segunda-feira, 22 de março de 2010

Comboios


Sinto saudades do tempo em que os comboios eram enormes na minha perspectiva de menino e me deixavam a pensar que eram coisas zangadas, veneráveis e respeitáveis porque faziam barulho e fumo e cheiravam a cheiros que eu não cheirava em mais lado nenhum. Sempre gostei de comboios. Sempre achei que um dia como o de hoje poderia procurar um comboio que me levasse para um outro sitio qualquer. Sempre imaginei que um dia chegaria de gabardine cinzenta e chapéu de aba, elegante e distinto de mala imaculada de cigarro no canto da boca como num filme negro sem outras cores que não as que derivam do branco e do preto e que estaria parado na gare um grande comboio, qual ser ou máquina mitológica à espera que eu chegasse, o tal passageiro especial à volta de quem toda a acção se desenrola e que calmamente entraria a bordo com um olhar enigmático tiraria o chapéu sorrindo para os outros já sentados que espantados com a minha presença nada diriam, pela sua condição de meros figurantes e que me iria sentar no melhor lugar da carruagem junto à janela depois de ter depositado em segurança a mala num compartimento à altura da minha cabeça. O comboio partiria e tudo o resto seria uma aventura cujas dificuldades apenas serviriam para demonstrar as minha capacidades e o final nada mais do que seria feliz.

Afinal na vida real existem apeadeiros ou locais por onde os comboios passam nem sempre parando mas eu sim estou aqui parado e o pesado casaco já me fez suar debaixo da chuva quente desta meia estação e os cigarros que fumei são vazios de encanto e cheios de nicotina que me faz tossir e cheirar mal e tenho pousada uma mala velha cheia de roupa e outras coisas que lá enfiei sem critério e espero que ainda pare por aqui um comboio em breve, porque nem sempre param, porque este é um mero ponto de passagem onde esperam pessoas vulgares, pessoas de apeadeiros, pessoas que estão num meio entre destinos que não é tão importante para que todos os comboios lá parem. Estou num meio entre destinos e tenho no bolso um bilhete de comboio que gostava que me garantisse passagem segura a um outro sitio qualquer que não sei onde fica e não quero saber como lá chegar mas espero que o comboio lá me leve, seguro sobre os carris assentes por quem aprendeu antes de mim o caminho que leva a esse outro sitio qualquer.

Sei que passei por louco quando disse ao cobrador que queria um bilhete para um outro sitio qualquer e nem me sorriu quando perguntou se queria que esse outro sitio qualquer fosse outro longe ou outro mais perto. Longe o mais longe possível, quero que o que me custou a partir me compense o que vai demorar a chegar, quero ainda poder apreciar a viagem, sem tempo ou pressa, ver a paisagem até que me pareça que é ela que se move no meu referencial parado num ponto para onde o ponteiro do relógio apontou e não mais se mexeu. Não me importa as etiquetas de covardia e desprezo com que vão classificar a minha fuga, aliás já nada me importa, quero ser neste comboio o mesmo passageiro insignificante que fui na vida, quero não ser notado nem pelo meu riso nem pela minha lágrima, já não me importa sequer ser memória, quero apenas poder embarcar depressa no comboio que me leve aquele outro sitio qualquer sem nunca lá chegar até que a morte da vida me separe.


The Clash - Train In Vain

19 comentários:

LBJ disse...

"…Mas arte, mensagem e história bem contada, com imaginação e toque de altivez que lhe dá toda a graça, numa escrita extraordinariamente escorreita e que nos tira o fôlego, com imaginação (já tinha dito?), só pode ser um, e é esse que escolho, e não é o meu. E desconfio até de quem seja, mas não sei de quem é efectivamente. Mas, não por desconfiar de quem seja o autor, mas pelo pequeno e extraordinário texto, directo, frontal e lindíssimo, sem apelos à indignação e contudo tão indignado, com uma mensagem tão subtil que temos de ler as palavras que lá não estão escritas…"

A única razão de ter hoje aqui publicado este texto é poder agradecer publicamente estas palavras que me tocaram fundo sobretudo porque vêm de uma das pessoas mais frontais e honestas que “conheço” na blogoesfera. Se é difícil saber escrever, mais difícil é saber ler

Obrigado Cirrus.

Cirrus disse...

Tu é que o escreveste, e eu senti o teu texto como sendo despretensioso e verdadeiramente artístico. Não desfazendo, penso que deixa os restantes a anos luz de distância, mas o pessoal preferiu um texto informativo a apelar à guerra de civilizações, coisa que não consigo entender.

Por isso, não tens de agradecer, antes te agradeço eu, pela forma corajosa como que te expuseste, que penso ser a ideia do concurso, e sobre a qual também penso não terá passado integralmente. E pelo texto, maravilhoso de facto.

Storyteller disse...

As palavras que o Cirrus te deixou no blog que lançou o concurso foram mais que justas.

Eu não participei no referido concurso porque, como sabes, não sei escrever e por um outro motivo que só a mim diz respeito.

Tenho muita pena que «Comboios» não tenha ganho pois partilho da opinião do Cirrus e acho que era o melhor de todos e o que respeitava totalmente o espírito do concurso.

De qualquer forma, obrigada por colocares aqui o teu texto, que bem merece!

:D

Pronúncia disse...

LBJ, é um texto belíssimo... e fez-me lembrar um outro texto, especial para mim, numa outra altura... mas isso são contas de outro rosário!

Parabéns!

Bêjos

LBJ disse...

Cirrus,

Não escrevi este texto para ganhar nenhum concurso e fiquei até surpreendido por ele ter sido escolhido por algumas pessoas, mas como te disse agradou-me muito as tuas palavras.

ABraço

LBJ disse...

Story,

Se há alguém que sabe escrever és tu, mas pronto nem vou teimar mais contigo :P

Beijos lambuzados

LBJ disse...

Tí Pronúncia,

Obrigado, mas agora deixaste-me curioso :)

Bêjos

luz disse...

"Afinal na vida real existem apeadeiros ou locais por onde os comboios passam nem sempre parando mas eu sim estou aqui parado..."

Aqui, falaste-me. E não há mais nada que possa dizer.
Beijo

MJ Pratt disse...

Comboios lembram-me viagens. Mesmo que sejam viagens de auto-descoberta. E muitas destas tenho eu feito nos últimos meses...

Obrigada por mais um pedacinho de grande literatura. Uma pérola negra das verdadeiras.

Um beijinho.

Lua disse...

"já não me importa sequer ser memória, quero apenas poder embarcar depressa no comboio que me leve aquele outro sitio qualquer sem nunca lá chegar até que a morte da vida me separe."

Adorei!

eco disse...

por vezes os apeadeiros aparecem na nossa vida para que reflectamos bem no comboio que queremos apanhar.
nada acontece por acaso.

eco

Melga disse...

Comboios, apeadeiros, estações, carruagens, mercadorias, PESSOAS...aquilo que faz sentido nesta vida, PESSOAS...NÓS!

Ler o que não está escrito é sem dúvida a beleza deste texto.

Libertya... disse...

curioso como as coisas são...*
li, bebi cada palavra, indentifiquei-me com elas até, li os comentários, sou marinheira em 1º viagem ao teu canto, encantei-me pela dualidade... a de quem tão bem escreveu o post, como a de quem tão bem o enalteceu.
seja por um concurso ou não, as palavras valem o que valem, e cada um as interpreta como tal, e como tal, os meus parabéns!!!
bj libertyo

* já andaste em cantos meus..
grata pela visita!

LBJ disse...

Luz,

Para tudo é preciso coragem, nem que seja a de esperar o que nem sempre passa mas que sabemos que se não estivermos atentos, quando passar poderemos perder a oportunidade de embarcar.

Beijos

LBJ disse...

MJ Pratt,

Querida Maltesa, espero que as tuas viagens de descoberta sejam cada vez melhores e bem acompanhadas.

beijos

LBJ disse...

Lua,

Bem vinda, Obrigado e volta mais vezes.

Beijo

LBJ disse...

Eco,

Nada acontece por acaso mas muito do que acontece só acontece se nós o fizermos acontecer, nunca apanharemos o comboio se não formos ao nosso apeadeiro.

Beijos

LBJ disse...

Melga,

Não sabes como eu gosto que consigam ler o que escrevi sem palavras.

Abraço

LBJ disse...

Libertya,

Bem vinda e sê por favor marinheira de 2ª viagem…j á andei em cantos teus…

As palavras valem o que valem, obrigado pelas tuas.

Beijos