segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Privilégio do Disparate – A caminho do fim do Mundo – Semana 03 – (Não sei se fiz bem em ter vindo por aqui…)


A pedido de várias famílias, vou falar esta semana de Salazar que como alguns saberão já está morto e enterrado e o mesmo deverá acontecer com o Marquês de Pombal e provavelmente com o Dom Sebastião. Como sou um ignorante curioso fui consultar a wikipedia e descobri que a maior parte dos Portugueses já nasceu depois de Salazar ter morrido e que no caso do Marquês de Pombal e de Dom Sebastião parece-me que nem vale a pena fazer as contas.

Não consigo portanto compreender porque tantos que nunca conviveram nem privaram com tais figuras as invocam constantemente nas horas más e sobretudo naquelas horas de lamento em que o Português é tão fluente e que gosto de apelidar de “O que esta malta e esta merda toda precisava era de um homem como aquele”.

Cronologicamente falando o povo ainda espera que Dom Sebastião regresse numa manhã de nevoeiro e conduza o País à glória e o que eu ainda não percebi é se se espera que o Rei tenha estado num limbo temporal ou congelado num cilindro extraterrestre e regresse fresquinho nos seus 24 anos ou se pelo contrário com a experiência dos seus 457 aninhos. Será que regressa montado no seu cavalo branco ou mais moderno empinado numa daquelas coisas de duas rodas que ainda um dia tenho que experimentar? Eu como sou um gajo desconfiado não me fio num tipo de 24 anos que não tem perfil no facebook e muito menos num geriátrico que não se deverá conseguir mexer sem a ajuda de cordéis e drogas duras, isto já para não falar na questão dos cheiros esquisitos.

Poucos saberão que o Marquês de Pombal também era Sebastião de seu nome ou se calhar era eu o único que não sabia, mas todos sabem que é na sua praça que se festejam coisas importantes como as vitórias nos campeonatos da bola ou do berlinde e as vitórias nas eleições dos partidos ou dos Presidentes ou das coisas e as vitórias no que for que valha a pena festejar até cair de bêbedo e que a rotunda é lixada de se fazer e que obriga a olho atento para evitar bate-chapa e outros mimos. Ora parece que o Marquês gostava de reformas e de que se fizessem coisas e não olhava a meios para atingir os fins e cá para mim os primeiros que o invocam seriam os primeiros a queixar-se depois das dores nos calos.

Deus, Pátria e Família sempre necessariamente por essa ordem para que nunca nos falte Fátima, Fado e Futebol. Eu embora faça parte daquela minoria dos Portugueses que já cá estava quando Salazar ainda cá andava, não posso dizer que vivia aterrorizado pela opressão da PIDE ou pela perspectiva da guerra ou pela ignorância do Povo, eu queria era jogar às caricas e não percebia se éramos um País atrasado algures no cú da Europa ou o melhor sitio do Mundo para levar no toutiço se não nos portássemos bem. Deus nunca me disse nada, a Pátria cada vez menos e da família nem vale a pena falar e sinto que se Salazar cá voltasse eu estava lixado escrito de uma outra forma, porque acima de tudo com mais ou menos cacetada para chegar ao final do mês prezo sobretudo a liberdade de poder falar, de poder escrever estes disparates sem receio de abrir a porta quando ouço tocar à campainha.

Se consigo compreender que assim não vamos lá, não consigo perceber porque é que tanto animal deste rebanho acha que guardado por pastor de samarra pesada e crucifixo ao pescoço e armado com um cajado robusto e cães de dentes afiados, seria mais feliz. Passamos demasiado tempo a olhar para trás e a buscar ensinamentos na história sem percebermos que se calhar somos reféns dessa mesma historia e que o que nos orgulha também nos pode envergonhar e que para colher é preciso semear e que para semear é preciso rasgar primeiro a terra e que água parada tende a cheirar mal e que tanto disparate se pode dizer acerca de tudo que no final todos podemos parecer génios ou tontos.

A minha geração é uma geração entalada em múltiplos sentidos mas sobre isso se me apetecer falo para a semana e se não me apetecer não falo e essa liberdade nenhum morto me pode tirar.


Heróis do mar - Brava dança dos heróis

2 comentários:

Dylan disse...

Só quero felicitá-lo pelo excelente texto e dizer que me dá grande asco quando também ouço dizer que “o que esta malta e esta merda toda precisava era de um homem como aquele”.
Só o facto de estarmos aqui a comentar é a prova do atraso civilizacional que o país foi votado por tamanho déspota.

Francisco Vieira disse...

Com a treta do FB e afins, os blogs vão ficando ultrapassados, mas ler-te é sempre um prazer, menino jesus

Quanto ao tema, sentir saudades é bom. Eu assumo-me um saudosista, principalmente de algumas coisas que não vivi, porque não poderia ter vivido mas que julgo que havia de gostar. Agora sentir saudades da merda, é triste.

Ainda assim, bem que este texto fica aquém do que poderias ter usado aqui, no que toca a figurões do nosso Portugal. Alguns ainda vivos.

Abraços