terça-feira, 4 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 1

Acordei cedo…. Cedo para quem se deitou tão tarde e dormira apenas quatro horas intercaladas por aquela sensação de intermitência entre estados de consciência e sonho. Levantei-me de arrasto para a casa de banho e olhei o rosto reflectido no espelho, as manchas escuras debaixo dos olhos escavavam-se na pele e enchi a banheira, despi-me e entrei na água. Fechei os olhos e comecei a sentir frio, abri a torneira de água quente e o calor aumentou aos poucos até me incomodar, voltei a fechar a torneira.

O corpo submerso, as pernas arqueadas, fora da água, a superfície criava ondas minúsculas a cada respiração, imaginei que a água se tinha transformado em gelatina solidificada à volta do meu corpo, não ousava mexer-me para não romper a coesão perfeita entre o liquido e aquela massa de carne. Somos massas de carne que rompemos coesões de fluidos ou gases quando nos movemos e movemo-nos porque somos dotados de vontade e a vontade é o que nos separa do irracional e a racionalidade faz-me equacionar porque razão estou aqui mal dormido e só nesta banheira de água que me cobre toda a pele, do pescoço até às ancas.

De repente… O que eu gosto dos meus repentes, são aqueles momentos em que tudo fica claro, todas as boas decisões que tomei na vida foram sequencias e consequências de repentes, são aqueles momentos em que não tenho mais do que certezas e foi naquele repente em que ficou claro e que tive a certeza de que estava a ficar louco.

Fiquei feliz com a descoberta, senti-me aliviado, ainda não estava louco, apenas a caminho e isso permitia-me avaliar os meus pensamentos, mesmo os mais estranhos e bizarros, como normais para um louco em potencial, a partir deste instante o mundo mudou de cor, já não era um patinho feio mas um cisne mesmo feio e tudo o resto havia de caber debaixo desta etiqueta. O que fazer com esta descoberta fantástica? Tinha que registar este processo evolutivo, deixar testemunho, fazer um diário que não começasse por querido diário mas por hoje comecei o meu caminho para uma doce e saudável loucura.

Saí para a rua e assim que pisei o passeio uma pessoa, não quero perder significado por a identificar como homem ou mulher ou gorda ou magra ou baixa ou alta, uma pessoa comum que lhe faltava uma referencia e que me perguntou as horas ao que eu respondi que não usava relógio e que o tempo era uma coisa relativa e à qual dávamos demasiada importância, considerava o facto de os relógios serem redondos como uma fraude porque se o tempo existe ele estende-se em comprimento e nunca em retorno ao ponto de onde partiu e lembro-me também de ter falado noutras coisas que agora já não me lembro e que a pessoa me virou costas e abanou a cabeça e foi perguntar o mesmo a outra pessoa que estendeu o pulso e a enganou porque passamos a vida a enganarmo-nos uns aos outros mesmo que não nos demos conta disso.

No meu primeiro dia como louco ou sem excesso de pretensão como aprendiz de louco ou louco em estado embrionário, pouco mais foi digno de registo neste meu diário, salvo talvez que jantei um daqueles meus esparguetes aldrabados com ovos mexidos com tudo o que encontrei no frigorifico e muita pimenta e uma punheta de mostarda, mas não sei ainda se isto é um acontecimento digno de aqui ficar ou se apago depois e como de costume manchei a camisa a chupar a massa e não sei se as nódoas de mostarda saem com uma lavagem normal ou se é melhor ir à lavandaria amanhã, joguei-a para um canto e decidi que pensaria nisso depois.


Nota: Apenas irei publicar aqui algumas entradas deste diário, o resto digam-me o que fazer com elas.



Jason Mraz-lucky i'm in love with my best friend

26 comentários:

Treze disse...

É interessante o conceito de louco. Fácil, não é?

As minhas piores decisões foram maioritariamente tomadas no repente. As outras decisões levo-as a um ponto de ponderação tal que acabam por me tirar a réstia de certeza que anteriormente tinha, o que as torna péssimas decisões.

Qual das duas a melhor?

E qual é realmente o conceito de loucura...?

Treze disse...

Já agora - aqui entre nós -, já pensaste em escrever artigos? De jornais ou revistas, por exemplo?

Storyteller disse...

Porque não fazes com elas o que mais queres fazer?
:)))

Jane Doe disse...

O resto? O resto publica um luvro!

Ora... Comecemos pelas coisas "pequenas".

Então a água corre-te desde o pescoço até às ancas... e depois?! Tens algum depósito de água nas ancas? Hmmm...

O que é uma punheta de mostarda?!

Eu quero imaginar que seja um pedaço de mostarda, umas gotas de mostarda... Pronto é melhor estar calada.

Tens sorte que a pessoa que te perguntou as horas não fui eu. Eu não te virava as costas. Eu fazia-te imaginar como seria um tempo que se estendesse em linha recta. Não havia repetições. Não havia noite/dia/noite/dia, não havia primavera/verão/outono/inverno, porque não haveria ciclos. Era tudo linear, era tudo novo. E na verdade são tudo ciclos. Tu divides o teu tempo por dias que são ciclos de luz/escuridão. Tu divides o teu ano por períodos de solstício que se repetem de x em x tempo. O sol tem uma trajectória elíptica, a terra é redonda, e a trajectória à volta do sol é elíptica também. Logo e por todos estes factos, para além de vários acontecimentos que se prova serem cíclicos quer na natureza quer na sociedade, eu pergunto: Qual é a lógica de haver um relógio plano, se tudo funciona de forma cíclica? E não é porque o homem quis, se não porque se teve de adaptar aos ciclos da natureza!

E com esta resposta eu acho que começava a provocar-te a VERDADEIRA loucura.

Ahahahahahah

Amei! Claro que sim!

Jane Doe disse...

*livro... qual luvro...

Pronúncia disse...

LBJ, lamento informar-te... mas não estás louco!

Um louco nunca admite esse seu estado!

Eu sou daquelas pessoas que pondera e torna a ponderar e pensa nos prós, nos contras e nos entretantos... e sabes que mais?! Quase sempre acabo com mais dúvidas do que as que comecei :)

forteifeio disse...

LBJ

Belissima escrita. Começa mas é a escrever o livro mas devagar, porque o potencial tu tens, está todo aì.

abraço

E não te preocupes não estás louco.

LBJ disse...

Treze,

O conceito não é de ser louco é de assumir um estado de loucura como algo normal e agir protegido por essa premissa.

As decisões são pontos de encruzilhada na vida, pedras de dominó que se encadeiam.

Transformar a escrita em algo lucrativo era um conceito interessante sim senhor, aceitam-se propostas :)

Abraço

LBJ disse...

Storyteller,

Vamos ver, vamos ver... ;)

Beijo

LBJ disse...

Jane,

Este tema é para desenvolver sim e depois se vê no que degenera :)

Sou comprido e não caibo inteiro na banheira :)

Ciclos são apenas ilusões e dependem do observador, mas ficas candidata a regressar mais à frente na história, roubo-te a argumentação e pode ser que dê origem a um dialogo de dois candidatos a loucos :)

Beijos

LBJ disse...

Pronúncia,

Louco quem falou em louco, falo de um conceito diferente, de alguém que não consegue perceber por que é que vê as coisas de forma diferente e atribui isso a um estado de loucura latente e tudo passa a fazer sentido...

Pois quanto mais se pensa menos se avança :)

Beijo

LBJ disse...

Forte,

Devagar vou começando :)

Forte Abraço

Ana GG disse...

Ora cá temos o LBJ de novo!

Se tivermos uma pequena dose (poderia chamar-lhe punheta, mas sou bem educadinha) de loucura,. a coisa até marcha. O pior é quando caímos em exageros descontrolados.
Decisões tomadas "em repentes"...ai como te entendo meu amigo. Eu poderia chamar-me Ana dos Repentes!

O que fazer com estes textos!?
Hummmmm...
Talvez, num repente, levá-los a quem lhes possa dar um empurrão.

rosebud disse...

Ai esse sentir de água...displicentemente sem tempo,nem lugar certo.

Belo texto,sim senhor.

luz disse...

Ora da loucura poderia eu aqui dissertar durante horas, e certamente sairia um conjunto de letras que para alguém que não eu também faria sentido, porque me partilharia pelo menos um pouco da loucura...
Loucos, loucos são aqueles que não se aceitam como tal e passam a vida a engomar os vestidos e os fatinhos sociais e bem-comportadinhos, ora eu nunca tive muito jeito para tarefas domésticas, quanto mais passar a ferro, blargh!!!!
Ai!, já disse por acaso que adorei a leveza do texto? Deslizava no papel, derramados os olhos presos... soube bem.
Que fazer, pois que fazer? Alguém te sugeriu uma publicação, se é isso que te dita o coração louco pois devias ecutá-lo, perde-se demasiado tempo a racionalizar...
Dispersa como sou, provavelmente iniciaria um blog à parte (tenho-os espalhados por aí..), convidaria uns quantos loucos para lá debitarem tesouros et... voilá...
Très, très bien.
Baci

Natália Galvão disse...

O conceito de loucura é estonteante.
Medonho é quando cais na real e pensas que estás louco. É assustador, sabias?

Beijo

LBJ disse...

Ana,

Eu nunca me fui embora :)

Aproveitando a tua deixa e porque me esqueci de responder à Jane, uma punheta de mustarda é conseguida abrindo o bico do frasco e espremendo ao mesmo tempo que se faz um gesto brusco com o punho, daí a expressão que pode ser conectada com coisas menos decentes mas isso é a voz do povo que faz das coisas simples casos de censura.

Sabes que eu gosto dos teus repentes, são uma inspiração e sei que tens o dom de nunca te arrependeres :)

Quanto à tua sugestão, se alguém souber de alguém que conheça alguém que me queira empurrar, eu se for com jeito deixo :)

Bêjos

LBJ disse...

Rosebud,

Adoro o sentir da água, gosto de fazer coisas na água, aliás isso daria outra história...

Obrigado.

Um Beijo

LBJ disse...

Luz,

Loucos são os loucos ou loucos são os que não querem ser loucos ou admitir que não são loucos e não me digas que não sabe bem dissertar sobre isto e claro que entendemos os teus conjuntos de letras.

Fazer mais um blog, não que os que tenho já se atrapalham :)

Beijos

LBJ disse...

Natália,

Medonho? Não será antes um alívio? Assim tudo fica mais claro, eu penso assim porque estou louco, passa a ser normal :)

Beijos

Vani disse...

Bolas. Se eu não era, agora fiquei. :p :D

E concordo com a jane doe no que respeita ao tempo. O tempo não é uma linha recta. Podes voltar atrás, sim. Teoricamente, é possível. Pelo menos era o que Einstein dizia. E, estás a ver a cena dos "buracos de verme"? Parece que existem mesmo. Teoricamente, claro.

E agora tu poderias dizer que, em teoria, tudo existe. Até os loucos. :D

Já agora, que tipo de louco descobriste que podias ser? Varrido? Aspirado? Encerado? Ou será mais doido marinho? Eu cá acho que tu descobriste, na realidade, que és um tritão... :D ;-)

Estou com os outros. E a minha mesinha de cabeceira também. E já não tenho quase nada para ler, por isso...despacha-te lá com isso! ;-) :D

LBJ disse...

Vani,

Andaste a a rever os "Back to the Future" ? :)

Eu acredito nos buracos de verme, aliás sou fã do Stargate :)

Sou um doido recauchutado ;)

O livrito ainda está longe e nem sei com quem falar mas aceitam-se conselhos ;)

Vani disse...

eh pah...eu tb não sei com quem falar nessas andanças, lol, mas podes sempre pedir conselhos ao Rafa Cheiroso!

Fada disse...

Quanto às outras entradas, publica. :)

De génio e de louco, todos temos um pouco... Ou muito! :p

És louco? És feliz?
Não magoas ninguém indevidamente devido à tua loucura?
Então está tudo bem. :)

Vai estar sempre tudo bem.

Beijitos e um abraço do tamanho do céu carregadinho de estrelas e risos e arco-íris e sonhos. :)

LBJ disse...

Vani,

Se calhar um dia falo ;)

Beijo

LBJ disse...

Fada,

Esta loucura ainda vai longe, espero...

Ideias não faltam :)

Beijos