quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 16



Senti um impulso para parar pelo caminho e entrar numa florista e comprei umas flores, sabia o que queria e escolhi rapidamente de forma simples e sem composição de ramo, apenas flores sem artifícios e puras na sua beleza de flor. Estacionei o carro, saí e toquei à campainha sem certezas de me anunciar para uma casa vazia e estranhei o alívio de ouvir a porta abrir-se. Subi os degraus em saltos longos a dois e dois e ela esperava-me ao cimo das escadas com surpresa por me ver ali, sem nada mais beijei-a carinhosamente nos lábios e entreguei-lhe as flores. Sete rosas vermelhas e um antúrio, recebeu-as nas mãos com um sorriso sincero e perguntou-me o porquê das flores.

As flores por si só porque sim e porque acreditava no prazer de eu as dar e dela as receber e aquelas porque me significavam… As sete rosas pela paixão do número e pela paixão que a ela me transportavam. Ao sétimo dia a possuíra e sete são as virtudes que devem ser recompensadas que nela reconhecia e sete são os pecados que sei ter cometido que quero que me perdoe e sete são os pontos do seu corpo que a ela me prendem, os olhos, a boca, os seios e tapou-me a boca com um beijo e mandou-me parar de dizer asneiras. Quando recuperei o ar continuei com o meu discurso e disse-lhe ainda que sete eram as cores do arco-íris que vira reflectidas nas lágrimas das suas dúvidas e que durante sete dias estaria a lua cheia pela nossa paixão no céu, voltou-me a beijar e disse-me que iria colocar as flores em água para que não morressem.

Voltou. Sentou-se a meu lado no sofá e disse-me que não teria muito tempo, tinha que ir trabalhar e que não esperava nada me ver ali e eu disse-lhe que a desejava e ela olhou-me fundo nos meu olhos e levantando-se dirigiu-se à estante e retirou uma moldura com uma foto de uma criança que sorria montada num triciclo e disse-me que aquele era o seu filho e o seu único amor e a sua única preocupação, que também me desejava mas que não queria, não podia por ele perder-se no caminho que encontrara na vida e que a mantinha fiel ao acordar e desperta ao adormecer. Quis dizer algo mas senti que o que dissesse só me afastaria e não disse nada e procurei os seus lábios que encontrei húmidos e doces e beijei-a.

Partilhámos os nossos corpos, saciamos a nossa fome de desejo e a nossa sede de paixão e senti que agora naquele instante não havia culpas nem receio de arrependimentos mas que elas viriam mais tarde e eu não queria que viessem mas não sabia como as evitar, como exorcizar as dúvidas que nos assombram quando já sofremos as partidas da vida e que papel podia ter aquela mulher no meu projecto de loucura. Interrompeu-me os pensamentos com o olhar no relógio e disse-me que tínhamos que nos vestir e que tinha mesmo que sair e ir trabalhar e perguntou-me se não devia também de estar a trabalhar e eu disse-lhe que não, que hoje não iria trabalhar e que provavelmente não voltaria ao meu emprego e limitou-se a mirar-me de uma forma inexpressiva que me gelou, porque não me condenava nem me louvava.

Na despedida perguntou-me o porquê do antúrio e eu sorri e disse-lhe que o colocasse no meio das rosas e que esperava que enquanto se mantivesse viçoso a fizesse lembrar-se de mim…


Confesso que roubei informação bibliográfica descaradamente à minha amiga Ti Pronúncia aqui mas sei que ela é uma alma generosa e não se importa…

Alannah Miles-Black Velvet

25 comentários:

mf disse...

Tu, pá...

O Magnifico Gino disse...

Enquanto Gino, não posso deixar de fazer um comentário "à moda do Gino". Desculpa lá, mas a música que ficava aqui bem eram as "24 rosas numa jarra" do José Malhoa. Sempre, sempre a preferir os estrangeiros aos nacionais, por isso é que depois eles têm de vestir roupas estranhas para sobreviver!

Inconstante disse...

beijos

Pronúncia disse...

O louco está cada vez mais lúcido ;)

Claro que não me importo nada... é um orgulho! Estás à vontade, sempre que precisares de alguma coisa de lá do tasco, já sabes. Afinal já fazes parte da mobília e tudo ;)

AnaMar (pseudónimo) disse...

Lindo o gesto.
Excelente a narrativa.
Sublime o amor.

Francisco Vieira disse...

Um dia destes tas casado, oh jesus :-)

catwoman disse...

Pronto, gosto de finais assim: deixam espaço à imaginação. Continuam, não continuam. Acuso a empatia da situação, sabe bem a paixão, mas o nosso "pequeno homem" é o nosso maior amor.
fico a aguardar o tal resumo que prometeste. Beijinhos.

Storyteller disse...

7 são as unidades SI base: metro, kilograma, segundo, ampére, kelvin, mole e candela.

7 é o pH neutro, entre a acidez e a alcalinidade.

7 são os períodos da Tabela Periódica.

7 são as vértebras cervicais da maioria dos mamíferos.

7 é o número de objectos celestes observados a olho nú a partir da Terra: Sol, Lua, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno.

7 é o número de estrelas das constelações Ursa Maior e Orion.

7 são as colinas de Lisboa e de Roma.

7 são as Artes: Gramática, Dialéctica, Rectórica, Geometria, Aritmética, Astronomia e Música.

7 são os Pilares da Sabedoria, de T.E. Lawrence.

7 são os Samurai, de Kurosawa.

7 são os mares.

7 são os chakras.

7 são as rosas mais 1 antúrio lindo no meio delas.

Storyteller disse...

Desculpa-me estar a incomodar-te novamente, mas...

Já to deveria ter dado há algum tempo, mas eu sou uma miúda com o coração de pedra, insensível e egoísta... para além de muitíssimo distraída! Depois deste pedido de desculpa um tanto ou quanto atabalhoado, gostaria que fosses até à barra lateral do meu cantinho e fosses lá buscar a pilha de livros que anda por lá.

Como sabes, não ando para aí a dá-lo a toda a gente que me aparece à frente, mas apenas a quem, de uma forma ou de outra, pinta o meu Mundo de vermelho, alaranjado, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Tu és uma dessas pessoas. Aceita-o! É teu!

Bongop disse...

E tás a aproximar-te do fim, certo?
Tou curioso para ver o final...!

Abraço

LBJ disse...

Hedgie,

Eu, pá...

Beijos

LBJ disse...

OMG,

Isso das 24 rosas numa jarra não sei o que é... Não é do meu tempo :D

Mas andei à procura de um video do "Foram rosas foram cardos" cantado pela Manuela Moura Guedes e escrito pelo MEC, essa sim uma grande canção do nosso tempo :)

Sobrevive-se como se pode... :)

Beijos

LBJ disse...

Inconstante,

Beijos

LBJ disse...

Pronúncia,

O lúcido está cada vez mais louco;)

Gosto muito de fazer parte da tua mobília, embora não te consiga visitar tanto quanto gostaria.

Beijos

LBJ disse...

AnaMar,

Sublime Obrigado.

Beijos

LBJ disse...

Francisco,

Vade retro que isso dá umas dores horriveis ;)

Abraço

LBJ disse...

Catwoman,

Esta série de 16 dias terminou e deverá ser continuada daqui a umas semanas e como disseste tudo está em aberto :)

Beijinhos

LBJ disse...

Storyteller,

Minha amiga enciclopédica... :)

Pelas palavras e pelo prémio que irei agradecer da forma que gosto (em conjunto com outros 2 que ainda não agradeci) num privilégio do disparate...:)

Obrigado Obrigado Obrigado Obrigado Obrigado Obrigado Obrigado

Beijos Beijos Beijos Beijos Beijos Beijos Beijos

LBJ disse...

Bongop,

Esta série terminou, a próxima continuará e a história está muito longe do fim :)

Abraço

O Magnifico Gino disse...

É capaz de ser do teu tempo, andavas de cravo na mão muito antes da música sair...

Euza disse...

Meu querido!
Desde ontem estou om seu blog aberto. Era muita leitura pra colocar em da! rs...
Bom, vou me repeir: te ler é um grande prazer. Gosto especialmente das figuras de linguagem que vc cria e insere nas suas narrativas. Dão um toque poético e muito lindo ao texto.
Vou seguindo. Ao diário e a vc. Te conhecendo um pouco mais e gostando do que a escrita descortina!
Beijos muitos!!!
PS. grande pena que um Atlântico no separe, né? Seria maravilhoso te abraçar em dezembro. Mas quem sabe a gente ainda não se encontra além-mar? rs...
outros beijos

mf disse...

http://www.youtube.com/watch?v=idJGcCPN7_Y

:)

luz disse...

Voltei e logo dei de caras com um texto tão apaixonante...
Confesso que não li os dias que estão para trás mas espero ter oportunidade de o fazer.
E sim, também tive saudades. Grandes.

Beijo

Jane Doe disse...

Isto era para ler do principio não era?

Pois, acho que estou a ler ao contrário...

Enfim.

Fada disse...

"naquele instante não havia culpas nem receio de arrependimentos mas que elas viriam mais tarde"

Não deixes!!!
Nunca!!!

:)

beijitos