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domingo, 11 de abril de 2010

Fabulando [3]


O Horácio na sua juventude tinha sido um cão insatisfeito com a vida pacata que se levava pela terriola onde até as moscas eram enfadonhas, mesmo quando se punham umas sobre as outras em pilhas de duas ou três ou até quatro a fazer coisas divertidas ainda eram chatas. Um dia o Horácio acordou decidido, arrebitou-se todo e disse às pulgas que se ia pôr a andar dali para fora, correr mundo e conhecer coisas novas, aprender línguas e quem sabe pelo caminho papar umas cadelinhas e fazer fortuna. Muitas das pulgas quiseram saltar fora e outras nem por isso porque a carne era fraca mas o sangue abundante e lá embarcaram na aventura de serem embarcadiças de um cão embarcadiço num navio da marinha mercante que transportava para lá uma coisas e para cá outras e fazia muitas escalas.

Rapidamente o Horácio se adaptou aquela vida errante de ser um cão que flutuava entre portos distantes portas abertas ao mar de lugares exóticos onde haviam cheiros e cores e costumes diferentes de tudo o que a imaginação alguma vez podia imaginar e nalguns fez amigos e noutros inimigos mas em todos arranjou paixões nem sempre correspondidas mas sempre desejadas e pelas quais lutava com todas as suas forças, porque era um cão fogoso e diziam até jeitoso no seu tom dourado de corpo esguio e cauda robusta e felpuda. Houveram assim muitas cadelas e outras bichas similares porque nunca apreciara coisas esquisitas mas sempre manteve uma regra de ouro de nunca mas mesmo nunca ter mais do que uma fêmea em cada porto.

Com o passar dos anos era inevitável que os filhos começassem a aparecer como surpresas no regresso a cada lugar e quando ouvia aquela frase gaguejada que começava quase sempre com um querido tenho uma coisa para te contar, lá punha o seu sorriso mais complacente e um brilho de orgulho no olhar que mirava os pimpolhos que lhe eram apresentados como seus e nunca mas mesmo nunca contestou a sua responsabilidade paternal, mesmo quando era por demais evidente que havia ali qualquer coisa estranha e as contas nem batiam certo. Se o queriam para pai, se achavam que ele era cão suficiente para ter aquele papel, ele só se poderia sentir orgulhoso e abraçar aquele que o esperava como exemplo como seu de sangue e sentimento.

A fortuna nunca apareceu de um pontapé numa pedra, mas o tempo e alguma poupança trouxe um pé de meia que lhe permitiu encarar o Outono da vida de uma forma mais serena e menos atribulada e um dia o Horácio acordou decidido e disse às pulgas que ia voltar para casa e elas perguntaram, mas a qual casa, uma vez que tantas tinha e o Horácio com o olhar mais sério do mundo e algo zangado lá lhes explicou que independentemente das andanças, casa só havia uma, lá bem longe onde as uvas produziam vinho que lhe recordavam a cara do pai e toda a comida tinha o cheiro da mãe e nesse mesmo dia se pôs a caminho e ao chegar comprou por bom preço a tasca do cavalo do Manel que se queria retirar para pastagens mais verdejantes e de vento mais sereno e rapidamente conquistou a clientela que já era cliente e outra que pela simpatia e boa pinga cliente se fez.

Agora o Horácio estava ali de tomatada inchada prestes a contar aos amigos que na véspera lhe tinha entrado pela porta um dos filhos longínquos de quem mais se orgulhava e que tinha trazido com ele uma história que lhe voltara a acordar a sede de aventura…


The Specials - Ghost Town

sábado, 20 de março de 2010

Fabulando [2]


e o Januário acabou a ir pelos ares…
…E aterrou estatelado no solo com todas as penas em desalinho meio tonto senão tonto de todo sem perceber o que se tinha passado, o pato ria a bandeiras despregadas com o bico tão aberto que parecia que só tinha bico e a vaca de pernas bem escancaradas e rabo no chão esfregava a genitália na relva e gritava de aflição. Januário que podia lá ter a mania que era galo mas no fundo era boa ave, levantou-se a correr em direcção à vaca para lhe perguntar: “magoei-te querida? Fui muito bruto?” o que ainda fez com que o pato mais se desmanchasse, tanto que quase só faltava cobri-lo de arroz e levar ao forno. A cena era realmente digna de um bom realizador Italiano daqueles que é pecado dizer que não se percebe patavina o que querem dizer, a vaca que se esfregava com ar doloroso, o pato que se rebolava de asa na barriga a grasnar risadas e o pobre do Januário galo de boa criação aflito com a donzela em sofrimento.
No fim tudo se acalmou e a Vaca que até tinha nome mas que o guardava só para si porque na vida que levava gostava de o preservar a bem da família, lá se recompôs das pernas e depois de respirar fundo uma ou cinco vezes pediu desculpa ao galo porque não sabia o que se tinha passado e que nunca antes se tinha passado daquela forma e ambos se viraram para o pato como se à espera que dali, viesse a sabedoria que os esclarecesse e este quando reparou que só ele ainda achava graça à história de uma vaca quase entrar em dores de parto quando acirrada por um galo velho lá encolheu os ombros e disse ao galo que o melhor era irem beber um copo à tasca do Horácio porque pelos vistos a vaca era alérgica a cabidela. Ahhh, disseram vaca galo com alívio e o pato que era sacana como um macaco não pôde deixar de reparar na ironia do trocadilho.

O Horácio contrariamente ao que se podia por um momento pensar não era um cavalo mas um cão rafeiro que se dizia perdigueiro e que era dono de uma taberna ao fundo da terra no cruzamento da estrada que vinha debaixo com a outra que ia para cima. Animal vivido tinha sempre uma boa história para contar desde que não se fosse para o tasco fazer sala e sorriu quando viu entrar as aves, o pato que conhecia pelo nome de Alfonso ou lá o que era e o seu grande amigo Januário de que se lembrava desde o tempo de pinto, recebeu-os de patas abertas e logo perguntou o que queriam beber. Ficaram-se pelas cervejas porque estava calor e lhes apetecia leguminosas mas que estavam salgadas como tudo e atrás de um pires veio outro e passado um bom bocado já atafulhavam os bicos de gargalhadas e cascas de tremoço e a mesa composta com canecas alinhadas pelas asas.
O Horácio ao vê-los tão animados foi-se chegando e num sussurro disse-lhes que tinha uma coisa para contar mas que só sobre juras de segredo daquelas inquebráveis sob pena de lhes cair todas as penas, lhes podia contar…



Madness - One Step Beyond

quarta-feira, 17 de março de 2010

Fabulando [1]


Januário era um galo que já não tinha a crista tão altiva como antigamente e a voz esganiçava-se para ainda acordar a vizinhança mas não queria de forma alguma dar parte de fraco e mantinha a galinhagem sempre de rabo encostado à parede, mais pelos arremessos e bater de asas do que pelos arrebites porque na realidade aquilo que tanto o orgulhara na juventude já pouco ou nada se levantava.
Um dia em conversa com um pato faroleiro da vizinhança que por ali passara para trincar umas maçãs que por aquela época caiam em abundância da velha macieira junto ao córrego, soube que havia não muito longe dali uma vaca nova que era um espectáculo de criatura com uns quadris arqueados e tetas rosadas espetadinhas e que não era nada esquisita não se importando de dar umas baldas a quem fosse que fosse com vontade de a pôr a mugir com gosto. Claro que o Pato se gabou de já lá ter ido e que a coisa tinha sido de tal forma que a bovina até esfregara com os cornos no chão de tanto prazer e o Januário que nunca fora de levar desaforo para casa disse logo que amanhã mesmo lá iria cantarolar à dita e que se ela fosse na conversa não só a poria de chifres bem enterrados como todo o lameiro ficaria bem lavrado com o arrastar do bicho. O pato que era esperto como um sabujo e percebendo que o galo só estava a cantar de galo quis apostar que ele nem a faria balir e o galo não teve outra hipótese sob pena de cair em descrédito com as frangas de aceitar a aposta.
No dia seguinte ainda o Sol não ia muito alto no céu, já o desgraçado do pato o esperava ao fundo do caminho com ar de ganso convencido e Januário lá teve que ir atrás dele certo que aquele seria o caminho que o levaria ao fim dos seus dias de soberania na capoeira e que para além de ir perder como paga da aposta aquelas três penas do cu que tanto se orgulhava ainda iria ter que aguentar com a história de fracasso que o malfadado anfíbio poria a circular. Mal chegado avistou logo a bela da vaca ruminando sobre a erva verde e que bela ela realmente era, toda branca com malhas negras bem dispostas e grandes olhos pestanudos, uma tesão noutros tempos e agora apenas uma comichão mas lábia ainda tinha e depois de um pequeno prefácio de dois dedos de conversa a animal lá percebeu ao que vinha e encolheu os ombros e piscou o olho em sinal que queria festa e o bom do Januário lá se encavalitou na sua traseira para pelo menos dar o seu melhor e depois foi um ver se te avias a vaca de repente desatou aos saltos e aos pinotes e o Januário acabou a ir pelos ares…

(Nota do autor: Estou cansado vou dormir acabem lá a história por mim sff.)


Fun Boy Three - The Lunatics Have Taken Over the Asylum