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domingo, 11 de dezembro de 2011

Algures por aqui

Sinto a falta de rabiscar qualquer coisa numa folha de papel, algumas palavras que me levem por aí, mesmo sem ideia de caminho nem objectivo nem tempo de chegar.

Há dias atarefávamo-nos para sair, estávamos atrasados e íamos finalmente para longe quando o telefone tocou. Não foi um daqueles momentos em que estamos quase prontos para saltar e algo nos interrompe e sentimos que o instante se perde e que tudo o que poderia ser se limita a ser de uma outra forma, banal, vazia, sem razão para memória, não o telefone simplesmente tocou e eu continuei atarefado para sair e tu atendeste.

Tenho a mania de sempre que estou com alguém que conversa ao telefone contar os sins e os nãos e ver quem ganha, de algum modo acho que ponho as minhas esperanças no futuro da humanidade neste jogo simples entre palavras de afirmação ou cedência e de negação ou resistência e tantas vezes lamento que aquela pessoa que acabou de desligar e volta de novo a sua atenção para mim não perceba que o meu sorriso e o meu encolher de ombros escondem decepção e que esperaria dela uma outra coisa, outra forma de estar ou outra atitude perante algo que embora não saiba o quê, imagino poder ter sido diferente.

Naquele dia, há dias, o telefone tocou e tu atendeste e não houve nem sins nem nãos, apenas um silêncio que se foi prolongando como um elástico que se estica e se estica e se estica até ao momento em que sabemos que se o continuarmos a esticar nos vai saltar ou partir em chicote nas nossas mãos e antecipamos essa dor e eu parei de estar atarefado para sair e olhei para ti e vi os teus olhos se encherem e pressenti o soluço engasgado soltar-se no ar.

Depois deixaste jorrar a tua raiva, deitaste para fora os sentimentos de injustiça e de impotência e de como somos insignificantes perante a crueza do inevitável e eu fiquei por ali sem mais importância nas tarefas e ausente em palavras de consolo e sem saber o que fazer com as mãos que se tornaram incómodos estendidos nas pontas dos braços e esperei que voltasses a ser rocha na tempestade e só depois te abracei, de novo ancorado na tua força.

Acabámos por vir finalmente para longe e estou algures por aqui com sede de palavras e de ficar ainda mais um pouco mas esta vida que se esgota e nos cobra a saudade de tantos em soluços e lágrimas também nos puxa e agora é hora de nos atarefarmos para sair e voltarmos para perto antes que fiquemos atrasados ou que o telefone toque.

Leonard Cohen - Take This Waltz

sábado, 1 de janeiro de 2011

Na Aurora de um Novo Ano.


“Um dos maiores erros da humanidade é passar tanto tempo em contagens decrescentes…”

Ora cá estamos em 2011, numa nova década e já maduros de vida neste século. Impõem-se neste dia fechar balanços, tomar resoluções e por entre dentadas em uvas encarquilhadas almejar feitos e factos. No que toca a este Blog, não se pode dizer que o ano que se encerrou tenha sido prolifero e sei que tenho estado ausente e antes de mais impõe-se um agradecimento aos que por aqui foram passando e até um pedido de desculpas por essa minha ausência que realmente se acentuou nas últimas semanas. Sem promessas nem ameaças irei ser mais regular e quem quiser por cá continuar a passar será bem vindo e se não for por pérolas de sabedoria ou literárias que seja por graça ou por amizade.

Ora cá estamos no Ano de 2011, que será sem dúvida um Ano difícil, um ano que se inicia com certezas de incerteza e que recomendo se gaste calmamente com a confiança que outros melhores ainda virão. No que me diz respeito e tendo sido 2010 um ano de transição, não me fiz novas promessas nem enviei às estrelas ou outros rebentamentos piscantes, desejos de coisas ou outras loisas, apenas vou procurar ser feliz e quando digo feliz não estou a falar daquela felicidade bacoca de superficialidade de falsas aparências que algumas pessoas acham que têm que continuamente anunciar ao Mundo, não, estou a falar da felicidade que se consegue na realização pessoal e no convívio com amigos e na partilha de pele com amantes.

Neste Ano de 2011 congratulo-me pelos que estão, Bem Hajam!

Desejo a todos que neste novo ciclo, nesta nova contagem nos consigamos melhorar.


The Cure - Lullaby

terça-feira, 27 de julho de 2010

Lua plena


Esta Lua que se me enche não me faz crescer pêlo ou presa ou uivo ou sede rubra. Esta Lua que se me enche desperta-me a vontade do esquecer e da nudez e do suor e da paixão e de ser e de ti. Esta Lua que se me enche preenche-me.

Quero a minha Lua cheia a dançar num reflexo de mar sereno neste calor que estende o dia na noite. Quero o cálido pálido dos seus raios a brilhar-te nos olhos e no cabelo e na gota de suor que te escorre dos seios. Quero o seu baptismo num beijo e a sua maldição num orgasmo. Quero a minha Lua cheia bem cheia do teu cheiro em contraste com o moreno da cor da pele que se estende suave dos teus ombros. Quero cobrir-te do seu brilho com a minha sombra.

Esta Lua que se me enche saúdo-a com silencio na partilha de um abraço e com canção na partilha de um espaço. Entre ritmos na contraluz e travo de ébrio ligeiro rodopiamos na simula de um tango e desejos de outra latitude. Esta Lua que se me enche e preenche e me fascina e te aproxima e nos renova na promessa de um novo ciclo plenos de Lua.


Waterboys - The Whole of the Moon

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Não me apetece…


…Voltar a correr atrás de quimeras e outros bichos com asas e penas coloridas e sonhos suaves que se podem comer sem risco de engordar. Não me apetece escrever com data marcada palavras bonitas ou nada que se pareça com dever. Não me apetece ter agora nada mais do que vontade de mim. Não me apetece sentir qualquer pudor em ser egoísta e esquecer por alguns instantes que a minha importância se relativiza pela importância de quem me é mais importante. Não me apetece saber que não sou Sol, fonte e suficiente para todos os que quero e que ainda sou por obrigação algo que não quero ser para outros que não quero que façam já ou ainda parte de mim.

Não me apetece seguir regras, seguir horários, seguir rumos, seguir costumes, seguir outros filhos, seguir o vento, seguir a fome. Não me apetece dançar por fora do ritmo que sinto no corpo que ainda sabe escutar. Não me apetece ter que justificar os meus apetites ou a minha falta deles. Não me apetece estar onde estou e não estar noutro lado. Não me apetece saber que me falta coragem ou sobra consciência de largar tudo e ficar nu num lugar onde nada mais me falta que o que me sacia.

Não me apetece dores nem sedes. Não me apetece acordar ou adormecer nalgumas manhãs. Não me apetece o escuro sem a tua luz. Não me apetece rasgar o passado nem antever o futuro. Apenas me apetece não me apetecer.


James-Sound

segunda-feira, 22 de março de 2010

Comboios


Sinto saudades do tempo em que os comboios eram enormes na minha perspectiva de menino e me deixavam a pensar que eram coisas zangadas, veneráveis e respeitáveis porque faziam barulho e fumo e cheiravam a cheiros que eu não cheirava em mais lado nenhum. Sempre gostei de comboios. Sempre achei que um dia como o de hoje poderia procurar um comboio que me levasse para um outro sitio qualquer. Sempre imaginei que um dia chegaria de gabardine cinzenta e chapéu de aba, elegante e distinto de mala imaculada de cigarro no canto da boca como num filme negro sem outras cores que não as que derivam do branco e do preto e que estaria parado na gare um grande comboio, qual ser ou máquina mitológica à espera que eu chegasse, o tal passageiro especial à volta de quem toda a acção se desenrola e que calmamente entraria a bordo com um olhar enigmático tiraria o chapéu sorrindo para os outros já sentados que espantados com a minha presença nada diriam, pela sua condição de meros figurantes e que me iria sentar no melhor lugar da carruagem junto à janela depois de ter depositado em segurança a mala num compartimento à altura da minha cabeça. O comboio partiria e tudo o resto seria uma aventura cujas dificuldades apenas serviriam para demonstrar as minha capacidades e o final nada mais do que seria feliz.

Afinal na vida real existem apeadeiros ou locais por onde os comboios passam nem sempre parando mas eu sim estou aqui parado e o pesado casaco já me fez suar debaixo da chuva quente desta meia estação e os cigarros que fumei são vazios de encanto e cheios de nicotina que me faz tossir e cheirar mal e tenho pousada uma mala velha cheia de roupa e outras coisas que lá enfiei sem critério e espero que ainda pare por aqui um comboio em breve, porque nem sempre param, porque este é um mero ponto de passagem onde esperam pessoas vulgares, pessoas de apeadeiros, pessoas que estão num meio entre destinos que não é tão importante para que todos os comboios lá parem. Estou num meio entre destinos e tenho no bolso um bilhete de comboio que gostava que me garantisse passagem segura a um outro sitio qualquer que não sei onde fica e não quero saber como lá chegar mas espero que o comboio lá me leve, seguro sobre os carris assentes por quem aprendeu antes de mim o caminho que leva a esse outro sitio qualquer.

Sei que passei por louco quando disse ao cobrador que queria um bilhete para um outro sitio qualquer e nem me sorriu quando perguntou se queria que esse outro sitio qualquer fosse outro longe ou outro mais perto. Longe o mais longe possível, quero que o que me custou a partir me compense o que vai demorar a chegar, quero ainda poder apreciar a viagem, sem tempo ou pressa, ver a paisagem até que me pareça que é ela que se move no meu referencial parado num ponto para onde o ponteiro do relógio apontou e não mais se mexeu. Não me importa as etiquetas de covardia e desprezo com que vão classificar a minha fuga, aliás já nada me importa, quero ser neste comboio o mesmo passageiro insignificante que fui na vida, quero não ser notado nem pelo meu riso nem pela minha lágrima, já não me importa sequer ser memória, quero apenas poder embarcar depressa no comboio que me leve aquele outro sitio qualquer sem nunca lá chegar até que a morte da vida me separe.


The Clash - Train In Vain

terça-feira, 9 de março de 2010

Esperarei por ti…

…O tempo que for preciso.

Skylark
Have you anything to say to me
Won't you tell me where my love can be
Is there a meadow in the mist
Where someone's waiting to be kissed

Oh skylark
Have you seen a valley green with spring
Where my heart can go a-journeying
Over the shadows and the rain
To a blossom-covered lane

And in your lonely flight
Haven't you heard the music in the night
Wonderful music
Faint as a will o' the wisp
Crazy as a loon
Sad as a gypsy serenading the moon

Oh skylark
I don't know if you can find these things
But my heart is riding on your wings
So if you see them anywhere
Won't you lead me there
Oh skylark
Won't you lead me there


Renee Olstead & David Foster - Skylark

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

I’m late, I’m late for a very important date


Tic tac tic tac tic tac. Passo o tempo a sentir o tempo a passar ou passo o tempo a querer que o tempo passe. A diferença entre o sentir e o querer não impede o tempo de passar.

Tic tac tic tac tic tac. Passo o tempo a querer ainda sentir ou passo o tempo a sentir ainda querer. Gostava de querer sentir a diferença de passar o tempo a sentir querer a indiferença do tempo passar.

Tic tac tic tac tic tac. Sinto-me já diferente porque o tempo passa e quero ainda ser indiferente por me passar o tempo. Ainda ontem era hoje e já hoje será amanhã.

Tic tac tic tac tic tac. Será ainda cedo ou já será tarde para passar o tempo a ver o tempo passar porque ainda ontem era cedo e já amanhã será tarde.

Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac. Tic tac tic tac tic tac.


Norah Jones-Chasing Pirates

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Emocionalmente


A forma como sentimos uma emoção é o que nos distingue, mais do que a forma do rosto ou a cor da pele ou mesmo o género é a diferença no sentir que nos aproxima ou nos afasta. O que te faz chorar pode-me ser indiferente, o que me faz tremer pode ser-te inexplicável.

Quantos tentaram explicar o amor com palavras e imagens e sons, exportar a emoção suprema num registo que se traduz por símbolos ou em imagens que se sucedem na simulação de movimento ou em rotações que fazem vibrar em ecos de melodias. Como posso dizer que não sei o que é o amor quando não sei o que é o amor? Como me podem garantir que saberei reconhecer o amor? Como saberei reconhecer que é diferente da emoção que me desperta a suavidade da sombra de uma cortina que se abana junto à janela que dá para o mar num dia solarengo?

Eu não sei o que é a fome. Não posso ousar dizer que sei o que é ter fome porque não comi ainda hoje, mas sei que ainda vou comer. Não posso dizer que sei o que é a fome da mesma forma que o farrapo de homem que me estende a mão num semáforo que ficou vermelho e que escreveu num pedaço de cartão sujo que tem fome.

Eu não sei o que é a dor de quem nada tem quando o que não tenho apenas me falta porque não o tenho. Eu não sei o que é a dor de esgravatar no que resta de uma vida, nos destroços de uma casa, por um sinal de esperança de um coração que ainda bate.

As emoções são o que nos distingue…

Vejam e escutem o vídeo abaixo e digam-me que emoção vos despertou?


Karen O & The Kids - All Is Love

domingo, 30 de agosto de 2009

Uma casa no campo


Porque tenho andado por esta vida algumas vezes em companhia mas quase sempre sozinho, porque o Agosto está a terminar e com ele metade de uma vida, porque já não sinto o cheiro a mar nem o calor do Sol que me muda a cor da pele, porque este mundo que se estende por fios e silício me tem trazido o privilégio da amizade, porque entre o cruzar de fumos e os reflexos dourados de um copo coberto de espuma se podem trocar conversas sem tempo, porque a palavra bonita no teu caso se transcende em cambiantes que se desabrocham para alem do que os olhos vem, porque sou sincero quando digo que gostaria de roubar pequeninas partes da tua historia para romancear outras historias, porque esta canção parece ter sido escrita para ti minha amiga.


Elis Regina-Casa no campo

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A minha Lua e a minha estrela Sol



Às vezes, parados num instante de tempo olhamos para trás e não conseguimos visualizar obra. É nestes momentos que paro e foco o horizonte e vejo e sinto que é apenas por cegueira e desalento que me abstenho daquilo que é tão obvio, tão cheio de verdadeira importância.

Eu se nada mais conseguir realizar, poderei sempre dizer com um orgulho desmedido, de mão no peito e cabeça bem erguida, enfrentando qualquer vento de dúvida e as vozes que me querem derrubar, que fiz germinar nesta passagem pelo mundo, nesta vida que sei ser finita, uma importância tão brilhante como a Lua e uma importância tão acalentadora como a estrela Sol.

À minha Lua nomeei de sabedoria em antecipação ao destino e revela-se por vezes brilhante e tão cheia de promessas, outras em crescente de querer ser ou decrescente de ainda não ser ou somente serena de uma nova descoberta, apenas desejo que possa para sempre alumiar os meus dias e que me venha ainda a considerar merecedor do aconchego da mão que lhe estendo.

À minha estrela Sol nomeei de soberana em antecipação ao destino e revela-se por vezes quente e tão cheia de conforto, outras efervescente de vontades ou vibrante de antecipação ou ainda capaz de consumir a vida num lapso, apenas desejo que possa para sempre aquecer os meus dias e que me continue a considerar merecedor do aconchego da mão que me estendeu.

Tão diferentes e tão próximas, tão distantes e tão parecidas, parcelas do céu que caminham na Terra, tão cheias de encanto e beleza e que quero continuar a ver crescer em brilho e calor e me fazem esquecer num momento o azedo das agruras da vida.
Sou se nada mais, motivo de inveja de todos os que já tem tudo mas que nada tem do tudo que eu já tenho.


Rod Stewart-Have I told you lately

terça-feira, 21 de julho de 2009

Um leve adeus



Antecipo a necessidade de dizer adeus a partes importantes da minha vida e vagueio em pensamentos de como o vou fazer, de que forma marcarei aqueles momentos se tiver mesmo que os concretizar em palavras.

O adeus é definitivo apenas quando se concretiza em cerimonia fúnebre, noutras formas pode ser apenas uma pausa de sentidos, um virar de esquina sem afastares de horizontes ou um ultrapassar de incómodos, situações que se resolvem, rasgos de velhas cartas salpicadas de bolor e de fotos esquecidas na paisagem.

Quando um adeus é de dor, deixa um amargo na boca e na alma, puxa-nos a tristeza na antecipação da saudade, do recordar de um tempo que se passou e que resta na memória, partimos com vontade de ficar, ali, aqui, mais um bocadinho, arrastando os pés, como se a nossa lentidão de ir invertesse o sentido do futuro em direcção ao passado.

Quando um adeus é de rancor, deixa um alivio no desejo que a mudança nos traga a paz esperançada ou um novo caminho ou uma nova possibilidade de outras escolhas, a troca de ausências por reservas de preenchimento e queremos ir sem olhar para trás, sem querer a cristalização das lágrimas em sal.

Mas um adeus é um adeus, um acto inevitável de quebra, um acto de génese triste ancorado no passado, seja ele uma memória que se quer feliz ou fugaz.

Tim Buckley-Once I was

terça-feira, 16 de junho de 2009

Aridez

Hoje é um daqueles dias em que parece que o cérebro está seco, como uma fruta que se passou ao Sol ainda presa no tronco da árvore e que os ventos do fim do Outono hão-de fazer tombar no chão. Hoje é um daqueles dias em que a imaginação é água presa num dique estanque de betão cinzento sem fugas nem razões de fluir. Hoje é um daqueles dias em que pensar é um acto de esforço artificial, uma dor fina indistinta, presente, constante de ausência.

Apetece somente o não sei o quê e a aridez de deixar passar o tempo, para outro tempo mais cheio. Apetece somente o estado do lagarto que poupa energia debaixo do calor. Apetece somente a visita do gato que se espreguiça de mistérios. Apetece somente escutar ritmos lentos, bebendo suavidades sonoras em languidez melódicas. Apetece somente deixar a pontinha do suor escorrer sobre o viscoso do corpo, este corpo deitado sem deleite.

Saio de onde não entrei, sem convicção de realizar, debito vazios em estado puro, produzo obras não começadas e roteiros para ementas de fome. Entro por onde não posso sair, desejoso de uma nova manhã e outro acordar, de mais brilho de ideias, de voltar a poder ter o poder de esculpir o belo com conteúdo, de voltar a poder ter o poder de pintar o simples com significado, de voltar a ter o poder de poder escrever razões de vos merecer.


Lisa Ekdahl-Give me that slow knowing smile

sábado, 13 de junho de 2009

Paradoxo de Zenão



Quando é o medo e a dúvida que nos separam de um objectivo, ele será sempre inalcançável se de cada vez apenas formos capazes de percorrer metade do caminho que nos falta.

Iniciámos o percurso no dia que para mim é um paradoxo e para ti uma fé, curto espaço de tempo para tanta partilha, estivemos tão dentro um do outro, mapeámos todos os ses das nossas vidas numa comunhão de cumplicidades que só a amizade de longos anos poderia contemplar, trocámos suores e carinhos e espaços e beijos e apartares e sentimentos e ausências e angústias e dúvidas, afastámo-nos em abraço e aproximámo-nos em abstinência.

Tu rocha fingida translúcida que te derreteste em lágrimas pela tua ausência de mim, lágrimas que bebi para sentir o amargo da tua doçura. Eu rocha fingida opaca que me solidifiquei em sorrisos pela tua presença de mim, sorrisos que bebeste para sentir o doce da minha amargura.

Separam-nos grilhões e distâncias, ambos ignorantes no amor, desconhecemos o modo de empilhar as pedras e o cimento com que podemos solidificar esta fortaleza e acabámos a acordar juntos em alicerces de amizade eterna, sentimo-nos tão perto e tão longe mas com tanta força e intensidade que temos a certeza que a felicidade do outro será a nossa felicidade, a minha alegria a tua exaltação, a minha tristeza a tua aflição, a tua dor a minha mágoa, a tua satisfação a minha conquista, as etiquetas estão em branco a aguardar o amadurecer dos nossos quereres, ambos sentimos que a tinta com que as escreveremos não será feita de lágrimas, mas do sumo dos nossos sorrisos.
Phil Collins-I Wish It Would Rain Down

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Eterna efémera



Ainda me surpreende a forma simples dos momentos em que somos, surpreende-me os momentos em que sem perceber porquê conseguimos não ser.

Eu gostava de ter o poder de eternizar um instante, fechá-lo em garrafa cristalizado para todo o sempre e revivê-lo apenas num leve sacudir. Eu gostava de poder eternizar o teu sorriso, o pontinho de brilho do teu olhar, a suavidade da pele do teu ombro, uma gota do teu suor, o odor do teu intimo, as razões do teu prazer e o momento anterior ao teu suspiro. Eu gostava de poder eternizar esse instante e transportá-lo como talismã para toda a parte e reviver por um momento para sempre, aquele momento em que somos, de forma simples, num leve sacudir.

Eu gostava de ter o poder de efemerizar um instante, fechá-lo em garrafa cristalizado para todo o sempre e esquece-lo apenas num leve sacudir. Eu gostava de poder efemerizar a incerteza da tua ruga, o vazio dos teus olhos, o espaço do teu apartar, o sal das tuas lágrimas, a ausência do teu cheiro, as causas da tua tristeza e o momento anterior ao teu grito. Eu gostava de poder efemerizar esse instante e enterrá-lo como maldição em lugar incerto e esquecer aquele momento para sempre, aquele momento em que conseguimos não ser, sem perceber porquê, num leve sacudir.

A eterna certeza é efémera tanto como a efémera duvida é eterna, resta-nos tornar eterno o efémero, sem perceber porquê de forma simples, num leve sacudir.
Evanescence-Missing

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Desígnios de caminhar,



Nascemos e iniciamos um caminho que nos orienta para a morte. Nesta forma sou minimal a justificar o meu existencialismo assumindo a certeza da morte como consequência do nascimento e o risco de poder vir a ser castigado por descrença numa continuidade espiritual que não espero de penitencias ou recompensas.

Há sempre um caminho que escolhemos ou que nos escolhe e que percorremos umas vezes sós e outras só acompanhados, outras ainda em partilha de caminhada. Este caminho que se inicia no primeiro instante em que temos consciência de arbítrio é feito de muitos troços de caminho, uns bem vincados de margens definidas, outros ténues quase inconscientes.

Por cada caminho ou pedaço de vida que se passa aprendemos e armazenamos experiencias úteis, fúteis ou inúteis, imagens, memórias ou recordações e lamentamos escolhas ou glorificamos opções, podemos até parar de caminhar na certeza porem que o caminho não pára, transmuta-se em tempo envelhecendo a paisagem numa sementeira de rugas de pele e de alma até ao arrependimento ou ao alivio de um final.

No caminho há encruzilhadas, pontos de encontro entre caminhos, locais de decisão, locais de mudanças, locais de convergência de paralelos e de rotação de perpendiculares, pontos de encontro entre caminhantes, oportunidades de somar outras experiencias às que temos ou que ainda não temos, de as transformar em forças de mais caminhar. A oportunidade da encruzilhada no momento do encontro pode representar o momento mais importante de uma vida, este é o momento em que a luz não nos pode ofuscar, este é o momento de ignorar o apelo da segurança do casulo, este é o momento onde o risco se delineia em direcção e a duvida na certeza de um passo em frente.
Dire Straits-Walk of life

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cheiro de nós



Alguém me disse, numa forma assim tão natural referindo-se a algo da importância que se dá às coisas que se esperam sem pressas, que lhes faltava ainda ganhar o cheiro a corpo.
Aquela frase tão simples e tão pura ficou a baloiçar-me na mente como se de repente todas as minhas faltas e ausências pudessem ser explicadas na força de tão poucas palavras.

Falta-me ainda ganhar o cheiro a corpo, falta-me ainda perceber que o cheiro do meu corpo pode ser sentimento de falta de outro corpo, falta-me ainda destilar a soma de dois cheiros a corpo como o cheiro de um corpo só.
Se não posso explicar o amor ou bastar-me em desamor, posso entender essa falta de ganhar ainda o cheiro a corpo como a forma física de não o sentir.

Falta-me ainda ganhar o cheiro a corpo e falta-me ainda poder perder este cheiro a corpo por entre os corpos dos nossos cheiros .



A frase roubei a quem tem a capacidade de dizer assim estas coisas fantásticas sem se dar por isso.
Elba Ramalho e Alceu Valença-Trem das ilusões

sábado, 23 de maio de 2009

Sentimento fluido


A tristeza é um sentimento fluido, entra-nos por dentro da alma sem reserva antecipada, como um viajante vadio. Espreito por outras janelas à procura de outras cores de menos cinza e apenas percebo angustias noutras formas, formas de ausência, formas de carência, formas de falta, formas que me fazem equacionar o peso real da minha razão de estar triste mas que de forma egoísta somo ao meu sentir como se na empatia pudesse inventar um caminho certo para transformar esperanças em dias felizes.

A desesperança é o fim da tristeza, como a morte é o fim da capacidade de poder chorar. Na génese de uma lágrima há um sentimento fluido e sal, afinal apenas mais uma partícula de mar e sinto vontade de me sentar a olhar o tempo passar em direcção a esse mar todo de outras lágrimas , não para as ver secar mas sim para que nesse tempo o seu sal faça arder as feridas até que possam desabrochar em cicatriz.

Hoje foi só outro dia de sentimentos fluidos.
Otis Redding-Sitting on the dock of the bay

terça-feira, 19 de maio de 2009

O pecador de palavras


Eu hoje sou nas palavras o seu pecador é por elas que me acordo no senso e mergulho no sonho é por elas que me visto na noite e transvisto no dia é por elas que me alimento no ar e nutro no fogo é por elas que sou sangue na tinta e paixão no papel é por elas que aqui estou e me ausento da vida é por elas que me perco ainda e ainda te reencontro.

A palavra é o meu pecado e todo o pecado tem penitencia e esta por vezes dói, condena-me a viver apenas de palavras , devoto e submisso imploro-lhes que não me faltem, que me indiquem a próxima sílaba, que me salvem da semântica linear e me perdoem a incoerência verbal num desejo egoísta do deslumbre fugaz do prazer que provoco a quem as lê.

Pago a penitência com o desalento da solidão, fechei-me entre palavras, elas são o limite do meu mundo, ansiava transforma-las em pontes mas solidificaram em muralhas, ocultam-me do passado absorvendo o presente sem promessas de futuro. Eu escrevo a palavra que define o pecado e a penitência que se define na palavra. Não sei mais se escrevo para quem me lê ou me leio por quem me escreve, mas são só palavras apenas pecados.

Hoje a minha vida é a palavra e a palavra não me suporta a vida, o meu pecado cria somente dependência desta penitência.
Mariana Aydar-Palavras não falam

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Restolho de sonhos


Navego entre a realidade e o que me vai sobrando na espuma à margem dos sonhos.


O mundo dos meus sonhos, difunde-se no instante que entremeia um acordar que não se limita na saída dos reinos de Morfeu, alimento-me dos seus farrapos e visto-me do seu nutrir, o sonho tornou-se meu mar, barco e ancora virtual da minha vontade de ainda ser amanhã.


O nosso inimigo comum, o meu e o do sonho é o tempo, é ele que me produz fome e ânsia de devorar vida, de não esperar, de cair na tentação de desesperar, de sair por ai na presa de ser e amar, sem querer saber dos riscos de voltar a sofrer, sem mais tempo para ter tempo.


O sonho alimenta a esperança, o tempo faminta o sonho. O sonho reduz-se no tempo esfarela-se em restolho de esperança e sinto fome, sinto a cada dia que passa, mais fome.


Sonho ainda no entanto com um tempo em que seremos capazes de espelhar o uso do tempo e do sonho no transformar em encanto de todo o nosso desencanto.
Anna Domino-Land Of My Dreams

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Contador de Histórias


Era uma vez… O paradigma do contador de histórias, a pontinha do novelo que se vai puxando devagarinho num desenrolar que se deseja sem enleios. Ao orador o novelo desenrola-se em artifícios de língua e na arte da pausa, em gravidades de voz e na comunhão dos silêncios. Ao escritor o novelo desenrola-se em palavras, que se constroem na representação de ideias, projectam acções e reacções, saltam do plano da página para a dimensão emocional e interpretativa do leitor.

A ilusão do novelo infinito e renovável é o sonho do contador de histórias, a ponta que se puxa e não se solta é o seu pesadelo. Quando flutuamos no limbo da ausência de inspiração não nos adianta rezar a deuses, prometer alvíssaras ou sacrifícios de corpo, porque os deuses da invenção são velhos libidinosos e invejosos, sedentos apenas do nosso desespero criativo e trocistas das nossas limitações.

Eu queria um dia ser um contador de histórias, um artífice de palavras, arquitecto de comoções escritas, agarrar nas ideias e escravizá-las à minha vontade, desenvolver enredos e entrecruzar personagens, contar a história de todas as histórias, mas faltam-me vidas, faltam-me dores, faltam-me sentires, faltam-me saberes, faltam-me espaços, faltam-me sonhos, faltam-me caracteres e sobram-me apenas suor e teimosia.


Prometi um post à Storyteller que com lápis, papel e um sorriso me fez uma maldade e espero não a ter desiludido muito.
Prometi ainda incluir no post uma canção da banda sonora da vida dela, ora como não posso adivinhar porque nada sei da sua vida, adivinho-lhe a qualidade do coração e aqui vai a minha escolha.
Bluebells-Young at heart