segunda-feira, 13 de abril de 2009

Esplendor



Algures a meio caminho do destino existe um bar de desencontros. Pode-se beber uma simples cerveja, um café ou misturas de muitos álcoois. Um balcão a todo o comprido, bancos altos, mesas desalinhadas, barman em formol, baratas sem pudor e uma juke box a um canto. O típico bar de filme, com cheiro de tabacos, suor e perfume barato.

Putas e mulheres sem mais nada a perder confundem quem entra pela primeira vez, os outros conhecem as regras do jogo, praticam os mesmos rituais de sempre, as trocas de olhares, cigarros apagados a meio, pequenos gestos e conversas sem intuitos de salvação. De vez em quando um casal levanta-se e sai para voltar desemparelhado no dia seguinte, ou simplesmente mais tarde na noite.

Sempre há os que nada mais fazem alem de encher copos vazios do seu esplendor, restos de vida flutuando de bar em bar à espera de um outro dia, de serem escolha de alguém ainda mais perdido e voltarem a ser por um instante, por um lapso de alternativa uma parte transpirada de outro corpo.
video
Andreas Johnson-Glorious

16 comentários:

forteifeio disse...

As putas também são mulheres. Essa troca de fluidos é fisica e psicológica, e esses ego precisam de esplendor para se sobreviver.

Gosto dessa música e já conhecia, comprei um cd só por causa da dita.

Marisa disse...

E agora, no fim de ler o post, lembrei-me da "Canção de Engate", do Variações...

LBJ disse...

Forteifeio,

“Putas e mulheres sem mais nada a perder “ e não putas e mulheres. Infelizmente grande parte das mulheres que têm que recorrer à prostituição fazem-no porque assumiram que não têm mais nenhuma alternativa e quem nos somos nós para o julgar.

O refugio no esplendor que se esvazia de um copo é sobreviver mas não é continuar a viver.

A música, ouvi pela primeira vez à dias e é daquelas que nos entra de imediato, tinha o texto meio escrito e saltou o titulo.

LBJ disse...

Marisa,

O António Variações era um louco antecipado no tempo e infelizmente morreu disso, para mim teve tanto de génio como de banal, esta canção, a começar pelo titulo, sim é genial.

Merece ser transcrita a tua lembrança:

Tu estas livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos

Tu estas só e eu mais só estou
Tu que tens o meu olhar
Tens a minha mão aberta
À espera de se fechar
Nessa tua mão deserta

Vem que o amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que o amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te das

Tu que buscas companhia
E eu que busco quem quiser
Ser o fim desta energia
Ser um corpo de prazer
Ser o fim de mais um dia

Tu continuas à espera
Do melhor que já não vem
E a esperança foi encontrada
Antes de ti por alguém
E eu sou melhor que nada

Pronúncia disse...

Ao ler este texto a primeira coisa que me veio à mente foi... solidão!

Gostei muito do texto, posso estar errada, mas entendi-o como uma metáfora que descreve, isso mesmo, a tristeza e o desencanto da solidão, especialmente quando é imposta e não uma opção.

Adorei a música, não conhecia. Vou plagiar e pô-la a tocar lá no meu canto superior direito. ;)

LBJ disse...

Pronúncia,

Às vezes os dedos fogem-nos, tomam vida própria e amontoam palavras que se refractam apenas na sensibilidade de pessoas especiais.

Fico contente por teres gostado do texto e o teu canto superior direito só honra a minha escolha:)

Pronúncia disse...

;)

ipsis verbis disse...

Uma metáfora um tanto ou quanto, underground, mas que faz todo o sentido. Fez-me lembrar o "Naked Lunch" do W. Burroughs, mas com menos droga. :)

"restos de vida flutuando de bar em bar à espera de um outro dia"

LBJ disse...

Ipsis,

Não li o Naked Lunch, mas pelo que sei da obra parece-me que lê-lo pode ser um interessante objectivo de vida:)

Adoro o Tom Waits, aliás já deves ter reparado por posts anteriores:), tenho andando à procura de um vídeo decente desta canção para usar, porque foi ela que me fez descobrir este musico extraordinário.

Nunca tinha ouvido com muita atenção a letra e achei interessantíssimo algumas semelhanças com a primeira parte do meu texto no que diz respeito a retratar um ambiente funcional de decadência, claro que quem sou eu para me comparar ao Tom e a esta fabulosa e hilariante letra.

The piano has been drinking, my necktie is asleep
And the combo went back to New York, the jukebox has to take a leak
And the carpet needs a haircut, and the spotlight looks like a prison break
And the telephone's out of cigarettes, and the balcony is on the make
And the piano has been drinking, the piano has been drinking...

And the menus are all freezing, and the light man's blind in one eye
And he can't see out of the other
And the piano-tuner's got a hearing aid, and he showed up with his mother
And the piano has been drinking, the piano has been drinking
As the bouncer is a Sumo wrestler cream-puff casper milktoast
And the owner is a mental midget with the I.Q. of a fence post
'Cause the piano has been drinking, the piano has been drinking...

And you can't find your waitress with a Geiger counter
And she hates you and your friends and you just can't get served without her
And the box-office is drooling, and the bar stools are on fire
And the newspapers were fooling, and the ash-trays have retired
'Cause the piano has been drinking, the piano has been drinking
The piano has been drinking, not me, not me, not me, not me, not me

ipsis verbis disse...

Aconselho-te a lê-lo, então. :) Se é ou não um objectivo de vida, isso se calhar já terá a ver com as expectativas que cada um cria. Li-o há já algum tempo sem conhecer nada do autor/homem e achei-o completamente surreal. Anos depois, vi o filme homónimo, do grande realizador David Cronenberg que entre outros grandes filmes, realizou "A mosca", "eXistenz" e "Videodrome".
(e já agora, também aconselho o filme)

O Tom Waits lembra-me sempre este tipo de ambientes, ou então são estes ambientes que me fazem lembrar do Tom.
Eu sei que poderia ter colocado um link para o nosso Tom português, mas este teu texto, fez-me lembrar, talvez pela jukebox, um bar norte americano...

LBJ disse...

Ipsis,

Do David Cronenberg que eu me lembre, só vi a Mosca:(

Aqui há uns anos quando trabalhava em Benfica, almoçava num restaurante onde o Jorge Palma costumava parar, um dia estava ele na mesa ao meu lado. Com um amigo a comer amêijoas e completamente ébrio, nem conseguia abrir os olhos, nunca tinha pensado nele como o Tom Waits Português, mas tens razão, embora não deixe de ser um génio no seu estilo e de pleno direito, gosto muito da musica que linkaste.

ipsis verbis disse...

Tens que te actualizar no que diz respeito aos filmes desse senhor, porque dos que referi, quanto a mim, A Mosca, é dos mais fraquinhos... Em relação ao Jorge Palma, pela sua música e pelas suas letras, já é um gajo fantástico. Como pessoa, não sei, mas se calhar também o é. E eu gosto de acreditar que sim.

A música é linda, é.

:)

Princesa (des)encantada disse...

Tem razão a Pronúncia ao falar em solidão. Mas mais que solidão dos outros, senti aqui solidão do próprio, vazio de si mesmo, desencantamento, alheamento.

Enquanto se está aí, nesse "bar de desencontros", só se pode mesmo encontrar "alguém ainda mais perdido". Esse não é o caminho. Porque só se encontra sentido e destino quando sabemos, por nós, o que somos, o que queremos, por onde vamos. Aí, entramos inevitavelmente em outros bares, onde encontramos, eventualmente, alguém que conserva ainda algum do seu esplendor para nós. E nós com o nosso fazemos, de repente, dos dois copos meios vazios, um copo cheio de esplendor.

Há que acreditar.

Belo texto. :)

LBJ disse...

Ipsis,

Sim a mosca é fraquinho (ainda por cima com um actor cabotino) e se calhar por isso nunca liguei muito ao Cronenberg.

O Palma como te disse e pelo que pude observar está-se a cagar para o que possam pensar dele, não liga nenhuma a ser uma figura publica e sim pareceu-me um gajo fantástico.

LBJ disse...

Princesa,

Repito o comentário que fiz à Pronúncia.
Às vezes os dedos fogem-nos, tomam vida própria e amontoam palavras que se refractam apenas na sensibilidade de pessoas especiais.

Acreditar é sempre a resolução de metade do problema.

Obrigado.:)

Princesa (des)encantada disse...

:) (com vénia...)