou se calhar apenas um lugar para parar e o cão ladra e corre saltando para a roda sem se aproximar demasiado. Pergunto-me porque correrão os cães atrás de carros? Talvez porque tem tempo para perder ou tempo para passar e eu viro a cabeça a acompanhar o cão triste alegre com a sua liberdade e a sua fome. O carro perde-se numa outra curva e deixo de ver o cão que o seguiu e fico ali ainda sem saber por onde ir.

Penso que hoje não tenho que decidir o que vou fazer amanhã e penso nela e nas suas lágrimas e penso que nunca lhe disse aquelas três palavras que sei que lhe soariam piedosas ou cheias de significado vazio. Não tive ainda coragem de admitir que nunca lhe direi aquelas três palavras e não sei se anseia que as diga ou que não as diga para que não se quebrem as barreiras que nos unem ou as pontes que nos separam. Estou aqui parado a pensar numa mentira que sei ser a realidade de hoje e quero acreditar que se pode construir com ela um amanhã, nada mais tenho para dar, nada mais tenho para receber, nada mais ainda tenho…

O cão regressa a passo e parece coxear, mas os cães sempre me pareceram coxear depois de correrem e se calhar é o destino de quem corre sem razão ou com a razão de correr. Sinto-me também coxo nos meus sentimentos e queria apenas ficar aqui sem ter que decidir ou ter a liberdade de correr atrás do próximo carro que passasse sem o receio de regressar a coxear e a lamber o tempo passado no tempo que perdi. Consigo decidir sozinho que não me decidirei ainda hoje sair da perpendicular que não me leva a lado nenhum e sigo em frente ignorando o cão que se voltou a deitar abandonado no seu mundo à espera de uma outra razão para correr ou à espera de uma mão que o acarinhe e lhe diga três palavras com significado.

Há quanto tempo me perdi nestas ruas vazias de outros destinos? Há quanto tempo me perdi destas palavras que não te direi? Há quanto tempo me perdi de vontade de sair das perpendiculares da vida e arriscar correr sem medo de coxear? Olho para as minhas mãos e já não vejo as grilhetas mas sinto-lhe as marcas e sinto-me o prisioneiro que lutou toda a vida para se libertar e descobrir que afinal depois das correntes lhe restou apenas um quarto branco ainda sem paredes nem portas nem janelas nem objectivos. Sinto pena do cão que deixei para trás e sinto pena de mim que segui em frente nesta perpendicular muda de três palavras que falam de amor e que poderiam secar as tuas lágrimas ou inundarem o teu rosto e fico na segurança de não correr atrás de carros que não sei para onde me levam mas que sei não me fazerem voltar a coxear.

Nota: Todos os textos que publiquei neste blog se emparelham com uma música que normalmente é escolhida depois de o ter escrito, neste caso foi ao contrário, a Storyteller enviou-me esta música com o desafio de que me inspirasse nela para escrever um texto, nem faço ideia se o consegui…


Snow Patrol-Chasing Cars

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 19


Acordei hoje com a memória enublada de ontem, acordei enrolado sobre o meu corpo e o dela enrolado entre os dois. Acordei de uma noite sem sonhos ou sem lembranças de ter sonhado e com a boca seca como se tivesse matado a fome com papel velho. Mexi-me na tentativa de desenrolar o meu corpo do seu sem a acordar e ouvi dos seus lábios um gemido indistinto de causa. Levantei-me e deixei-a nua sobre a cama, a pele lisa oscilava com a respiração serena e apetecia-me senti-la com as mãos ou ser mais audaz e acordá-la com um manto de beijos.

Entrei na banheira e abri a torneira sentado na borda enquanto esperava que água me aquecesse a mão perdida debaixo do fluxo que me escorria dos dedos e dos olhos que vagueavam pelas vagas dos pensamentos vazios e num momento senti o calor e estremeci de susto e de dor e de realidade. Accionei o chuveiro no botão, a água corre-me desde a base do pescoço e lentamente traz-me de volta ao mundo no mesmo fluxo que me leva as gotas por entre os dedos em direcção ao fundo, vejo ainda o fio de água e consigo descriminar cada gota no espaço até explodir numa superfície imaculada de branco a meus pés, vejo cada gota a abrir como uma flor e a cada instante sinto o tempo acelerar e retomar o seu ritmo e a água a deixar de ser um fio mágico de gotas que se abrem em flor a meus pés mas apenas um liquido quente sobre um corpo que desperta.

Sinto-lhe a respiração antes de lhe sentir o toque. Sinto o seu toque nas costas e a respiração na nuca e depois o abraço por trás com o peito que me acaricia, sinto o conforto dos seus pêlos púbicos que me roçam as nádegas e me fazem crescer de tesão e a sua mão que toma a posse do meu sexo. Volto-me e beijo-lhe os lábios enquanto a água nos cai por entre os corpos de novo enrolados. O barulho da água que cai expande-se nos ouvidos, ouço agora outra água que cai em forma de chuva sobre o metal da guarda da janela e se espalha no vidro, apetece-me abri-la e deixar que o chuveiro dos céus se junte à água quente e nos lave e nos leve de novo a um tempo mais lento.

Estamos cobertos de água e inundados pelo som da água que nos envolve e seguro-lhe o rosto com as mãos e vejo que outra água lhe sai dos olhos e pergunta-me do que me lembro da noite e eu digo-lhe que nada ou quase nada, que bebemos até o tempo parar e que acordei com a água quente que agora partilho e ela diz que me inveja porque o tempo não parou para ela e que se lembra de tudo o que me disse e tudo o que lhe disse e de tudo o que eu não a deixei dizer e de tudo o que não me deixou dizer e as lágrimas correm agora mais quentes que a água quente que chove cá dentro e mais frias que a água fria que chove lá fora e eu afogo-me perdido no meio de toda aquela água sem saber mais o que lhe dizer.

Pede-me que a deixe só, pede-me só que a deixe, pede-me que a deixe ser de novo só ela e a esperança de o tempo passar sem dor nem sentir e que não a deixe só com a esperança a sentir que vai apenas e de novo sentir a dor de estar só e lá fora a chuva não pára de cair e eu perco-me nas suas palavras de solidão e dor e abandono e desesperança e quero dizer-lhe que serei algo mais do que posso ser mas não consigo e as palavras afogam-se na garganta e lá fora a chuva não para de cair e eu afogo-me nas lágrimas que lhe escorrem nos olhos e prometo-lhe que não lhe farei promessas e afogo-me no vazio do que lhe digo e pede-me que a deixe só e eu saio para a rua e deixo que a chuva me escorra o cabelo para que me possa trazer a memória das palavras que deixei afogar.


Massive Attack – Teardrop

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 18


Estamos nus de joelhos sentados no chão. Uma garrafa que já esteve cheia no inicio da noite e apenas um copo entre os corpos nus sentados sobre os joelhos no chão. Beijo-lhe os lábios e pauso-me na humidade que lhe enche os olhos. Apenas um copo tão pequeno que se consegue ocultar na palma de uma mão. Apenas um copo agora vazio de humidade e que encho pausado nos seus olhos que me bebem de desejo e sem a deixar de olhar bebo de um trago, bebo sem o beber do engolir e retenho o liquido que me arde dentro da boca e permito que o fogo do álcool me adormeça a língua e sinto que me seca a saliva como um rio seca uma gota de chuva.

Colo os meus lábios aos seus e controlo um fio de fogo fluido que se escorre entre as bocas, o destilado ganha na transferência cambiantes adocicados pela adição do meu sabor e pauso pausado nos seus olhos para que o possa engolir e repito o beijo de fogo fluído até deixar apenas na boca aquele que sei ser o meu quinhão e engulo-o. Estamos nus de joelhos sentados no chão com os braços entrelaçados em abraço e sinto o seu peito perdido no meu e percorro-lhes as costas apenas com a suavidade das impressões dos dedos, como se maior pressão a pudesse esmagar. Beijamo-nos agora sem o fogo fluido mas com o fogo da paixão e não há tesão física entorpecida pelo efeito do álcool, apenas tesão emocional que bebemos dos lábios um do outro.

Volto a encher o copo e volto a vazá-lo de um trago e evito os seus lábios que se procuram insinuar nos meus, volto a pausar-me nos seus olhos e digo-lhe com os meus que espere, percorro com o liquido toda a boca, deixo que me expanda a carne e os sentidos, que me entonteça a língua e por fim mergulho os lábios em bico na sua boca e liberto o fogo que a faz engasgar e sinto o pulsar do seu corpo e o ar que lhe sai com aromas de inebriar e engulo o que me resta e sufoco-a com um novo beijo e acabamos a rir de lágrimas nos olhos antes do abraço doce do consolo.

Já não há liquido na garrafa e o copo já não está entre os nossos corpos nus e rolou para longe dos joelhos sentados no chão e estamos com as testas coladas e os olhos desfocados e pausados um no outro, vazios e cheios de significado as minhas mãos acariciam o seu peito e as suas acariciam-me o sexo tão adormecido como a minha língua, mas ambos sabemos que hoje o nosso sexo não terá penetração, fodemos com os sentidos ampliados ou alterados, fodemos ou amamos e neste instante não faz qualquer diferença, sentimo-nos completamente um do outro, dois corpos nus apartados por um espaço que já não existe.

Um de nós pega na garrafa e tenta encontrar um resto de bebida sacudindo-a sobre o copo que não sei como voltou a estar entre nós de joelhos sentados no chão e o outro ri-se, não sei qual de nós sacode a garrafa nem qual de nós se ri mas sei que um de nós beijou o outro com os lábios bem abertos e sem língua e lembro-me de pensar que é difícil beijar sem língua e que um bom beijo não tem sempre que ter língua. Depois olhou para a foto da criança que brincava e começou a chorar e eu quis beber as suas lágrimas como se assim conseguisse secar a sua fonte e voltar a tê-la só para mim.

Tudo se move em movimento lento mas gira em redor destes corpos que já não conseguem perceber que já não estão de joelhos sentados no chão e começamos a dizer coisas um ao outro que não queremos dizer e calamo-nos um ao outro com beijos que acabam por nos reduzir a dois corpos que respiram e que suspiram e que se adormecem nos braços um do outro com a esperança que o dia amanheça sem lembrança e sem ressaca ou pelo menos sem arrependimento.


Pink Martini- Kikuchiyo To Mohshimasu

domingo, 15 de novembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 17


Hoje pela primeira vez em muito tempo não senti um sufoco sem explicação. Cantarolei uma música sem destino enquanto tomava um duche, fiz ou desfiz a barba sem desprezar a imagem reflectida no espelho e apreciei o que comi antes de acender um cigarro. Fumei sentado a olhar o fumo e a cada chupão observo o incandescer laranja de fogo que me consome um pouco mais de tempo e penso que consumi a minha vida passada como um cigarro fumado à pressa sem apreciar o seu prazer e o seu passar, apenas pelo vício e pela necessidade física de a consumir.

Não me lembro porque comecei a fumar, um dia como muitos experimentei e não me lembro porque não gostei mas sei que não gostei e por isso voltei a experimentar e não gostei um pouco menos e continuei a experimentar até deixar de não gostar. Um dia como muitos passou a fazer parte da minha rotina consumir fumo, queimar folhas secas enroladas em folhas de papel que transformo em cinza. De cada cigarro que fumo resta uma ponta alaranjada que me deverá proteger de algo que não entendo bem e um monte de cinza sem valor e o fumo que fiz passar por mim e que se dissipa deixando ainda um cheiro que não gosto.

Cada vez mais fumo de uma forma egoísta, um acto privado de satisfação de vício. Porque não gosto do cheiro que resta no ar de um cigarro consumido não entendo o acto social de fumar em grupo e fujo do fumo dos outros para me esconder no meu. Não sei se perdi amigos por fumar ou por não fumar mas fui acabando sozinho acompanhado por um cigarro e depois outro porque parece que haverá sempre mais um cigarro que se pode acender num acto antecipado de necessidade e que depois se vai diminuindo em fogo laranja incandescente até restar uma ponta alaranjada que me sobra e me falta de entendimento.

Vêm-me sempre à boca o primeiro cigarro da manhã. Faz-me tossir de forma violenta como se o meu corpo quisesse expulsar aquele veneno volátil ou dar-me um aviso que estou a persistir num erro, persisto em ignorá-lo, mergulho na crença de que evitamos a ressaca continuando a beber e que não fumo o suficiente para tornar os danos irreversíveis e que um dia irei parar e todo o mal não passará de cinza inútil de um cigarro que se consumiu num tempo que ficou para trás. Resisto a acender mais um cigarro porque o fumo irá deixar ainda um cheiro que não gosto nesta casa onde necessariamente terei que dormir esta noite e saio para a rua.

Saí para a rua e deixei de resistir e acendo mais um cigarro isolado numa esquina entre caminhos que me podem levar a uma vida de cigarros já consumidos ou a outra vida que me traga cigarros que consiga fumar sem desperdício de cinza e fumo e pontas de cor alaranjada. Estou parado numa esquina, só com o meu cigarro e sem a ouvir a primeira vez ouço-a repetir: “Dás-me lume?”. Viro-me e ela está ali na minha frente também de cigarro entre as mãos e a boca com um meio sorriso nos lábios: “Não te importas de me dar lume?”. O cabelo já não é amarelo mas feito de muitos dourados e castanhos e sorri com olhar traquinas ou travesso e sinto-me confuso porque nunca os soube distinguir nos olhos de uma mulher.

Faço brotar a chama da ponta do isqueiro que treme soprada por um vento que não consigo ver e a extingue. Volto a insistir e a chama resiste uns segundos mas não o suficiente para conseguir contaminar de fogo a ponta do cigarro e sinto que me sente a insegurança e aproxima o rosto das minhas mãos que protegem agora o fogo e reparo no fumo que se enrola por entre os dedos e sobe ao céu em espirais. Continua a sorrir enquanto dá baforadas curtas com o cigarro que mal lhe toca os lábios vermelhos que eu imagino de fogo puro e mais quentes que a chama laranja que se vai reduzindo a cinza. Continua a sorrir e toca-me o rosto e beija-me suavemente a face sussurrando um obrigado e afasta-se e eu fico ali parado a ver aquele corpo afastar-se e eu fico ali parado apenas com um isqueiro nas mãos e eu fico ali parado a sentir um odor de perfume doce que me deixa ali parado sem saber bem o que fazer e sem o saber acendo mais um cigarro.


Pink Floyd - Have a Cigar

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 16



Senti um impulso para parar pelo caminho e entrar numa florista e comprei umas flores, sabia o que queria e escolhi rapidamente de forma simples e sem composição de ramo, apenas flores sem artifícios e puras na sua beleza de flor. Estacionei o carro, saí e toquei à campainha sem certezas de me anunciar para uma casa vazia e estranhei o alívio de ouvir a porta abrir-se. Subi os degraus em saltos longos a dois e dois e ela esperava-me ao cimo das escadas com surpresa por me ver ali, sem nada mais beijei-a carinhosamente nos lábios e entreguei-lhe as flores. Sete rosas vermelhas e um antúrio, recebeu-as nas mãos com um sorriso sincero e perguntou-me o porquê das flores.

As flores por si só porque sim e porque acreditava no prazer de eu as dar e dela as receber e aquelas porque me significavam… As sete rosas pela paixão do número e pela paixão que a ela me transportavam. Ao sétimo dia a possuíra e sete são as virtudes que devem ser recompensadas que nela reconhecia e sete são os pecados que sei ter cometido que quero que me perdoe e sete são os pontos do seu corpo que a ela me prendem, os olhos, a boca, os seios e tapou-me a boca com um beijo e mandou-me parar de dizer asneiras. Quando recuperei o ar continuei com o meu discurso e disse-lhe ainda que sete eram as cores do arco-íris que vira reflectidas nas lágrimas das suas dúvidas e que durante sete dias estaria a lua cheia pela nossa paixão no céu, voltou-me a beijar e disse-me que iria colocar as flores em água para que não morressem.

Voltou. Sentou-se a meu lado no sofá e disse-me que não teria muito tempo, tinha que ir trabalhar e que não esperava nada me ver ali e eu disse-lhe que a desejava e ela olhou-me fundo nos meu olhos e levantando-se dirigiu-se à estante e retirou uma moldura com uma foto de uma criança que sorria montada num triciclo e disse-me que aquele era o seu filho e o seu único amor e a sua única preocupação, que também me desejava mas que não queria, não podia por ele perder-se no caminho que encontrara na vida e que a mantinha fiel ao acordar e desperta ao adormecer. Quis dizer algo mas senti que o que dissesse só me afastaria e não disse nada e procurei os seus lábios que encontrei húmidos e doces e beijei-a.

Partilhámos os nossos corpos, saciamos a nossa fome de desejo e a nossa sede de paixão e senti que agora naquele instante não havia culpas nem receio de arrependimentos mas que elas viriam mais tarde e eu não queria que viessem mas não sabia como as evitar, como exorcizar as dúvidas que nos assombram quando já sofremos as partidas da vida e que papel podia ter aquela mulher no meu projecto de loucura. Interrompeu-me os pensamentos com o olhar no relógio e disse-me que tínhamos que nos vestir e que tinha mesmo que sair e ir trabalhar e perguntou-me se não devia também de estar a trabalhar e eu disse-lhe que não, que hoje não iria trabalhar e que provavelmente não voltaria ao meu emprego e limitou-se a mirar-me de uma forma inexpressiva que me gelou, porque não me condenava nem me louvava.

Na despedida perguntou-me o porquê do antúrio e eu sorri e disse-lhe que o colocasse no meio das rosas e que esperava que enquanto se mantivesse viçoso a fizesse lembrar-se de mim…


Confesso que roubei informação bibliográfica descaradamente à minha amiga Ti Pronúncia aqui mas sei que ela é uma alma generosa e não se importa…

Alannah Miles-Black Velvet

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 15



Aproximo lentamente os meus lábios dos seus. A aproximação dura o momento de uma eternidade que se estende para além da compreensão do tempo e quando o toque acontece imagino que todos os pássaros do mundo pararam de bater as asas suspensos apenas na definição de uma película fotográfica que se revela em mim. Envolvo o seu lábio inferior nos meus partilhando a dádiva de uma suave humidade e depois os meus lábios estão dentro dos seus e os seus dentro dos meus e as nossas línguas ganham vida própria numa valsa dançada sem regras. O beijo é uma onda que avança no nosso mar de desejo e que no seu espraiar nos nivela as dunas de qualquer dúvida, juntam-se na dança dois pares de mãos em carícias sobre o que ainda não é pele e ambos sentimos que queremos que seja pele e de uma forma natural estamos nus sentados sobre a cama, os troncos colados envolvidos em abraço e há apenas uma boca que entre as duas respira o mesmo ar afogado num sufoco urgente de paixão.

Olhamo-nos agora sem beijo, ambos sabemos que já não podemos parar e que seremos apenas corpos sem vontade ao sabor da vontade do tesão tenso que nos aura da pele e ela deixa-se cair puxando-me para cima de si e eu encaixo-me entre as suas coxas e procuro encontrar o caminho guiado pela sua humidade que se funde e atrai a minha e a penetração acontece sem dor e a cada milímetro que entro dentro dela sinto-me mais parte de um corpo que é agora uma extensão do meu. Ouço o seu suspiro, a brisa do seu respirar e a pressão do seu interior e oscilo suavemente os quadris no receio de entrar numa espiral sem controlo e cadencio o ritmo tentando concentrar-me apenas no prazer que lhe vejo nos olhos e sinto as suas mãos apertarem-me as nádegas que empurra com força fazendo-me entrar ainda mais no seu calor e a sua respiração acelera e foge-lhe dos lábios um misto de som significado sem significação e os olhos perdem-se e pressinto a urgência do seu orgasmo e pressiono-me até ao fim contraindo o sexo até sentir o derramar do êxtase que lhe confirmo no olhar e saboreio a acalmia que agora lhe irradia do corpo mas eu não quero parar e ela sorri e volta a puxar-me para si e incentiva-me a acelerar o ritmo, diz-me sem palavras que agora vai esperar por mim e espera e acabamos inertes esvaídos num beijo com outro sabor.

Estamos agora deitados lado a lado e falamos da inconsciência que nos tomou e sossega-me porque não corre o risco de engravidar e que está pura de doenças por castidade e eu digo-lhe o mesmo com a certeza de que não acredita nas minhas palavras e vejo que as lágrimas lhe invadem os olhos e pergunto-lhe se está arrependida e diz-me que não, que não ligue e que está feliz mas que não pode deixar de antecipar um sentimento de eminente abandono e chamo-lhe tonta e puxo-a para mim num outro beijo e no desejo de partilhar de novo o seu suor e desta vez é ela que se penetra em mim e que se cadencia nos movimentos que lhe fazem oscilar os seios que acaricio e que lhe beijo alternadamente, sou controlado pelo seu cavalgar, espectador privilegiado do acontecimento do seu prazer, demasiado excitado para a acompanhar vejo-a atingir os seus cumes uma e outra vez.

Sai de mim saciada e devora-me com um beijo, os peitos erectos que se roçam nos meus e sinto a sua mão que se aperta no meu sexo e sorri-me com um brilho traquinas no olhar e procura-me entre as pernas e toma-me na sua boca e do resto apenas me resta uma memória rendida.


Procurava a música ideal para este post, quando num comentário a minha amiga Storyteller a simpática miúda que tem um carro lindo decidiu deixar-me uns versos de uma canção do Angelo Badalamenti, ignorante e curioso e totalmente devoto à santa Laura Palmer fui à procura e foi paixão ao primeiro acorde, por favor ponham a música a tocar e releiam o texto. Não tenho palavras para te agradecer querida amiga…




Tim Booth and Angelo Badalamenti - Fall in Love With Me

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 14


Eu cheguei e ela chegou, somos folhas soltas caídas de uma árvore vulgar que se cruzam ao sabor do vento e que terminam casualmente juntas num pedaço de passeio. Olhamo-nos sem palavras e faço sentir que as desculpas são inúteis e sugiro que nos sentemos naquela mesa donde se pode ver o rio. Ambos estamos em silêncio a ver um par de gaivotas que pousam na margem e se movem no chão da mesma forma desajeitada com que agora me sei vazio de palavras.

Sinto-me um adolescente num primeiro encontro sonhando com a perspectiva de um beijo e ela percebe, sei que as mulheres tem uma enorme facilidade de perceberem estas coisas e ela puxa-me para fora do meu casulo com uma conversa casual sobre qualquer tema pouco importante e depois começamos a contar histórias da vida que já vivemos e do que nos importa e a procurar estabelecer pontes entre as nossas causalidades e a remexer nas memórias no entretanto em que não cruzo e descruzo os dedos e sorrio como um tolo.

Conta-me que sonhara um dia em ser alguém e que sabia o que queria da vida mas que foi empurrada por necessidade para trás de um balcão e depois de outro e outro até terminar rodeada de roupa alheia, conta-me que um dia engravidou depois de uma única noite em que se entregou a um homem que já não se encontrava a seu lado quando o dia amanheceu, conta-me que não teve coragem de tomar a decisão que todos lhe diziam ser a mais acertada e que os meses passaram e que uma criança nasceu e que hoje o seu pequenino grande amor está longe a crescer com familiares que nunca lhe perdoaram os pecados e conta-me que os sonhos se foram desvanecendo nas brumas do tempo e que agora já não lhe doem ao acordar nem lhe trazem mais as lágrimas para fora dos olhos nem que lhe importam realmente as razões que a prendem acordada ancorada ao tecto do quarto enquanto as horas passam e ouve a música melancólica do vizinho solitário que mora ao lado e os ruídos da dança de sexo do jovem casal mesmo por cima do seu quarto.

Conta-me que gosta de ser só porque se vai redimindo dos erros que não pode espelhar em mais ninguém senão em si própria e que a vida podia ser pior porque lhe permite sobreviver com algumas sobras de dinheiro que envia todos os meses para o filho que um dia terá uma vida diferente da sua e será o motivo do seu orgulho e acabará com o vazio que sente na alma. Conta-me que não percebe porque razão quis estar aqui comigo e porque razão me conta o que me conta e que gosta do meu sorriso e que se sentiu atraída pelo meu ar contraditório de quem anda perdido na certeza de um caminho.

Conto-lhe que sou egoísta por ter tanto do que não teve e que ainda assim não me satisfaz e do que gostava de ser diferente e das minhas ambições e do que me preparo para fazer e acabo a pedir-lhe desculpas. Peço-lhe desculpas por ela e não por mim e fico preso no seu olhar que parece não me perceber e que me manda parar de pedir desculpas e que me diz sem muitas palavras que gostava de ter a minha força ou a minha coragem ou partilhar um pouco de ambas. Estende-me a mão que escondo dentro da minha e ainda não tocámos nos pratos que se arrefecem nem nos copos que transparecem cheios de um líquido rubro de vinho escolhido ao acaso. Antecipo um beijo que irá fazer de amanhã um dia diferente e de nós a possibilidade de ser soma de partes solitárias que se encontram num rabisco disperso e equacionado na convergência das nossas vidas.


Elvis Costello-She

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 13


Apetecia-me apenas estar deitado sem motivos de barriga para cima à espera que hoje fosse amanhã. Apetecia-me não ter que estar aqui nem ali nem em lado absolutamente nenhum. Não tenho ainda a coragem de saltar dias, de dobrar o tempo de acordo com os meus apetites e matar de vez a necessidade de satisfazer as necessidades que já não me satisfazem.

Fui convidado para esperar no gabinete que é amplo e aberto à luz por muitas janelas, penso que existem dois tipos de gente que se quer mostrar importante, aquelas que nos fazem esperar em salas de sofás escolhidos com mau gosto e completos por uma mesinha baixa coberta de revistas que nos desafiam a inteligência e os outros que nos convidam a entrar no seu antro de poder. Estou de pé em frente a uma mesa em que todos os papéis estão meticulosamente ordenados e em que dois telefones não param de acender e apagar luzes e em que um conjunto de fotografias me mostra uma família sorridente e em que penso que a razão porque estão ali expostas é para que eu as veja e as inveje e que não é por acaso que as fotos estão viradas para mim e não para quem as devia amar.

Atrás um conjunto de prateleiras expõe troféus de muitas conquistas e feitos e algumas bandeiras e placas gravadas com datas e um aquário iluminado por uma luz fraca o suficiente para que se vejam os peixes de muitos tipos e tamanhos que nadam de um lado para o outro e de cima para baixo. Ponho-me a pensar se aqueles peixes têm a noção de quão limitada é a amplitude do seu mundo e o egoísmo de quem o limita. Este aquário será apenas para quem o tem um meio de sentir o seu poder sobre os peixes ou um meio de aliviar pressões pela observância da monotonia dos seus movimentos. Agora um deles avermelhado de cauda em forma de vela olha para mim de frente e abre e fecha a boca como se me perguntasse se deste lado também me reciclam o ar por bombas eléctricas ou se a temperatura que me cerca é mantida constante ou se me alimentam meticulosamente sempre à mesma hora através de um mecanismo de rodinhas e furinhos que se encadeiam.

Naquela troca de olhares entre seres confinados aos seus mundos de que lado estará o verdadeiro aquário? Quem observa quem? Os peixes são felizes porque estão livres de nadar no seu infinito finito, sem razões para se preocuparem com a qualidade da sua vida que é hoje a mesma que foi ontem e que salvo alguma falha técnica será a mesma amanhã. O peixe não pára de me olhar, sem piscar os olhos, imóvel junto ao vidro que nos separa e eu tenho vontade de mergulhar naquele seu espaço limitado de preocupações e partilhar a sua liberdade restrita. Gostaria que aquelas janelas se abrissem para um mar imenso para que os pudesse soltar num gesto revelador de inconformismo e de quebra de protocolos de racionalidade e assim assumir a loucura que anseio assumir perante quem me mantém confinado a um aquário que não me aquece nem me recicla o ar nem me alimenta nem me deixa nadar sem perceber as limitações do meu espaço.

Alguém entra e me cumprimenta e me intimida a sentar e começamos a conversar e eu dou por mim a falar de que tenho vontade de abrir janelas e voar para outros destinos ou nadar para direcções desconhecidas e sinto o incómodo do meu interlocutor que não percebe porque assobio agora a velha canção que o meu avô assobiava quando estava feliz, nem percebe porque me levanto e vou dar de comer aos peixes numa hora que não seria a hora deles comerem, nem percebe porque me rio por os ver agitados de volta dos farelos e nem percebe porque razão deixei de perceber as paredes de vidro que me rodeavam.


U2 -11 O'Clock Tick Tock

sábado, 19 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 12


Chego de saco de plástico na mão, lá dentro trago apenas uma desculpa para aqui chegar, trago algo impregnado com o meu cheiro e ainda outros cheiros que me relembram uma longa noite passada entre o fumo de muitos cigarros e o esvaziar de uma curta garrafa de ardor que serviu para me arrefecer as incertezas num momento de esquecimento forçado. Depressa percebo que não encontrarei o que aqui vinha procurar, apenas a mulher mais jovem que se agita quando me vê e começa a falar mais depressa do que eu a consigo perceber.

Conta-me que a colega não está, que teve que se ausentar por causa de um assunto de família e de doença e que tinha ficado desesperada por me ter faltado, por ter faltado ao encontro que tanto tinha antecipado e que não tinha o meu contacto para me avisar, para me explicar o que se passava e que tinha partido de coração partido. Pede-me que acredite, pede-me que lhe deixe forma de me contactar, que a colega voltará em breve. Peço que se acalme e que sim lhe deixarei o meu número e que esperarei pelo telefonema da colega e que a entendo e que o futuro é amanhã e não foi ontem. Acabo por trocar uma camisa por lavar, sebenta de incertezas e artifícios por uma promessa de um recomeço.

Saio dali a pensar nas razões que me levam a ter episódios de insegurança mesmo naquilo que nada pode ainda significar. Cruzo-me com gentes a quem avalio os pensares e o que as move e o que as apaixona e o que as faz sair de casa decididas a viver mais um dia. O telefone toca e interrompe-me os pensamentos, atendo solicito e enceno cenários de coisas que tem que acontecer porque alguém necessita que aconteçam e deixo de ser aquilo que gostaria de ser para voltar a ser aquele que esperam que eu seja e isso incomoda-me. Cada vez me incomoda mais manter uma imagem e imagino se esta multidão que me rodeia interpreta um papel principal na sua própria vida ou apenas um papel secundário redundante insignificante irrelevante.

Decido sorrir por ter vontade e por me lembrar na mulher de cabelo amarelo que me viu um dia nu e desta mulher que lava camisas e que passou a ver na vida simplicidades com outras dimensões e que me quer conhecer e o quanto isso me atrai e porque isso me atrai e o telefone toca de novo. Desta vez ouço do outro lado uma voz feminina que se interrompe para me convencer de razões, por fim acabamos por combinar um novo encontro daqui a dois dias e porque é sábado poderemos almoçar e talvez passear à beira do rio ou ir a um cinema ou o que me apetecer porque foi ela que me falhou e eu digo que não, que fez o que tinha que fazer porque a vida traz-nos outras prioridades que se nos antecipam e despedimo-nos com um beijo.

Passo agora por alguém que me estende a mão solicitando piedade, o cheiro a álcool revela-me o teor da sua fome, mas agora não me importa justificar a forma da fome se ela existe e levo a mão ao bolso e despejo na sua algumas moedas de diferentes cores e tamanhos e pergunto-lhe porquê. Olha-me de olhos perdidos e surpreende-me que compreenda a pergunta mas não lhe saem da boca respostas apenas um encolher de ombros que quer que eu entenda e eu entendo porque percebo que o que me separa daquela fome foram apenas instantes ou acasos ou medos ou falsas sensações de coragem e nunca remorsos.

Volto a vestir a mascara do lobo sobre a pele do cordeiro e entro no edifício de paredes que me apertam a vida neste sufoco sem que o grito que me quer sair da alma se faça ouvir.


The Passions - I'm in love with a German film star

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 11


Quis tirar um dia só para mim. Telefonei a dizer-lhes que não, que riscassem um daqueles dias que ainda me deviam de um ano destes passados, aqueles que acabo por me esquecer e ninguém faz por me lembrar. Meti-me no carro e procurei uma praia que por ser meio da semana ainda deveria ter areia disponível por entre corpos que se deitam e corpos que se movem e corpos que jogam jogos de bolas que voam pelo ar e chocam com outros corpos entre risos e outros protestos. Despi a roupa e simulando pudor ocultei o enfiar dos calções por trás da toalha que estendi de seguida sobre o areal depois de afastar com o pé duas ou três beatas de cigarros já ressequidas.

O mar estava calmo sem ondas coberto de reflexos de luz que pareciam nadar sem destino. Tirei da mochila um creme que iria proteger-me a pele e espalhei-o generosamente pelo corpo que alcançava e fiquei a ambicionar outras mãos mais suaves que me tocassem noutros lugares mais profundos. Sentei-me e franzi os olhos reduzindo o horizonte a tentar esconder o brilho do Sol, observei em redor, pequenas ilhas de gente, em cada uma história que se podia imaginar pela forma como se dispunham os corpos, pela forma como se olham, pela forma como se tocam ou pela forma como se ignoram.

Ali do meu lado um casal jovem, talvez ainda adolescentes, ele deitado de barriga para baixo disfarça a cobiça com que a olha, as curvas expostas ao dourar lento do Sol, os peitos espetados em desafio e um sorriso nos lábios discreto e poderoso, sem as ouvir adivinho as palavras desajeitadas do rapaz, adivinho a descrição de feitos inconsequentes e a ambição de um futuro de aventuras onde ela teria o papel principal da heroína, adivinho palavras que fazem promessas que não se podem quebrar e ela é hoje a sua musa podendo ser amanhã a sua glória. Ali mais abaixo dois homens de ar meio perdido, predadores sem dentes e bico arqueado, devoram as mulheres que passam ruminando comentários entre si como machos primários, são símbolos incompreendidos de virilidade ou fontes ignoradas de prazer, reis bastardos a quem roubaram um reino mas que ali estão prontos e aptos para a sua reconquista. Acolá uma família com filhos encontra motivos fáceis para gritar, gritam entre si, gritam para se ouvirem, gritam para expulsar frustrações e desgastes, gritam para ignorar uma falta de coragem não assumida ou simplesmente a falta de uma saída. Mais abaixo vejo dois corpos que se confundem e que me confundem não distingo na mistura das carnes o princípio de um e o fim do outro, ali não há palavras, ali não há necessidade de haver palavras. Aqui quase ao lado uma mulher só foge do mundo para dentro de um livro de capa elegante com cores de paixão. Ainda mais abaixo dois idosos molham os pés a pensar noutros tempos, aqueles em que a praia era quase só para eles e não havia esta confusão e as pessoas eram bem-educadas que se cumprimentavam e toda a gente se conhecia pelo nome.

Fui mergulhar nas águas, nadei e afastei-me da areia até me sentir de novo apenas só, nadei até as ilhas de gente serem apenas pontos indistintos, sem histórias para imaginar, naquela imensidão de mar reavaliei o meu presente e reafirmei o meu futuro e inventei-me sentado naquela praia completamente deserta olhando a areia que me escorre por entre os dedos, percebendo que cada grão é um cristal poderoso que por muito ínfimo que seja reflecte a luz e faz a praia ser dourada e que todos são diferentes e que esta praia dourada é a fronteira entre dois mundos, um que me afasta e outro que me flui e senti a atracção de me deixar levar pela maré que me podia arrastar para longe mas essa não é a minha natureza e nadei de regresso a mim.

Tenho na mala do carro uma camisa por lavar com dois dias de suor, amanhã irei resolver esse assunto…


Bruce Springsteen & Sting - The River

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 10


Hoje custa-me o dia de ontem. Esqueço rapidamente as resoluções inabaláveis tomadas no calor do acontecimento de que nada do que não se passou ontem me iria afectar e começo a deixar baixar uma sensação pesada que me sobe ou que me desce e que me turva um sentimento de esperança de encontrar acompanhamento para uma solidão que afinal pareço já não querer e ponho a cara debaixo da torneira que escorre apenas água e que desejava aberta para um fluxo imenso de cascata que me lavasse totalmente por dentro e me deixasse puro e cristalino, página em branco para ser rescrita com outras letras, letras redondas e cheias que construíssem um outro diferente.

Sacudo e sacudo-me e olho o dia de ontem e mergulho para trás no tempo na direcção de outros dias e de outras memórias e chego à meninice e a tardes passadas nas casas de amigos que não sei por onde andam e que fui perdendo na dispersão da vida e relembro particularmente as nossas buscas aos segredos escondidos nos fundos das gavetas e por detrás dos livros das estantes e que achávamos que nos apressavam o ser adulto e nós por ignorante razão queríamos rapidamente ser adultos porque seriamos então livres de escolha e livres para ter o que nos apetecesse e comer gelados de gelo de manhã à noite com tardes inteiras nos cinemas ou na praia e sermos donos de automóveis sem tejadilho que voassem baixinho sobre a estrada.

Um dia encontrámos bem escondido por entre os outros um disco de anedotas de um velho cómico e que ouvimos vezes sem conta não tanto pelas anedotas que não entendíamos mas porque falava de sexo e de palavrões e constituía um objectivo de tesouro procurado e proibido. Não me lembro das anedotas, apenas de uma que fixei quase palavra a palavra e que fui repetindo ao longo da vida e que falava de uma aula de zoologia dada no jardim zoológico por um professor que em frente à jaula das hienas, ensinava aos seus alunos que aquele era um bicho peculiar que ria muito e que tinha a particularidade de se alimentar das fezes de outros animais e de ter relações sexuais com o seu parceiro apenas uma vez por ano.

A anedota tinha o seu clímax cómico dado pelo aluno mais traquina que interpelava o professor e lhe perguntava: “Se a hiena é um bicho que só come a merda que os outros cagam e só fode uma vez por ano, ri de quê?”. Nós sabíamos o que era foder ou pensávamos que sabíamos e dizer merda dava estatuto de rebelde e nós éramos rebeldes sem controlo e donos do nosso mundo e nunca compreendi a tragédia da anedota. Imagino hoje o velho cómico a gravar a bolacha de vinil como um palhaço triste a quem as lágrimas se secaram numa cara pintada de branco e lábios evidenciados por um vermelho vivo e que fazia rir com a ironia de uma anedota que fala de bichos que desprezamos mas que se reflecte na realidade cruel de sermos nós bichos que vivemos para comer e que muitas vezes comemos a merda que os outros cagam, literalmente ou figurativamente e que procuramos não associar a felicidade ao número de vezes que fodemos por ano.

Porque é que nos rimos? De que é que nos rimos? Que parâmetros defini para ser feliz? Reparo que ainda tenho a cabeça debaixo da torneira que não se transformou numa cascata fluida de água e que não me lavou por dentro mas acordou-me de novo para o dia que será banal e sem mais história e confundo-me na imagem que vejo no espelho com um bicho peludo de olhos negros e orelhas espetadas e boca curva que se ri, que se ri de mim porque pensa que sou um palhaço triste e eu rio-me também porque serei uma hiena perversa com maior ambição.


Carmel-Bad Day

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 9

Penso nas palavras do poeta. A vida é a arte do encontro… Penso que passamos a vida à procura de encontro e a chocar de frente com o desencontro. Imagino-me muitas vezes a entrar num bar ou num simples café ou algures onde existam pessoas que nunca vi ou que vejo todos os dias sem nunca lhes ter ouvido a voz ou de ter conhecido o que as atormenta ou as apaixona, pessoas com quem me encontro no desencontro e passar por elas nesse desencontro sem perceber que aquela ali no canto ou a outra ali sentada ou aquela que até me olhou de fugida poderia ter sido a pessoa mais importante da minha vida.

Algumas pessoas importantes da nossa vida podem ser herdadas por laços de família, mas todas as outras são encontros. A vida organiza-se para nos proporcionar encontros. Somos agrupados desde que nascemos, em creches, em escolas, em casas, em ruas, em festas, em praias, em lutas, em crenças, em trabalhos, em empregos e escolhemos ou somos escolhidos. Podemos encontrar amigos, paixões e até amores e ainda outros que nos são indiferentes, aqueles com quem ficamos para sempre mesmo sem ficar ou os outros que nos foram importantes durante uma importância de tempo e que descobrimos depois que afinal não o eram ou os que se transformam de paixões em ilusões ou decepções ou que até vimos a odiar como corpos físicos ou abcessos de espírito que nos assombram.

Podemos questionar da importância do valor dos encontros quando traduzidos em frutos de amizade ou de paixão seja ela degenerativa ou regenerativa embora assuma que a paixão tem sempre um prazo de validade que não vem escrito na embalagem e que até pode ser efémera ou eterna e que o tempo que dura não se mede por padrões de linearidade. Mas eu continuo a preferir os encontros que nos ficam em amizade e que quero no meu egoísmo e na minha entrega incondicionais. Por isso tenho tão poucos amigos e tão poucos os que já não tenho medo de perder porque na sua incondicionalidade se tornaram imunes aos humores e aos rumores e aos dissabores, os que nos ouvem sem falar e nos falam depois de nos ouvir e nos criticam sem nos criticar e nos apoiam e nos empurram quando vacilamos e nos amparam antes de cair ou nos estendem a mão quando já estamos no chão.

Hoje estou aqui sem saber se me encontrarei em amizade ou em paixão ou se apenas num passar de tempo que até pode ser agradável ou de incomodos com risos francos ou fingidos de boa educação ou palavras trocadas com franqueza ou de conveniência e confesso-me ansioso como um adolescente falho de experiencia à espera de que não se notem as borbulhas e as comichões que não quero coçar e de que não sei o que fazer com as mãos, porque as mãos sempre me atrapalham num primeiro encontro e às vezes ainda num segundo e que só sei o que sinto por alguém quando sei o que fazer com as mãos.

Ligo o carro porque a Lua já há muito enxotou o Sol para o outro lado e sinto que a vida me brindou com mais um desencontro, ela, a mulher que me queria conhecer um pouco mais já não viria a este encontro ou nos teríamos desencontrado numa hora errada ou numa esquina errada ou no arrependimento de uma decisão que se tomou num impulso e que se esvaiu de vontade com o passar do tempo ou então algo diferente, algo indesculpável, algo justificável mas pouco me importa porque no final apenas sobra uma oportunidade talvez perdida ou uma oportunidade talvez ganha e arranco com o carro em direcção a um local qualquer que ainda não sei onde fica mas que terá que me preencher um tempo imprevisto.


Vinicius de Moraes e Toquinho - Samba de Bênção

domingo, 23 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 8



Gosto de fazer longas viagens sozinho. Gosto do tempo que me sobra nesse tempo para pensar sem a interferência do ruído dos pensamentos dos outros e mecanizo a condução do carro, numa velocidade constante e tento construir a estrada só para mim, afasto-me de quem me precede e ignoro quem me persegue, nunca dou pelo que demoro, parto no instante em que me desligo do mundo e mergulho em mim e chego quando o caminho acaba. Gosto de fazer viagens e passar esse tempo comigo numa oportunidade rara de comunhão e escolho por companhia ou banda sonora um qualquer posto de rádio com poucas palavras e surpresas em cada música que possa assobiar ou cantar em voz alta as palavras que conheço ou como as percebo.

Hoje fui e vim e entre ir e vir fui profissional e nada mais. O importante e relevante foi o ir e o vir e tudo o resto se passou em cenários montados e orquestrados dentro da minha cabeça e arrumei coisas velhas, desisti de alguns farrapos de ideias ou agora sem sentido ou agora sem vontade ou agora sem possibilidade ou agora sem coragem e marquei objectivos e resoluções e imaginei o dia de amanhã como um dia feliz e isso fez-me cantar em voz mais alta a canção que tocava e que estranhamente não recordo. Mantenho-me firme em me deixar seguir pelo caminho que me conduz, não mais resistir à corrente que me leva a entender tudo como o entendo e dizer o que sinto que devo no momento e na sua forma crua, sem coberturas brilhantes ou apetitosas que escondam banalidades.

Gostava de largar tudo e escolher outra coisa, seria bom se a vida fosse um menu em que se prova uns gramas de todos os pratos e ainda uns gramas dos que nos agradaram mais para tirar todas as dúvidas e por fim escolher sem receios de decepção ou indigestão. Gostava de ser personagem da minha própria história e poder contá-la com as palavras que me apetecesse, com palavras que se transformassem em realidades de apoteose ou na simplicidade de um beijo dado numa chegada ou numa partida, jamais esquecido e que sempre retorna aos lábios nos momentos de pior dúvida. Gostava de ser pedra na minha arquitectura, actor principal na minha encenação mas sou e ainda apenas eu e nada consigo vislumbrar do dia depois de amanhã.

Paro para meter gasolina numa bomba de auto-estrada. É um local por onde se passa sem passar, onde se para sem pudor de voltar a partir e interrompo os meus pensamentos porque o carro me pede combustível e o cansaço me pede um café e a fome qualquer coisa que a sacie e opto por algo mais doce e vejo no olhar de quem me serve o desalento de alguém que vê os outros chegarem para logo partirem, hospedeira de viajantes ancorada na viagem e tenho um impulso de lhe perguntar se não gostaria também de partir mas não o faço porque me iria sentir cruel em questionar possibilidades a quem não tem opções e apenas sorrio e forço com isso o retorno de um esgar na face, sem desprezo mas com desconsolo.

Chego como normalmente sem vontade de me sentir e faço por ignorar tudo o resto em troca de um bom banho. Deixo a água correr sobre a pele e lavar a distância que percorri, porque fui e voltei sem mais significado e relembro em velocidade acelerada tudo o que pensei e pergunto-me se não deveria escrever algumas coisas para não as esquecer mas sei que não o farei, há muito que deixei de escrever para mim, há muito que deixei de escrever para os outros, há muito que me ancorei nesta parte da viagem e desisti desse destino.


Henry Mancini-Pink Panther Theme

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 7


Volto à lavandaria, estou a precisar de uma camisa mais bem lavada e sem os vincos que se teimam em vincar naquelas com que luto no final de cada domingo. Vou pelo caminho a esquecer o cheiro como se pudesse esquecer um cheiro por antecipação, temos sentidos imperfeitos, gostava de os poder controlar, ver apenas as cores que me iludem, cheirar apenas os aromas que me excitam, ouvir apenas os ritmos que me movem, saborear apenas os gostos que me inebriam, sentir apenas a suavidade de uma pele no seu calor e o tremor no toque da carícia.

Hoje a empregada não está sozinha, está acompanhada de outra mulher mais jovem e sorri quando me vê como se me reconhecesse o que me surpreende porque consigo normalmente passar sem ser reconhecido e tira debaixo do balcão uma lata de um spray qualquer que espalha generosamente o que deixa no ar um cheiro a fruta madura ou flores esquisitas ou uma mistura agradável de ambas e pergunta-me se gosto mais assim e que dali o cliente nunca vai descontente. Rio-me com sinceridade e sei que o sabe porque quando me rio consigo transmitir um fio de alegria que me sai dos olhos e não sei porque não procuro mais razões para o fazer. Dou-lhe o recibo e vai lá dentro e vejo que comenta qualquer coisa em voz baixa com a outra mulher e regressa com a minha camisa suspensa num cabide tosco de arame torcido e envolta em plástico e diz-me que a nódoa saiu totalmente e que é uma camisa muito bonita e inclina-se sobre o balcão e indica-me que a imite e com os lábios quase a tocar-me nos ouvidos sussurra-me.

Sussurra-me que a deixei a pensar sobre as nódoas e que agora fica a imaginar a vida de cada cliente de acordo com as manchas nas roupas que lhe entregam e acha isso interessantíssimo e começou a ler livros sobre mistérios e psicologia e hábitos alimentares mediterrâneos e que de repente por uma coisinha de nada está mais feliz e me gostaria de conhecer melhor e que lhe perdoe o atrevimento, que não costuma ser assim impulsiva e nem sabe porque o está a fazer. Olho pela primeira vez para a mulher, olho-a pela primeira vez como mulher e noto-lhe os olhos e o rosto, sempre me fixo inicialmente nos olhos de quem olho e só depois procuro o rosto nos lábios, na forma como a pele se arredonda ou se esguia em torno do nariz e agora que a olho pela primeira vez como mulher vejo realmente a mulher e fico sem saber o que lhe dizer por que não esperava encontrar ali uma mulher, apenas alguém que não precisava apagar da memória porque nunca tinha lá estado e agora era tarde demais.

Estamos ainda ambos inclinados sobre o balcão, os seus lábios ainda suficientemente perto para lhe sentir o respirar calmo, os rostos ainda suficientemente afastados para não nos contagiarem os rubores e pergunto-lhe o que me poderia ensinar sobre os hábitos alimentares mediterrâneos e dá uma gargalhada enquanto se endireita e parece-me estranho não fazer o mesmo e vejo-a agora por inteiro e diz-me que conhece um pequeno restaurante que me poderia ensinar mais sobre esse assunto do que mil livros e que não é caro e suficientemente calmo para uma boa conversa e hoje já não podia mas amanhã teria mesmo muito prazer se eu quisesse e acabo por sorrir e dizer que amanhã não podia eu porque tinha que viajar e regressaria tarde mas no dia a seguir estava totalmente livre para um almoço ou jantar e prefere jantar porque teremos mais tempo e fica combinado o sitio e a hora a que a apanho e iremos no meu carro.

Saio entontecido pelo inesperado e surpreendido por não me ter enroscado nas minhas dúvidas, levo na mão e na ponta do dedo uma camisa lavada que já não irei vestir amanhã.


A minha amiga Hedgie que foi a minha primeira comentadora e a primeira a dizer que esta forma tonta de escrever lhe agradava, foi a minha visitante número 2222 e eu gosto de números e o que eles nos significam ou talvez não e por isso achei que merecia uma prenda sim senhora e aqui está esta musiquinha que lhe dedico porque sei que muito lutou para hoje poder também dizer de voz solta esta mensagem.


Luz Casal - No Me Importa Nada

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 6


Respiro… Sei que existo porque respiro, não porque penso, o pensamento pode ser enganador e eu confio mais no respirar sempre que tenho dúvidas levo a mão ao rosto e sinto o ar que me sai das narinas e fico confortável. Eu quero muito continuar vivo, por mim vivia para sempre e sei que o digo agora porque o corpo ainda não envelheceu o suficiente e que se envelhece para que se tudo falhar pelo caminho um dia já não queremos continuar vivos, uma espécie de salvaguarda final mas gostava tanto de fazer tanto que por vezes me perco e na indecisão acabo por não fazer nada.

Alguém me estende um jornal e diz que é de graça, fico parado a olhar alguém que é uma rapariga que mastiga uma pastilha ou algo que tem dentro da boca e não sorri apenas me pressiona com os olhos a aceitar o que me estende, aceito porque sinto que é importante para ela que o aceite e assim que o faço vira-se e procura outros que como eu estejam dispostos a aceitar e fico a ver o seu corpo que não dança enquanto se move e penso que podia aproveitar e dançar enquanto distribui os jornais, eu teria gostado de a ver aproximar-se de mim a dançar e estender-me o jornal, nem precisava de dizer nada, nem sorrir, porque entendo que devemos guardar os sorrisos para quando é importante.

Eu não gosto de jornais e fico tentado a me afastar e deitá-lo no lixo sem que ninguém veja, porque me envergonha que me vejam como desrespeitoso e eu respeito quem imprimiu o jornal e quem o escreveu e a rapariga que não dança mas que o distribui a quem passa e por quem e pelo que nele é noticia. Eu não gosto de jornais mas gosto de ver as palavras semeadas por entre as imagens e folheio as páginas e desfoco a visão até não entender as letras e admirar os padrões que se reconstroem em quadros abstractos e imagino a vida e tudo o que está por diante e por detrás e à volta como um gigantesco museu onde basta desfocar os olhos para ver as peças de arte expostas.

Foco de novo na página das palavras cruzadas e sinto pena de quem as inventa, não consigo conceber nada mais complicado do que encaixar palavras em palavras e significados e lastimo o desperdício de mais uma mente brilhante e as contingências que a conduziram aquele trabalho e acalento-me dizendo que o faz pelo prazer do jogo e que é paga para fazer o que gosta e que eu sou pago por fazer o que tenho que fazer e que gostaria de fazer outra coisa mas não tenho coragem e reparo que o sinonimo de sentimento forte para com o próximo com quatro letras tanto pode ser amor como ódio e volto a perguntar-me porque estarei eu de novo a tentar encaixar justamente aquelas palavras.

Procuro a secção de necrologia e vejo quem morreu ontem e anteontem e na semana passada e há um ano atrás, quem resta informa quem não sabe e agradece a quem soube, normalmente não reconheço ninguém mas sempre lhes digo umas palavras baixinho porque acredito que quando se morre apenas se morre e não nos fica a pairar por aí uma alma ou um corpo incorpóreo a zelar pelo que se deixou e assim aquelas fotos são a ultima oportunidade de quem morreu de eu as conhecer e lá sussurro um muito prazer e tenho realmente muita pena de não termos tido a oportunidade de poder conviver e partilhar ideias mas a vida é mesmo assim e um dia morre-se.


Alesha Dixon-The Boy Does Nothing