segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Diário de um louco impoluto – Dia 10


Hoje custa-me o dia de ontem. Esqueço rapidamente as resoluções inabaláveis tomadas no calor do acontecimento de que nada do que não se passou ontem me iria afectar e começo a deixar baixar uma sensação pesada que me sobe ou que me desce e que me turva um sentimento de esperança de encontrar acompanhamento para uma solidão que afinal pareço já não querer e ponho a cara debaixo da torneira que escorre apenas água e que desejava aberta para um fluxo imenso de cascata que me lavasse totalmente por dentro e me deixasse puro e cristalino, página em branco para ser rescrita com outras letras, letras redondas e cheias que construíssem um outro diferente.

Sacudo e sacudo-me e olho o dia de ontem e mergulho para trás no tempo na direcção de outros dias e de outras memórias e chego à meninice e a tardes passadas nas casas de amigos que não sei por onde andam e que fui perdendo na dispersão da vida e relembro particularmente as nossas buscas aos segredos escondidos nos fundos das gavetas e por detrás dos livros das estantes e que achávamos que nos apressavam o ser adulto e nós por ignorante razão queríamos rapidamente ser adultos porque seriamos então livres de escolha e livres para ter o que nos apetecesse e comer gelados de gelo de manhã à noite com tardes inteiras nos cinemas ou na praia e sermos donos de automóveis sem tejadilho que voassem baixinho sobre a estrada.

Um dia encontrámos bem escondido por entre os outros um disco de anedotas de um velho cómico e que ouvimos vezes sem conta não tanto pelas anedotas que não entendíamos mas porque falava de sexo e de palavrões e constituía um objectivo de tesouro procurado e proibido. Não me lembro das anedotas, apenas de uma que fixei quase palavra a palavra e que fui repetindo ao longo da vida e que falava de uma aula de zoologia dada no jardim zoológico por um professor que em frente à jaula das hienas, ensinava aos seus alunos que aquele era um bicho peculiar que ria muito e que tinha a particularidade de se alimentar das fezes de outros animais e de ter relações sexuais com o seu parceiro apenas uma vez por ano.

A anedota tinha o seu clímax cómico dado pelo aluno mais traquina que interpelava o professor e lhe perguntava: “Se a hiena é um bicho que só come a merda que os outros cagam e só fode uma vez por ano, ri de quê?”. Nós sabíamos o que era foder ou pensávamos que sabíamos e dizer merda dava estatuto de rebelde e nós éramos rebeldes sem controlo e donos do nosso mundo e nunca compreendi a tragédia da anedota. Imagino hoje o velho cómico a gravar a bolacha de vinil como um palhaço triste a quem as lágrimas se secaram numa cara pintada de branco e lábios evidenciados por um vermelho vivo e que fazia rir com a ironia de uma anedota que fala de bichos que desprezamos mas que se reflecte na realidade cruel de sermos nós bichos que vivemos para comer e que muitas vezes comemos a merda que os outros cagam, literalmente ou figurativamente e que procuramos não associar a felicidade ao número de vezes que fodemos por ano.

Porque é que nos rimos? De que é que nos rimos? Que parâmetros defini para ser feliz? Reparo que ainda tenho a cabeça debaixo da torneira que não se transformou numa cascata fluida de água e que não me lavou por dentro mas acordou-me de novo para o dia que será banal e sem mais história e confundo-me na imagem que vejo no espelho com um bicho peludo de olhos negros e orelhas espetadas e boca curva que se ri, que se ri de mim porque pensa que sou um palhaço triste e eu rio-me também porque serei uma hiena perversa com maior ambição.


Carmel-Bad Day

19 comentários:

Francisco Vieira disse...

Com pouca disponibilidade, mas para te agradecer o registo no "Namorado".
Falamos outro dia. Abraco

mf disse...

Rimos porque, apesar da dureza da vida, há sempre resquícios que nos fazem adivinhar alguma beleza no meio do caos...

Fátima disse...

Dias maus quem não os tem?! pensar que o que fazemos está certo no momento e não vamos nos arrepender no futuro?! sim, mas o arrependimento vem mais cedo do que se pensa e o futuro vira presente.

Gosto de te ler, mas por vezes perco o rumo de qual era o assunto mesmo?! é interessante este tipo de escrita que nos prende, tira-nos o folgo e por vezes ficamos sem saber ao certo qual a mensagem mas ao mesmo tempo entendemos perfeitamente... estranho, confuso mas admirável.

Bjs

Storyteller disse...

Rimos porque se não o fizermos, a vida perde todo o sentido.
Se a hiena não se rir... já imaginaste bem como seria a vida dela se não soubesse rir de si própria?
Ri-te de ti. Ri-te contigo. Ri sozinho. Ri acompanhado. Ri com o Mundo. Ri!!!

rosebud disse...

Ainda bem que regressaste cedo.
Sento-me aqui, na terra batida,encostada ao muro da casa antiga que são memórias de fins de tarde quando o alecrim é mais afoito e brandos os gestos e tudo o mais que nada importa.Flutuam imagens há muito desaparecidas,reaparecem as cores dos instantes felizes e sorrio no vento que me bate à porta.Eu gosto.

forteifeio disse...

Lembraste-me tantas coisas, tantas memórias, tantos livros. adorei o texto carregado de simbologia do ter e sentir conforme as perspectivas. Tens de começar a pensar na forma da construção da estrutura do livro. Tens capacidades para isso e muito mais, mas gostava de te dizer algo.

Forte abraço

Euza disse...

Ás vezes o ontem nos é pesado. Mas há sempre a possibilidade de voar ou morder! :)
E o último parágrafo deste texto é forte. E bom. E bonito.
Beijocas

catwoman disse...

Assim em jeito de pressa porque ainda me sinto cansada:rimos porque quando perdemos a capacidade de rir, perdemos a capacidade de viver. :)

Billie Holiday disse...

Jesus... passa no tasco principal. Tens lá um carinho só pa ti! ;)

LBJ disse...

Francisco,

Volta quando te apetecer que és bem vindo :)

Abraço

LBJ disse...

Hedgie,

Sábias palavras ;)

Beijos

LBJ disse...

Fátima,

Gostei da tua descrição de como me lês :)

Estes textos constroem uma história feita de bocadinhos é natural que algumas partes te deixem sem perceber o assunto :)

Beijos

LBJ disse...

Storyteller,

Rio-me pois e cada vez mais quero que a vida me dê razões para rir e se não der eu invento :)

Beijos

LBJ disse...

Rosebud,

Sempre magnifica nos teus comentários, volto a insistir que este nosso ciclo bloguista ficava tão mais rico com um blog teu :)

Beijos

LBJ disse...

Forte,

Obrigado por seres meu amigo e pelo incentivo, hoje é um dia de cada vez e lá chegaremos :)

Abraço Forte

LBJ disse...

Euza,

Pois o passado morde e não larga :(

Também gostei da forma como me resultou o ultimo parágrafo, parece-me uma boa decisão de vida ;)

Beijos

LBJ disse...

Catwoman,

Simples e perfeita a tua definição.

Beijos

Fada disse...

"que procuramos não associar a felicidade ao número de vezes que fodemos por ano."

Sim, é melhor não pensar nisso mesmo! Ahahahaha (ai meu Deus, riso de hiena... lolol)

Porque nos rimos?
Porque apesar das tristezas não pagarem impostos e as alegrias também não, ficamos com umas rugas mais bonitas quando sorrimos e rimos! :)

Ou porque apetece soltar gargalhadas.
Ou porque nos estamos a rir de alguém, com alguém, ou connosco mesmos ou de nós próprios!

E eu hoje estou com um humor....... lol
Do pior! (sorry)
:D

Não estou feliz, não estou infeliz, estou apenas de trovoada. E eu gosto de trovoadas. Mesmo quando não me deixam trabalhar, porque ao não poder trabalhar, posso vir ler-te! :)

Beijitooooooos

LBJ disse...

Fadinha,

Gosto de me rir contigo, és uma boa companhia de riso e embora nunca tenhamos estado frente a frente adivinho o tom do teu riso, vá-se lá saber porquê :)

Beijos