quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Diário de um louco impoluto – Dia 25


Sinto que os meus dias se transformam com demasiada facilidade em semanas e depois em meses e ainda em anos. Passo demasiado tempo a ver o tempo passar e tenho falta desse tempo que me passa. Por muito que me esforce não consigo fazer parar o relógio, parar a contagem dos números que se sucedem, 1, 2 , 3, 60 e mais 1 e mais 2 e mais e mais. Não me sinto velho por ver o tempo passar mas sinto-me com menos tempo, apenas menos tempo para fazer tudo o que queria ainda fazer.

Tenho inveja daqueles que conseguem transformar o tempo em fatias de oportunidade para fazer o que decidem fazer, tenho inveja dos que não dão tempo à preguiça e ao ócio e à doçura de deixar a água escorrer por entre os dedos enquanto miram as rugas da cara no espelho. Tenho inveja daqueles que organizam a vida em momentos de fazer isto e aquilo e que não cedem à tentação de não fazer ou de fazer outra coisa qualquer. Tenho inveja dos que já fizeram e ainda tem tempo para fazer o que ainda não fiz e que já penso não ter tempo para fazer.

Amanheço com certezas de vontade e adormeço com vontade de certezas e no entretanto vou-me indo sem me ir ainda com a desculpa de que ainda há-de haver tempo para tudo e o tempo matreiro deixa-se escorregar devagarinho como uma sombra que desliza num lago pardacento ou como um fio de areia tão ínfimo que me parece apenas o dourado de um cabelo suspenso numa ampola. Já não espero que o tempo me perdoe, tenho consciência e dor da falta que ele me faz e da forma como o maltratei com a minha manha de não querer, de não me apetecer, de não saber como lhe pegar.

Eu às vezes sinto que a minha preguiça é mórbida, como um vicio que me enrola num torpor e é só mais um bocadinho que já lá vou e é só mais um bocadinho que já faço e é só mais um bocadinho que já começo e é só mais um bocadinho que já acabo e depois de repente já não há tempo para ir ou para fazer ou para começar ou para acabar, não há tempo paciência, mas soube tão bem não ir e não fazer e não ter que acabar o que não comecei e amanhã haverá outra vez tempo.

Que não me falte o tempo de não ter tempo para ter tempo de voltar a ter tempo outra vez e porque o tempo me estica e me encolhe nos maus e bons momentos e parece-me enorme enquanto me custa e ínfimo enquanto me agrada e a mim agrada-me a preguiça e custa-me a obrigação e sempre amanheço com certezas e adormeço com vontades e no entretanto escoou-se mais um fio e esgueirou-se mais uma sombra e o dourado vai ficando mais grisalho e o lago mais escuro porque o tempo teima em me querer cobrar a sua taxa que afinal pago em tempo com tempo.

Gostava que hoje fosse ainda ontem. Gostava que este frio Outonal fosse ainda uma brisa fresca de Verão. Gostava de voltar a ter aquele tempo que perdi por aqui e por ali e que perdi sem saber porquê, apenas porque sim. O tempo não espera por nós ou aprendemos a caminhar ao seu lado ou a correr atrás dele. Falta-me sobretudo tempo para transformar em palavras os meus dias que se vão passando em semanas e depois em meses e ainda em anos e mais que esse tempo que passou faltam-me as palavras que não ficaram, aquelas que deixei por escrever e as outras que perdi na memória da erosão do amanhecer. Não lamento o tempo que não tive, lamento o tempo que não fui capaz de ter e peço perdão às palavras que deixei perder, peço perdão por não lhes ter dado tempo, faltam palavras às minhas rugas, faltam palavras às minhas dores, faltam palavras aos meus júbilos, faltam palavras ao meu tempo.


Edith Piaf - Non, Je ne Regrette Rien

8 comentários:

Storyteller disse...

Finalmente há actualização!
Sei que passo a vida a dizer a mesma coisa, mas é verdade. Como gosto de te ler, custa-me estar assim tanto tempo sem textos teus.
Mais uma vez, excelente texto. E extraordinariamente bem acompanhado pela música. Grande Piaf!
Beijos lambuzados

Fátima disse...

Este post é muito bom!

Revi-me na maioria das palavras contidas nele. Sinto tanto que deixo o tempo passar e nada faço para o evitar... Pergunto-me tantas vezes o que é que fiz desse tempo? Se o preenchi com história ou deixei simplesmente passar...

Vani disse...

Tb sinto o tempo a passar e a aterrorizar-me. Mas, nunca é tarde demais para nada. Especialmente com a nossa idade, porra. Mas tu tens 120 anos ou quê?...

AUFDERMAUR disse...

Gostei imenso deste texto mas gostei acima de tudo dos teus pensamentos. Ainda bem que paraste por uns momentos para lutar contra a tua preguiça mórbida, para reflectir sobre a tua passagem temporal por esta vida e por teres a generosidade de partilhares um pouco de ti com todos aqueles que seguem as tuas palavras.
Eu também cedo facilmente à tentação de deixar o tempo escapar, de o ver passar à minha frente sem que eu lhe chegue sequer a tocar... A maior parte das vezes nem chego a tentar, limito-me a acenar enquanto o vejo a passar, como quem lhe diz "Vai, segue o teu curso, não te prendas a mim que eu jamais me prenderei a ti". E eu gosto de o ver passar como quem faz um passeio de carro e se deleita a ver as paisagens passar, a mudar. E aí é que reside a grande diferença entre nós, tu gostavas de o conseguir dominar, sentes-lhe a falta, ficas saudoso e nostálgico por ele te escapar... eu não, nunca lhe senti a falta porque nunca lhe dei valor. Sei que um dia ele vai acabar e encaro isso com a maior das naturalidades, sem nenhum pingo de aflição ou dor. É o curso natural da vida e nós somos apenas os seus espectadores. Por vezes o passo é mais acelerado e faz-nos tropeçar, noutras é tão calmo que nos faz entorpecer e adormecer e às vezes, nalgumas poucas e raríssimas vezes, tudo se encaixa e sintoniza e sentimos que agarramos a nossa vida, que agora é que é, que finalmente alcançamos o que sempre desejamos e planeamos, que agora sim estamos em controlo. Mas não estamos nem nunca estaremos e muito se ilude quem assim pensa. A vida é como um passeio de carro, apenas sabemos onde entramos, depois há os que sabem para onde querem ir e os que preferem andar à deriva, há os que colocam mais o pé no acelarador e os que são mais amigos do travão, há os que param mais vezes numa área de serviço para descansar e os que só querem chegar ao seu destino final, há os que perseguem rigidamente o caminho traçado e os que, ao ver algo inesperado e que lhes capta o olhar, fazem inversão de marcha e permitem que tudo possa mudar, há os que viajam sozinhos, os que levam companhia e os que quando conhecem um estranho interessante o convidam a entrar. E no meio disto tudo o tempo continua a passar, independentemente dos nossas escolhas e caminhos ele continua e continuará sempre a passar...

PS- Para a próxima pensa duas vezes antes de me pores um tag que eu quando começo sou como o tempo, ninguém me consegue parar :)

Anónimo disse...

Olá LBJ,
Gostei muito.

A quarta dimensão sempre me siderou. É-me dual. É-me tão exógena quanto me rege implacavél. Há dias que soam a "aviso de chamada em espera", outros em que ardem em menos de um fósforo, mais rápidos que o sopro. Há tempos em modo "alfa pendular", balouçantes e enjoativos, sem apeadeiros. São ciclos numa cadência de vida própria que não acompanha síncrone os nossos sinosoidais.

Mas, quando num caminho vamos por aí, se a história continuasse antes da escolha -ou da inércia- seria eu mais Eu ou numa conspiração cósmica me reencontraria mais à frente no mesmo traçado e voltaria a mim? Tento escutar os "eus" noutra dimensão a questionarem-se infinitamente das paragens sobre os meus paralelos. Hoje sinto-me tantas histórias desdobradas nos hiatos do tempo que me separam delas.
Talvez por me ter reiterado nas escolhas, no corpo , nos pares e rostos neste presente que me vou apaziguando com o meu palco.

Um beijinho

Morticia

Paula disse...

Não me arrependo de nada do que fiz!Arrependo-me de muito que não fiz!!!

Beijinhos (gosto muito de ler-te!)

Gata2000 disse...

Como a Piaf só me arrependo do que não fiz, apenas porque não sei o que teria concretizado, mas a vida é feita de pedaços de nada, de preguiça e de momentos em que somos obrigados a agir, do tempo que passa sem fazermos nada e daquele que utilizamos para algo.
Desde que no fim do dia te sintas bem contigo, que se lixe o tempo que perdes.

Luna disse...

Porque me falta o mesmo que a ti, apenas tenho mais sorte por vir aqui buscar as palavras que me falta(ra)m.
Passo tanto tempo a ver o tempo passar que acredito ter mais fases lunares do que as habitualmente conhecidas, em ciclos que se (des)encaixam tantas vezes.

Adoro ler-te. E ainda bem que não sou a única, dá-me, para além da segurança de seres real, o conforto de que ainda percebo o que se vai passando na realidade (terrestre) uma vez que ando sempre na lua.

Beijos de luar