quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Diário de um louco impoluto - Dia 3


Acordei hoje com as sombras a bailar no tecto do quarto. Nem reparei na persiana aberta quando me deitei e o Sol aproveitou para entrar-me pela janela e fazer uma visita. As sombras despertam-me sentimentos de carícia, o Sol é um bom amigo, gosto de luz e de calor e de sombras, essas contam-me histórias que estão dentro d e mim e que se animam em vénia à minha imaginação.

Agora vejo silhuetas de pessoas que sei que não existem e que parecem conversar sem motivo, pelo prazer da conversa, não ouço as palavras porque as sombras não tem som, mas sei que não falam de mágoas nem solidão nem de ódio, não sei se falam de amor mas não me importa e penso que gostaria de ser uma sombra vagante, de me poder colar a sítios e pessoas e ficar ali como parte de algo feliz, como observador que se move num referencial perfeito.

As sombras mudam e como que se fundem num beijo, sei que agora não há som mesmo não havendo e que neste meu delírio de uma manhã solarenga me deixo enrolar pela preguiça que me mantém colado à cama com os olhos a saltar entre a realidade e a vontade de voltar a sonhar. O despertador toca no momento em que uma das sombras se afasta lentamente da outra como alguém que parte sem dor e decido que também eu tenho que partir porque esta loucura que sinto crescer de dia para dia ainda não me alimenta.

Abro a janela e avisto sobre o muro de um quintal sobranceiro um melro de bico alaranjado, as penas negras agitam-se irrequietas e a ave parece olhar para mim e reconhecer-me como o doido do prédio em frente, invejo-lhe as asas e a irresponsabilidade e levanta voo numa direcção qualquer. Reparo nesse instante que estou completamente nu e que numa varanda do outro lado da rua uma mulher de cabelo pintado de amarelo me lança um sorriso trocista, aceno-lhe sem me cobrir.

Não há mais sombras no tecto do quarto, apenas uma mancha uniforme como um livro com uma só palavra escrita e ponho-me a pensar que palavra escolheria eu se apenas pudesse escrever uma só palavra, não seria amor nem seria ódio e acho estranho ser a segunda vez que me vem à cabeça hoje essas palavras e procuro outras palavras e fico cheio de palavras e sem palavras e decido que se tivesse que escolher seria apenas palavra, porque essa me daria o maior poder do mundo, porque em si encerra todas as outras.

Às vezes penso se devo recear as sombras, se elas não existem apenas para esconder luz ou se projectam para me ocultar a verdadeira cor das coisas, serei eu dono da minha sombra? Poderei ser eu responsável perante alguém pelas cores e luz que ela esconde dos outros? Agora aqui não tenho sombra definida, apenas uma mancha ténue que se espalha de mim e morre sem eu perceber, tenho que sair daqui para lhe dar mais forma, regar-me de luz para que me possa contar a sua história e explicar o que pretende de mim.

Sinto-me angustiado por não me sentir de outra forma e recordo-me do sorriso trocista da mulher do cabelo amarelo, o que me dirá quando se cruzar comigo na rua? Talvez o mesmo que o melro quando voar sobre mim, nada, ou talvez me diga que me viu lobo na pele de um cordeiro ou cordeiro na pele de um lobo, que me deseja ou que gostaria de poder apagar a minha imagem da sua visão. Tento lembrar-me do seu rosto mas apenas vejo o cabelo amarelo ou seria o sol que o pintou? O sol hoje acordou-me com sombras que se enamoraram no tecto do meu quarto e pintou de amarelo o cabelo de uma mulher que me viu vestido na minha nudez e me sorriu.

Hoje vesti-me de branco para poder honrar o sol e andei sempre sobre a minha sombra.

Nota: Atendendo a vários pedidos público o texto completo.

Mike Oldfield-Moonlight Shadow

15 comentários:

Vani disse...

Como já disse (é que vi o mail antes de ver o post :D), muito bom mesmo. Publica lá o resto das sombras que melhores ideias que tu eu nunca teria ;-).

Vani disse...

ah, adoro essa musiqueta :D ainda hoje pensava em mete-la lá no meu canto looooool, coincidencias!

luz disse...

Li o princípio, cresceu água na boca, li o restante, estava de presente lá no mail. Obrigada...

Este teu texto é, para mim, uma ode de palavras e sentidos bem despertos, uma ode à simplicidade da vida. Porque a luz vive na sombra e a sombra caminha de dedos entrelaçados com a luz. E porque cada vez vejo menos loucura nas palavras e mais sentido me ecoam, e mais as imagino como quadros pintados a 3D na mente que se aconchega (pequenina) por debaixo destes caracóis que são meus.

Ainda ontem falei em lobos, hoje estão aqui...

Grazie.

Ana GG disse...

Gostei das tuas sombras como já te disse, aliás, raramente não gosto da tua escrita.
Acho que deverias ter publicado o texto todo.

Não vou escrever floreados bonitos, porque, como já deves ter reparado, não tenho jeitinho nenhum para isso.

beijo

Inconstante disse...

estou "out" ;-)

Euza disse...

Pra começar, devo discordar de vc. Fazer poesia independe da forma. Seus textos são poéticos, embora não tenham a forma de poema, viu?
Entrando no texto de hoje: ele faz jus aos dois primeiros. Tão belo quanto.
Sombras fazem viajar a imaginação. Qdo não temos medo delas, as viagens costumam ser deliciosas.
Bonito este pensar sobre amor e ódio. Entre um e outro há uma infinidade incontável de sentires, né?
Beijocas

forteifeio disse...

sombra e luz, uma não existe sem a outra e só conhecendo a sombra se pode dar valor à luz, e andamos por aí entre uma e outra na procura de nós. Mas o texto pode ser outra coisa qualquer e provavelmente não apanhei todas as ideias que são muitas.
a música é uma das minhas 50preferidas.

Abraço

Fada disse...

Repito o que comentei acerca deste texto, noutro...

"Fiquei a ver as sombras no teu tecto e assumo que também faço o mesmo. Brinco às adivinhas com elas e com as nuvens. E com os reflexos em águas paradas. E em repuxos. E em mil e uma coisas, porque não temo as sombras, embora prefira a luz.

Obrigada pela partilha.
Boa sorte com a mulher do cabelo de sol... ;)

Beijitos :)"

:)

Já não ouvia esta música há anooos!!
Xi...

:)

Beijitos :)

LBJ disse...

Vani,

Obrigado.

Podes meter a musiqueta no teu canto que eu não deixo de lá ir ouvir :)

LBJ disse...

Luz,

Acabei por decidir ir pondo tudo por aqui :)

Não me parece que a mente seja pequena eu gosto de caracóis, um dia faço um quadro com eles, destes que imaginas a 3D :)

beijos

LBJ disse...

Ana do Sul,

Segui o teu conselho, eu sigo sempre os teus conselhos exactamente porque não são floreados ;P

Bêjos

LBJ disse...

Inconstante,

Desculpa não tinha o teu mail, espero que já estejas IN :)

LBJ disse...

Euza,

Eu não me sinto poético, nada mesmo e não é falsa modéstia, acho o escritor poeta um estágio muito acima do que eu consigo ser, eu sou racional nas palavras que escolho, um poeta ultrapassa essa limitação :)

Há sim uma infinidade de sentires entre o amor e o ódio e já uma vez disse que ambos estão na mesma corda.

Beijos

LBJ disse...

Forte,

É a luz que origina a sombra e a sombra absorve a luz, uma nada é sem a outra e há muitas ideias que se podem tirar mas essa é a nossa grande virtude, a de acrescentar ideias ao que está à vista :)

A música do Mike Oldfield sempre me encantou aliás tenho que investigar que é feito dele :)

Abraço Forte

LBJ disse...

Fada,

Somos mesmo muito parecidos :P

A mulher do cabelo da cor do Sol vai voltar :)

Beijos