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terça-feira, 7 de julho de 2009

Serpenteios


Há quem diga que sou cruel.

Há quem ainda diga que fui a serpente que invadiu o Éden, o primeiro intriguista, o primeiro motivador, o primeiro empresário, o primeiro politico, o primeiro entertainer, talvez sim ou talvez não, mas não fui eu que criei as maçãs, nem a capacidade de poder pecar nem a fome do desejo. Eu sou apenas um egocêntrico semeador de dúvidas.

Qual o padrão com que se mede a dimensão de um desejo?

Qual a velocidade com que se dilui a sedução numa solução de realidade?

Qual é a cor com que brilha uma ilusão?

Qual é a velocidade com que se extingue uma paixão numa estrada de ausência?

Qual é a forma com que se reveste um desencanto?

Qual é o som de um coro de lágrimas de desalento?

Qual é a imagem que sobra de uma memória dum futuro incerto?

Qual é o peso da solidão de um cheiro que se esvai?

Sibilo por entre preconceitos, transformo em gelo a incapacidade de sentir, num empedrado de emoções, vivo o reviver do teu passado e deixo-te morrer mais um dia.


Duffy-Live and let die

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ervas daninhas? Morangos silvestres?


Eu sou velho pela memória dos teus impares, eu sou criança pela memória dos meus pares.

Eu sou a soma e a diferença de todos os cinzentos que hão-de existir. Eu não criei o homem, mas ensinei-lhe a arte do chocolate e de juntar ovos com açúcar e de destilar álcool a partir de frutos e bagas e cactos e sementes e tubérculos e inventei o ciúme e as danças que se dançam sem tocar os corpos, eu sou o mestre soprador de ventos e brisas de ideias e as ideias que sopro, são sempre boas e más, tal como o amor e o ódio são o mesmo sentimento visto de pontas diferentes da corda, as ideias que dou são dádivas, o que se faz com elas não sou eu que faço, eu apenas observo, não sou sagrado nem profano, não quero ser venerado, nem ignorado, nem odiado, nem amado até porque o amor e o ódio são o mesmo sentimento visto em momentos diferentes da história, todo o ódio regenera em amor se não o deixarmos consumir-nos, todo o amor degenera em ódio se o deixarmos consumir-nos.

Eu nunca sou a força que faz rodar a moeda, nem a face que se oculta, nem a face que se mostra, mas posso ser a moeda, gosto de ser a moeda. Na realidade ainda sou uma criança, não tenho objectivos, apenas interesses momentâneos, agora interesso-me por ti que me lês, estou a soprar-te ao ouvido uma ideia, uma pergunta, uma opção, baixinho, suave e vou esperar a tua escolha com um sorriso antecipado nos lábios.

Onde estás tu quando eu sonho?


Teardrop explodes-When I dream

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Midwinter daymare – Entering Puck



Há dias de inverno em que a luz do dia se ofusca de cinzentos, filtrada por negras nuvens que se escurecem e teimam em não se querer chorar em lágrimas de chuva. Nesses dias as criaturas que vivem na noite abandonam os buracos e saem das florestas sem recear os medos ou os homens.

De tempos a tempos as fadas e outros seres de mistério e poder, sem se saber porquê, apenas movidos pela vontade própria decidem revelar-se às arvores ou a quem lhes apetece, aos bichos rasteiros, animais colectores ou predadores e até aos seres que se intitulam de humanos.
Fizeram-no ao bardo poeta, num momento de generosidade, sobre a forma de sonho numa noite quente, sem brisas. Mostraram-se ao poeta em formas belas inspirando arte escrita sobre a forma de comédia.
Fizeram-no ao Veneziano adoptado, num momento de encanto, sobre a forma de fábula céltica em tempo de guerra. Mostraram-se ao contador em formas de enigma inspirando arte pintada sobre a forma de lenda.
Fizeram-no ao mestre dos sonhos, num momento de trapaça, sobre a forma de personagens secundários numa história principal. Mostraram-se ao sonhador em formas de negro inspirando arte gráfica sobre a forma de fantasia.
Mas as fadas e os faunos e os duendes e os trolls e as banshees podem assumir a forma que quiserem e é raro que se mostrem como criaturas de sonho e é raro que nos inspirem bons sentimentos, preferem mais ser personagens de pesadelo, elementos manipuladores que nos puxam os cordelinhos das emoções só por que lhes caímos em desgraça e nem poderemos entender os seus objectivos pelo menos com nossos padrões de compreensão.

Foi num dia deste inverno em que me escureci da cor do céu, que o vi pela primeira vez, um ser pequeno, a dar-me pela cintura com pernas de bode e corpo de macaco, de rosto sorridente, que mudava de face por entre o feio e o belo, pequenos chifres e orelhas pequenas e pontiagudas. Esfreguei os olhos na dúvida da aparição e ele não desapareceu e disse-me que era Puck o artista maldito, servo de confiança do rei Oberon e amante da rainha Titania e agora meu conselheiro para os dias difíceis que me iriam visitar, para não me preocupar que ia ser o meu melhor amigo. Tentei sacudir-me do sonho, mas era dia e não dormia, era finalmente a loucura a conquistar o seu direito de me possuir.

“Eu sou tanto o produto da tua imaginação, como tu és da minha, podes aceitar-me como um incomodo, uma comichão num sitio que não podes coçar em público ou uma dor que começa na cabeça e vai acabar no recto ou podemos ser parceiros, amigos, companheiros de folia e bebida e comida e festa, eu peço pouco e dou muito, dizem que dou sorte a quem me aceita e dizem que posso ser mau, maldoso, trapaceiro, enganador, traiçoeiro mas na realidade esta é a minha natureza, estarei aqui para ti, eu peço pouco e dou muito, agora apenas quero um pedacinho do teu espaço, ambiciono voltar a interagir com os homens, quero contar as minhas histórias, quero partilhar os teus leitores, quero que me libertes, que me venhas buscar a Dublin, serei o lúpulo no fundo de uma pint de Guiness, sabes que o lúpulo tem sexo e na Guiness o lúpulo é sempre feminino, eu posso ter muitas formas e nem sempre me apraz ser homem”

Acabei por ceder à minha loucura e fui a Dublin, queria libertar-me da minha imaginação delirante e bebi muitas Guiness e não o vi, nem o senti e regressei convencido que estava são, mas estava errado e agora este espaço deixou de ser só meu e sei que não voltará a ser o mesmo, o meu pesadelo acordado começa ou termina hoje…

The Pogues With The Dubliners-Irish Rover