domingo, 1 de março de 2009

Gritos Mudos



Saber que alguém vai morrer e não poder fazer nada para o evitar será sem duvida das experiencias mais angustiantes por que poderemos passar. A morte é uma consequência da vida e quase todos nós já tivemos que acompanhar alguém na doença até ela chegar, familiares, amigos ou conhecidos. Não são estes os casos a que me refiro.

Falo de perceber à distância o caminhar de alguém em direcção à morte, assistir a um afogamento no mar ou escutar os gritos no meio de um incêndio, sem poder lá chegar, ouvir via rádio o desespero dos tripulantes de um avião que se despenha ou de um navio que se afunda.

Este é um mundo novo, com novas camadas de realidade, um mundo onde pessoas anónimas expõem os seus pensamentos, as suas dores e alegrias a desconhecidos, sem saber se alguém as nota ou escuta. Algumas destas pessoas gritam por ajuda, porque estão num processo de degradação emocional e psíquico que as empurra por um caminho que as conduz à desistência.

Este é um oceano onde navegamos sem instrumentos, sem estrelas mais brilhantes que nos direccionem, entramos e saímos de portos de abrigo emocionais limitados pelas nossas capacidades preceptivas de entender formas de expressão de quem não conhecemos e o que ai fazemos ou mais importante não fizermos pode ter a consequência de mexer na pedrinha catalisadora da avalanche do desespero definitivo.

Este é um tempo de novos Adamastores e de heróis tontos que vagueiam sem direcção nem direito a epopeias.
video
David Bowie-Space Oddity

2 comentários:

mf disse...

No meu pouco tempo de 'blogger' tenho-me apercebido de que este espaço virtual é tão humano como o espaço real. E já encontrei de tudo, incluindo gritos de ajuda. De quem sente tanto a solidão que só aqui encontra quem oiça. Ou não.
Todos temos os nossos Adamastores. E haverá sempre heróis tontos. Como em todas as histórias de todos os tempos. Acho que ser Homem é isso: às vezes ser frágil, às vezes ser herói tonto, às vezes ser herói a sério.

Manuel de Jesus disse...

Sem duvida que este mundo é tão humano como o real, o que o torna diferente é a componente do anonimato, as pessoas que me visitam não sabem quem sou eu não sei que são, não sei como lhes toco, não sabem como me afectam pelas sua acções ou inacções e sobretudo estarei sempre fisicamente inacessível para elas. A ideia inicial deste post era falar sobre a possibilidade de alguém anunciar o suicídio online e da impotência dos outros de o impedir, depois achei que isso era tentar demasiado o “mestre relojoeiro”;)